Valéria da Irmandade Vermelha



Valéria da Irmandade Vermelha

(por Fernando Neeser de Aragão)



Prólogo:


Meu nome é Valéria, e nasci numa propriedade nas montanhas ocidentais da Aquilônia. Meu pai me criou e treinou como espadachim. Mas, quando ele contraiu uma dívida de jogo e tentou me casar com um homem a quem eu odiava, matei aquele homem e fugi da aldeia.

Qual a distância que percorri, eu não sei. Atrás de mim, eu ouvia os uivos dos cavaleiros, e sua perseguição foi, aos poucos, ficando vacilante e descuidada. Logo, só os gritos, cada vez mais distantes e afastados; e logo, até eles pararam. Pois poucos dos valorosos nobres tinham estômago para me seguirem até as profundezas da floresta, onde as sombras já se moviam furtivamente. Corri até minha respiração se transformar em arfadas dolorosas, e meus joelhos vergarem, me lançando violentamente ao suave marga atapetado de folhas, onde jazi meio desmaiada, até a lua se erguer, colorindo os galhos mais altos com gélida prata e destacando ainda mais as sombras. Ao meu redor... ouvi farfalhares e movimentos que anunciavam feras selvagens, e talvez coisas piores: lobisomens, duendes e vampiros, pelo que eu sabia. Mas eu não tinha medo. Eu já havia dormido antes na floresta, quando a noite me surpreendia longe da propriedade de meu pai, treinando minha esgrima.

Levantei-me e continuei andando, através do luar e da escuridão, sem me importar muito com a direção, para colocar a máxima distância possível entre eu e o local onde nasci. Na escuridão que precede a aurora, o sono me dominou e, me lançando ao solo fofo, caí em sono profundo, sem me importar se alguma fera ou vampiro me devoraria antes do dia nascer.

Mas, quando a aurora se ergueu sobre a floresta, eu estava viva e intacta, e dominada por uma fome terrível. Fiquei sentada, me interrogando diante da estranheza de tudo, mas logo a visão de meus trajes rasgados de noiva, da adaga incrustada de sangue em meu cinto e da espada que roubei durante a fuga, trouxe tudo de volta. E eu ri novamente, ao me lembrar da expressão do meu ex-futuro marido quando ele caiu, e uma selvagem onda de liberdade me inundou, a ponto de sentir vontade de dançar e cantar como uma louca. Mas, ao invés disso, limpei a adaga em algumas folhas verdes e, colocando-a novamente em meu cinto, fui em direção ao sol nascente.

Dentro em pouco, alcancei uma estrada que serpenteava através da floresta, e fiquei contente, porque meus sapatos de noiva, por serem de tecido inferior, estavam despedaçados. Eu estava acostumada a andar descalça, mas, mesmo assim, os espinhos e gravetos da floresta me feriam os pés.

O sol ainda não estava alto, quando encontrei uma jovem caída ao chão, despida e ferida. Fui investigar.



***


Meu nome é Zarella. Nasci numa aldeia, no lado norte das montanhas azuis que separam Poitain do restante da Aquilônia – e, apesar de aquiloniana, herdei meu nome de minha avó zíngara. Eu saíra de minha aldeia, para colher frutas, quando, de repente, me deparei com cinco homens mal-encarados. O primeiro me atirou ao chão, no meio da estrada. O segundo rasgou minhas roupas. O terceiro levantou sua túnica curta e veiopara cima de mim. Lutei desesperadamente, mas recebi vários socos na boca e no rosto, até ficar suficientemente enfraquecida para que o primeiro me penetrasse profunda e brutalmente, desvirginando-me de forma dolorosa. Oh, Mitra e Jhil! Aquilo doeu no meu corpo e na minha alma! O primeiro mal havia ejaculado dentro de mim, arrancando-me um último grito de dor, quando veio mais um. Este, gargalhando, cuspiu em meu rosto e me penetrou o ânus. Nunca senti uma dor e uma desonra tão horrorosa em toda minha vida.

Então, veio mais um, que, por não conseguir sentir uma ereção, me bateu, amaldiçoando-me por ser a causa do seu fracasso. Quebrou meu nariz e arrancou vários dentes da minha boca. Só quando me viu toda ensangüentada é que se excitou o suficiente para fazer o que queria. O quarto me virou de bruços e também me sodomizou. E riu em seguida. O quinto enfiou seu pênis enorme em minha boca, até me fazer vomitar. Em seguida, me forçou a chupar sua genitália até ejacular na minha boca. Ele gargalhou e, enquanto eu desmaiava, todos foram embora, achando que eu havia morrido e me abandonando na estrada.


1)


- Não consigo me levantar – Zarella murmurou.

- Aperte os dentes – Valéria ordenou. – Vou lhe carregar.

- Você não conseguirá fazê-lo, garota – a jovem ferida afirmou, mas, enquanto ela falava, a loira a ergueu sobre os ombros e a levou; era um peso morto, com os membros pendentes como se fossem os de um cadáver.

Durante a caminhada, elas não encontraram ninguém andando nem cavalgando pela luz das estrelas, ladeada pelas árvores negras da floresta. Os ferimentos de Zarella sangraram novamente; e logo, ela começou a delirar e falar seu nome, e também a falar de forma incoerente tudo o que lhe acontecera naquela estrada.

A aurora se insinuava no céu atravessado por galhos, quando Valéria parou diante de uma taverna chamada Os Dedos do Patife, e chamou o taverneiro em voz alta. Um garoto desengonçado, vestindo uma camisa, bocejando e esfregando os olhos preguiçosos com os punhos, saiu dali; e, ao vê-las salpicadas de sangue, ele berrou de medo e espanto, e correu de volta para dentro da taberna, com as fraldas da camisa lhe esvoaçando ao redor das costas. Em seguida, uma janela foi cuidadosamente aberta no andar de cima, e uma cabeça com gorro de dormir apareceu.

- Sigam seus caminhos – disse o homem com gorro de dormir. – Não nos relacionamos com bandidas nem com assassinas ensangüentadas.

- Não somos bandidas – respondeu Valéria, irritada, cansada e com pouca paciência. – Esta mulher foi atacada e quase morta.

- Vou descer – ele respondeu desconfiado. A janela foi batida, e houve um som de escadas sendo rapidamente descidas. Valéria depositou Zarella sobre o chão, enquanto o estalajadeiro, desconfiado e com uma faca na mão, chegava correndo, com criados carregando tochas.

Zarella jazia como se estivesse morta, seu rosto pálido onde não estava coberto de sangue; mas seu coração batia forte, e Valéria percebeu que ela estava semi-consciente.

- Quem fez isto, em nome de Mitra? – indagou o taverneiro, horrorizado.

- Um bando de degenerados; aqueles, sim, verdadeiros bandidos e assassinos – a guerreira respondeu. – Agora chega desta tagarelice! – ela exclamou, enraivecida. – Levante-a e leve-a ao seu melhor quarto. Vai deixar morrer uma mulher que foi violentada, enquanto você fica boquiaberto, com os olhos arregalados? Ocupe-se dela!

Valéria pôs a mão no cabo da espada, a qual ela havia amarrado à própria cintura, e eles se apressaram em obedecê-la, arregalando os olhos como se ela fosse uma filha de Set.

Os acontecimentos da noite haviam realmente amadurecido Valéria. Ela ainda não era completamente uma mulher, mas estava no caminho para se tornar uma.

Levaram Zarella para aquilo que seu anfitrião – cujo nome era Petro – jurou ser o melhor quarto da taverna. E era muito mais refinado que qualquer coisa em Os Dedos do Patife. Era um quarto no andar superior, que dava para o patamar de uma escada em espiral, e tinha janelas de tamanho adequado, embora sem outra porta.

Petro jurou que era tão bom médico quanto qualquer homem, e ele e Valéria desnudaram Zarella e procuraram reavivá-la. De fato, ela havia sido muito maltratada, se não mortalmente ferida. Mas, depois de lavarem o sangue e a poeira de seu corpo, perceberam que nenhum de seus ferimentos lhe havia tocado um órgão vital, nem seu crânio fora fraturado, apesar de seu nariz e dentes estarem quebrados. Embora nada pudesse ser feito com relação aos dentes dela, os dois lhe consertaram o nariz quebrado – Valéria ajudando Petro com alguma habilidade, pois acidentes e ferimentos eram bastante comuns na propriedade onde a guerreira nascera.

Quando lhe vedaram os ferimentos, e ela ficou deitada numa cama limpa, recuperou os sentidos o suficiente para beber vinho sofregamente e perguntar onde estava. Quando Valéria lhe disse, Zarella lhe perguntou o nome e a loira lhe respondeu. E a jovem convalescente implorou:

- Não me abandone, Valéria; eu fui à floresta, colher frutas, quando fui atacada e violentada. – Então ela contou o que lhe acontecera, desta vez em detalhes, e a ex-nobre ficou nauseada com aquilo, e principalmente, ao saber que o pai não a aceitaria de volta, só porque não era mais virgem, não importando a ele o fato de ela ter sido deflorada violentamente.

- Vou permanecer contigo até você ficar novamente de pé, Zarella – Valéria assegurou à vítima.

E ela pareceu satisfeita com isso, e dormiu tranqüilamente.

A loira exigiu, então, um quarto para si, e Petro lhe mostrou um aposento, vizinho ao de Zarella, embora não fosse ligado ao dela por nenhuma porta. Valéria se deitou na cama quando o sol nasceu, e aquele era o primeiro colchão de plumas que ela via desde sua fuga – e dormiu por várias horas.

Quando voltou para Zarella, ela a viu em plena posse dos sentidos, e completamente livre do delírio. Juntos, Petro e Valéria cuidaram de Zarella, que se restabeleceu rapidamente. Trocaram poucas palavras. Ela e Petro conversavam muito entre si, mas, na maior parte do tempo, Zarella simplesmente ficava deitada e olhando silenciosamente para a loira.

Petro falava pouco com Valéria, mas parecia temê-la. Quando ela falou de sua dívida, ele respondeu à loira que ela não lhe devia nada; que, enquanto Zarella desejasse a presença de Valéria, a comida e o alojamento seriam dela, sem pagamento. Logo, a loira percebeu que eles pareciam estar apaixonados um pelo outro.



2)


E o tempo se arrastou. Valéria raramente saía da taverna, exceto à noite, e somente para passear na floresta, evitando os camponeses e os habitantes da vila – afinal ela imaginava, e não sem razão, ainda estar sendo procurada a mando do pai e, principalmente, dos amigos e parentes do noivo ao qual a guerreira loira matara. E uma crescente agitação se movia dentro dela... uma sensação de estar esperando por algo que ela não conhecia, e de que ela estava pronta para fazer... não sabia o quê. Assim, se passou uma semana, quando Valéria conheceu Licurgo de Messântia.

Uma manhã, ela entrou na taverna, após andar bem cedo na floresta, e parou ao ver o estranho que mastigava um enorme pedaço de carne, diante da mesa. Ele também parou de comer por um instante e a encarou. Era um homem alto, magro e de constituição firme. Uma cicatriz lhe marcava as feições magras, e seus olhos cinzentos eram frios como aço. Era, de fato, um homem de aço, envolto em couraça, cota-de-malha e grevas. Sua espada larga estava sobre as pernas, e seu elmo sobre o banco ao seu lado.

- Por Mitra! – ele disse. – Você é um homem ou uma mulher?

- O que acha? – ela replicou, apoiando as mãos sobre a mesa e descendo o olhar para ele. Valéria agora não usava mais um vestido rasgado de noiva, mas uma roupa masculina com fina armadura de malha metálica por baixo.

- Só um tolo faria a pergunta que fiz – ele disse, sacudindo a cabeça. – Você é completamente mulher; e esta roupa se encaixa estranhamente em você. A espada em seu cinto, também. Você me lembra uma mulher a quem vislumbrei certa feita, atacando, com seus corsários negros, o porto de Messântia; navegava e lutava como um homem, e desapareceu nos mares há muitos anos. Apesar de branca, ela era escura onde seus olhos e cabelos são claros, mas há algo similar na posição de seu queixo, no seu porte... não, não sei. Senta-te e conversa comigo. Sou Licurgo de Messântia. Já ouviu falar de mim?

- Algumas vezes – ela respondeu, se sentando. – Em minha aldeia natal, contam-se histórias a seu respeito. Você é um líder dos mercenários e da Irmandade Vermelha.

- Quando os homens têm estômago suficiente para serem liderados – ele disse, bebendo e estendendo o jarro de vinho para mim. – Rá! Pelas tripas e sangue de Jhil, você bebe sofregamente, como um homem! Talvez as mulheres estejam se tornando homens, pois, por Mitra, os homens estão se tornando mulheres nestes dias. Não ganhei nenhum recruta nesta província, onde lembro que os homens lutavam pela honra de seguir um capitão de mercenários. Morte de Set!

Agora, ao olhar para aquele veterano cicatrizado pelas guerras, e lhe ouvir a conversa, o coração de Valéria bateu rapidamente, com uma estranha ânsia, e ela parecia ouvir – como já ouvira tão freqüentemente em seus sonhos – a batida distante de tambores.

- Cavalgarei com você! – ela exclamou. – Estou cansada de ser uma mulher. Farei parte de sua companhia!

Ele riu e bateu na mesa com a mão aberta, como se diante de uma pilhéria.

- Pelos deuses, garota! – ele disse. – Você tem o espírito necessário, mas é preciso mais do que um par de calças para ser um homem.

- Se aquela outra mulher, de quem você falou, podia navegar e lutar, eu também posso! – Valéria gritou.

- Não – ele sacudiu a cabeça. – Bêlit, A Rainha da Costa Negra, era uma em um milhão. Esqueça esta fantasia tola, garota. Vista tuas saias e volte a ser uma mulher decente outra vez. Depois... bem, quando você estiver em seu devido lugar, ficarei contente que você cavalgue e navegue comigo!

Soltando uma praga que o fez se sobressaltar, ela se ergueu de um pulo, lançando seu banco para trás e derrubando-o sonoramente. Ergueu-se diante dele, fechando e abrindo as mãos, fervendo com a raiva que sempre se erguia rapidamente nela.

- Sempre o homem num mundo de homens! – ela disse, entre dentes. – Uma mulher deve conhecer seu devido lugar: ordenhar vacas, tecer fios, costurar, cozinhar e ter filhos, não olhar além da porta da casa, nem desobedecer às ordens de seu senhor e amo! Bah! Eu cuspo em todos vocês! Não há um homem vivo que possa me enfrentar com armas e viver; e, antes de morrer, eu provarei isto ao mundo. Mulheres! Vacas! Escravas! Servas choronas que se encolhem de medo, que se curvam servilmente diante de pancadas, só se vingando ao matarem a si mesmas. Há! Você me nega um lugar entre homens? Por Jhil, viverei como quero e morrerei como Mitra quiser, mas, se não sirvo para ser camarada de um homem, pelo menos não serei amante de um. Então, vá-te ao inferno, Licurgo de Messântia, e que Set lhe arranque o coração! 

Dito isto, ela deu meia volta e se afastou a passos largos, deixando-o boquiaberto atrás de si. Subiu as escadas e entrou no quarto de Zarella, onde a encontrou deitada – bem melhor, embora ainda pálida e fraca –; e seu nariz parecia que ainda ficaria enfaixado pelas próximas semanas.

- Como vai? – Valéria indagou.

- Suficientemente bem – ela respondeu; e, depois de encará-la por um tempo: – Valéria – ela disse –, por que salvou minha vida?

- Por causa da mulher que há em mim – ela respondeu –, que não consegue suportar ouvir um ser indefeso implorar pela vida, nem admite que outra mulher seja brinquedo de homens.

Naquele instante, ouviu-se o bater de pés na escadaria, e vozes ásperas se ergueram. Valéria saltou para trancar a porta, ouvindo o nome de Zarella ser chamado, mas ela a deteve com sua mão erguida e o ouvido atento.

- Eu reconheço as vozes! – ela gritou.

Então, antes que Valéria pudesse trancar a porta, um bando de valentões repugnantes se aglomerou dentro do quarto, liderados por um velhaco barrigudo que usava botas enormes. Atrás dele, vinham outros quatro, esfarrapados, cicatrizados, com orelhas cortadas, olhos cobertos por remendos e narizes achatados. Eles olharam maldosamente, tanto para a guerreira, quanto para a mulher na cama.

- Foram eles que me violentaram, Valéria! – exclamou Zarella.

Naquele instante, o quarto oscilou vermelho diante de seu olhar. Com um salto, Valéria tinha sua espada na mão e, ao sentir-lhe o cabo na mão, a força e a confiança de sempre correram como fogo pelas suas veias.

Com um feroz grito de alegria, ela correu até o primeiro, e ele girou, berrando e procurando cegamente pela espada. A loira cortou aquele berro, quando sua espada rasgou-lhe os grossos músculos do pescoço e ele caiu, jorrando sangue, sua cabeça pendurada por um retalho de carne. Os outros bandidos uivaram como um bando de cães de caça e se lançaram sobre ela, com medo e fúria. E, lembrando-se subitamente da adaga em seu cinto, ela a puxou e enfiou na testa do segundo, fazendo seus miolos escorrerem. Na fumaça flutuante, os outros avançaram contra Valéria, berrando pragas obscenas.

Eles bramiam e golpeavam cegamente, desperdiçando força e movimento, como se suas espadas fossem facas de açougueiro, enquanto a guerreira aquiloniana golpeava em silêncio mortal, e com precisão também mortal. Ela não se lembrava muito sobre aquela luta; foi uma névoa escarlate, na qual poucos detalhes foram lembrados. Seus pensamentos se moviam muito rapidamente para seu cérebro se lembrar, e ela não sabia totalmente como, com que pulos, esquivas e contra-ataques, evitou aquelas lâminas que golpeavam. Sabia ter partido a cabeça do terceiro, como se fosse um melão, e seus miolos jorraram terrivelmente pela lâmina de sua espada.

E se lembrava que o que um outro confiou demais numa malha que usava sob os farrapos, e, sob seu golpe desesperado, os anéis enferrujados arrebentaram, e ele caiu sobre o chão, com as tripas se derramando para fora. Logo, numa nuvem vermelha, apenas um se lançava sobre Valéria, dando um golpe descendente com sua espada. E ela deteve, com sua lâmina, seu pulso que descia. A mão do velhaco, que segurava a espada, voou do pulso num arco escarlate, e, enquanto ele olhava estupidamente para o toco que esguichava sangue, ela lhe atravessou o corpo com tal ferocidade que a guarda de sua lâmina bateu violentamente contra o peito dele, e Valéria caiu sobre ele ao derrubá-lo ao chão.

A loira percebeu que o sangue lhe escorria pelo braço, vindo de um corte em seu ombro; e sua camisa estava rasgada em tiras.

Então, veio o bater de pés na escadaria, e Licurgo de Messântia irrompeu porta adentro, de espada na mão, seguindo por Petro. Arregalaram os olhos, como se tivessem sido golpeados mortalmente, e Licurgo praguejou apavorado.

- Eu não lhe disse? – ofegou Petro. – O demônio usando calças! Por Mitra, que matança!

- É trabalho seu, garota? – perguntou Licurgo, numa estranha voz baixa. Valéria lançou seu cabelo molhado para trás.

- Sim. Era uma dívida que eu tinha de pagar.

- Por Mitra! – ele murmurou, de olhos arregalados. – Há algo de escuro e estranho ao seu redor, apesar de sua pele clara.

- Sim! – disse Zarella, se apoiando em um dos cotovelos, enquanto Petro a abraçava apaixonadamente e vice-versa. – Uma estrela de escuridão brilhou em seu nascimento, uma estrela de escuridão e agitação. Para onde ela for, haverá sangue derramado e homens morrendo. Percebi isso quando a vi matando esses biltres que me estupraram.

- Paguei minha dívida com você – a loira disse.

E ela se voltou para a porta. Licurgo, que olhava fixamente como um imbecil, se sacudiu como que de um transe e andou a passos largos, seguindo-a.

- Pelas curvas de Ishtar! – disse ele. – O que acabou de acontecer mudou completamente minha opinião! Você é uma nova Bêlit, a Rainha da Costa Negra. Uma verdadeira mulher espadachim, que vale por vinte homens. Ainda quer marchar e navegar comigo?

- Como companheira de armas – Valéria respondeu. – Não sou amante de ninguém.

- De ninguém, exceto da Morte – ele respondeu, olhando para os cadáveres.



3)


Quando a borda superior do sol perfurou a linha do horizonte, a manhã trouxe consigo a gelada brisa marítima, soprando respingos de água salgada nas faces dos lobos do mar. Os homens caminhavam vagarosamente; uns ainda acordando no convés sobre alguns cordames e velas dobradas; outros se refazendo da ressaca da noite anterior. Os navios avançavam placidamente pelo Mar do Oeste, seguindo para o sul, pela costa de Argos. O tempo era bom e os ventos favoráveis.

Logo apareceram às vistas as costas de Shem, com suas extensas pradarias salpicadas por cidades com zigurates. As aves marinhas agitavam-se numa litania de grasnados, aninhando-se nas rochas da enseada e, em seguida, partindo em sua revoada para o anil do céu. Grandes albatrozes, com suas longas e estreitas asas, planavam delicadamente, mostrando suas penas brancas manchadas de preto nas costas, asas e cauda; exibiam-se graciosamente para os homens que os observavam.

E assim iam-se os dias, arrastando as horas preguiçosamente enquanto o sol e a lua alternavam-se num balé solitário. Enquanto eles continuavam indo para o sul, passava o imutável panorama das campinas pontilhadas de cidades, e, por fim, o cenário começava novamente a mudar. Moitas de tamarindo apareciam e os pequenos bosques de palmeiras ficavam mais densos. O litoral ficou mais acidentado, com um paredão de árvores e palmeiras verdes, e atrás delas se erguiam colinas nuas e arenosas. Correntes desaguavam no mar e, ao longo de suas margens molhadas, a vegetação crescia densa e com grande variedade.

Então, eles finalmente passaram pela desembocadura de um grande rio, que misturava seu fluxo ao oceano, e viram as grandes muralhas e torres negras de Khemi se alçarem contra o horizonte meridional.

O rio era o Styx, a verdadeira fronteira da Stygia. Khemi era o maior porto da Stygia e sua cidade mais importante. Então, surgiu uma frota de navios de guerra. Mais de cinqüenta galeras negras, estreitas, longas e baixas, impulsionadas por escravos, que avançavam firmes e rápidas sobre a superfície da água. Estavam apinhados de arqueiros stígios. Homens altos, quase negros, queimados pelo sol de sua terra cheia de desertos. Todos prontos para o confronto, com suas vestes consistindo em tangas de seda e sandálias, grevas que cobriam as pernas dos joelhos aos pés, e couraças de escamas de bronze. Em suas cabeças, muitos usavam um tipo de elmo feito de bronze, e cada um trazia no braço esquerdo um pequeno escudo redondo de madeira, reforçado com couro endurecido e pregos de bronze. Usavam tangas de malha de ferro, para proteger suas partes pudendas, e suas armas eram lanças, espadas curvas, maças de madeira polida e leves machados de batalha. Alguns carregavam arcos pesados, de poder evidente, e aljavas com longas flechas farpadas.

Cada capitão-de-bordo da frota de Argos gritou seus comandos e se preparou para aquele combate que não era nenhuma surpresa. As naves aproximavam-se umas das outras numa velocidade surpreendente. As de Argos impulsionadas pelos ventos favoráveis, e as da Stygia pelos músculos dos remadores nos galeões. Então, após várias trocas de flechas, com baixas de ambos os lados, aconteceu o choque das robustas embarcações. Valéria viu seu amigo Licurgo de Messântia – o qual se aliara ao comandante Zapayo da Kova – cair morto com uma seta no pescoço. Os mercenários lançavam seus ganchos contra as amuradas inimigas e eram recebidos com lanças e cimitarras.

Enquanto lutava feroz e vingativamente contra os stígios que lhe assassinaram o amigo, Valéria avistava, num navio mais distante, um agigantado guerreiro moreno, o qual matava mais stígios que a maioria, juntamente com um jovem loiro. Naquele momento de distração, um dos stígios a desarmou com seu sabre e a derrubou ao convés com um soco no seio esquerdo. Desviando-se da estocada descendente da espada do homem, a loira se ergueu de um pulo e acertou vários socos no rosto do stígio, esquivou-se de um giro lateral do sabre do seu antagonista e lhe acertou outro soco, fazendo espirrar sangue pela boca do homem. Enfurecido, ele tentou matá-la com um giro descendente da espada, mas ela se esquivou e chutou a arma do homem para longe. Mas, antes que Valéria pudesse reaver a própria arma, ele a agarrou e suspendeu pelo pescoço e a arremessou para o outro lado do convés.

De um salto, o stígio alcançou a loira desarmada e, agarrando-a novamente pelo pescoço, acertou-lhe uma cabeçada no lindo rosto e em seguida a segurou pelo pescoço e perna, jogando-a violentamente sobre o chão de madeira ensangüentada do navio. Acertando-lhe um chute no lado, o stígio ergueu novamente a espada; mas, antes que pudesse matar Valéria, um homem decepou, por trás e de um só golpe, a cabeça do stígio.

Seu salvador sorriu para ela e, enquanto Valéria lhe agradecia por salvá-la, os ferozes olhos azuis do homem bronzeado, alto e musculoso, de cabelos negros, que a ajudou, arderam com uma luz que qualquer mulher conseguiria entender, enquanto os mesmos percorriam sua figura magnífica, demorando-se no volume dos seios esplêndidos sob a camisa leve, e na pele clara que aparecia entre os calções e as botas – era o mesmo homem a quem ela vislumbrara lutando em outro navio, ao lado de um mercenário loiro, e que ela parecia ter visto uma ou duas vezes, nas Ilhas Barachas.

Em seguida, ele voltou à batalha e Valéria seguiu lutando contra outros stígios.

No porto de Khemi, a multidão acompanhava, apreensiva, o desfecho daquela batalha, e podiam ver suas armadas desfazendo-se em chamas ou naufragando à distância. Era de manhã, por volta da hora do mercado, e a brisa litorânea soprava. A fumaça negra dos destroços carenados começou a obscurecer o campo de visão; a resina da calafetação do madeirame ardia em fúria, atiçada e carregada pelo vento, que transformava os borrões ardentes em fogueiras vorazes e estrondosas. Então eles viram alguns de seus navios recuando, arrastando-se sobre as águas de volta ao cais como monstros marinhos assustados e feridos. Homens, mulheres e crianças observavam a cena, incrédulos, sem acreditar que os famigerados fuzileiros stígios foram sobrepujados por marinheiros esfarrapados e sem disciplina. O temor se instalou em seus corações e começaram também eles a fugir, correndo para seus lares em busca de pertences valiosos para depois se infiltrarem em suas tocas no deserto. Mas, ao invés de perseguir os fugitivos, a aliança inimiga seguiu para o sul, deixando os desnorteados cidadãos stígios, aqueles que ainda não haviam debandado, boquiabertos, e os marinheiros nos galeões, aliviados.

Enquanto os navios de Zapayo da Kova continuaram seu caminho para o sul, o de Valéria saqueou o máximo que pôde das galeras stígias de guerra, e seguiu para norte, de volta às Ilhas Barachas – agora que seu líder Licurgo estava morto. Embora a aquiloniana não tivesse escolhido inicialmente a vida de pirata, ela a aceitou com paixão, uma vez que viu o poder e a riqueza que adviriam de sua vocação. A partir daquele momento, a jovem Valéria, filha de Julius, das montanhas ocidentais da Aquilônia, tornava-se Valéria da Irmandade Vermelha!


Epílogo:


Dois anos se passaram desde que Valéria navegou ao lado do falecido Licurgo de Messântia. Agora, num novo navio onde a loira da Irmandade Vermelha era sua mais proeminente marinheira e pirata, o primeiro imediato, por nome Ortho Vermelho, matou o capitão com o qual Valéria navegava, e se apoderou do navio. Ele queria que a loira fosse sua amante. Uma noite, ela pulou do navio e nadou até a praia, enquanto estavam ancorados perto da costa kushita. Estava em frente a Zabhela. Lá, Valéria encontrou um mercador shemita, que também era um agente de recrutamento de Zarallo. Ele a disse que Zarallo havia trazido seus Companheiros Livres, para defender a fronteira de Darfar para os stígios. Então, Valéria se juntou a uma caravana que ia para leste, e finamente chegou a um acampamento do lado externo dos muros de Sukhmet, onde reencontrou Conan, o cimério.


 


Agradecimentos especiais: Aos howadmaníacos e amigos Deuce Richardson, dos EUA, e Osvaldo Magalhães de Oliveira, de Brasília – DF.

 





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