O Povo do Círculo Negro

(por Robert E. Howard)



1) A Morte Ataca um Rei

O REI DE VENDHYA ESTAVA MORRENDO. DURANTE A NOITE quente e sufocante, o gongo do templo soava e as conchas rugiam. Seu clamor era um eco débil na câmara dourada e abobadada, onde Bhunda Chand lutava no estrado forrado de veludo. Gotas de suor pingavam de sua pele escura, seus dedos retorciam o tecido dourado sob si. Ele era jovem, nenhuma lança o havia tocado, nenhum veneno oculto em seu vinho. Porém, suas veias se destacavam como cordões azuis nas têmporas, e os olhos se dilatavam com a proximidade da morte. Escravas ajoelhavam-se tremendo aos pés do estrado. E, inclinada sobre ele e observando-o com paixão intensa, estava sua irmã, a Devi Yasmina. Ao lado dele estava o wazam, nobre ancião da corte real.

Ela jogou a cabeça para cima, num gesto tempestuoso de ira e desespero quando distantes tambores chegaram aos seus ouvidos.

— Os sacerdotes e seu clamor! — ela exclamou. — Eles não são mais sábios que as sanguessugas, que são inúteis! Não, ele morre, e ninguém é capaz de dizer o motivo. Ele está morrendo agora... E fico aqui impotente; eu, que queimaria a cidade inteira e derramaria o sangue de milhares para salvá-lo.

— Qualquer homem de Ayodhya morreria em seu lugar se fosse possível, Devi — respondeu o wazam. — Este veneno...

— Digo que não é veneno! — ela gritou. — Desde o nascimento, ele tem sido protegido tão atentamente, que os mais inteligentes envenenadores do Oriente não foram capazes de alcançá-lo. Cinco crânios branqueados na Torre dos Milhafres podem atestar as tentativas que foram feitas, e falharam. Como você bem sabe, há dez homens e dez mulheres cujo único dever é provar sua comida e vinho, e cinqüenta guerreiros armados guardando sua câmara, como estão fazendo agora. Não, isto não é veneno. É feitiçaria... Magia negra e sinistra.

Ele se calou quando o rei falou; seus lábios lívidos não se moveram, e não havia reconhecimento nos olhos vítreos. Mas a voz surgiu num chamado lúgubre, indistinto e distante, como se a tivesse chamado de além dos vastos golfos soprados pelos ventos:

— Yasmina! Yasmina! Minha irmã, onde está você? Não consigo encontrá-la. Tudo é trevas, e o rugido de grandes ventos!

— Irmão! — ela falou, segurando sua mão mole num aperto convulsivo. — Estou aqui! Não me reconhece...

Sua voz morreu diante do total vazio no rosto dele. Um murmúrio baixo e confuso saiu de sua boca. As escravas choramingaram de medo, e Yasmina sentiu o peito pulsar de angústia.


Em outra parte da cidade, um homem estava em pé, ao lado de uma varanda de treliça, olhando para uma longa rua mal iluminada por tochas, que revelavam, com pouca nitidez, faces escuras e o branco de olhos brilhando. Um prolongado pranto partiu da multidão. O homem encolheu os ombros e voltou para dentro da câmara cheia de arabescos. Ele era alto, compactamente constituído, e trajava vestes caras.

— O rei não está morto, mas o hino fúnebre foi soado — ele disse para outro indivíduo, que se sentava com as pernas cruzadas em um tapete no canto. Este homem estava vestido com um manto marrom de pele de carneiro e sandálias, e usava um turbante verde sobre a cabeça. Sua expressão era tranqüila, o olhar impessoal.

— O povo sabe que ele jamais verá outro amanhecer — respondeu o homem.

O primeiro interlocutor o mirou com um olhar longo e pesquisador.

— O que não consigo entender — disse — é por que precisei esperar tanto tempo para seus mestres atacarem. Se eles puderam matar o rei agora, por que não o fizeram meses atrás?

— Mesmo as artes que você chama de feitiçaria são governadas por leis cósmicas — respondeu o homem de turbante verde. — As estrelas dirigem essas ações, assim como outros assuntos. Nem mesmo meus mestres podem mudar as estrelas. Só após os céus estarem na ordem correta, que puderam desempenhar sua necromancia — com uma longa unha pontiaguda, ele mapeou as constelações no chão de azulejos de mármore. — A inclinação da lua pressagiou o mal para o rei de Vendhya; as estrelas estão em tumulto, a Serpente na Casa do Elefante. Durante tal justaposição, os guardiões invisíveis foram removidos do espírito de Bhunda Chand. Um caminho é aberto para os reinos que não podem ser vistos, e uma vez que um ponto de contato foi estabelecido, intensos poderes foram colocados em funcionamento ao longo daquele caminho.

— Ponto de contato? — perguntou o outro. — Você quer dizer aquele cacho de cabelos de Bhunda Chand?

— Sim. Todas as porções descartadas do corpo humano ainda fazem parte deste, anexadas por conexões intangíveis. Os sacerdotes de Asura têm uma fraca noção dessa verdade, e, assim, todas as unhas cortadas, cabelos e outros resíduos das pessoas da família real são, com muito cuidado, reduzidos a cinzas, e as cinzas escondidas. Mas, ante a súplica urgente da princesa de Khosala, que presumidamente amava Bhunda Chand, ele lhe deu um cacho de seus longos cabelos negros como lembrança. Quando meus mestres decidiram o destino dele, o cacho, em sua caixa dourada incrustada de jóias, foi roubado debaixo do travesseiro dela enquanto dormia, e outra foi substituída, tão parecida com a primeira que ela jamais saberia a diferença. Então, o cacho genuíno viajou por uma caravana de camelos pela longa, longa estrada para Peshkhauri, dali até a Passagem Zhaibar, até chegar às mãos daqueles a quem se destinava.

— Somente um cacho de cabelos — murmurou o nobre.

— Pelo qual uma alma é arrancada de seu corpo, e além de golfos de espaços ecoantes — respondeu o homem no tapete.

O nobre o estudou curiosamente.

— Eu não sei se você é um homem ou demônio, Khemsa — ele disse afinal.

— Poucos de nós somos o que aparentamos. Eu, a quem os kshatriyas conhecem como Kerim Shah, um príncipe do Iranistão, não sou um mascarado melhor do que a maioria dos homens. Todos são traidores de uma forma ou de outra, e metade deles não sabe a quem serve. Quanto a isso pelo menos não tenho dúvidas, pois eu sirvo o Rei Yezdigerd, de Turan.

— E eu, os Profetas Negros de Yimsha — disse Khemsa. — E meus mestres são maiores que o seu, pois alcançaram pelas artes o que Yezdigerd não pôde com cem mil espadas.


Lá fora, o gemido de milhares de torturados estremeceu até as estrelas que incrustavam a noite quente vendhyana, e as conchas berravam como bois com dor. Nos jardins do palácio, as tochas reluziam nos capacetes polidos, espadas curvas e coletes entalhados com ouro. Todos os nobres nascidos guerreiros de Ayodhya estavam reunidos no grande palácio, ou ao redor dele. E, em cada largo portão e porta arqueados, cinqüenta arqueiros montavam guarda, com os arcos em mãos. Mas a morte espreitava no palácio real, e ninguém podia fazer frente à sua ameaça espectral.

Nos estrados sob a abóbada dourada, o rei gritou mais uma vez, atormentado por terríveis paroxismos. Outra vez, sua voz veio débil e distante, e a Devi curvou-se de novo sobre ele, tremendo, com um medo que era mais nefasto que o terror da morte.

— Yasmina! — mais uma vez, aquele distante chamado estranho e insuportável dos reinos imensuráveis. — Ajude-me! Estou longe de minha casa mortal! Magos arrastaram minha alma através dos ventos soprados pelas trevas. Eles buscam romper a corda prateada que me mantém atado ao meu corpo moribundo, aglomeram-se à minha volta, suas mãos têm garras, os olhos são vermelhos como chamas queimando na escuridão. Ajude-me, irmã! Seus dedos me cauterizam como brasas! Eles matarão meu corpo e condenarão minha alma! O que é isso que trazem diante de mim? Aie!

Por causa do terror daquele grito desesperançado, Yasmina berrou de maneira incontrolável e deixou o corpo cair sobre ele, abandonando-se em angústia. O irmão era assolado por terríveis convulsões, baba escorria de seus lábios contorcidos, e os dedos retorcidos deixaram marcas nos ombros da garota.

Mas o vazio vítreo de seus olhos passou como fumaça soprada de uma fogueira, e ele olhou para a irmã com reconhecimento.

— Irmão! — ela soluçou. — Irmão...

— Rápido! — ele disse ofegante, e sua voz fraca estava racional. — Agora sei o que me leva até a pira. Tenho estado em uma jornada distante, e a entendo. Fui enfeitiçado por magos himelianos. Eles atraíram minha alma para fora do corpo e ao longe, para uma sala de pedra. Lá, lutam para quebrar a corda prateada da vida e colocar minha alma no corpo abominável de uma criatura da noite, que seus feitiços trouxeram do inferno. Ai! Eu os sinto me arrastando agora! Seu grito e o aperto de seus dedos me trouxeram de volta, irmã, mas estou indo rápido. Minha alma se agarra ao corpo, porém sua força se esvai. Rápido. Mate-me, antes que eles possam aprisionar minha alma para sempre!

— Não posso! — ela gemeu, batendo nos seios nus.

— Rápido, eu ordeno! — havia a velha nota imperial em seu suspiro frágil. — Você jamais me desobedeceu... Obedeça este último comando! Envia minha alma incólume para Asura! Rápido, ou me condenará a passar a eternidade como um maldito espectro das trevas. Golpeie, eu ordeno! Ataque!

Soluçando selvagemente, Yasmina sacou uma adaga cravejada de seu cinturão e a mergulhou até o cabo no peito dele. Ele enrijeceu, e depois ficou flácido, um sorriso sinistro curvava-se em seus lábios mortos. Yasmina arremessou-se, com a face para baixo, no piso recoberto, esmurrando-o com as mãos crispadas. Lá fora, os gongos e conchas zurravam e trovejavam, e os sacerdotes se apunhalavam com facas de cobre.


2) O Bárbaro das Colinas

CHUNDER SHAN, GOVERNADOR DE PESHKHAURI, LARGOU A pena dourada e olhou com cuidado para o que escrevera no pergaminho que portava seu selo oficial. Ele era governante de Peshkhauri há tanto tempo, apenas porque pesava cada palavra, falada ou escrita. Perigo requer cautela, e somente um homem desconfiado vive o bastante naquele país selvagem, onde as quentes planícies vendhyanas encontram os penhascos himelianos. Uma hora de cavalgada para oeste ou norte, e qualquer pessoa cruzaria a fronteira e estaria entre as colinas onde os homens viviam pela lei da lâmina.

O governador estava sozinho no quarto, sentado à sua mesa de ébano esculpida e incrustada com ornamentos. Pela larga janela, aberta para refrescar, ele podia ver um quadrado da noite himeliana azulada, pontilhado por grandes estrelas brancas. Um parapeito adjacente formava uma linha escura, e ameias e canhoneiras mais distantes eram vagamente divisadas à luminosidade fraca das estrelas. A fortaleza do governador era robusta, situada fora das paredes da cidade que ela guardava. A brisa, que balançava as tapeçarias na parede, trazia barulhos esvaídos das ruas de Peshkhauri; trechos ocasionais de tristes canções ou o toque de uma cítara.

Ele leu o que tinha escrito bem devagar, com a mão aberta fazendo sombra aos olhos diante das lamparinas de bronze, os lábios movendo-se. Distraído enquanto lia, escutou o barulho de cascos de cavalos fora do barbacã, o agudo grito dos guardas intimando quem vinha. O governador não prestou atenção, concentrado na carta. Esta era endereçada ao wazam de Vendhya, à corte real de Ayodhya, e dizia o seguinte, após as tradicionais saudações:

“Que Vossa Excelência saiba que cumpri fielmente as vossas exigências. Os sete criminosos montanheses estão bem guardados em suas celas, e eu, várias vezes, enviei a notícia para as colinas pedindo que seu chefe venha pessoalmente, para barganhar a soltura deles. Mas ele não se manifestou, exceto enviando palavras que diziam que, a não ser que eles sejam soltos, irá queimar Peshkhauri e cobrir sua sela com minha pele, pedindo pela indulgência de Vossa Excelência. Isto ele é bem capaz de tentar, e eu tripliquei o número de guardas lanceiros. O homem não é nativo do Ghulistão. Não posso prever com certeza seu próximo movimento. Mas, uma vez que é o desejo da Devi…”.

De repente, ele estava fora da cadeira de marfim e com os pés voltados para a porta arqueada, tudo em um instante. Buscou a espada curva que estava enfiada em sua bainha ornada sobre a mesa, e só então checou a movimentação que ocorria diante de si.

Era uma mulher, que havia entrado sem ser anunciada, cujo manto fino não escondia as ricas vestes sob ele, não mais do que estas escondiam a beleza e maleabilidade de sua figura alta e delgada. Um véu transparente caía sobre seus seios, apoiado por um vestido flutuante que partia da cabeça, atado por uma trança tripla de ouro, adornada com um crescente dourado. Seus olhos escuros consideraram o atordoado governador por debaixo do véu. E, com um gesto imperial de sua mão alva, ela descobriu a face.

— Divina! — o governador caiu de joelhos diante dela, surpreso e confuso, de algum modo estragando a imponência de sua reverência.

Com um gesto, ela indicou que se levantasse, e ele apressou-se em conduzi-la até a cadeira de marfim, todo o tempo curvando-se até a altura do cinturão. Mas suas primeiras palavras foram de reprovação.

— Majestade! Isso não foi prudente! A fronteira é instável. Os ataques das colinas são incessantes. A senhora veio com uma grande escolta?

— Uma ampla comitiva me seguiu desde Peshkhauri — respondeu. — Alojei meu pessoal lá em uma estalagem, e vim até o forte com minha criada, Gitara.

Chunder Shan grunhiu de horror.

— Divina! A senhora não entende o perigo. A uma hora de cavalgada deste ponto, as colinas estão infestadas de bárbaros que fazem do assassinato e da rapina uma profissão. Mulheres foram roubadas e homens apunhalados, entre o forte e a cidade. Peshkhauri não é como as províncias do sul...

— Mas eu estou aqui, e ilesa — ela o interrompeu com um traço de impaciência. — Mostrei meu anel real para o guarda no portão, e para aquele que fica do lado de fora de sua porta, e eles, sem me reconhecer, permitiram que eu não fosse anunciada; supuseram que eu fosse uma mensageira secreta de Ayodhya. No entanto, não percamos tempo. Você não recebeu resposta do chefe dos bárbaros?

— Nenhuma, salvo ameaças e maldições, Divina. Ele é prudente e desconfiado. Acha que é uma arapuca, e talvez não devêssemos culpá-lo por isso. Os kshatriyas nem sempre mantiveram suas palavras para com o povo das colinas.

— Ele precisa ser convencido — interrompeu Yasmina, e as juntas de suas mãos apertadas estavam ficando esbranquiçadas.

— Eu não entendo — o governador balançou a cabeça. — Quando tive a chance de capturar esses sete homens, reportei, como de costume, a prisão para o wazam. E então, antes que pudesse enforcá-los, veio uma ordem para mantê-los vivos e me comunicar com seu chefe. Isto eu fiz, porém o homem permanece distante, como já disse. Esses homens são da tribo dos afghulis, mas ele é um estrangeiro do oeste, e se chama Conan. Ameacei enforcá-los amanhã ao raiar do sol, se ele não aparecer.

— Bom! — exclamou a Devi. — Você fez bem. Vou lhe dizer por que dei tais ordens. Meu irmão... — ela vacilou, engasgando, e o governador curvou a cabeça, com o costumeiro gesto de respeito por um soberano que partiu.

“O rei de Vendhya foi destruído por magia”, ela disse enfim. “Devotarei minha vida à destruição dos assassinos dele. Antes de morrer, ele me deu uma pista, e eu a segui. Li o Livro de Skelos, e conversei com eremitas inomináveis nas cavernas abaixo de Jhelai. Descobri como e por quem ele foi destruído. Seus inimigos eram os Profetas Negros do Monte Yimsha”.

— Asura! — sussurrou Chunder Shan, empalidecendo.

Os olhos dela o atravessaram como uma faca.

— Você os teme?

— Quem não os teme, Majestade? — suplicou. — Eles são demônios negros, que assombram as colinas inabitadas além de Zhaibar. Mas os sábios dizem que eles raramente interferem na vida dos mortais.

— Por que mataram meu irmão, eu não sei — ela respondeu. — Mas jurei no altar de Asura que os destruirei! E preciso do auxílio de um homem de além da fronteira. Um exército kshatriya jamais chegaria até Yimsha.

— Sim — murmurou Chunder Shan. — Você fala a verdade. Seria luta a cada passo do caminho, com homens peludos das fronteiras arremessando pedras de todas as alturas e nos emboscando com suas longas facas a cada vale. Os turanianos certa vez abriram caminho até os himelianos, mas quantos retornaram para Khurusun? Poucos dos que escaparam das espadas dos kshatriyas, após o rei, seu irmão, derrotar as tropas deles no Rio Jhumda, voltaram a ver Secunderam novamente.

— E, ainda assim, tenho de controlar homens além da fronteira — disse ela.

— Homens que conhecem o caminho até o Monte Yimsha...

— Mas as tribos temem os Profetas Negros e fogem da montanha profana — emendou o governador.

— O chefe Conan os teme? — ela perguntou.

— Bem, quanto a isso — murmurou o governador —, duvido que exista algo que aquele demônio tema.

— Foi o que me disseram. Portanto, Conan é o homem com quem preciso lidar. Ele deseja a libertação de seus sete homens. Muito bem, o resgate deles serão as cabeças dos Profetas Negros! — a voz dela arranhou de ódio conforme finalizou as últimas palavras, e as mãos apertaram suas laterais. Ela parecia uma imagem de paixão encarnada enquanto permanecia com a cabeça alta e seu peito arfante.

Outra vez o governador ajoelhou-se, pois parte de sua sabedoria era o conhecimento de que uma mulher, em um estado emocional tempestuoso como aquele, é tão perigosa quanto uma cobra cega a todos que estão ao seu redor.

— Seu desejo será cumprido, Majestade — então, conforme ela foi apresentando um aspecto mais calmo, ele se levantou e se aventurou a lançar uma palavra de aviso: — Eu não posso prever qual será a atitude do chefe Conan.

“Os homens das tribos sempre são turbulentos, e tenho motivos para acreditar que emissários turanianos os estão instigando para invadirem nossas fronteiras. Como Sua Majestade sabe, os turanianos estabeleceram-se em Secunderam e em outras cidades do norte, embora as tribos das colinas permaneçam inconquistadas. O Rei Yezdigerd olha para o sul com ganância há bastante tempo, e talvez busque ganhar por meio da traição o que não conseguiria pela força das armas. Já me ocorreu que Conan poderia muito bem ser um de seus espiões”.

— Veremos — ela respondeu. — Se ele amar seus seguidores, estará ao amanhecer nos portões para negociar. Passarei a noite na fortaleza. Vim disfarçada para Peshkhauri, e levei minha comitiva para uma pousada em vez do palácio. Além do meu pessoal, apenas você sabe de minha presença aqui.

— Irei levá-la até seus aposentos, Majestade — disse o governador e, quando saíram do lado de fora, ele fez um gesto para o guerreiro que montava guarda ali, e o homem os seguiu, com lança erguida em saudação.

A criada aguardava do lado de fora, velada como sua ama, e o grupo atravessou um amplo e arejado corredor, iluminado por tochas fumarentas, e chegou aos aposentos reservados para visitantes notáveis, generais e vice-reis em sua maior parte. Ninguém da família real jamais honrara a fortaleza antes. Chunder Shan tinha uma sensação perturbadora de que o quarto não era adequado para uma personagem tão elevada como a Devi, e pensou que ela procurava fazer que ele se sentisse à vontade em sua presença. Ficou feliz quando ela o dispensou, e ele curvou-se antes de sair. Todos os servos do forte tinham sido convocados para servir a hóspede real — apesar de a identidade dela não ter sido divulgada —, e ele deslocou um esquadrão de lanceiros para guardar as portas do quarto; entre eles, o guerreiro que guardava a sua própria câmara. Em sua preocupação, esqueceu-se de substituir o homem.

O governador não tinha se afastado muito quando Yasmina, de repente, se lembrou de mais uma coisa que gostaria de discutir com ele, mas esquecera até então. Tinha a ver com as ações passadas de Kerim Shah, um nobre do Iranistão, que residira em Peshkhauri por um período, antes de ir para a corte de Ayodhya. Uma vaga suspeita, em relação ao homem, havia sido despertada por um vislumbre dele em Peshkhauri, naquela noite. Ela se perguntou se ele a seguira desde Ayodhya. Sendo uma Devi verdadeiramente notável, ela não mandou chamar o governador de novo, mas saiu sozinha pelo corredor, com pressa, em direção à câmara.

Chunder Shan, entrando em seu quarto, fechou a porta e voltou à mesa. Lá ele apanhou a carta que tinha escrito e a rasgou em pedaços. Mal tinha terminado, quando escutou algo cair de leve sobre o parapeito adjacente da janela. Virou-se e viu uma figura agigantar-se brevemente contra as estrelas, e então um homem saltou com leveza para dentro do cômodo. A luz reluziu em um longo feixe de aço em suas mãos.

— Shhhh! — ele avisou. — Não faça barulho, ou enviarei um bajulador ao diabo!

O homem impediu seu movimento que ia em direção à espada sobre a mesa. Ele estava dentro do alcance da longa faca de Zhaibar que brilhava no punho do intruso, e sabia da velocidade desesperada de um homem das colinas.

O invasor era alto, forte e flexível. Estava vestido como um montanhês, mas suas feições sombrias e os olhos azuis não combinavam com as vestes. Chunder Shan nunca tinha visto um homem como aquele antes; não era vindo do Oriente, mas algum bárbaro do Ocidente. No entanto, seu aspecto era tão indomável e formidável quanto qualquer um das tribos que assombravam as colinas do Ghulistão.

— Você vem como um ladrão na noite — comentou o governador, recuperando parte de sua compostura, embora lembrasse que não havia guarda ao alcance de seu chamado. Ainda assim, o invasor não tinha como saber disso.

— Eu escalei um bastião — rosnou o outro. — Um guarda meteu a cabeça por sobre a muralha, a tempo de eu golpeá-lo com o cabo de minha faca.

— Você é Conan?

— Quem mais? Você enviou mensagens para as colinas, dizendo que desejava que eu viesse e conversasse. Bem, por Crom, aqui estou! Afaste-se daquela mesa, ou arrancarei suas tripas.

— Eu desejo apenas me sentar — respondeu o governador, afundando com cuidado na cadeira de marfim, que ele afastou da mesa. Conan movia-se irrequieto diante dele e olhava desconfiado para a porta, manuseando o fio da navalha de sua faca de mais de 90 centímetros. Ele não caminhava como um afghuli, e era abruptamente direto, onde o oriente costuma ser sutil.

— Você tem sete dos meus homens — disse de repente. — Recusou o resgate que ofereci. Que diabos você quer?

— Vamos discutir os termos — respondeu Chunder Shan, com cautela.

— Termos? — havia um timbre de perigo na voz raivosa dele. — O que quer dizer? Não lhe ofereci ouro?

Chunder Shan riu:

— Ouro? Há mais ouro em Peshkhauri do que você jamais viu.

— Você é um mentiroso — retorquiu Conan. — Eu vi o suk dos ourives em Khurusun.

— Bem, mais ouro do que um afghuli jamais viu — emendou Chunder Shan. — E não passa de uma gota de todo o tesouro de Vendhya. Por que nós desejaríamos ouro? Seria mais vantajoso se enforcássemos esses sete ladrões.

Conan soltou uma praga sulfurosa, e a longa lâmina estremeceu ante o aperto quando seus músculos surgiram como cordilheiras em seu braço moreno.

— Vou partir sua cabeça como um melão maduro!

Uma chama azul selvagem brilhou nos olhos do montanhês, mas Chunder Shan deu de ombros, apesar de manter um olho no aço afiado.

— Você poderia me matar facilmente, e escapar pela parede depois. Mas isso não salvaria os sete membros da tribo. Meus guardas os enforcariam, com certeza. E aqueles homens são alguns dos chefes entre os afghulis.

— Eu sei — rosnou Conan. — As tribos estão latindo como lobos em meus calcanhares porque não consegui a soltura deles. Diga-me com clareza o que você quer, porque, por Crom, se não tiver outra maneira, levantarei uma horda e a liderarei até os portões de Peshkhauri!

Olhando para o homem enquanto ele permanecia esquadrinhado, faca na mão e olhos queimando, Chunder Shan não duvidou de sua capacidade de fazê-lo. O governador não acreditava que qualquer horda de homens das colinas pudesse tomar Peshkhauri, mas não desejava um país devastado.

— Há uma missão que você deve cumprir — disse, escolhendo as palavras com tanto cuidado quanto se elas fossem navalhas. — Existe...

Conan se voltara, virando para encarar a porta naquele mesmo instante, e os lábios rosnando. Seus ouvidos bárbaros tinham captado a rápida passada de chinelos suaves do lado de fora. No instante seguinte, a porta estava aberta e uma forma magra, vestida com um manto de seda, entrou apressada, fechando a porta, e então congelou perante a visão do homem das colinas.

Chunder Shan deu um salto para cima, seu coração pulando para fora da boca.

— Divina! — ele gritou sem perceber, perdendo a cabeça, por um momento por causa do susto.

— Divina — foi quase como um eco explosivo que saiu dos lábios do montanhês. Chunder Shan percebeu que houve reconhecimento, e uma chama intensa invadiu os ferozes olhos azuis.

O governador berrou em desespero e apanhou sua espada, mas o montanhês moveu-se com a velocidade devastadora de um furacão. Ele pulou, nocauteou o governador, estatelando-o com um golpe selvagem com o punho da faca. Agarrou a espantada Devi com seu braço musculoso e saltou para a janela. Chunder Shan, lutando de maneira frenética para se colocar em pé, viu o homem posar um instante no peitoril em meio à flutuação de saias de seda e membros brancos que era sua prisioneira real, e escutou um rosnado feroz e exultante:

— Agora ouse enforcar meus homens! — e em seguida Conan saltou do parapeito e desapareceu. Um grito selvagem flutuou até os ouvidos do governador.



— Guardas! Guardas! — desesperava-se, colocando-se de pé e correndo cambaleante até a porta. Ele a abriu e seguiu até o salão. Seus gritos ecoaram ao longo dos corredores, e guerreiros vieram correndo, boquiabertos ao verem-no segurando sua cabeça partida, jorrando sangue.

— Chamem os lanceiros! — rugiu. — Houve um seqüestro! — mesmo em seu frenesi, ele teve bom-senso suficiente para esconder toda a verdade. Parou no lugar ao escutar o súbito tamborilar de cascos do lado de fora, um grito enérgico e um brado selvagem de exultação bárbara.

Seguido pelos guardas desnorteados, o governador correu para as escadas. No pátio do forte, uma força de lanceiros aguardava com seus cavalos selados, prontos para cavalgar.

Chunder Shan guiou seu esquadrão em perseguição atrás do fugitivo, embora sua cabeça rodasse tanto que ele tinha de segurar a sela com ambas as mãos. Não divulgou a identidade da vítima, mas disse aos nobres que aquela que portava o anel real tinha sido levada pelo chefe dos afghulis. O seqüestrador estava fora de vista e audição, porém conheciam o caminho que ele tomaria para a estrada que leva direto à boca de Zhaibar. Não havia lua, e cabanas de camponeses apareciam turvas sob a luz das estrelas. Atrás deles, desaparecia o bastião austero do forte e as torres de Peshkhauri. À sua frente, delineavam-se as paredes negras dos Montes Himelianos.


3) Khemsa Usa a Magia

NA CONFUSÃO QUE REINOU NA FORTALEZA ENQUANTO OS guardas saíam, ninguém reparou que a garota que acompanhava a Devi atravessou, sorrateira, o grande portão arqueado e desapareceu nas trevas. Ela correu direto para a cidade, segurando para o alto as pregas de suas vestes. Não tomou a estrada aberta, mas cortou reto pelos campos e por sobre as colinas, evitando cercas e pulando por sobre valas de irrigação, com tanta confiança como se fosse dia, e tão facilmente como se fosse um corredor treinado. O barulho dos cascos dos guardas desaparecera rochedo acima, antes dela chegar à muralha da cidade. Não seguiu para o portão principal, sob o qual homens se apoiavam em suas lanças e erguiam o pescoço para as trevas, discutindo a incomum atividade no forte. Ao invés disso, contornou a parede até chegar a um ponto no qual a espiral da torre era visível acima das ameias. Depois, colocou as mãos na boca e produziu um chamado estranho e quase inaudível.

Quase de imediato, uma cabeça apareceu em uma canhoneira e uma corda desceu, contorcendo-se pela parede. Ela a agarrou, colocou um pé no laço que havia na extremidade e acenou com o braço. Então, de forma rápida e macia, foi içada pela cortina de pedra pura. Um instante depois, a garota estava sobre as ameias e postou-se num telhado reto que cobria a casa construída encostada na muralha. Havia um alçapão ali, e um homem vestido com um manto de camelo que recolhia, em silêncio, a corda, sem demonstrar, de modo algum, o esforço de transportar uma mulher adulta por sobre uma muralha de mais de 12 metros.

— Onde está Kerim Shah? — ela perguntou, ofegante após a longa corrida.

— Dormindo na casa abaixo. Você traz novidades?

— Conan seqüestrou a Devi da fortaleza e a levou para as colinas! — Ela vomitava as notícias de uma vez, as palavras tropeçando umas nas outras.

Khemsa não demonstrou emoção alguma, mas mexeu sua cabeça com o turbante.

— Kerim Shah ficará feliz em escutar isso — ele disse.

— Espere! — a moça jogou os braços magros sobre o pescoço dele. Ela estava bastante ofegante, mas não apenas por causa do esforço. Seus olhos eram duas gemas negras sob a luz das estrelas. O rosto virado para cima estava próximo ao de Khemsa, mas, embora ele tenha se submetido ao abraço dela, não o devolveu.

— Não conte ao hirkaniano! — disse. — Vamos usar esse conhecimento para nós mesmos! O governador foi para as colinas com seus cavaleiros, mas é bem provável que persiga um fantasma. Ele não contou a ninguém que a seqüestrada é a Devi. Ninguém em Peshkhauri, ou no forte, sabe, exceto nós!

— Mas que bem isso fará por nós? — o homem protestou. — Meus mestres me enviaram, para ajudar Kerim Shah de todos os modos que...

— Ajude a si mesmo! — disse ferozmente. — Livre-se deste jugo!

— Você quer dizer... desobedecer meus mestres? — ele engasgou, e a moça sentiu o corpo inteiro do homem ficar frio sob seus braços.

— Sim! — ela o chacoalhou na fúria da emoção. — Você também é um feiticeiro! Por que deve ser um escravo, usando suas capacidades apenas para elevar os outros? Use suas artes em proveito próprio!

— Isso é proibido! — ele tremia como se estivesse febril. — Eu não faço parte do Círculo Negro. Somente pelo comando de meus mestres, atrevo-me a usar o conhecimento que eles me ensinaram.

— Mas você pode usá-lo! — ela argumentou com fervor. — Faça como lhe imploro. Claro que Conan levou a Devi, para mantê-la como refém, por conta dos sete montanheses que estão na prisão do governador. Destrua-os, para Chunder Shan não poder usá-los para comprar a Devi de volta. Então, vamos para as montanhas, arrancá-la dos afghulis. Eles não podem fazer frente à sua feitiçaria com facas. O tesouro de reis vendhianos será nosso como resgate... E então, quando ele estiver em nossas mãos, podemos enganá-los e vendê-la ao rei de Turan. Teremos riquezas além de nossos maiores sonhos. Com elas, podemos comprar guerreiros. Tomaremos Khorbhul, expulsaremos os turanianos das colinas e enviaremos nossas tropas para o sul; seremos rei e rainha de um império!

Khemsa também estava ofegante, tremendo como uma folha diante da energia dela; sua face parecia cinzenta à luz das estrelas, molhada com grandes gotas de perspiração.

— Eu amo você! — ela gritou com violência, esfregando seu corpo contra o dele, quase o estrangulando com o selvagem abraço, sacudindo-o em seu abandono. — Farei de você um rei! Por amor a você, eu traí minha senhora; por amor a mim, traia seus mestres! Por que temer os Profetas Negros? Por seu amor a mim já quebrou uma das leis deles! Quebre as demais! Você é tão poderoso quanto eles!

Um homem de gelo não poderia ter suportado o calor escaldante de sua paixão e fúria. Com um som inarticulado, ele a apertou contra seu corpo, pendendo a cabeça dela para trás e despejando beijos enlouquecidos em seus olhos, rosto e lábios.

— Eu o farei! — disse, com a voz carregada de emoções laboriosas, gaguejando como um bêbado. — As artes que eles me ensinaram trabalharão ao meu favor, e não para meus mestres. Seremos governantes do mundo... Do mundo!

— Venha, então! — torcendo-se de leve para fora do abraço dele, ela apanhou sua mão e o conduziu em direção ao alçapão. — Primeiro temos que nos certificar de que o governador não troque os sete prisioneiros pela Devi.

Ele se movia como em uma hipnose, até que desceram as escadas e ela parou na câmara abaixo. Kerim Shah estava deitado imóvel no sofá, com um braço sobre o rosto, como se quisesse proteger os olhos adormecidos da luz da lamparina de latão. Ela apertou o braço de Khemsa e fez um gesto rápido cortando sua própria garganta. Khemsa ergueu a mão; então, sua expressão mudou e ele se afastou.

— Não, ele tem sido bom para mim — murmurou. — Além disso, não pode interferir.

Ele conduziu a garota por uma porta que dava para uma escada sinuosa. Depois que os passos macios da dupla haviam desaparecido no silêncio, o homem no sofá sentou-se. Kerim Shah limpou o suor de sua fronte. Da estocada de uma faca, ele não tinha medo, mas temia Khemsa tanto quanto um homem teme um réptil venenoso.

— Pessoas que traçam ardis em telhados deveriam se lembrar de abaixar a voz — murmurou. — Mas, como Khemsa voltou-se contra seus mestres, e ele era meu único contato com eles, não posso mais contar com a ajuda deles. De agora em diante, jogarei à minha maneira.

Ficando em pé, ele foi depressa até uma mesa, tirou uma pena e um pergaminho de seu cinto, e escreveu algumas linhas sucintas:

“Para Khosru Khan, governador de Secunderam: O cimério Conan levou a Devi Yasmina para as vilas dos afghulis. É uma oportunidade para colocar a Devi em suas mãos, como há tanto tempo tem sido nosso desejo. Envie três mil cavaleiros de uma só vez. Irei encontrá-los no vale de Gurashah, com guias nativos”.

E assinou com um nome que era completamente diferente de Kerim Shah.

Então, de uma gaiola dourada, tirou um pombo-correio, na perna do qual prendeu o pergaminho, enrolado em um pequeno cilindro e atado com um fio dourado. Seguiu apressado para uma janela e libertou o pássaro na noite, que hesitou em um ruflar de asas, equilibrou-se, e se foi como uma sombra esvoaçando. Apanhando seu capacete, espada e capa, Kerim Shah saiu logo da câmara e desceu as escadas em espiral.

As celas de Peshkauri eram separadas do resto da cidade por uma parede maciça, cuja única passagem era uma porta de ferro sob um arco. Acima desta, queimava um fogaréu lúrido e vermelho, e ao lado agachava-se um guerreiro com lança e escudo.

Este guerreiro, recostado em sua lança e bocejando de tempos em tempos, colocou-se de pé de repente. Ele não pensou que tivesse cochilado, mas um homem estava diante de si, cuja aproximação não tinha escutado. O homem usava um manto de camelo e um turbante verde. Sob a luz turva do fogaréu, seus traços estavam encobertos pelas sombras; no entanto, um par de olhos cintilantes reluzia surpreendentemente no fulgor lúgubre.

— Quem vem aí? — exigiu o guerreiro, apresentando sua lança. — Quem é você?

O estranho não pareceu se perturbar, apesar da ponta da lança tocar seu peito. Seus olhos contemplavam o guerreiro com uma intensidade estranha.

— O que você é obrigado a fazer? — ele perguntou estranhamente.

— Guardar o portão! — o guerreiro respondeu de forma áspera e mecânica. Permanecia rígido como uma estátua, seus olhos enevoando devagar.

— Você mente! Sua obrigação é me obedecer! Você olhou nos meus olhos, e sua alma não lhe pertence mais. Abra a porta!

Rigidamente, com as feições de madeira de uma imagem, o guarda virou-se, tirou uma grande chave do cinturão, enfiou-a na fechadura maciça e abriu a porta. Então, ele ficou de prontidão, seu olhar que nada via encarando direto para a frente.

Uma mulher saiu das sombras, e pousou uma mão ávida sobre o braço do hipnotizador.

— Peça que ele nos apanhe cavalos, Khemsa — ela sussurrou.

— Não há necessidade disso — foi a resposta. Erguendo um pouco a voz, ele disse ao guarda: — Você não tem mais utilidade para mim. Mate-se!

Como um homem em transe, o guerreiro enfiou o cabo da lança contra a base da parede e colocou a ponta contra seu corpo, logo abaixo das costelas. Então, bem devagar e tranqüilo, inclinou-se sobre ela, soltando o peso, de forma que ela transfixou seu corpo e saiu entre os ombros. Deslizando pela ponta, ele ficou imóvel, a lança projetando acima dele em toda sua extensão, como um horrível caule crescendo de suas costas.

A garota olhou para ele com fascinação mórbida, até que Khemsa pegou seu braço e a levou pelo portão. Tochas iluminavam o estreito espaço entre a parede exterior e outra interna, menor, na qual havia portas arqueadas em intervalos regulares. Um guerreiro patrulhava esse recinto e, quando o portão se abriu, ele veio deambulando em sua direção, tão seguro de seu conhecimento na força da prisão que não suspeitou de nada, até que Khemsa e a garota surgiram de dentro do arco. Mas já era tarde demais. O feiticeiro não perdeu tempo com hipnotismo, embora qualquer ação sua tivesse sabor de mágica para a garota. A sentinela abaixou a lança ameaçadoramente, abrindo a boca para dar o alarme que traria um enxame de lanceiros saídos dos dormitórios da guarda de ambos os lados da viela. Khemsa despedaçou a lança com a mão esquerda, como um homem o faria com um graveto, e sua mão direita investiu como um raio para a frente e retornou, parecendo ter acariciado, de maneira gentil, o pescoço do guerreiro em sua passagem. E o rosto do guarda escureceu sem um som, sua cabeça pendurada em um pescoço quebrado.

Khemsa não olhou para ele, mas seguiu reto para uma das portas arqueadas e colocou a mão aberta sobre a pesada tranca de bronze. Com um arrepio dilacerador, o portal dobrou-se para dentro. Observando atenta, a garota viu a grossa teca estourar em lascas, os trincos de bronze serem dobrados e retorcidos de seus soquetes, e as grandes dobradiças se partirem e desarticularem. Um aríete de 450 kg, com quarenta homens manuseando-o, não poderia ter destroçado a barreira tão completamente. Khemsa estava embebido em sua liberdade e com o exercício do poder, glorificado em potência e lançando sua força, como um gigante jovem exercita os músculos com vigor desnecessário, num orgulho exultante de suas proezas.

A porta quebrada os levou a um pequeno pátio, iluminado por uma lamparina. De frente para a porta, havia uma larga grade com barras de ferro. Uma mão peluda estava visível, agarrada às barras e, nas trevas atrás delas, olhos chispavam.

Khemsa permaneceu quieto por um tempo, fitando as sombras através das quais aqueles olhos lhe devolviam o olhar com intenso ardor. Então, sua mão mergulhou no manto e emergiu, e de seus dedos abertos um punhado de pó brilhante foi derramado no pavilhão. No mesmo instante, uma flama verdejante iluminou o recinto. Em um breve vislumbre, as formas dos sete homens, permanecendo imóveis atrás das barras, foram retratadas com vívidos detalhes. Homens altos e peludos, em vestes de montanheses rasgadas. Eles não falaram, mas em seu rosto estava estampado o medo da morte, e os dedos apertaram-se contra as grades.

O fogo morreu, porém o brilho permaneceu — uma bola trêmula de um verde suave que pulsava e emitia uma luz difusa no pavilhão diante dos pés de Khemsa. O olhar espantado dos prisioneiros estava fixo nela. Ela vacilou e diluiu-se, virando uma fumaça jade num espiral ascendente que se retorceu como uma serpente feita de sombra, então alargou-se e subiu, em dobras e giros brilhantes. Tornou-se uma nuvem movendo-se em silêncio por sobre o pátio, direto na direção das grades. Os homens assistiram à sua vinda com os olhos dilatados; as barras tremiam com o aperto dos dedos desesperados. Lábios barbados se abriram, mas nenhum som foi emitido. A nuvem verde rolou pelas barras e bloqueou a visão deles; como uma bruma, ela se derramou pela cela e escondeu os homens dentro de si. Dos invólucros cercados, partiu um engasgo estrangulado, como um homem repentinamente mergulhado sob as águas. Isso foi tudo.

Khemsa tocou os braços da garota, enquanto ela permanecia boquiaberta e com os olhos dilatados. Sem pestanejar, ela fez meia-volta e o seguiu, olhando por cima dos ombros. A névoa já estava se dissipando; próximo às barras, a garota viu um par de pés calçados, os dedos virados para cima, e entreviu os contornos indistintos de sete formas prostradas e inertes.

— E agora, vamos para uma montaria mais veloz do que o mais rápido cavalo que já respirou num estábulo mortal — Khemsa disse. — Estaremos no Afghulistão antes do amanhecer.


4) Um Encontro na Passagem

A DEVI YASMINA NUNCA CONSEGUIU SE LEMBRAR COM CLAREZA dos detalhes de seu rapto. A violência e o inesperado a aturdiram; ela tinha apenas uma impressão confusa de um turbilhão de acontecimentos. O aperto aterrorizante de um braço poderoso, os olhos ardentes de seu seqüestrador, e seu hálito quente sobre sua pele. O salto da janela pelo parapeito, a corrida insana sobre ameias e telhados, quando o medo de cair a congelou, e a descida imprudente por uma corda atada a um merlão; ele a desceu quase de uma só vez, sua cativa dobrada flacidamente sobre seu ombro musculoso. Tudo isso era um emaranhado confuso na mente dela. Yasmina retinha uma memória mais vívida dele correndo em fuga sob as sombras das árvores, carregando-a como uma criança, e montando na sela de um feroz garanhão bhalkhano, que empinou e bufou. Então, a sensação de voar, e os cascos a galope estavam tirando faíscas da estrada pedregosa quando o animal subiu as colinas.

À medida que a mente da mulher clareava, suas primeiras sensações foram de ira furiosa e vergonha. Estava horrorizada. Os governadores dos reinos dourados ao sul dos Himelianos eram considerados pouco abaixo do Divino, e ela era a Divina de Vendhya! O medo foi substituído por ódio régio. Ela gritou com fúria e começou a se debater. Ela, Yasmina, carregada no arco da sela de um chefe das colinas como uma vagabunda comum do mercado. Conan apertou um pouco seus músculos maciços contra as contorções e, pela primeira vez na vida, ela experimentou a coerção de uma força física superior. Os braços dele em volta de si davam uma sensação de ferro apertando. O montanhês deu uma olhadela para Yasmina, e sorriu largamente. Os dentes brilharam brancos sob as estrelas. As rédeas estavam soltas no fluir do garanhão, e cada fibra e músculo da grande besta se contraíam ao que ela se arremessava pela trilha pedregosa. Mas Conan sentava-se na sela com facilidade, quase sem preocupação alguma, como um centauro.

— Seu cão das colinas! — ela resfolegou, tremendo com o impacto da vergonha, raiva, e com a percepção do quanto estava indefesa. — Você se atreve... Você se atreve! Pagará por isso com a vida! Aonde está me levando?

— Para as aldeias do Afghulistão — ele respondeu, olhando rapidamente por sobre o ombro.

Atrás deles, além das colinas que tinham atravessado, tochas estavam sendo agitadas nas paredes da fortaleza, e ele viu um alargamento de luz que indicava que o grande portão tinha sido aberto. E gargalhou, com uma explosão vinda do fundo da garganta, tempestuosa como o vento da colina.

— O governador enviou seus cavaleiros atrás de nós — ele riu. — Por Crom, iremos levá-lo a uma alegre caçada! O que você acha, Divina? Eles pagarão sete vidas pela de uma princesa kshatriya?

— Eles enviarão um exército para enforcá-lo e à sua corja de demônios — prometeu com convicção.

Ele riu e a mudou para uma posição mais confortável em seus braços. Mas ela tomou isso como um novo ultraje, e renovou sua vã batalha, até perceber que aqueles esforços o estavam divertindo. Fora isso, suas vestes leves de seda, flutuando ao vento, estavam sendo ultrajadamente desarrumadas por seus movimentos. Ela concluiu que uma submissão que não lhe trazia prazer era o melhor da dignidade que poderia ter, e colapsou em uma aquiescência abrasante.

Até mesmo sua raiva, ela sentiu submergir para temor, quando eles entraram pela boca da Passagem, que surgia como uma boca negra nas paredes escuras que se erguiam como colossais baluartes para barrar seu caminho. Era como se uma faca gigante tivesse cortado as paredes de Zhaibar direto da rocha sólida. De ambos os lados, rochedos íngremes se lançavam em milhares de metros, e a boca da Passagem era escura como o ódio. Até Conan não conseguia enxergar com precisão, mas conhecia o caminho, mesmo à noite. E, sabendo que homens armados estavam galopando atrás deles, não diminuiu a velocidade do garanhão. O grande bruto ainda não demonstrava fadiga. Conan trovejou ao longo da estrada que seguia o leito do vale, subiu por uma inclinação, passou ao longo de uma crista baixa, onde, de ambos os lados, argila traiçoeira aguardava pelos desavisados, e desembocou na trilha que acompanhava a curva do lado esquerdo da parede.

Nem mesmo Conan poderia perceber uma emboscada, naquela escuridão, armada pelos homens da tribo Zhaibar. Quando passaram pela entrada negra para uma garganta que se abria dentro da Passagem, uma lança açoitou o ar e atingiu o alvo atrás do ombro tenso do garanhão. A grande besta abandonou a vida em um estremecedor soluço e tombou, caindo de cabeça no meio do galope. Mas Conan reconhecera o vôo e o ataque da lança, e agiu com a rapidez de uma mola de aço.

Quando o cavalo caiu, ele saltou da sela, segurando a garota no alto para protegê-la do choque com os pedregulhos. Colocou-se de pé como um gato, apoiou-a em uma fissura na pedra, e virou-se em direção às trevas exteriores, sacando sua faca.

Yasmina, confusa pela velocidade dos eventos, e incerta sobre o que tinha acabado de acontecer, viu uma vaga forma sair da escuridão, pés descalços pisando suave sobre as rochas, roupas esfarrapadas açoitando no vento criado por sua pressa. Ela vislumbrou o brilho do aço, escutou o estalido veloz de um golpe, defesa e contragolpe, e o ruído de ossos quando a longa faca de Conan partiu o crânio do outro.

O bruto recuou, agachando-se abrigado pelas rochas. Lá fora, na noite, homens moviam-se e uma voz forte ao extremo rugiu:

— E então, cães! Vocês recuam? Amaldiçoados sejam todos. Peguem todos!

Conan parou, espiou das trevas e levantou a voz.

— Yar Afzal! É você?

Houve um momento de pausa repentina e, por precaução, a voz chamou:

— Conan? É você, Conan?

— Sim! — o cimério riu. — Venha para cá, seu velho cão de guerra. Acabo de matar um de seus homens.

Houve movimento entre as rochas, uma luz brilhou debilmente, e então uma chama apareceu e veio sacudindo na direção dele, e conforme ela se aproximava, um feroz rosto barbado se avolumou nas trevas. O homem que a carregava a segurava no alto, apontada para cima, e esticou o pescoço para enxergar entre as pedras que ela iluminava; a outra mão apertava uma grande tulwar curva. Conan deu um passo à frente, embainhando a faca, e o outro rugiu uma saudação.

— Sim; é Conan! Saiam das rochas, cães. É Conan!

Outros se juntaram ao vacilante círculo de luz, homens selvagens, barbados, esfarrapados, com olhos como lobos e lâminas compridas em seus punhos. Eles não viram Yasmina, escondida atrás do corpo maciço de Conan. Mas, espiando detrás de sua cobertura, sentiu um medo congelante pela primeira vez na vida. Esses homens eram mais lupinos que os próprios lobos.

— O que você está caçando em Zhaibar à noite, Yar Afzal? — perguntou Conan ao chefe corpulento, que sorriu como um vampiro barbudo.

— Quem sabe o que pode atravessar a Passagem após a escuridão chegar? Nós, wazulis, somos falcões da noite. Mas, e quanto a você, Conan?

— Tenho uma prisioneira — respondeu o cimério. E, movendo-se para o lado, revelou a garota. Esticando o braço comprido para dentro da fissura, ele a trouxe para fora.

Sua postura imperial desaparecera. Yasmina, tímida, olhou para o círculo de rostos barbados que a cercavam e sentiu-se grata pelo braço forte que a segurava firme. A tocha foi aproximada dela, e houve uma ingestão de sucção do ar em torno do círculo.

— Ela é minha prisioneira — Conan avisou, dirigindo um olhar penetrante para o homem que acabara de matar, visível dentro do círculo de luz. — Eu a estava levando ao Afghulistão, mas agora vocês mataram meu cavalo e os kshatriyas estão próximos, me perseguindo.

— Venha conosco para a vila — sugeriu Yar Afzal. — Temos cavalos escondidos na garganta. Eles jamais poderão nos seguir à noite. Estão bem próximos, você diz?

— Tão próximos que consigo escutar agora o tilintar de seus cascos contra as pedras — respondeu Conan severamente.

No mesmo instante, houve movimento; a tocha foi apagada e as formas esfarrapadas se misturaram às trevas como fantasmas. Conan trouxe a Devi para sob seus braços com um movimento circular, e ela não resistiu. O chão pedregoso machucava seus pés magros, calçados com aqueles chinelos macios; e ela se sentia pequena e indefesa na negritude bruta e primordial, entre aqueles penhascos colossais à noite.

Sentindo-a tremer por causa do vento que soprava pelos desfiladeiros, Conan arrancou um manto dos ombros de seu proprietário e o enrolou em torno dela. Também sibilou um aviso em seus ouvidos, ordenando-lhe que não fizesse som algum. Yasmina não escutava o distante tinir dos cascos ferrados na rocha que alertou os montanheses de ouvidos afiados; entretanto, estava de qualquer maneira assustada demais para desobedecer.

Ela não conseguia ver nada, além de algumas estrelas débeis acima; mas percebeu, pela profundidade das trevas, quando entraram pela boca da garganta. Havia um rebuliço em torno deles, o movimento intranqüilo de cavalos.

Algumas palavras murmuradas, e Conan montou no cavalo do homem que matara, erguendo a garota e postando-a na sua frente. Como fantasmas, exceto pelo barulho dos cascos, o bando deixou a garganta sombria. Atrás deles, na trilha, deixaram o homem e o cavalo mortos, os quais foram encontrados menos de meia hora depois pelos cavaleiros da fortaleza, os quais reconheceram o homem como um wazuli e tiraram suas próprias conclusões, de acordo com o que viram.

Yasmina aconchegou-se calorosamente nos braços de seu captor, ficando sonolenta apesar de tudo. O movimento do cavalo, embora fosse assimétrico, colina acima e abaixo, ainda possuía certo ritmo que, combinado com o desgaste e a exaustão emocional, forçavam o sono sobre si. Ela tinha perdido todo senso de tempo e direção. Eles se moviam nas trevas densas, nas quais a garota às vezes vislumbrava, sem muita precisão gigantescas paredes apontadas para o alto como muralhas negras, ou enormes rochedos segurando as estrelas em seus ombros. Ela sentia profundidades ecoando abaixo deles, ou o vento frio das alturas vertiginosas ao seu redor. Aos poucos, essas coisas evanesceram num estado de torpor, no qual o barulho dos cascos e o ranger das selas eram como os sons irrelevantes de um sonho.

Ela estava vagamente consciente, quando o movimento cessou e seu corpo foi descido e carregado por algumas passadas. Depois, foi deitada em algo macio e embolorado, e alguma coisa — um casaco dobrado, talvez — foi colocada sob sua cabeça, e o manto no qual havia sido enrolada foi usado para cobri-la com cuidado. Ela escutou Yar Afzal rir.

— Um prêmio raro, Conan; feita na medida para um chefe dos afghulis.

— Não para mim — foi a resposta trovejante de Conan. — Esta donzela irá comprar a vida dos meus sete homens, salvar suas almas.

Foi a última coisa que escutou, antes de afundar em um sono sem sonhos. Ela dormiu, enquanto homens armados cavalgavam pelas colinas escuras e o destino dos reinos estava na balança. Pelas gargantas e desfiladeiros sombrios naquela noite, ouviu-se os cascos de cavalos a galope, e a luz das estrelas reluzia nos capacetes e em suas lâminas curvas, até que as formas macabras que assombram os penhascos olharam por entre as trevas a partir das ravinas e pedregulhos, e se perguntaram quais eventos estavam em andamento.

Um bando desses parou seus cavalos magros na boca negra de uma garganta, enquanto por eles passavam os cascos apressados. Seu líder, um homem de estrutura forte, usando capacete e um manto dourado trançado, ergueu a mão em aviso, até que os cavaleiros tivessem passado. Então, deu um sorriso suave.

— Eles devem ter perdido a trilha! Ou então, descobriram que Conan já chegou às vilas afghulis. Será preciso muitos cavaleiros para esfumaçar aquela colméia. Haverá esquadrões cavalgando até Zhaibar ao amanhecer.

— Se houver luta nas colinas, haverá pilhagem — murmurou uma voz atrás dele, no dialeto dos irakzai.

— Haverá pilhagem — respondeu o homem de capacete. — Mas primeiro, é nossa tarefa chegar ao vale de Gurashah, e esperar pelos cavaleiros que virão galopando de Secunderam, antes da luz do dia.

Ele ergueu as rédeas e cavalgou pelo desfiladeiro, seus homens seguindo-o de perto — trinta fantasmas grosseiros na calada da noite.


5) O Garanhão Negro

O SOL JÁ ESTAVA ALTO, QUANDO YASMINA ACORDOU. ELA NÃO ficou atônita olhando para o vazio, perguntando-se onde estava. Despertou com plenas lembranças de tudo que tinha ocorrido. Seus membros flexíveis estavam duros por causa da longa cavalgada, e sua pele firme parecia sentir o contato do braço musculoso que a carregara para tão longe.

Ela estava deitada em uma pele de cordeiro sobre uma palheta de folhas no chão sujo e de terra batida. Um casaco dobrado estava sob sua cabeça, e ela tinha sido enrolada num manto rasgado. A sala onde estava era ampla, as paredes rudes, porém fortes, feitas de rocha sem cortes, engessadas por lama cozida pelo sol. Toras pesadas apoiavam o teto do mesmo tipo, no qual havia um alçapão que levava a uma escada. Não existiam janelas nas paredes grossas, apenas fendas. Havia uma porta, robusta, feita de bronze, que devia ter sido pilhada de alguma torre na fronteira de Vendhya. Em frente, existia uma grande abertura na parede, sem portas, mas com várias barras de madeira posicionadas. Além delas, Yasmina viu o magnífico garanhão negro mastigando uma pilha de grama seca. O prédio era um forte, moradia e estábulo, tudo em um só.

Na outra extremidade da sala, uma garota, agachada ao lado de um pequeno fogaréu, com colete e calças folgadas de montanhesa, assava tiras de carne em uma grade de ferro depositada sobre blocos de pedra. Havia uma fissura coberta de fuligem na parede a alguns pés do chão, e parte da fumaça saía por ali. O resto flutuava em tufos azuis pela sala.

A garota olhou para Yasmina por cima do ombro, exibindo uma face bonita e audaz, e então continuou cozinhando. Vozes soaram do lado de fora; em seguida, a porta foi aberta e Conan entrou. Ele parecia maior do que nunca com a luz do sol matutina atrás de si, e Yasmina reparou em alguns detalhes que lhe escaparam na noite anterior. Suas vestes eram limpas, não esfarrapadas. O largo cinto bakhariot, que lhe sustentava a adaga em sua bainha ornamentada, estava à altura das túnicas de um príncipe, e havia o cintilar de uma fina malha turaniana sob sua camisa.

— Sua prisioneira está acordada, Conan — disse a garota wazuli, e ele grunhiu, foi até o fogo e varreu as tiras de carneiro, jogando-as em um prato de pedra.

A garota, de cócoras, riu dele, com alguma brincadeira apimentada, e o bárbaro sorriu como um lobo. E, enganchando um dedão sob as ancas dela, derrubou-a no chão. Ela pareceu se divertir muito com aquela brincadeira rude, mas ele não prestou mais atenção. Pegando um grande pedaço de pão de algum lugar, com um caneco de cobre de vinho, levou o quinhão até Yasmina, que se levantara de sua palheta e o estava examinando duvidosamente.

— Vulgar para a Divina, garota, mas é o melhor que temos — ele grunhiu. — Vai encher sua barriga, pelo menos.

Ele colocou o prato no solo, e ela de repente ficou ciente de uma fome avassaladora.

Sem dizer coisa alguma, sentou-se no chão com as pernas cruzadas e, colocando o prato no colo, começou a comer, usando os dedos, que eram tudo o que tinha como utensílio de mesa. Afinal, adaptabilidade é um dos testes da verdadeira aristocracia. Conan permaneceu olhando-a, seus polegares enganchados no cinturão. Ele nunca sentava com as pernas cruzadas, à maneira oriental.

— Onde estou? — ela perguntou com aspereza.

— Na vila de Yar Afzal, o chefe dos wazulis de Khurum — respondeu. — O Afghulistão está a algumas boas milhas longe a oeste. Iremos nos esconder aqui, por enquanto. Os kshatriyas estão fazendo batidas nas colinas atrás de você... vários dos esquadrões deles já foram expulsos pelas tribos.

— O que você vai fazer?

— Ficar com você, até que Chunder Shan esteja disposto a trocá-la por meus sete ladrões — ele explicou. — As mulheres dos wazuli estão fazendo tinta a partir de folhas de shoki, e daqui a pouco você poderá escrever uma carta para o governador.

Um toque de sua ira imperial a sacudiu, ao pensar no quão insanamente errado seus planos haviam saído, deixando-a cativa do próprio homem que ela planejava ter em seu poder. Jogou o prato no chão, com os restos de sua refeição e ficou em pé, tensa de raiva.

— Eu não escreverei carta alguma! Se você não me levar de volta, eles enforcarão seus sete homens e milhares depois deles!

Zombeteira, a garota wazuli riu. Conan fez cara feia, e então a porta se abriu e Yar Afzal entrou, pavoneando-se. O chefe dos wazuli era tão alto quanto Conan e com uma circunferência maior, mas ele parecia gordo e lento ao lado da bruta compacidade do cimério. Ele puxou sua barba manchada de vermelho e olhou significativamente para a garota wazuli, o que fez que ela se levantasse e debandasse do recinto sem demora. Então, Yar Afzal voltou-se para seu convidado.

— O maldito povo murmura, Conan — disse ele. — Eles querem que eu o mate e pegue a garota, para pedir um resgate. Dizem que qualquer um pode perceber, pelas vestes dela, que se trata de uma nobre. Perguntam por qual motivo eu deveria deixar os cães do Afghulistão lucrarem com ela, quando somos nós quem nos arriscamos, sendo seus guardiões.

— Empreste-me seu cavalo — respondeu Conan. — Eu a pegarei e partirei.

— Recuso-me! — explodiu Yar Afzal. — Você acha que não sei lidar com meu próprio povo? Eu os farei dançar só de camiseta se me desrespeitarem! Eles não gostam de você, nem de qualquer outro estrangeiro, mas você salvou minha vida certa vez, e não me esquecerei disso. Contudo, vamos sair, Conan. Um batedor retornou.

Conan segurou em seu cinturão e seguiu o homem até o lado de fora. Fecharam a porta atrás deles, e Yasmina espiou por um buraco na parede. Ela olhava para fora, um espaço nivelado à cabana. No ponto mais distante, havia um aglomerado de choupanas de lama e pedra, e ela viu crianças nuas brincando entre os pedregulhos e mulheres magras e eretas das colinas, desempenhando suas tarefas diárias.

Diretamente na frente dos chefes, havia um círculo de homens peludos e esfarrapados, de frente para a porta. Conan e Yar Afzal ficaram a alguns passos dela e, entre eles e o anel de guerreiros, outro homem estava sentado com as pernas cruzadas. Ele se dirigia ao seu chefe com o sotaque áspero dos wazuli, que Yasmina conseguia entender muito pouco, embora parte de sua educação real tivesse sido o ensino das línguas do Iranistão e das linguagens parentes do Ghulistão.

— Conversei com um dagozai, que viu os cavaleiros na noite passada — disse o batedor. — Ele estava espreitando, quando vieram ao ponto onde emboscamos lorde Conan. O dagozai escutou o discurso deles. Chunder Shan estava com eles. Encontraram o cavalo morto, e um dos homens o reconheceu como de Conan. Acharam o homem que foi morto e viram que era um wazuli. Pareceu a eles que Conan tinha sido morto e a garota levada pela tribo; então, desistiram de seu propósito de ir para o Afghulistão. Mas eles não sabem de qual vila o morto veio, e nós não deixamos trilha para os kshatriyas seguirem.

“Então, eles cavalgaram para a vila wazuli mais próxima, que é a vila de Jugra, e a queimaram e mataram diversas pessoas. Mas os homens de Khojur os interceptaram na escuridão, assassinaram alguns deles, e feriram o governador. Assim os sobreviventes voltaram para Zhaibar antes do dia raiar, mas retornaram com reforços na alvorada, e tem havido pelejas e combates por toda a manhã nas colinas. Foi dito que um grande exército está sendo levantado, para varrer toda a região em volta de Zhaibar. As tribos estão afiando suas lâminas e preparando emboscadas em todas as passagens, daqui até o vale Gurashah. Além disso, Kerim Shah voltou das colinas”.

Um grunhido passou ao redor do círculo, e Yasmina se inclinou mais próxima da abertura ao escutar o nome de quem estava começando a desconfiar.

— Para onde ele foi? — perguntou Yar Afzal.

— O dagozai não sabia; trinta irakzais das vilas mais baixas o acompanhavam. Eles cavalgaram para dentro das colinas e desapareceram.

— Esses irakzais são chacais que seguem um leão por causa de migalhas — rugiu Yar Afzal. — Eles devem estar lambendo as moedas que Kerim Shah espalha entre as tribos da fronteira, para comprar homens como se fossem cavalos. Não gosto dele, apesar dele ser um irmão do Iranistão.

— Ele nem sequer é isso — disse Conan. — Eu o conheço de antigamente. É um hirkaniano, espião de Yezdigerd. Se o apanhar, pendurarei sua pele em uma tamargueira.

— Mas, e os kshatriyas! — clamaram os homens no semicírculo. — Devemos ficar de quatro até que eles nos defumem? Logo irão descobrir em qual vila wazuli a donzela está cativa. Nós não somos amados pelos zhaibari; eles ajudarão os kshatriyas a acabarem conosco.

— Que venham — grunhiu Yar Afzal. — Nós podemos defender o desfiladeiro contra uma tropa.

Um dos homens saltou e balançou seu punho para Conan.

— Devemos nos arriscar enquanto ele fica com todas as recompensas? — uivou. — Lutaremos suas batalhas no lugar dele?

Com um passo, Conan o alcançou e se curvou um pouco, para encarar bem de frente o rosto peludo dele. O cimério não havia sacado sua longa faca, mas a mão esquerda segurava a bainha, apontando o cabo sugestivamente para a frente.

— Não peço que homem algum lute minhas batalhas — disse com suavidade. — Saque sua lâmina se ousar, cão lamuriento!

O wazuli recuou, rosnando como um gato.

— Se ousar me tocar, cinqüenta homens irão fazê-lo em pedaços — guinchou.

— O quê? — rugiu Yar Afzal, com a face vermelha de raiva. Os bigodes eriçaram e a barriga inchou por causa de sua fúria. — Você é o chefe de Khurum? Os wazulis recebem ordens de Yar Afzal, ou de um vira-lata inferior?

O homem encolheu-se de medo de seu invencível chefe, e Yar Afzal, indo até ele, apanhou-o pela garganta e o esganou até que seu rosto ficasse roxo. Em seguida, arremessou o homem, de maneira selvagem, contra o chão e ficou sobre ele, com o tulwar na mão.

— Há mais alguém que questione minha autoridade? — ele berrou, e os guerreiros olharam para baixo, rabugentos, enquanto seu olhar belicoso varria o semicírculo. Yar Afzal grunhiu carrancudo e embainhou sua arma, com um gesto que era o ápice do insulto. Então, chutou o agitador caído com uma vendeta concentrada, que arrancou gritos da vítima.

— Desça o vale até os vigias e traga notícias, se eles avistarem algo — mandou o líder, e o homem obedeceu, tremendo de medo e pressionando os dentes com fúria.

Yar Afzal sentou-se em uma pedra, ponderando, resmungando por trás de sua barba. Conan ficou próximo a ele, com as pernas separadas e os dedões enganchados no cinturão, olhando com atenção os guerreiros agregados. Eles o encaravam com expressões pouco cordiais, sem ousar atiçar de novo a ira de Yar Afzal, mas odiando o estrangeiro como só um homem das colinas é capaz.

— Agora me escutem, seus filhos de cães sem-nome, enquanto lhes contarei o que lorde Conan e eu planejamos para enganar os kshatriyas. — A estrondosa voz taurina de Yar Afzal seguia o atordoado guerreiro, à medida que ele se afastava da assembléia.

O homem passou pelo aglomerado de cabanas, onde mulheres que tinham visto sua humilhação riram e fizeram comentários mordazes, e desceu, com pressa, ao longo da trilha que cortava picos e rochas, em direção ao vale à frente.

No momento em que contornava a primeira curva que o tirava por completo da vista do vilarejo, ele parou, estupefato, gaguejando estupidamente. Não acreditava na possibilidade de um estrangeiro entrar no vale de Khurum sem ser detectado pelo olhar de falcão dos vigias em cima dos picos; contudo, ainda assim, um homem sentava-se com as pernas cruzadas em uma baixa saliência ao lado do caminho — um homem com um turbante verde e um manto de pele de camelo.

A boca do wazuli abriu-se para gritar, e sua mão correu para o cabo da faca. Mas, no instante em que seus olhos se encontraram com os do estranho, o grito morreu na garganta e os dedos ficaram flácidos. Ele ficou como uma estátua, com os próprios olhos vidrados e vazios.

Por minutos, a cena manteve-se inerte; o homem na saliência desenhou um símbolo críptico no pó sobre a rocha com o dedo indicador. O wazuli não o viu colocar coisa alguma dentro do círculo daquele emblema, mas logo algo brilhou lá: uma esfera negra que reluzia mais do que jade polido. O homem do turbante verde a segurou e jogou para o wazuli, que a apanhou.

— Leve isto para Yar Afzal — ele disse, e o homem virou-se como um autômato e voltou pelo caminho, segurando a esfera em sua palma aberta. Ele sequer virou a cabeça para as novas zombarias das mulheres, quando passou em frente às cabanas. Era como se não as escutasse.

O homem na saliência observou-o desaparecer, com um sorriso sinistro. A cabeça de uma garota surgiu detrás do rebordo da saliência, olhando para ele com admiração, e uma pitada de medo que não existia antes da noite anterior.

— Por que você fez isso? — ela indagou.

Ele correu os dedos pelos cachos escuros dela, acariciando-os.

— Você ainda está atordoada por causa de seu vôo no cavalo, para duvidar de minha sabedoria? — ele riu. — Enquanto Yar Afzal viver, Conan residirá em segurança junto com os guerreiros wazulis. Suas facas são afiadas, e há muitos deles. Meu plano será mais seguro, até mesmo para mim, do que tentar destruí-los e arrancá-la das mãos dele. Não precisa ser mago para prever o que os wazulis farão, e o que Conan fará, quando minha vítima entregar o globo de Yezud para o chefe de Khurum.

De volta à frente da cabana, Yar Afzal parou no meio de seu discurso, surpreso e descontente ao ver o homem que enviara para o vale abrir caminho em meio à multidão.

— Eu mandei você falar com os vigias! — o chefe retumbou. — Você não teve tempo ainda de ter vindo de lá.

O outro não respondeu. Permaneceu estático, com o olhar vidrado para o rosto do chefe e com a palma estendida segurando a esfera de jade. Conan olhou por cima do ombro de Yar Afzal, murmurou algo e estendeu o braço para tocar o ombro do chefe; mas assim que o fez, num paroxismo de raiva, Yar Afzal acertou o mensageiro com seu punho cerrado e o abateu como um boi. Quando ele caiu, a esfera rolou até o pé de Yar Afzal, e o chefe, parecendo vê-la pela primeira vez, abaixou-se e a apanhou. Os homens olharam perplexos para seu compatriota desacordado e viram o chefe curvar-se, mas não o que ele pegou do chão.

Yar Afzal endireitou-se, olhou para o jade, e fez um movimento para enfiá-lo no cinturão.

— Levem este idiota até sua cabana — grunhiu. — Ele está com o olhar de um viciado em lótus; devolveu-me um olhar em branco. Eu... Aie!

Em sua mão direita, movendo-se em direção à cintura, ele sentiu um repentino movimento onde não deveria existir. Sua voz morreu, e ele ficou olhando para o nada; e, dentro de sua mão direita crispada, sentiu a palpitação de mudança, de movimento, de vida. Yar Afzal não segurava mais uma esfera brilhante e macia entre os dedos. E não ousava olhar; sua língua cravou-se no céu da boca, e não conseguia abrir a mão. Os guerreiros, pasmos, viram os olhos de Yar Afzal se distenderem e a cor vazar de seu rosto. De súbito, um grito de agonia explodiu daqueles lábios barbados. Ele titubeou e caiu como se tivesse sido acertado por um raio, com o braço direito debatendo-se à sua frente. Permaneceu com o rosto virado para baixo, e de dentro de seus dedos abertos uma aranha rastejou para fora. Um monstro hediondo, preto, de pernas peludas, cujo corpo brilhava como jade negro. Os homens gritaram e recuaram amedrontados, e a criatura entrou em uma fissura entre as rochas e desapareceu.

Os guerreiros estancaram, olhando enlouquecidos, e uma voz ergueu-se acima de seu clamor. Uma voz de comando transportada de longe, vinda ninguém sabe ao certo de onde. Afinal, todos os homens ali, que ainda viviam, negaram ter gritado, ainda que todos a tenham escutado.

— Yar Afzal está morto! Matem o forasteiro!

Aquele grito focou a mente turbulenta deles em uma só. Dúvida, perplexidade e medo desapareceram no impulso desordenado de sede de sangue. Os guerreiros responderam instantaneamente à sugestão, com um grito furioso que dilacerou os céus. Eles vieram de cabeça erguida, cruzando o espaço vazio, mantos esvoaçando, olhos queimando e facas erguidas.

A atitude de Conan foi tão rápida quanto a deles. Assim que a voz gritou, ele correu para a porta da cabana. Mas eles estavam mais próximos dele, do que ele dela. E, com um pé na soleira, foi obrigado a se virar e bloquear o ataque de uma longa lâmina. Partiu a cabeça do homem em duas, livrou-se de outra faca rasgando o ar e desentranhou o atacante, nocauteou um homem com o punho esquerdo e apunhalou outro na barriga, e bateu poderosamente na porta usando os ombros. Lâminas afiadas arrancaram lascas pontiagudas das ombreiras próximas de seus ouvidos, mas a porta abriu com a colisão, e ele entrou na sala cambaleando. Um barbado homem da tribo, estocando com toda a fúria no instante em que Conan recuava, alcançou a porta e saltou de cabeça para dentro. O bárbaro parou, puxou suas vestes folgadas e arrancou-o da frente, para bater a porta na cara dos homens que surgiam diante dela. Ossos trituraram sob o impacto e, no instante seguinte, Conan colocou os trincos no lugar e virou-se com inacreditável velocidade para encarar o que havia sido atirado no chão, e agora partia para a ação como se estivesse enlouquecido.

Yasmina encolheu-se em um canto, assistindo horrorizada aos dois homens lutarem para a frente e para trás ao longo da sala, quase pisoteando-a algumas vezes. O clarão e o clangor de suas lâminas preenchia o recinto e, lá fora, a massa gritava como uma matilha de lobos, arranhando ensurdecedoramente a porta de bronze com suas lâminas e arremessando pedras enormes contra ela. Alguém agarrou o tronco de uma árvore e a porta começou a tremer ante o ataque trovejante. Yasmina tapou os ouvidos, olhando amedrontada. Violência e fúria do lado de dentro, loucura cataclísmica lá fora. O garanhão em seu estábulo relinchava e empinava, batendo nas paredes com as patas. Ele deu meia-volta e arremessou seus cascos contra as barras de madeira, ao mesmo tempo em que o montanhês, recuando dos golpes assassinos do cimério, encostou nelas. Sua espinha quebrou-se em três pontos como um galho podre, e ele foi arremessado de cabeça contra o bárbaro, fazendo-o recuar de forma que ambos caíram no chão de terra batida.

Yasmina gritou e correu para a frente. Aos seus olhos atordoados, parecia que ambos tinham sido mortos. Ela os alcançou no instante em que Conan jogava o cadáver para o lado e se levantava. Ela agarrou o braço dele, tremendo da cabeça aos pés.

— Oh, você está vivo! Eu pensei... Pensei que tivesse morrido!

Ele olhou rápido para aquele rosto pálido voltado para o alto e para os olhos escuros arregalados dela, encarando-o.

— Por que está tremendo? — ele perguntou. — Por que você se importa se eu vivo ou morro?

Um vestígio de sua pose retornou, e Yasmina se afastou, fazendo uma tentativa fútil de bancar a Divina.

— Você é preferível a esses lobos uivando lá fora — respondeu, apontando para a porta, cujos batentes de pedra começavam a se partir.

— Isso não vai agüentar muito tempo — ele resmungou, então, virou e foi logo até o estábulo do garanhão.

Yasmina apertou os punhos e prendeu o fôlego, quando o viu arrancar as barras quebradas e entrar no estábulo com a besta enfurecida. O garanhão empinou diante dele, relinchando de maneira assustadora, com os cascos erguidos, olhos e dentes à mostra, e as orelhas viradas para trás, mas Conan saltou e segurou em sua crina, com uma amostra de pura força que parecia impossível, e trouxe o animal para baixo, apoiando-o nas pernas dianteiras. O garanhão roncou e estremeceu, porém permaneceu quieto enquanto o homem lhe colocava os arreios e uma sela de enfeites dourados, com estribos de prata.

Virando o cavalo dentro do estábulo, Conan chamou Yasmina, que veio nervosa andando de lado ao passar pela besta. O bárbaro estava mexendo na parede de pedra, falando acelerado enquanto trabalhava.

— Há uma porta secreta na parede aqui, que nem mesmo os wazulis conhecem. Yar Afzal mostrou-a certa vez, quando estava bêbado. Ela se abre para a boca da ravina, atrás da cabana. Ah!

Ao tocar em uma projeção que parecia casual, uma seção inteira da parede deslizou para o lado em trilhos de ferro lubrificados. Olhando por ela, a garota viu um estreito desfiladeiro, abrindo para um rochedo de pedra lisa alguns passos adentro da parede traseira da cabana. Conan montou na sela e puxou-a para cima, colocando-a diante dele. Atrás deles, a grande porta grunhiu como se fosse algo vivo e arrebentou para dentro, e um brado preencheu toda a sala quando a entrada foi, no mesmo instante, inundada por rostos barbados e facas pontiagudas. E, então, o esplêndido garanhão passou pela parede como uma lança numa catapulta, e trovejou pelo desfiladeiro, a galope; espuma voou dos anéis em sua boca.

Aquele movimento veio como uma surpresa absoluta para os wazulis. Também foi surpreendente para aqueles que espreitavam na ravina. Aconteceu tão rápido o assalto do grande cavalo, que se pareceu com um furacão; um homem vestindo um turbante verde foi incapaz de sair do caminho. Ele caiu sob os cascos frenéticos, e uma garota gritou. Conan obteve um vislumbre dela enquanto passavam — uma moça magra e escura, trajando calças de seda e uma bandagem cravejada que cobria os seios, apertando-se contra a parede da ravina. O corcel negro e seus ocupantes desapareceram na garganta como uma nuvem de poeira soprada por uma tempestade, e os homens que vieram aos atropelos pelas paredes atrás deles, ao longo do desfiladeiro, chegaram lá com uma mudança de seus berros de sede de sangue para estridentes gritos de medo e morte.


6) A Montanha dos Profetas Negros

— PARA ONDE AGORA? — Yasmina estava tentando sentar-se ereta no arco da sela, aninhando-se ao seu captor. Ela experimentava um reconhecimento de vergonha, por não achar desagradável a sensação da carne firme dele sob seus dedos.

— Para o Afghulistão — ele respondeu. — É uma estrada perigosa, mas o garanhão nos levará facilmente, a não ser que encontremos alguns dos seus amigos, ou meus inimigos tribais. Agora que Yar Afzal está morto, aqueles malditos wazulis estarão em nosso encalço. Estou surpreso que ainda não os avistemos atrás de nós.

— Quem era aquele homem que você atropelou? — perguntou.

— Não sei. Nunca o tinha visto antes. Com certeza não é ghuli. Que diabos estava fazendo ali, é mais do que posso dizer. Havia uma garota com ele também.

— Sim — o olhar dela estava sombrio. — Não consigo entender isso. A garota é minha criada, Gitara. Você acredita que ela estava vindo em meu auxílio? Que o homem era seu amigo? Se assim for, os wazulis capturaram ambos.

— Bem — ele respondeu —, não há nada que possamos fazer. Se voltarmos, eles esfolarão ambos. Não consigo entender como uma garota daquelas poderia chegar tão longe nessas montanhas, com apenas um homem, e ele sendo um escolástico paramentado... ou ao menos é o que parecia. Há algo bizarro e infernal nisso tudo. Aquele homem, que Yar Afzal bateu e mandou embora, movia-se como quem caminha dormindo. Já vi os sacerdotes de Zamora fazerem seus rituais abomináveis nos templos proibidos, e suas vítimas tinham um olhar como o daquele homem. Os sacerdotes fitavam dentro de seus olhos e murmuravam encantos, e então as pessoas se tornavam mortos-vivos, com olhos vidrados, fazendo aquilo que lhes era ordenado.

“Também vi o que o homem trazia em sua mão, Yar Afzal apanhou do chão. Era como uma grande pérola de jade negro, parecida com as que as garotas do templo de Yezud usam quando dançam diante da aranha negra de pedra, que é seu deus. Yar Afzal a segurou na mão, e ele não pegou mais coisa alguma. Ainda assim, ao cair morto, uma aranha como o deus de Yezud, só que menor, saiu por entre os dedos dele.

“E então, enquanto os wazulis permaneciam ali incertos, uma voz gritou mandando-os me matar, e sei que ela não veio de nenhum dos guerreiros, nem das mulheres que assistiam a tudo das cabanas. Parecia ter vindo de cima”.

Yasmina não respondeu; olhou para os contornos afiados das montanhas que os cercavam e estremeceu. Sua alma se encolheu diante daquela desolada brutalidade. Aquela era uma terra nua e sombria, na qual qualquer coisa poderia acontecer. Antigas tradições investiam um horror arrepiante a qualquer um que tivesse nascido nas planícies quentes e luxuriantes do sul.

O sol estava alto, assolando com um calor feroz; entretanto, o vento que soprava em rajadas intermitentes parecia vir das colinas de gelo. Ela chegou a escutar um estranho ruído acima deles que não era o sopro do vento. E, pela forma como Conan olhou para cima, ela soube que aquele não era um som comum para ele também. A moça pensou que uma faixa do céu azul ficara borrada por alguns instantes, como se algum objeto invisível tivesse se colocado entre ele e sua visão, mas não podia dizer com certeza. Nem fez qualquer comentário, mas Conan afrouxou a faca em sua bainha.

Os dois seguiam por um caminho pouco delineado, mergulhando nas ravinas de um jeito tão profundo, que o sol parecia nunca chegar ao fundo, passando por encostas íngremes onde xisto solto ameaçava deslizar sob seus pés, e seguindo por cumes que eram como o fio de uma lâmina, com uma profunda névoa azul de ambos os lados.

O sol havia passado seu zênite, quando atravessaram uma trilha estreita entre as encostas. Conan virou o cavalo para o lado e seguiu na direção sul, indo quase perpendicular ao seu curso anterior.

— Uma vila galzai fica em uma extremidade desta trilha — ele explicou. — As mulheres daqui seguem-na até um poço, para pegar água. Você precisa de novas vestes.

Olhando para seu traje transparente, Yasmina concordou com ele. Os chinelos dourados que usava estavam em farrapos, os mantos de seda e as vestes de baixo rasgados em tiras, que mal se mantinham atadas decentemente. Roupas destinadas a ser usadas nas ruas de Peshkhauri não eram apropriadas para as colinas himelianas.

Chegando a uma curva na trilha, Conan desmontou, ajudou Yasmina a descer e esperou. Logo fez um sinal com a cabeça, apesar de ela nada ter escutado.

— Uma mulher subindo a trilha — ele mostrou. Em pânico repentino, ela agarrou o braço dele.

— Você não irá... Não irá matá-la?

— Eu não costumo matar mulheres — grunhiu ele —, embora algumas das mulheres das colinas sejam lobas. Não... — e sorriu como numa grande brincadeira. — Por Crom, vou pagar pelas roupas dela! Que tal isso? — ele mostrou um punhado de moedas de ouro e guardou todas, menos a maior. Yasmina suspirou, aliviada. Talvez fosse natural aos homens matar e morrer; mas sua pele se arrepiou ao pensamento de assistir à carnificina de uma mulher.

Pouco depois, uma mulher apareceu pela trilha, uma garota galzai alta e magra, ereta como um jovem rapaz, carregando uma grande cabaça vazia. Ela parou e a cabaça caiu de suas mãos quando os viu; ameaçou correr, e então percebeu que Conan estava próximo demais para lhe permitir escapar; portanto permaneceu quieta, de frente para eles, com uma expressão que era um misto de medo e curiosidade.

Conan mostrou a moeda de ouro.

— Se você der suas vestes a esta mulher — disse —, receberá este dinheiro.

A resposta foi imediata. A garota deu um amplo sorriso de surpresa e encanto e, com o desdém que só uma montanhesa tem por convenções hipócritas, de imediato arrancou o colete sem mangas bordado, abaixou as calças largas e pisou para fora delas, tirou a camisa com mangas e chutou as sandálias para longe. Juntando tudo em uma trouxa, ela a estendeu para Conan, que a entregou para a abismada Devi.

— Vá para trás daquelas pedras e vista isso — ordenou ele, provando que não era nenhum nativo das colinas. — Junte todos os seus mantos e os traga para mim, assim que sair.

— O dinheiro! — clamou a montanhesa, esticando as mãos com avidez. — O ouro que me prometeu!

Conan jogou a moeda e ela a pegou no ar, mordeu-a e a meteu no meio dos cabelos, abaixou e apanhou a cabaça, e seguiu seu caminho, tão despida de autoconsciência quanto de vestes. Conan aguardou com alguma impaciência enquanto a Devi, pela primeira vez em sua vida mimada, vestia a si mesma. Quando ela saiu de trás das rochas, o bárbaro praguejou surpreso, e Yasmina foi tomada por uma curiosa torrente de emoções diante da admiração não-refreada dos ardentes olhos azuis do bárbaro. Ela sentiu vergonha, embaraço e, no entanto, uma estimulação de vaidade que jamais havia vivenciado; e um formigamento, quando deu de encontro com o impacto dos olhos dele. Conan pousou uma mão pesada sobre o ombro dela e a girou, observando-a avidamente por todos os ângulos.

— Por Crom! — disse. — Naqueles mantos místicos e esfumados, você parecia gelada, indiferente e distante como uma estrela! Agora é uma mulher quente, de carne e sangue! Você foi para trás daquelas rochas como a Divina de Vendhya e saiu como uma montanhesa, embora mil vezes mais bela do que qualquer donzela de Zhaibar! Você era uma deusa, agora é de verdade!

Ele deu uma palmada ressonante nela, e ela, reconhecendo que se tratava apenas de outra expressão de admiração, não se sentiu ofendida. Foi de fato como se a mudança de suas vestimentas tivesse imprimido uma mudança em sua personalidade. Os sentimentos e sensações que ela reprimira surgiram para dominá-la agora, como se os mantos de rainha que havia tirado fossem grilhões e inibições materiais.

Porém, Conan, em sua admiração renovada, não se esqueceu do perigo que espreitava sobre eles. Quanto mais se afastassem da região de Zhaibar, menos provável era encontrarem tropas kshatriyas. Por outro lado, ele tinha tentado escutar por todo o caminho sons que lhe dissessem se os vingativos wazuli de Khurum estavam em seus calcanhares.

Colocou a Devi sobre a sela e subiu a seguir; e, outra vez, conduziu o garanhão para oeste. O fardo de vestes que ela lhe entregara, ele jogou do topo de um penhasco, para cair nas profundezas de uma garganta de trezentos metros.

— Por que fez isso? — ela perguntou. — Por que não as deu para a garota?

— Os cavaleiros de Peshkhauri estão passando um pente-fino nestas colinas — ele disse. — Eles serão emboscados e atacados a cada curva. E, como forma de represália, destruirão todas as vilas que puderem. Possa ser que venham para oeste a qualquer momento. Se encontrassem uma garota usando suas vestimentas, iriam torturá-la para que falasse, e ela poderia colocá-los na minha trilha.

— O que ela fará? — perguntou Yasmina.

— Voltará à sua vila e dirá ao povo que um estranho a atacou — respondeu. — Ela os colocará atrás de nós, tudo bem. Mas primeiro irá pegar água; se ousar voltar sem ela, vão arrancar sua pele. Isso nos dá uma longa vantagem. Jamais irão nos apanhar. Ao anoitecer, cruzaremos a fronteira para o Afghulistão.

— Não há caminhos ou sinais de habitações humanas nessas partes — ela comentou. — Até mesmo para os himelianos, o lugar parece singularmente deserto. Não vimos uma trilha, desde que deixamos aquela em que encontramos a mulher galzai.

Em resposta, Conan apontou para o nordeste, onde ela viu um pico em um entalhe nos rochedos.

— Yimsha — grunhiu Conan. — As tribos constroem suas vilas o mais distante possível destas montanhas.

De imediato ela ficou rígida pela atenção.

— Yimsha! — sussurrou. — A montanha dos Profetas Negros!

— É o que dizem — respondeu ele. — Este é o mais próximo que já cheguei. Fiz uma volta para o norte, para evitar quaisquer tropas kshatriyas que possam estar patrulhando estas colinas. A estrada regular de Khurum para o Afghulistão fica mais ao sul. Esta é uma rota mais antiga e usada com pouca freqüência.

Ela encarava os distantes picos com atenção. Suas unhas apertaram as palmas rosadas.

— Quanto tempo levaria para chegar até Yimsha deste ponto?

— Todo o resto do dia e também a noite inteira — ele respondeu e sorriu. — Você quer ir até lá? Por Crom, não é lugar para um ser humano comum, pelo que diz o povo da colina.

— Por que eles não se unem e destroem os demônios que a habitam? — indagou Yasmina.

— Aniquilar magos com espadas? Seja como for, eles jamais interferem na vida das pessoas, a não ser que elas interfiram na deles. Eu nunca os vi, mas já conversei com homens que juravam ter visto, e disseram que vislumbraram pessoas das torres entre os penhascos, ao amanhecer ou no pôr do sol. Homens altos e silenciosos, em vestes escuras.

— Você teria medo de atacá-los?

— Eu? — a idéia parecia uma novidade para ele. — Se me provocassem, seria minha vida pela deles. Mas não tenho nada a ver com eles. Vim até estas montanhas para formar um grupo de salteadores, não para guerrear contra bruxos.

Yasmina não respondeu. Olhou para o pico como se fosse um inimigo humano, sentindo toda sua raiva e ódio remexer em seu seio. E outro sentimento começou a tomar uma forma obscura. Ela planejara lançar, em um golpe violento contra os mestres de Yimsha, o homem em cujos braços agora era carregada. Talvez houvesse outra maneira de cumprir seu propósito, além dos métodos que planejara. Yasmina não se enganava quanto ao olhar que estava começando a florescer no semblante selvagem daquele homem. Reinos caíram quando as mãos alvas e delgadas de uma mulher puxaram as cordas do destino. De súbito, ela se enrijeceu, apontando.

— Veja!

No distante cume da montanha, surgiu uma nuvem de aspecto peculiar. Era de uma cor vermelha gelada, raiada com dourado brilhante. A nuvem estava em movimento; rodava e, enquanto o fazia, contraía-se. Ela descreveu movimentos rotatórios até ganhar a forma de um filamento que reluzia aos raios do sol. E, de repente, destacou-se do cume coberto pela neve, flutuou por sobre o vácuo como uma pena colorida e alegre, e tornou-se invisível contra o céu cerúleo.

— O que pode ter sido isso? — perguntou, ansiosa, no momento em que um rebordo de rochas cobriu a distante montanha da vista. O fenômeno tinha sido perturbador, mesmo em sua beleza.

— Os montanheses chamam de Carpete de Yimsha, seja lá o que quer que isso signifique — respondeu Conan. — Já vi quinhentos deles correndo como se o diabo estivesse em seu encalço, porque viram essa nuvem carmesim flutuar deste pico. O quê...

Eles tinham avançado por uma fenda estreita, entre paredes altas como torres, e saíram em uma borda larga, flanqueada por uma série de encostas escarpadas de um lado, e um enorme precipício do outro. A trilha seguia esta saliência, inclinava-se sobre um rebordo e reaparecia em intervalos ao longe, abaixo deles, delineando um caminho tedioso. E, emergindo da fissura que se abria sobre a saliência, o garanhão negro parou, bufando. Sem paciência, Conan o forçou a seguir em frente, mas o cavalo relinchava e jogava a cabeça para cima e para baixo, tremendo e torcendo, como se existisse uma barreira invisível.

Conan praguejou e desmontou, descendo Yasmina consigo. Foi na frente, com uma mão estendida diante de si, como se esperasse encontrar alguma resistência que não pudesse ser vista. No entanto, não havia nada para entravá-lo, embora, quando tentara conduzir o cavalo, ele deu um relincho estridente e se afastou. Então Yasmina gritou, e Conan virou-se, com a mão sobre o cabo da faca.

Nenhum dos dois o tinha visto chegar, mas ali estava ele, com os braços dobrados: um homem vestindo um manto de camelo e turbante verde. Conan grunhiu surpreso ao reconhecer o homem que tinha sido pisoteado pelo garanhão na ravina fora da vila wazuli.

— Quem diabos é você? — ele questionou.

O homem não respondeu. Conan reparou que seus olhos estavam fixos e arregalados, e tinham uma qualidade luminosa peculiar. E aqueles olhos seguraram os dele como um ímã.

A base da feitiçaria de Khemsa era o hipnotismo, como é a da maioria dos magos orientais. O caminho para o hipnotismo tinha sido preparado por incontáveis séculos de gerações que viveram e morreram com a firme convicção de sua realidade e poder, edificando, pelo pensamento coletivo e pela prática, uma atmosfera colossal, ainda que intangível, contra a qual os indivíduos, mergulhados nas tradições da terra, encontravam-se indefesos.

Mas Conan não era filho do Leste. Suas tradições eram indiferentes a isso, que era produto de um ambiente completamente diferente. Hipnotismo não era sequer um mito na Ciméria. A herança que preparou um nativo do leste para a submissão ao mesmerismo não era a dele.

Ele estava ciente do que Khemsa tentava fazer consigo; porém, sentiu o impacto do misterioso poder do homem apenas como um vago impulso, um puxar e empurrar do qual ele podia se desvencilhar, tal qual um homem remove teias de aranha de suas vestimentas.

Percebendo a hostilidade e a magia negra, ele sacou sua longa faca e precipitou-se com passos tão rápidos quanto um leão da montanha.

Porém, hipnotismo não era toda a mágica de Khemsa. Yasmina, assistindo a tudo, não viu com qual movimento ou ilusão o homem de turbante verde evitou o terrível golpe destinado a arrancar-lhe as tripas. Mas a lâmina afiada singrou por entre a lateral e o braço erguido, e para Yasmina parecia que Khemsa tinha apenas tocado sua palma aberta levemente contra o grosso pescoço de Conan. O cimério foi atirado no solo como um boi abatido.

Contudo, Conan não estava morto; parando a queda com a mão esquerda, ele cortou as pernas de Khemsa mesmo caindo, e o rakhsha evitou o ataque ao estilo de foice, apenas com um pulo para trás, que nada tinha de feitiçaria. Yasmina deu um grito agudo, ao ver uma mulher que ela reconheceu como sendo Gitara sair de trás das rochas e ir até o homem. O cumprimento morreu no grito da Devi, quando ela percebeu a malevolência na bela face da moça.

Conan levantava-se bem devagar, abalado e atordoado pela cruel artimanha daquele golpe que, desempenhado por uma arte esquecida pelos homens antes que a Atlântida afundasse, teria quebrado o pescoço de um homem menos capaz como um galho podre. Khemsa olhou para Conan com cautela e incerteza frívola. O rakhsha aprendera a plena extensão de seus poderes, quando encarou as facas dos ensandecidos wazuli, na ravina atrás da vila de Khurum; mas a resistência do cimério talvez estivesse abalando um pouco sua recém-descoberta confiança. Feitiçaria prospera no sucesso, não no fracasso.

Ele deu um passo à frente, erguendo a mão. Estancou, como se congelado, a cabeça inclinada para trás, olhos arregalados, mãos erguidas. Conan seguiu o olhar dele, assim como as mulheres. A garota, encolhendo-se atrás do garanhão assustado, e a moça ao lado de Khemsa.

Descendo as colinas rochosas, como um furacão de pó reluzente soprado pelo vento, uma nuvem vermelho-acinzentada veio dançando. A face escura de Khemsa ficou pálida; sua mão começou a tremer, e então caiu para a lateral. A garota ao seu lado, sentindo a mudança, olhou-o de maneira inquisitiva.

A forma carmesim deixou o topo da montanha e desceu em um longo arco. Pousou na saliência entre Conan e Khemsa, e o rakhsha deixou escapar um grito sufocado. Ele recuou, empurrando Gitara para trás com as mãos tateando, agonizando.

A nuvem vermelha balançou como um pião por um instante, girando com uma luminosidade cintilante em sua ponta. E, sem aviso, ela se foi, desapareceu como uma bolha quando estourada. Lá, na saliência, estavam quatro homens. Era milagroso, incrível, impossível, contudo, verdade. Eles não eram fantasmas ou espíritos. Eram quatro homens altos, com cabeças raspadas como abutres, e mantos negros que escondiam seus pés. Suas mãos estavam ocultas pelas mangas largas. Permaneceram em silêncio, as cabeças nuas acenando devagar em uníssono. Estavam de frente para Khemsa; mas, atrás deles, Conan sentiu o próprio sangue gelar nas veias. Levantando-se, afastou-se furtivamente, até conseguir sentir o ombro trêmulo do garanhão às suas costas, e a Devi arrastou-se para a proteção de seus braços. Nenhuma palavra foi dita. O silêncio reinava como uma sufocante mortalha.

Todos os quatro encararam Khemsa. Seus rostos de abutre estavam imóveis, os olhos introspectivos e contemplativos. Mas Khemsa tremia como um homem febril. Seus pés estavam envoltos na pedra, as panturrilhas contraídas como num combate físico. Suor escorria aos jorros por seu rosto escuro. A mão direita trancava-se em algo sob seu manto marrom de forma tão aflita, que o sangue vazou daquela mão e a deixou branca. A mão esquerda caiu sobre o ombro de Gitara e o apertou em agonia, como o aperto de um homem que se afoga. Ela não recuou nem chorou, ainda que os dedos dele escavassem sua carne firme como garras.

Conan já testemunhara centenas de batalhas em sua vida, mas nunca uma como aquela, na qual quatro vontades diabólicas buscavam abater uma vontade menor, porém igualmente diabólica, que se opunha a elas. Mas ele mal sentia a qualidade monstruosa daquela luta hedionda. Com as costas para a parede, mantendo distância de seus antigos mestres, Khemsa estava lutando pela vida com todos seus poderes negros, e todo o assustador conhecimento que eles o haviam ensinado, ao longo de anos sombrios de neofismo e vassalagem.

Estava mais forte do que ele próprio sabia, e o livre exercício de seus poderes, por conta própria, abrira reservatórios insuspeitos de suas forças. E ele estava prostrado a uma super-energia pelo frenesi do medo e desespero. Recuou diante da impiedade daqueles olhos hipnóticos, mas defendeu seu terreno. Suas feições se distorceram num sorriso bestial de agonia, e os membros torcidos como num aparelho de tortura. Era uma guerra de almas, de cérebros aterrorizantes mergulhados em tradições proibidas aos homens há milhares de anos, de mentalidades que haviam descido aos abismos e explorado as estrelas negras onde nasciam as sombras.

Yasmina entendia tudo melhor do que Conan. E ela compreendeu vagamente por que Khemsa conseguia suportar o impacto concentrado daquelas quatro vontades demoníacas, que poderiam ter reduzido a átomos a própria rocha onde ele estava. O motivo era a garota, que ele agarrava com a força do desespero. Ela era como uma âncora para sua alma abalada, espancada pelas ondas daquelas emanações psíquicas. Sua fraqueza era agora sua força. O amor que ele tinha por ela, por mais violento e cruel que pudesse ser, era, contudo, um vínculo que o mantinha atado ao resto da humanidade, fornecendo uma alavanca terrena para sua vontade, uma corrente que seus inimigos inumanos não podiam quebrar; ao menos não através de Khemsa.

Eles perceberam isso antes dele. E um dos quatro voltou o olhar do rakhsha para Gitara. Não houve batalha ali. A garota se encolheu e murchou como uma folha na seca. Impulsionada e sem outra opção, ela se libertou dos braços de seu amante antes dele perceber o que estava ocorrendo. Então, algo horrível aconteceu. Ela começou a caminhar em direção ao precipício, olhando para seus atormentadores, com os olhos arregalados e vazios como vidro escuro e reluzente, por trás do qual uma lâmpada havia sido apagada. Khemsa gemeu e cambaleou atrás dela, caindo na armadilha que fora feita para ele. Uma mente dividida não pode manter uma batalha desigual. Ele foi abatido, um ramo nas mãos deles. A garota andou para trás, caminhando como um autômato, e Khemsa tropeçou como um bêbado atrás dela, as mãos estendidas em vão, ganindo, babando em sua dor, os pés se movendo pesadamente como coisas mortas.

Ela fez uma pausa na beirada, ficou rígida, os calcanhares na borda, e ele caiu de joelhos e se arrastou chorando na sua direção, tentando alcançá-la, arrastá-la para longe da destruição. E, um pouco antes de seus dedos desajeitados tocarem-na, um dos magos gargalhou, como uma nota súbita de um sino de bronze tocado no inferno. A garota recuou de uma vez, e o clímax da requintada crueldade foi consumado quando razão e entendimento retornaram aos olhos dela, que brilharam com medo terrível. Ela gritou; em desespero, tentou agarrar a mão estendida de seu amante. Porém, incapaz de se salvar, caiu de cabeça com um grito de horror.

Khemsa se debruçou na beirada e olhou para baixo, desfigurado, seus lábios se movendo como se falasse consigo próprio. Então, ele se virou e fitou seus torturadores por um longo minuto, com olhos que não carregavam nenhuma luz humana. E, com um grito que quase explodiu as rochas, levantou-se e investiu na direção deles, com uma faca erguida nas mãos.

Um dos rakhshas deu um passo à frente e bateu o pé; e, no instante em que fez isso, surgiu um tremor que cresceu rápido, para tornar-se um retumbante estrondo. Onde seu pé tocou, uma fenda se abriu na rocha sólida, que se alargou no mesmo instante. Então, com um barulho ensurdecedor, uma seção inteira do penhasco desabou. Houve um último vislumbre de Khemsa, os braços se debatendo selvagemente no ar antes de ser varrido por entre a avalanche, que trovejou abismo abaixo.

Os quatro olharam contemplativos para a borda irregular da rocha que formava o novo rebordo do precipício, e se viraram de repente. Conan, derrubado pelo tremor da montanha, estava se levantando, segurando Yasmina. Ele parecia se mover tão devagar quanto seu cérebro estava funcionando. Estava apalermado e nublado. Percebeu que havia uma necessidade desesperada de colocar a Devi no garanhão negro e cavalgar como o vento, mas uma inexplicável lentidão pesava sobre seus pensamentos e ações.

Agora, os magos estavam de frente para ele; ergueram os braços, e os olhos horrorizados do bárbaro viram seus contornos enfraquecer, turvar, tornarem-se indistintos e nebulosos, ao mesmo tempo em que uma fumaça escarlate crescia como uma onda em torno de seus pés. Eles foram borrados por uma nuvem giratória repentina, e então Conan se percebeu também envelopado por uma névoa vermelha, escutou Yasmina gritar, e o garanhão gritou como uma mulher sentindo dores. A Divina foi arrancada de seus braços, e, ao que ele golpeou às cegas com sua faca, um golpe terrível como uma rajada de um furacão o derrubou por sobre as pedras. Atordoado, viu uma nuvem vermelha girando para o alto e por sobre os picos das montanhas. Yasmina desaparecera, assim como os quatro homens de preto. Apenas o assustado cavalo dividia o penhasco com ele.


7) Para Yimsha

CONFORME AS NÉVOAS DESAPARECIAM SOPRADAS POR UM forte vento, as teias de aranha deixavam o cérebro de Conan. Com uma maldição ressequida, subiu na sela do garanhão, que relinchava ao seu lado. Ele olhou para as colinas, hesitou, e então voltou pela trilha, na direção que estava seguindo quando foi parado pelos truques de Khemsa. Mas agora Conan não cavalgava a uma marcha média. Soltou as rédeas e o cavalo seguiu como um cometa, como se estivesse afoito para libertar sua histeria em um violento esforço físico. Do outro lado da borda e ao redor do rochedo, a trilha estreita seguia as grandes escarpas nas quais eles mergulharam em velocidade vertiginosa. O caminho seguia uma ondulação de rochas interminavelmente sinuosas para baixo, camada por camada de ladeira estriada, até que, lá embaixo, Conan obteve um relance de uma ruína que havia caído, uma colossal pilha de rochas quebradas e pedregulhos aos pés de um gigantesco desfiladeiro.

O leito do vale estava ainda bem abaixo dele, quando chegou a um cume longo e elevado que levava para fora dos rochedos, como um pavimento natural. O bárbaro cavalgou por ele com desfiladeiros quase absolutos de ambos os lados. Conseguia traçar a trilha à sua frente, e fez uma grande ferradura de volta ao leito à esquerda. Praguejou contra a necessidade de viajar aquelas milhas, mas era a única maneira. Descer pela volta mais curta da trilha naquele ponto, seria tentar o impossível. Apenas um pássaro chegaria embaixo com o pescoço inteiro.

Então, ele apressou o exausto garanhão, até um barulho de cascos chegar aos seus ouvidos, vindo de baixo. Encostando e indo até a borda dos rochedos, ele olhou para o leito seco que cortava a base da cordilheira. Ao longo daquela garganta, vinha a galope uma multidão multicolorida. Homens barbados e cavalos quase selvagens, quinhentos homens fortes, com suas armas eriçadas. E Conan gritou de repente, inclinando-se na beirada do rochedo, noventa metros acima deles.

Ao seu grito, eles pararam, e quinhentos rostos olharam para o alto em sua direção; um rugido profundo e clamoroso preencheu o cânion. Conan não desperdiçou palavras.

— Eu estava indo para Ghor! — ele gritou. — Não esperava encontrar vocês, cães, na trilha. Sigam-me o mais rápido que seus cavalos puderem! Estou indo para Yimsha e...

— Traidor! — o uivo foi como um borrifo de água gelada em seu rosto.

— O quê? — Conan olhou para eles, sem saber o que dizer. Viu olhos selvagens queimando contra ele, rostos contorcidos de fúria, punhos brandindo lâminas.

— Traidor! — gritaram de volta, com toda força. — Onde estão os sete chefes capturados em Peshkhauri?

— Na prisão do governador, suponho — ele respondeu.

Um grito sanguinário de centenas de gargantas lhe respondeu, com tal aceno de armas e tamanho clamor, que ele não conseguia entender o que estavam dizendo. Acabou com o estrondo com um rugido como o de um touro, e berrou:

— Que brincadeira infernal é esta? Fale somente um de vocês, não consigo entender o que dizem!

Um velho chefe esquelético, que havia se autonomeado para esta posição, sacudiu seu tulwar para Conan como um preâmbulo, e gritou, acusando-o:

— Você não nos deixou cavalgar para Peshkhauri para resgatar nossos irmãos!

— Não, seus tolos! — rugiu o exasperado cimério. — Mesmo se atravessassem a muralha, o que é improvável, eles enforcariam os prisioneiros antes que os alcançassem.

— E você foi sozinho negociar com o governador! — gritou o afghuli, contorcendo-se em frenesi espumante.

— E?

— Onde estão os sete chefes? — indagou o velho chefe, transformando sua lâmina em uma roda de aço brilhando acima da cabeça. — Onde estão eles? Mortos!

— O quê! — Conan quase caiu do cavalo, de surpresa.

— Sim, mortos! — quinhentas vozes sedentas de sangue o asseguraram.

O velho chefe sacudiu os braços e tomou a dianteira outra vez.

— Eles não foram enforcados! — ele esganiçou. — Um wazuli em outra cela os viu morrer! O governador enviou um mago para matá-los com feitiçaria!

— Isso deve ser uma mentira — Conan bradou. — O governador não ousaria. Na noite passada, eu falei com ele...

A frase foi mal recebida. Um brado de ódio e acusação partiu os céus.

— Sim! Você foi vê-lo sozinho! Para nos trair! Não é mentira. O wazuli escapou pelas portas que o mago explodiu em sua entrada, e contou a história para nossos batedores que encontramos em Zhaibar. Eles tinham sido enviados para procurar por você, quando não retornou. Quando escutaram o que o wazuli tinha a dizer, voltaram para Ghor a toda velocidade, e nós selamos nossos cavalos e apanhamos nossas espadas!

— E o que vocês, tolos, querem fazer? — perguntou o cimério.

— Vingar nossos irmãos! — eles uivaram. — Morte aos kshatriyas! Matem-no, irmãos; ele é um traidor!

Flechas começaram a assobiar na direção dele. Conan ficou em pé em seus estribos, lutando para se fazer escutar acima do tumulto, e então, com um rugido misto de ódio, desafio e nojo, ele deu meia-volta e galopou de volta na trilha. Atrás e abaixo de si, os afghulis vieram a galope, expressando seu ódio, furiosos demais até mesmo para se lembrarem de que a única maneira de chegar à altura na qual ele estava era atravessando o leito na outra direção, fazer aquela curva ampla e seguir pela trilha sinuosa por sobre a cordilheira. Quando se deram conta disso e começaram a fazer a volta, seu chefe repudiado tinha quase chegado ao ponto em que a cordilheira se juntava às escarpas.

No desfiladeiro, ele não tornou pela trilha pela qual havia descido, mas fez uma curva em outra, um mero risco por entre as fendas das rochas, onde o garanhão lutava para seguir em frente. Ele não tinha ido longe, quando o cavalo relinchou e empinou para trás, afastando-se de algo deitado no chão. Conan observou a caricatura de homem, um amontoado quebrado, sangrento e retalhado que fazia sons inarticulados e rangia os dentes estilhaçados.

Impelido por alguma razão obscura, o cimério desmontou e ficou olhando para baixo, sabendo que testemunhava algo miraculoso e oposto à natureza. O Rakhsha levantou sua cabeça destroçada e seus estranhos olhos, com o brilho da agonia e da aproximação da morte, pousaram em Conan com reconhecimento.

— Onde estão eles? — era um coaxar atroz que, nem de longe, lembrava uma voz humana.

— Retornaram ao seu castelo amaldiçoado em Yimsha — grunhiu Conan. — Levaram a Devi com eles.

— Eu irei — murmurou o homem —; eu os seguirei! Eles mataram Gitara. Acabarei com todos... os acólitos, os Quatro do Círculo Negro. O próprio Mestre? Mate-os... Mate-os todos! — ele lutou para arrastar sua estrutura mutilada por sobre a rocha, mas nem mesmo sua vontade indomável podia animar aquela massa coagulada por mais tempo, na qual os ossos partidos mantinham-se juntos só por tecido rasgado e fibras rompidas.

— Siga-os! — delirou Khemsa, derramando uma baba ensangüentada. — Siga-os!

— Eu irei — respondeu Conan. — Fui buscar meus afghulis, mas eles se voltaram contra mim. Irei sozinho para Yimsha. Trarei a Devi de volta, nem que precise arrasar aquela montanha maldita com minhas mãos nuas. Ela não tem mais utilidade para mim como refém, mas...

— Que a maldição de Yizil caia sobre eles! — resfolegou Khemsa. — Vá! Eu estou morrendo. Espere... Pegue meu cinturão.

Ele tentou apalpar com sua mão mutilada seus farrapos, e Conan, entendendo o que ele buscava transmitir, abaixou-se e tirou de sua cintura um cinturão de aspecto curioso.

— Siga o veio de ouro através do abismo — murmurou Khemsa. — Use o cinturão. Eu o tomei de um sacerdote stígio. Irá ajudá-lo, apesar de ter falhado comigo da última vez. Quebre o globo de cristal com as quatro romãs douradas. Cuidado com as transmutações do Mestre. Eu estou indo para Gitara... ela me espera no inferno... aie, ya Skelos yar... — E assim, ele morreu.

Conan olhou para o cinturão. A crina usada para trançá-lo não era de cavalo. Ele estava convencido de que era lã feita das grossas tranças de uma mulher. Acomodadas na malha espessa, estavam pequenas jóias de um tipo que ele jamais vira antes. A fivela era estranhamente constituída na forma da cabeça dourada de uma serpente, plana e com escamas. Um forte arrepio sacudiu Conan enquanto o segurava, e virou-se para arremessá-lo no precipício; então, hesitou, e por fim afivelou-o na cintura, sob o seu cinturão bakhariot. Montou e seguiu em frente.

O sol afundara atrás das colinas. Conan subiu a trilha sob a vasta sombra dos rochedos, que era jogada como um manto azul-escuro sobre os vales e escarpas abaixo. Não estava longe do cume, quando, contornando o rebordo de um rochedo saliente, escutou o barulho de cascos à sua frente. Não fez meia-volta. Na verdade, o caminho era tão estreito que o garanhão não poderia ter virado seu grande corpo sobre ele. Contornou a saliência da rocha, e saiu sobre uma porção do caminho que se alargava um pouco. Um coro de vozes ameaçadoras irrompeu nos ouvidos dele, mas seu garanhão prensou um cavalo aterrorizado contra as rochas e Conan apanhou o braço de um cavaleiro com uma pegada de ferro, travando a espada erguida em pleno ar.

— Kerim Shah! — resmungou Conan, fagulhas vermelhas ardendo luridamente em seus olhos. O turaniano não lutou; eles posicionaram os cavalos quase peito a peito, os dedos de Conan travando o braço armado do outro. Atrás de Kerim Shah, vinha um grupo de irakzais esguios em cavalos magros. Eles o fitaram como lobos, segurando arcos e facas, mas apresentavam-se incertos por conta da estreiteza do caminho e da periculosidade da proximidade do abismo, que bocejava ao seu lado.

— Onde está a Devi? — perguntou Kerim Shah.

— O que isso tem a ver com você, espião hirkaniano? — rosnou Conan.

— Eu sei que você a tem — respondeu Kerim Shah. — Estava a caminho do norte, com alguns homens das tribos, quando fomos emboscados por inimigos na Passagem Shalizah. Muitos de meus homens foram mortos, e o resto correu para as colinas como chacais. Quando despistamos nossos perseguidores, viramos para oeste, em direção à Passagem Amir Jehun, e nesta manhã encontramos um wazuli vagando pelas colinas. Ele estava enlouquecido, mas descobri muitas coisas de seus balbucios incoerentes, antes dele morrer. Descobri que era o único sobrevivente de um bando que seguia um chefe dos afghulis e uma prisioneira kshatriya, para uma garganta atrás da vila de Khurum. Ele balbuciou muito sobre um homem de turbante verde, a quem o afghuli atropelou; porém, quando atacado pelos wazulis que o perseguiam, enfrentou-os com uma destruição inominável que os aniquilou, tal qual uma rajada de vento feita de fogo aniquila um enxame de gafanhotos.

“Como aquele homem escapou, eu não sei, e nem ele o sabia; mas soube, por suas divagações, que Conan de Ghor havia estado em Khurum com uma prisioneira real. E, conforme passávamos pelas colinas, encontramos uma garota galzai nua carregando uma cabaça de água. Ela nos contou a história de ter sido despida e violentada por um gigante estrangeiro nas vestes de um chefe afghuli, e que deu suas vestes para uma mulher vendhiana que o acompanhava. Disse também que você veio para oeste.”

Kerim Shah não considerou ser necessário explicar que ele próprio estava a caminho de seu encontro com as tropas que esperava de Secunderam, quando seu caminho foi bloqueado pelos montanheses hostis. A estrada para o vale Gurashah através da Passagem Shalizah era mais comprida que aquela que cortava pela Passagem Amir Jehun, mas esta última passava por parte do Afghulistão, que Kerim Shah queria evitar ansiosamente até estar junto do exército. Contudo, ao ser barrado na estrada Shalizah, voltou-se para a rota proibida, até que as notícias de que Conan ainda não havia chegado ao seu destino, com a cativa, o fizeram virar para o sul e correr sem prudência alguma, na esperança de alcançar o cimério nas colinas.

— Então, é melhor você me dizer onde a Devi está — sugeriu Kerim Shah. — Nós o excedemos em número...

— Que um de seus cães toque em uma seta, e eu jogo você deste penhasco — prometeu o bárbaro. — De qualquer modo, não o ajudaria em nada me matar. Quinhentos afghulis estão em meu encalço, e se acharem que você lhes tirou esse prazer, irão esfolá-lo vivo. Seja como for, eu não tenho a Devi. Ela está nas mãos dos quatro Profetas de Yimsha.

— Tarim! — murmurou de forma suave Kerim Shah, abalado de sua pose pela primeira vez. — Khemsa...

— Khemsa está morto — rosnou Conan. — Seus mestres o enviaram para o inferno em um terremoto. Agora saia do meu caminho. Ficaria feliz em matá-lo, se tivesse tempo, mas estou a caminho de Yimsha.

— Irei com você — disse o turaniano com um jeito abrupto.

Conan gargalhou.

— Acha que eu confiaria em você, cão hirkaniano?

— Não peço isso — Kerim Shah devolveu. — Ambos queremos a Devi. Você conhece meus motivos; o Rei Yezdigerd quer anexar o reino dela ao seu império, e ela própria ao seu harém. E conheço você dos tempos em que era um hetman das estepes kozakis; portanto, sei que sua ambição é a pilhagem indiscriminada. Você quer saquear Vendhya, e arrancar um resgate enorme por Yasmina. Bem, vamos nos permitir por enquanto unir forças, sem termos quaisquer ilusões um do outro, e tentar resgatar a Devi dos Profetas. Se formos bem-sucedidos e vivermos, podemos lutar para ver quem fica com ela.

Conan examinou de perto o outro por um momento, e então consentiu, soltando o braço do turaniano.

— De acordo. E quanto aos seus homens?

Kerim Shah virou-se para os silenciosos irakzais e falou brevemente:

— O chefe e eu iremos para Yimsha, lutar contra os magos. Vocês irão conosco, ou ficarão aqui para ser massacrados pelos afghulis que seguem este homem?

Eles o encararam com olhos sinistros e fatalistas. Estavam condenados, e sabiam disso. Sabiam, desde que as flechas cantantes da emboscada dos dagozai os conduziram de volta da Passagem Shalizah. Os homens da baixa Zhaibar tinham muitas rixas de sangue com os moradores das colinas. Eles eram um bando muito pequeno para abrir caminho até as vilas na fronteira, sem a liderança do astuto turaniano. Como já se consideravam mortos, responderam da forma que só homens mortos o fariam:

— Iremos com vocês e morreremos em Yimsha.

— Então, em nome de Crom, vamos logo — grunhiu Conan, remexendo-se de impaciência ao olhar para os golfos azuis do crepúsculo que se aproximava. — Meus lobos estão horas atrás de mim, mas perdemos um tempo infernal.

Kerim Shah recuou seu cavalo entre o garanhão negro e o desfiladeiro, embainhou a espada e, com muita cautela, virou o animal. Logo o bando estava descendo a picada o mais rápido que ousava. Chegaram a um cume, uma milha ao leste do ponto onde Khemsa tinha se interposto entre Conan e a Devi. A vereda que atravessavam era perigosa, até mesmo para montanheses. E, por este motivo, Conan a evitara naquele dia quando carregava Yasmina, embora Kerim Shah, na frente, a tivesse tomado, supondo que o cimério teria feito o mesmo. Até Conan suspirou de alívio, quando os cavalos superaram a última beirada do abismo. Eles se moviam como fantasmas passando por um reino encantado de sombras. O suave raspar de couro e o tilintar do aço marcavam a passagem deles, e mais uma vez os rochedos da montanha escura se tornaram nus e silenciosos sob a luz das estrelas.


8) Yasmina Conhece o Terror Absoluto

YASMINA TEVE TEMPO PARA APENAS UM GRITO, QUANDO SE VIU envolvida por aquele furacão vermelho e foi arrancada de seu protetor com uma força apavorante. Ela gritou uma vez, e não teve mais fôlego. Estava cega, surda, emudecida e desacordada pela terrível agitação de ar em torno de si. Existia uma consciência atordoante da altura vertiginosa e da velocidade paralisante, uma impressão confusa de sensações naturais enlouquecendo, e então tontura e esquecimento.

Um vestígio dessas sensações segurava-se a ela, enquanto recuperava a consciência; Yasmina gritou e se agarrou loucamente, como se estivesse de cabeça para baixo naquele vôo involuntário. Seus dedos tocaram um tecido macio e um senso revelador de estabilidade a impregnou. Ela reconheceu as cercanias.

Estava deitada em um estrado coberto com veludo negro, numa grande sala escura, cujas paredes tinham tapeçarias negras penduradas com dragões rastejantes reproduzidos com repelente realismo. Sombras flutuantes mal indicavam o teto, e trevas que se emprestavam à ilusão espreitavam nos cantos. Não parecia haver janelas ou portas nas paredes, a não ser que estivessem ocultas pelas tapeçarias escuras. De onde a fraca luz surgia, Yasmina não conseguia determinar. A grande sala era um reino de mistérios e sombras, e figuras furtivas, nas quais ela não poderia jurar ter observado movimento, ainda assim invadiam sua mente com terror turvo e sem forma.

Mas seu olhar se fixou em um objeto tangível. Sobre outro estrado menor de âmbar-negro, a alguns passos de distância, um homem sentado com as pernas cruzadas olhava contemplativo para ela. Seu longo manto negro de veludo, bordado com fios de ouro, caía folgado sobre si, mascarando seu vulto. As mãos estavam enfiadas nas mangas. Havia um capuz de veludo sobre a cabeça. O rosto era calmo, plácido, não era feio, os olhos cintilantes e um pouco oblíquos. Ele não moveu um músculo enquanto se sentava ali de frente para ela, nem sua expressão mudou quando viu que ela estava consciente.

Yasmina sentiu o calafrio do medo, como um filete de água gelada descendo por sua espinha. Ela ergueu o tronco sobre os cotovelos e olhou apreensiva para o estranho.

— Quem é você? — perguntou. Sua voz soou frágil e inadequada.

— Eu sou o Mestre de Yimsha — o tom era rico e ressonante, como os tons melodiosos do sino de um templo.

— Por que me trouxe aqui? — ela indagou.

— Você não procurava por mim?

— Se você for um dos Profetas Negros, sim! — respondeu sem cautela, acreditando que ele poderia ler seus pensamentos de qualquer maneira.

Ele riu suavemente, e arrepios outra vez a assolaram.

— Você voltaria as crianças selvagens das colinas contra os Profetas de Yimsha! — ele sorriu. — Eu vi isso em sua mente, princesa. Sua fraca mente humana, cheia de sonhos bonitos de ódio e vingança.

— Vocês mataram meu irmão! — uma crescente maré de raiva estava combatendo seu medo; as mãos fecharam-se, o pequeno corpo rígido por inteiro. — Por que você o perseguiu? Ele nunca fez mal a vocês. Os sacerdotes dizem que os Profetas estão acima da intromissão em assuntos humanos. Por que destruíram o rei de Vendhya?

— Como um ser humano comum pode entender as motivações dos Profetas? — devolveu o Mestre com calma. — Meus acólitos no templo de Turan, que são os sacerdotes por trás dos de Tarim, me pediram que intercedesse em favor do Rei Yezdigerd. Por motivos próprios, consenti. Como posso explicar meus motivos místicos para um intelecto tão insignificante? Você não entenderia.

— Eu entendo isso: que meu irmão morreu! — lágrimas de dor e ódio sacudiam suas palavras. Ela ficou de joelhos e o encarou com olhos chamejantes, tão ameaçadora e perigosa naquele instante quanto uma pantera.

— Conforme queria Yezdigerd — concordou com tranqüilidade o Mestre. — Por um tempo foi meu capricho cumprir suas ambições.

— Yezdigerd era seu vassalo? — Yasmina tentava manter o timbre de sua voz inalterado. Sentira o joelho pressionar algo duro e simétrico sob a capa de veludo. De maneira sutil, mudou de posição levando a mão para baixo da capa.

— O cão que lambe os restos de comida no quintal do templo é vassalo de deus? — devolveu o Mestre. Ele não parecia notar as ações que ela pretendia desenvolver. Oculto pelo veludo, seus dedos se fecharam no que ela sabia ser o cabo dourado de um punhal. A moça curvou a cabeça para esconder a luz de triunfo em seus olhos.

— Estou cansado de Yezdigerd — disse o Mestre. — Voltei-me para outros entretenimentos... Ah!

Com um grito feroz, Yasmina saltou como um gato selvagem, estocando mortalmente. Então, tropeçou e caiu no chão, onde se encolheu, olhando para cima, para o homem no estrado. Ele não se movera; seu sorriso críptico estava inalterado. Tremendo, ela ergueu a mão e o encarou com olhos dilatados. Não havia punhal em seus dedos, que agora seguravam um lótus dourado, com os botões amassados caindo do caule murcho.

Yasmina o largou como se fosse uma víbora, e se afastou da proximidade do atormentador. Voltou para o estrado, porque ao menos este era mais digno para uma rainha do que rastejar no chão aos pés de um bruxo, e fitou-o com apreensão, esperando represálias.

Mas o Mestre não se moveu.

— Toda substância é a mesma, para aquele que conhece os segredos do cosmo — ele disse de um modo soturno. — Para um adepto, nada é imutável. Pela vontade, botões de aço florescem em jardins inomináveis, ou flores de espadas brilham ao luar.

— Você é um demônio — ela gaguejou.

— Não eu! — ele riu. — Nasci neste planeta há muito tempo. Outrora fui um homem comum, e também não perdi todos os atributos humanos nesses incontáveis anos de devoção. Um homem que mergulha nas artes negras é maior que um demônio. Minha origem é humana, mas governo demônios. Você viu os Senhores do Círculo Negro. Murcharia, iria murchar sua alma escutar de que reinado distante eu os reuni, e de qual castigo os guardei com cristais enfeitiçados e serpentes douradas.

“Mas apenas eu posso governá-los. Meu tolo Khemsa pensou em tornar a si próprio grande... Pobre tolo, explodindo portas materiais e lançando a si e sua amante no ar de colina a colina! Contudo, se ele não tivesse sido destruído, seu poder poderia ter crescido ao ponto de rivalizar com o meu.”

Ele riu mais uma vez:

— E você, pobre coisinha tola! Planejando enviar um chefe montanhês peludo para assolar Yimsha! Foi uma brincadeira que eu mesmo poderia ter projetado, se tivesse me ocorrido, de fazer que você caísse nas mãos dele. E li, em sua mente infantil, uma intenção de seduzi-lo com suas artimanhas femininas, para cumprir seu propósito a todo custo.

“Mas, apesar de toda sua estupidez, é uma bela mulher para se colocar os olhos. E meu desejo é mantê-la como minha escrava.”

A filha de mil orgulhosos imperadores arfou de vergonha e fúria ante aquela palavra.

— Você não ousaria!

Sua gargalhada zombeteira cortou-a como um chicote nos ombros nus.

— O rei não ousa pisotear um verme na estrada? Pequena tola, não percebe que seu orgulho real não é mais do que um bambu soprado pelo vento? Eu, que conheci os beijos das rainhas do inferno! Verá como lido com uma rebelde!

Intimidada e aterrorizada, a garota se encolheu sobre o estrado coberto de veludo. A luz ficou mais turva e fantasmagórica. As feições do Mestre foram encobertas pelas sombras. A voz dele assumira uma nova tonalidade de comando.

— Jamais me curvarei a você! — a voz dela tremia de medo, mas carregava uma pitada de resolução.

— Você o fará — ele respondeu com uma horrível convicção. — O medo e a dor irão ensiná-la. Irei flagelá-la com horror e agonia, até sua última gota trêmula de resistência; até que você se torne cera derretida, para ser moldada em minhas mãos de acordo com meus desejos. Conhecerá a disciplina como mulher mortal alguma jamais conheceu; até meu mais leve comando será para você como a inalterável vontade dos deuses. E, primeiro, para apaziguar seu orgulho, você viajará para as eras perdidas e verá todas as formas que já foi. Aie, y il La khosa!

Àquelas palavras, a câmara sombria inchou diante do olhar assustado de Yasmina. As raízes de seus cabelos se eriçaram e a língua cravou no céu da boca. Em algum lugar, um gongo soou uma nota profunda e agourenta. Os dragões das tapeçarias brilharam como fogo azul, e então desapareceram. O Mestre no estrado não era nada além de uma sombra amorfa. A luz turva cedeu lugar à densa escuridão, quase tangível, que pulsava com estranhas irradiações. Ela não conseguia mais vê-lo. Não conseguia ver coisa alguma. Tinha a estranha sensação de que as paredes e o teto haviam se afastado muito dela.

Então, em algum lugar nas trevas, surgiu um brilho, como um vaga-lume que, de maneira ritmada, esmaecia e vivificava. Ele cresceu para uma esfera dourada. E, à medida que se expandia, sua luz se tornava mais intensa, com um brilho branco. E explodiu de repente, cobrindo as trevas com faíscas brancas que não iluminavam as sombras. Mas, como uma impressão deixada na escuridão, uma fraca luminosidade persistia, e revelou um poço escuro e delgado surgindo no chão sombrio, que se espalhou diante dos olhos dilatados da garota, e tomou forma. Caules e folhas largas apareceram, e grandes botões venenosos se erguiam à sua volta, enquanto ela se aninhava contra o veludo. Um perfume sutil cobria a atmosfera. Era a figura pavorosa do lótus negro que ela assistira crescer, tal qual ele nascia nas selvas assombradas e proibidas de Khitai.

As folhas largas murmuravam com vida terrível. Os botões se curvaram sobre elas como coisas sencientes, assentindo como serpentes em hastes flexíveis. Gravados contra as trevas impenetráveis, eles se agigantaram sobre ela, enormes, negros, visíveis de alguma forma insana. Seu cérebro titubeou com o odor entorpecente, e ela pensou em rastejar para fora do estrado. Mas agarrou-se a ele, quando este pareceu se lançar em uma inclinação impossível. A princesa gritou desesperada, segurando no veludo; no entanto, sentiu os dedos serem arrancados sem piedade. A sensação era de que toda sanidade e estabilidade tivessem desaparecido. Ela era um átomo trêmulo de senciência, conduzida por um vácuo negro e gelado por um vento trovejante, que ameaçava extinguir seu brilho fraco como uma vela soprada por uma tempestade.

Então, veio um período de impulso e movimento cego, em que o átomo com o qual ela havia sido misturado fundiu-se com uma miríade de outros átomos de vida desovados no pântano fermentado da existência, moldados por forças formadoras, até que ela emergiu de novo à consciência individual, girando para baixo em uma infinita espiral de vidas.

Numa bruma de terror, Yasmina reviveu todas as suas existências anteriores, reconheceu e foi mais uma vez todos os corpos que carregaram seu ego, ao longo das eras que mudavam. Ela machucou os pés novamente sobre a longa estrada desgastada que se estendia atrás de si, até o passado imemorial. Retornou para além dos mais obscuros alvoreceres do Tempo, agachou-se tremendo em selvas primordiais, caçada por babantes animais predadores. Vestida com peles, ela caminhou, afundada até as coxas em brejos de arroz, lutando pelos preciosos grãos contra aves aquáticas grasnando. Trabalhou com os bois para arrastar o arado pontiagudo por entre o solo teimoso, e se abaixou infinitamente sobre os teares de cabanas de camponeses.

Viu cidades muradas queimarem, e fugiu, aos gritos, de matadores. Cambaleou nua e sangrando por areias escaldantes, levada pelo estribo do escravagista, e conheceu o aperto de mãos quentes e ferozes em sua carne contorcida, e a vergonha e agonia da luxúria brutal. Gritou sob a mordida do chicote e lamentou-se sobre a mesa de torturas. Louca de terror, lutou contra as mãos que forçavam, implacáveis, sua cabeça para baixo em um bloco sujo de sangue.

Conheceu as agonias do nascimento, e o amargor de um amor traído. Sofreu todos os infortúnios, erros e brutalidades que os homens infligiram às mulheres ao longo das eras; e agüentou todo o rancor e malícia de mulher para mulher. E, como o movimento de uma chibata ígnea, restava-lhe a consciência de que mantivera sua condição de Devi. Ela foi todas as mulheres que já havia sido; mas, em seu conhecimento, continuava sendo Yasmina. Essa conscientização não se perdeu nos espasmos da reencarnação. Ao mesmo tempo e de uma só vez, ela foi uma desnuda escrava sexual, rastejando sob o chicote, e a orgulhosa Divina de Vendhya. E sofreu, não apenas como a garota escrava, mas também como Yasmina, para cujo orgulho o chicote era como um ferro em brasa.

Vida misturada a vida no caos voador, cada qual com sua carga de suplício, vergonha e agonia, até ela escutar debilmente sua própria voz gritando insuportavelmente, como um longo grito de sofrimento ecoando por todas as eras.

Então, despertou no estrado coberto de veludo, na sala mística.

Sob uma luz cinzenta e fantasmagórica, mais uma vez vislumbrou o estrado e a figura tenebrosa que estava sentada sobre ele. O capuz da cabeça estava dobrado, os ombros um pouco esboçados contra a escuridão incerta. Ela não podia divisar detalhes com clareza, mas o capuz, onde a capa de veludo estava, provocou-lhe um mal-estar. Enquanto o observava, abateu-se sobre ela um medo inominável que a congelou por completo; um sentimento de que não era o Mestre que se sentava tão silenciosamente naquela plataforma negra.

A figura moveu-se e se levantou, elevando-se sobre ela. Parou próxima, e os longos braços com suas mangas negras curvaram acima dela. A princesa lutou contra eles com um pavor que arrancou sua voz, surpresa por sua dureza magra. O encapuzado se inclinou para baixo, na direção do rosto da moça que o evitava. E ela gritou, e gritou de novo, com medo e repugnância pungentes. Braços feitos de ossos agarravam seu corpo macio, e do capuz olhava para fora uma feição de morte e decadência, o aspecto como o de um pergaminho podre em um crânio em decomposição.

Ela gritou de novo e, mais uma vez, ao que aquelas mandíbulas sorridentes que mordiam o ar se inclinavam sobre seus lábios, perdeu a consciência...


9) O Castelo dos Magos

O SOL HAVIA SE LEVANTADO SOBRE OS PICOS HIMELIANOS. Ao pé de uma longa colina, um grupo de cavaleiros parou e olhou para o alto. Bem acima deles, uma torre de pedra equilibrava-se na lateral da montanha. Além e acima dela, brilhavam as paredes de um grande castelo, próximo à linha em que a neve começava a cobrir aquele pináculo de Yimsha. Havia um toque de irrealidade em toda aquela encosta purpúrea, lançando-se até o fantástico castelo que, à distância, parecia de brinquedo, e acima do qual o cume branco sustentava o frio céu azul.

— Bem, vamos deixar os cavalos aqui — grunhiu Conan. — Aqueles picos traiçoeiros são mais seguros para um homem a pé. Além disso, eles não agüentam mais.

O bárbaro desceu do grande garanhão negro, que estava com as pernas afastadas e a cabeça baixa. Eles tinham sido forçados durante toda a noite, roendo restos dos alforjes e parando apenas para dar aos cavalos o descanso de que precisavam.

— Aquela primeira torre é guardada pelos acólitos dos Profetas Negros — disse Conan. — Ou é o que dizem os homens, cães de guarda para seus mestres, feiticeiros menores. Eles não ficarão sentados chupando os dedos, enquanto subimos essas encostas.

Kerim Shah olhou para a montanha e, depois, para o caminho por onde tinham vindo. Eles já estavam bem acima do lado de Yimsha, e uma vasta expansão de picos menores e rochedos se espalhava abaixo deles. E, óbvio, os afhgulis, que perseguiam seu chefe, tinham perdido o rastro durante a noite.

— Vamos, então — eles prenderam os cavalos cansados em um aglomerado de tamargueiras e, sem mais comentários, começaram a subir a encosta. Não havia cobertura. Era uma inclinação nua, coberta de pedras, não grande o bastante para esconder um homem. Mas escondia algo mais. O grupo não andara cinqüenta passos ainda, quando uma forma rosnando explodiu por detrás de uma rocha. Era um dos cachorros selvagens e magros, que infestavam os vilarejos das colinas, e seus olhos brilharam vermelhos, as mandíbulas espumando. Conan estava na frente; porém, o animal não o atacou. Ele passou direto, e pulou sobre Kerim Shah. O turaniano se esquivou, e o enorme cachorro se arremessou contra o irakzai que estava logo atrás. O homem gritou e jogou o braço na frente, que foi dilacerado pelas presas da fera conforme o puxava para trás, e no instante seguinte, meia dúzia de tulwars estava golpeando a besta. Contudo, até não estar literalmente desmembrada, a horrível criatura cessou os esforços para agarrar e rasgar seus atacantes.

Kerim Shah passou uma atadura no braço talhado do guerreiro, olhou para ele com preocupação e depois deu as costas, sem dizer uma palavra. Reuniu-se com Conan, e continuaram a subir em silêncio.

Enfim, disse:

— Estranho encontrar um cão de aldeia neste lugar.

— Não há carne por aqui — resmungou Conan.

Ambos viraram a cabeça para olhar o guerreiro ferido e fadigado, atrás deles, entre os companheiros. Suor escorria do seu rosto escuro e os lábios estavam apertados numa expressão de dor. Ambos olharam de novo para a torre de pedra acima de suas cabeças.

Um silêncio sonolento caía sobre as terras altas. A torre não mostrava sinais de vida, assim como a estranha estrutura piramidal além dela. Mas os homens subiam com a tensão de quem anda na beirada de uma cratera. Kerim Shah tinha apanhado seu poderoso arco turaniano, que matava a quinhentos passos, e os irakzais olharam para os próprios arcos mais leves e menos letais.

Não estavam ainda dentro do alcance de arcos, quando uma coisa disparou pelos céus sem aviso. Passou tão próxima a Conan, que ele sentiu o vento de suas asas, mas foi um irakzai quem cambaleou e caiu, sangue escorrendo de sua jugular rasgada. Um falcão com asas como aço polido subiu para as alturas outra vez, o bico, tal qual uma cimitarra, sujo de sangue, para despencar dos céus quando a corda do arco de Kerim Shah vibrou. Ele caiu como um prumo, no entanto, nenhum homem viu onde tocou o solo.

Conan curvou-se sobre a vítima do ataque, mas o homem já estava morto. Ninguém falou. Era inútil comentar sobre o fato de que jamais antes se soubera, de um falcão que arrebatasse um homem. Um ódio escarlate começou a rivalizar com a letargia fatalista nas almas selvagens dos irakzais. Dedos peludos colocaram flechas nos arcos, e os homens destilaram um olhar vingativo para a torre, cujo silêncio zombava deles.

Mas o ataque seguinte veio rápido. Todos o viram. Uma bola de fumaça branca, que tombou do cume da torre, veio à deriva, rolando colina abaixo na direção do grupo. Outras a seguiram. Elas pareciam inofensivas, meros globos lanosos de nuvens espumosas, porém, Conan se desviou para evitar contato com a primeira. Atrás dele, um dos irakzais se aproximou e enfiou a espada dentro da massa instável. De imediato, uma aguda resposta sacudiu a montanha. Houve uma explosão de flamas cegantes, e então a bola havia desaparecido; e, do descuidado guerreiro restava apenas um monte de ossos queimados e enegrecidos. A mão crispada ainda apertava o cabo de marfim da arma, mas a lâmina desaparecera, derretida e destruída pelo calor avassalador. Ainda assim, homens que estavam em pé, quase ao alcance da vítima, nada sofreram, exceto pelo atordoamento e a semi-cegueira pela chama repentina.

— O aço faz a coisa explodir — gritou Conan. — Cuidado... Lá vem mais!

A encosta acima deles estava quase coberta pelas esferas ondeantes. Kerim Shah curvou seu arco e enviou uma seta para dentro de uma massa, que, tocada pela flecha, explodiu como bolhas jorrando em flamas. Os homens seguiram seu exemplo e, nos minutos seguintes, foi como se uma tempestade de raios assolasse o topo da montanha, com setas acertando e explodindo em chuveiros de fogo. Quando a tempestade cessou, as flechas dos arqueiros estavam reduzidas a algumas poucas.

Seguiram em frente soturnamente, sobre solo carbonizado e enegrecido, onde as rochas tinham sido transformadas em lavas pelas explosões das diabólicas bombas.

Agora, estavam quase dentro do alcance do vôo de flechas da torre silenciosa, e espalharam sua linha, nervos tensos, prontos para qualquer horror que pudesse cair sobre eles.

Na torre apareceu uma única figura, levantando uma trompa de bronze de três metros. Seu toque estridente soou por todos os rochedos ecoantes, como o retumbar das trombetas no Dia do Julgamento Final, e começou a ser respondido de maneira aterradora. O chão tremeu sob os pés dos invasores, e estrondos e tremores brotaram das profundezas subterrâneas.

Os irakzais gritaram, cambaleando como bêbados no rochedo que se partia, e Conan, com os olhos reluzindo, investiu sem prudência para o alto do declive, com a faca em punho, direto para a porta que aparecia na parede da torre. Acima dele, a grande trompa rugia e berrava numa brutal zombaria. E então, Kerim Shah puxou uma flecha até a orelha e disparou.

Somente um turaniano conseguiria atirar daquele jeito. O som cessou de repente, e um grito alto e agudo o substituiu. A figura de manto verde na torre parou, agarrando o cabo da longa flecha que estremecia em seu peito, e então despencou por sobre o parapeito. A enorme trompa caiu sobre a ameia e ficou fragilmente pendurada, e outra figura vestindo mantos correu para agarrá-la, gritando de horror. O arco do turaniano vibrou de novo e, mais uma vez, foi respondido com um uivo de morte. O segundo discípulo, ao cair, acertou a trompa com o cotovelo e a derrubou ruidosamente pelo parapeito, para se despedaçar nas rochas lá embaixo.

Conan cobriu a distância com tamanha velocidade que, antes dos ecos barulhentos do discípulo caído sumirem ao longe, ele já estava golpeando a porta. Avisado por seu instinto primitivo, recuou rápido no instante em que um jorro de chumbo derretido foi lançado do topo. Mas, em seguida, ele continuou a atacar as vigas com fúria redobrada. Estava galvanizado com o fato de seus inimigos terem recorrido a armas terrenas. A feitiçaria dos acólitos era limitada. Seus recursos necromânticos poderiam muito bem estar exauridos.

Kerim Shah corria colina acima, seus homens atrás de si, dispersando-se cada vez mais. Conforme corriam, separavam-se, suas flechas lascando as paredes ou passando por cima do parapeito.

O pesado portal de teca cedeu diante do assalto do cimério, e ele espiou lá dentro com cautela, pronto para qualquer coisa. Olhava para uma câmara circular com uma escada que levava para o alto. No lado oposto, uma porta entreaberta revelava o lado de fora da montanha, e as costas de meia dúzia de figuras vestindo túnicas verdes em plena retirada.

Conan gritou, deu um passo para dentro da torre, e então sua precaução natural o fez voltar atrás, no momento em que um grande bloco de pedra caía, despedaçando-se no chão no local onde seu pé estava um instante atrás. Gritando para seus seguidores, ele correu ao redor da torre.

Os acólitos tinham evacuado sua primeira linha de defesa. Conforme rodeava a construção, Conan viu os mantos verdes piscando ao longo da montanha. Ele iniciou a perseguição, pulsando em renovada sede de sangue, e atrás dele Kerim Shah e os irakzais subiam rápido, os últimos uivando como lobos diante da fuga de seus inimigos, seu fatalismo submergido por um triunfo temporário.

A torre ficava na beirada mais baixa de um estreito platô, cuja inclinação para o alto era mal-perceptível. Algumas centenas de metros acima, este platô terminava abrupto, em um abismo que não podia ser visto do pé da montanha. Os acólitos, aparentemente, saltaram para dentro dele sem diminuir a velocidade. Os perseguidores viram os robes verdes flutuarem e desaparecer pela beirada.

Alguns momentos depois, eles próprios estavam à beira do enorme fosso que os separava do castelo dos Profetas Negros. Era uma ravina de paredes lisas, que se estendia em ambas as direções, até onde conseguiam enxergar, parecendo circundar a montanha, em torno de 360 metros de comprimento e 150 de profundidade. E lá dentro, de orla a orla, uma estranha névoa translúcida brilhava e reluzia.

Conan, olhando para baixo, grunhiu. Lá no fundo, movendo-se pelo chão reluzente que brilhava como prata polida, ele viu as formas dos discípulos vestidos com as túnicas verdes. Seus contornos eram vagos e indistintos, como figuras vistas através da água. Caminhavam em fila única, indo em direção à parede oposta.

Kerim Shah apanhou uma flecha e a enviou cantando para baixo. Mas, quando ela tocou a névoa que preenchia o abismo, pareceu perder momentum e direção, desviando-se amplamente do curso.

— Se eles desceram, nós também podemos! — disse Conan, enquanto Kerim Shah observava estupefato sua flecha. — Este foi o ponto em que os vi pela última vez...

Olhando com discrição para baixo, ele viu algo brilhando como um filamento dourado que seguia até o chão do cânion. Os acólitos pareciam ter seguido por aquele fio e, de repente, lembrou-se das palavras crípticas de Khemsa:

“Siga o veio de ouro!”.

Na beirada, sob sua própria mão, quando ele se agachou, encontrou um fino veio dourado brilhante, correndo de um afloramento de minério na beirada e para baixo, sobre o chão prateado. E encontrou algo mais, que antes lhe estava invisível por causa da refração peculiar da luz. O veio dourado seguia uma rampa estreita, que se inclinava para baixo na ravina, coberta de nichos para as mãos e os pés segurarem.

— Foi aqui onde eles desceram — e apontou para Kerim Shah. — Eles não são adeptos para conseguir flutuar pelo ar! Vamos segui-los...

Foi no instante em que o homem, mordido pelo cachorro louco, soltou um grito horrendo e pulou sobre Kerim Shah, espumando e arreganhando os dentes. O turaniano, com pés velozes como os de um gato, saltou para o lado e o homem enlouquecido caiu de cabeça no abismo. Os outros correram para a beirada e olharam com temor. O maníaco não caiu como um prumo, flutuou bem devagar para baixo através da névoa rosada, como um homem afundando em águas profundas. Seus membros se moviam como se tentassem nadar, e seus traços estavam roxos e convulsionados muito além das contorções de sua loucura. Por fim, ao chegar ao chão, seu corpo se acomodou e permaneceu estático.

— Há morte neste abismo — murmurou Kerim Shah, afastando-se da névoa rosada que tremulava quase aos seus pés. — E agora, Conan?

— Em frente! — respondeu o cimério de modo sombrio. — Aqueles acólitos eram humanos; se a névoa não os matou, também não me matará.

Ele puxou o cinto e suas mãos tocaram o cinturão que Khemsa lhe havia dado, fez uma careta e sorriu com frieza. Esquecera-se dele; ainda assim, três vezes a morte passara reto por ele para atacar outra vítima.

Os acólitos tinham chegado à parede oposta e moviam-se para cima, como grandes moscas varejeiras. Inclinando-se sobre a rampa, Conan começou a descer com cautela. A névoa rosada circundou seus tornozelos, ascendendo à medida que descia. Atingiu coxas, cintura e axilas. Era como uma densa neblina em uma noite úmida. Quando já rodeava seu queixo, Conan hesitou, e desceu de uma vez. De imediato sua respiração cessou. Todo o ar lhe foi tirado e ele sentiu as costelas se cravarem em seus pulmões. Com um esforço frenético, o bárbaro ergueu-se, lutando pela vida. Sua cabeça levantou-se acima da superfície, e ele bebeu o ar em grandes goles.

Kerim Shah se inclinou em sua direção e lhe falou, mas Conan nem escutou nem prestou atenção. Teimoso, com a cabeça fixa naquilo que Khemsa lhe havia dito, o cimério procurou pelo veio de ouro, e percebeu que se movera para fora dele durante a descida. Havia diversas séries de apoios para as mãos espalhados pela rampa. Colocando-se diretamente sobre o filete, começou a descer mais uma vez. A bruma rosa ergueu-se sobre ele, engolfando-o. Agora sua cabeça estava submersa, mas ele ainda respirava ar puro. Acima, viu os companheiros encarando-o, com as feições borradas pelo nevoeiro que tremulava acima de sua cabeça. Conan fez um gesto para que o seguissem, e desceu rápido, sem esperar para ver se obedeciam ou não.

Kerim Shah embainhou sua espada sem comentário e seguiu, e os irakzais, com mais medo de ser deixados sozinhos do que dos terrores que poderiam espreitar abaixo, foram na seqüência. Cada homem se agarrou ao filão dourado, como viram o cimério fazer.

Descendo a rampa inclinada, eles foram para o chão da ravina e se moveram pelo nível reluzente, seguindo o veio de ouro como se caminhassem sobre uma corda. Sentiam-se passando por um túnel invisível pelo qual o ar circulava livre. Percebiam a morte pressionando-os acima e de ambos os lados, mas ela não os tocava.

O veio subiu por uma rampa similar na parede oposta, por onde os acólitos tinham desaparecido, e por ela seguiram com os nervos à flor da pele, sem saber o que poderia estar esperando por eles nas saliências de pedra que eram como presas na boca do precipício.

Eram os acólitos vestidos de verde que os esperavam no cume, com facas nas mãos. Talvez tivessem atingido os limites até onde podiam se retirar. Talvez o cinturão stígio na cintura de Conan pudesse dizer por que seus feitiços necromânticos se provaram tão fracos, e tão logo dissipados. Talvez fosse o conhecimento da morte, decretado pelo fracasso que os enviou saltitando por sobre as rochas, olhos brilhando e facas reluzindo, recorrendo, em seu desespero às armas materiais.

Lá, entre as presas rochosas nos lábios do precipício, não era uma guerra de feitiçaria. Era um turbilhão de lâminas, onde aço de verdade cortou e sangue de verdade jorrou, onde braços musculosos aplicaram golpes diretos que rasgaram a carne trêmula, e homens caíram para ser pisoteados por pés, à medida que a batalha prosseguia por cima deles.

Um dos irakzais sangrou até a morte entre as rochas, mas os acólitos foram abatidos, lacerados e cortados, ou arremessados por sobre a borda, para flutuar bem devagar até o chão de prata que brilhava lá embaixo.

Então, os conquistadores limparam o sangue e o suor de suas vistas e se entreolharam. Conan e Kerim Shah ainda estavam de pé, assim como quatro irakzais.

Ficaram entre os dentes rochosos que cerravam a borda do precipício, e daquele ponto um caminho cortava a suave colina, até uma larga escadaria, constituída de meia dúzia de degraus, com trinta metros de diâmetro, talhados numa substância verde parecida com jade. Conduziam a uma ampla arena, ou galeria sem teto, feita da mesma pedra polida, e acima dela erguia-se, um andar após o outro, o castelo dos Profetas Negros. Ele parecia ter sido esculpido na pedra lisa da montanha. A arquitetura era impecável, mas sem adornos. As diversas janelas estavam barricadas e mascaradas com cortinas do lado de dentro. Não havia sinal de vida, amigável ou hostil.

Eles subiram em silêncio pelo caminho, ressabiados como homens trilhando o covil de uma serpente. Os irakzais estavam mudos, homens trilhando para sua destruição. Até mesmo Kerim Shah estava silencioso. Apenas Conan parecia não perceber o monstruoso desarranjo, e o desenraizar dos pensamentos e ações que o grupo tinha do que aquela invasão constituía, uma violação sem precedentes da tradição. Ele não era do oriente — vinha de uma raça que lutava contra demônios e magos, tão pronta e factualmente quanto enfrentava inimigos humanos.

Ele parou no topo das escadarias reluzentes, transversalmente à ampla galeria verde e direto para a grande porta de teca dourada que dava para ela. Lançou um único olhar, para o alto nas camadas mais altas da estrutura piramidal acima dele. Estendeu a mão para o grande dente de bronze que estava pendurado como uma alça da porta e parou, abrindo um sorriso duro. A alça era feita na forma de uma serpente, cabeça erguida em um pescoço arqueado; e Conan suspeitava que aquele metal ganharia vida sob seu toque.

Ele a arrancou da porta com um golpe, e o tilintar do bronze no chão vítreo não diminuiu sua cautela. Conan virou-a para o lado com a ponta da faca, e de novo voltou-se para a porta. Silêncio absoluto reinava nas torres. Bem abaixo deles, as encostas da montanha desapareciam em uma névoa púrpura ao longe. O sol brilhava nos picos cobertos de neve de ambos os lados. No alto, um abutre planava como um ponto negro no céu azul. Não fosse por ele, os homens diante da porta dourada seriam a única evidência de vida — pequenas figuras em uma galeria verde-jade, localizada nas alturas desconcertantes, com a fantástica pilha de pedras elevando-se acima deles.

Um vento cortante das neves os golpeou, chicoteando seus farrapos. A longa faca de Conan, estilhaçando os painéis de teça, levantava ecos alarmantes. Várias vezes ele golpeou, cortando madeira polida e placas de ferro da mesma forma. Através das ruínas quebradas, olhou para o interior, alerta e desconfiado como um lobo. Viu uma câmara ampla, com paredes de pedra polida sem tapeçarias e o chão de mosaicos sem carpetes. Bancos quadrados de ébano e plataformas de pedra eram as únicas mobílias. A sala estava vazia de vida humana. Outra porta aparecia na parede oposta.

— Deixe um homem de guarda do lado de fora — disse Conan. — Eu vou entrar.

Kerim Shah designou um guerreiro para a tarefa, e o homem retornou para o meio da galeria, com o arco nas mãos. Conan adentrou o castelo, seguido pelo turaniano e os três irakzais remanescentes. O que ficou lá fora cuspiu, queixou-se por trás de sua barba e parou de repente, quando uma gargalhada grave e zombeteira chegou aos seus ouvidos.

Ele ergueu a cabeça e viu, no andar acima de onde estava, uma figura alta vestindo um manto negro, de cabeça nua, assentindo levemente conforme olhava para baixo. Toda a sua atitude sugeria zombaria e malignidade. Rápido como um raio, o irakzai curvou o arco e disparou, e a flecha viajou reta para o alto para acertar em cheio no peito da figura vestida de negro. O sorriso de escárnio não se alterou. O Profeta arrancou o míssil e o atirou de volta no arqueiro, não como uma arma é disparada, mas com um gesto desdenhoso. O instinto do irakzai o fez bloqueá-lo, levantando o braço. Seus dedos se fecharam na seta giratória.

Então, ele gritou. Em suas mãos, a madeira da flecha se contorceu de repente. Seu contorno rígido tornou-se maleável, derretendo-se em suas mãos. Ele tentou jogá-la fora, mas já era tarde demais. Segurava uma serpente na mão nua, e ela já tinha se enrolado em seu punho e a cabeça horrível em forma de cunha picou seu braço musculoso. O irakzai berrou outra vez, e seus olhos tornaram-se distendidos, as feições roxas. Caiu de joelhos, tremendo em uma terrível convulsão, e em seguida ficou inerte.

Os homens lá dentro voltaram ao seu primeiro grito. Conan correu apressado até a porta e parou, perplexo. Para os homens atrás, parecia que ele se chocara contra o ar vazio. Mas, embora não pudesse ver coisa alguma, havia uma superfície dura e lisa sob suas mãos, e ele sabia que uma folha de cristal descera na entrada da porta. Através dela, viu o irakzai deitado e imóvel na galeria vítrea, e uma flecha comum enfiada em seu braço.

Conan ergueu o punhal e golpeou, e os que observavam ficaram pasmos ao ver seu golpe ser impedido aparentemente no meio do ar, com o barulho alto que o aço faz quando encontra uma substância dura. Ele não desperdiçou mais esforços. Sabia que nem mesmo o lendário tulwar de Amir Khurum poderia destruir aquela couraça invisível.

Em poucas palavras, explicou o assunto para Kerim Shah, e o turaniano ergueu os ombros:

— Bem, se nossa saída está barrada, teremos de encontrar outra. Enquanto isso, nosso caminho é seguir em frente, não?

Com um grunhido, o cimério se virou e cruzou a câmara até a porta oposta, com um sentimento de estar pisando na soleira da destruição. Quando ergueu a longa faca para destroçar a porta, ela se abriu sem fazer barulho algum, como se tivesse vontade própria. Ele entrou num grande salão, flanqueado com altas colunas de vidro. A cem passos da porta, se iniciavam os largos degraus verdes de jade de uma escadaria afunilada em direção ao topo, como a lateral de uma pirâmide. O que havia além da escada, ele não podia dizer. Mas, entre ele e os degraus cintilantes, havia um curioso altar de jade negro. Quatro grandes serpentes douradas enrolavam os rabos em torno do altar e erigiam a cabeça no ar, olhando para os quatro cantos da bússola como os guardiões encantados de um tesouro místico. No altar, entre os pescoços arqueados, apenas um globo de cristal preenchido com uma substância que parecia uma fumaça nebulosa, na qual flutuavam quatro romãs douradas.

A visão atiçou um turvo reconhecimento em sua mente. Então, Conan não deu mais atenção ao altar, pois, nos degraus mais baixos da escadaria, estavam quatro figuras vestidas com mantos negros. Ele não as vira chegar. Elas simplesmente estavam ali, as cabeças de abutre assentindo em uníssono, pés e mãos escondidos pelas vestes largas.

Um deles ergueu o braço, e a manga caiu revelando sua mão. E não era de forma alguma uma mão. Conan foi detido no meio do ataque, compelido contra sua vontade. Ele agora encontrava uma força que diferia muito pouco da hipnose de Khemsa, e não conseguia avançar, apesar de se sentir capaz de retroceder caso desejasse. Seus companheiros haviam sido parados da mesma forma, e pareciam até mais indefesos do que ele, incapazes de se mover em qualquer direção.

O Profeta, com o braço erguido, fez um gesto para um dos irakzais, e o homem foi em sua direção como se estivesse em transe, com os olhos fixos encarando-o, lâmina pendurada em dedos frouxos. Conforme ele passou por Conan, o cimério jogou um braço sobre seu peito para detê-lo. Conan era tão mais forte que o irakzai que, em circunstâncias normais, poderia ter quebrado a espinha entre suas mãos. Mas, agora, o braço musculoso foi empurrado para o lado como uma vareta, e o guerreiro moveu-se rumo à escadaria, pisando trôpego e de forma mecânica. Ele chegou aos degraus e, rígido, ajoelhou-se, oferecendo sua lâmina e inclinando a cabeça. O Profeta tomou a espada, que reluziu ao ser movida para cima e para baixo. A cabeça do irakzai tombou de seus ombros e fez um baque pesado no chão. Um arco de sangue espirrou das artérias decepadas e o corpo despencou, caindo com os braços abertos.

De novo, uma mão malformada ergueu-se e chamou outro irakzai, que cambaleou rigidamente para seu destino. O horrífico drama foi reencenado, e outra forma sem cabeça jazia ao lado da primeira.

Quando o terceiro homem tribal passou por Conan rumo à morte, o cimério, com as veias inchadas nas têmporas por causa dos esforços para quebrar a barreira invisível que o continha, de repente teve ciência de forças aliadas e não-vistas, mas que o despertavam para a vida dentro de si. Essa percepção veio sem aviso, porém, tão poderosa, que ele não pôde duvidar de seu instinto. Sem tomar consciência, sua mão esquerda deslizou sob o cinto bakhariot e fechou-se no cinturão stígio. E, no instante em que o agarrou, sentiu uma nova força inundar seus membros dopados; a vontade de viver era um fogo quente e branco, igualado pela intensidade de seu ódio ardente.

O terceiro irakzai era um cadáver decapitado, e o dedo hediondo estava mais uma vez erguendo-se, quando Conan sentiu o rompimento da barreira invisível. Um grito feroz e involuntário explodiu de seus lábios, quando ele saltou numa súbita hecatombe reprimida de ferocidade. Sua mão esquerda agarrou o cinturão do feiticeiro, como um homem afogando-se agarra uma tora flutuante, e a longa faca era uma luz resplandecente na direita. Os homens nos degraus não se moveram. Assistiram calma e cinicamente; e, se ficaram surpresos, não demonstraram. Conan não se permitiu pensar nas suas chances, quando eles entrassem na linha do alcance de sua faca. O sangue fervia nas veias, uma névoa carmesim nadava diante dos seus olhos. O bárbaro estava incendiado com a urgência de matar, enfiar a faca bem fundo na carne e nos ossos, e girar a lâmina em sangue e entranhas.

Outras doze passadas o levariam até os degraus onde estavam os demônios zombeteiros. Conan inspirou fundo, a fúria avermelhando à medida que o ataque se aproximava do momento. Ele estava passando pelo altar com suas serpentes douradas, quando um clarão disparado contra sua mente de novo, tão vívido como se estivesse sendo falado em seu ouvido externo, trouxe as palavras de Khemsa:

“Quebre o globo de cristal”.

Sua reação foi quase isenta de volição. A execução seguiu o impulso de modo tão espontâneo, que o maior feiticeiro daquela era não teria tido tempo de ler sua mente e evitar a ação. Virando como um felino em seu ataque frontal, o bárbaro levou a faca acertando direto sobre o cristal. No mesmo instante, o ar vibrou com um estrondo de terror, e se vinha das escadas, do altar, ou do próprio cristal, ele não poderia dizer. Sibilos encheram seus ouvidos, quando as serpentes douradas, de repente vibrantes com vida hedionda, contorceram-se e o atacaram. Mas Conan estava incendiado com a velocidade de um tigre enlouquecido. Um turbilhão de aço cortou através dos troncos horríveis que acenavam em sua direção, e ele acertou a esfera de cristal de novo, e de novo. E o globo explodiu com um barulho igual ao de um trovão, chovendo cacos de fogo no mármore preto, e as romãs douradas, como que libertas de seu cativeiro, dispararam para o alto em direção ao teto e desapareceram.

Uma gritaria louca, bestial e medonha ecoava por todo o grande salão. Nos degraus, quatro figuras de vestes negras se retorciam em convulsões, e espuma escorria de suas bocas lívidas. Então, com um frenesi crescente de ululação inumana, eles se enrijeceram e ficaram imóveis, e Conan soube que estavam mortos. Ele olhou para o altar e para os cacos de cristal. Quatro serpentes indefesas ainda se enrolavam nele, mas nenhuma vida alienígena animava agora o metal reluzente.

Kerim Shah estava se levantando devagar sobre os joelhos, como se tivesse sido arrasado por alguma força invisível. Ele balançou a cabeça para limpar o zunido nos ouvidos.

— Você ouviu o estrondo quando golpeou? Foi como se mil painéis de cristal tivessem sido despedaçados por todo o castelo, quando o globo explodiu. As almas dos magos estavam aprisionadas nessa bola de cristal? Ah!

Conan virou-se, quando Kerim Shah sacou a espada e a apontou.

Havia outra figura parada na cabeça da escadaria. Seu manto também era preto, mas de um veludo ricamente bordado, e trazia um capuz de veludo na cabeça. Tinha o rosto calmo, e não era feio.

— Quem diabos é você? — inquiriu Conan, encarando-o com a faca nas mãos.

— Sou o Mestre de Yimsha! — aquela voz era como o badalar do sino de um templo, mas uma nota de júbilo cruel corria por ela.

— Onde está Yasmina? — perguntou Kerim Shah.

O Mestre riu dele:

— O que você tem com isso, homem morto? Esqueceu-se tão rápido de minha força, outrora emprestada para você, que vem armado contra mim, pobre tolo? Acho que tomarei seu coração, Kerim Shah!

Ele abriu a mão como se fosse receber algo, e o turaniano soltou um grito agudo como um homem em agonia mortal. Titubeou e, então, com um triturar de ossos, um despedaçar de carne e músculos e um estalido de elos da malha, seu peito explodiu de dentro para fora em um chuveiro de sangue; e, da pavorosa abertura, algo vermelho e gotejante foi atirado no ar direto para a mão aberta do Mestre, tal qual uma farpa de aço é puxada para um ímã. O turaniano despencou ao chão e ficou imóvel, e o Mestre riu e jogou o objeto aos pés de Conan — um coração humano ainda pulsando.

Com um rugido e uma blasfêmia, Conan correu para a escadaria. Do cinturão de Khemsa ele sentia força, e um ódio imortal corria nele para combater a terrível emanação de poder, que o encontrou nos degraus. O ar se encheu com uma neblina brilhante de aço, que ele atravessou como se fosse um nadador, com a cabeça abaixada, braço esquerdo curvado sobre a face, faca apertada na mão direita. Seus olhos meio cegos, olhando sobre a curva do cotovelo, divisaram a forma odiosa do Profeta diante e acima dele, os contornos ondeando como um reflexo ondula em águas turbulentas.

Ele foi torturado e dilacerado por forças além de sua compreensão, mas sentia um poder condutor fora e além de si erguendo-o de maneira inexorável e adiante, apesar da força do mago e de sua própria agonia.

Agora chegava à cabeça da escadaria, o rosto do Mestre flutuava na névoa de aço diante dele e um estranho medo sombreava aqueles olhos inescrutáveis. Conan caminhou pela névoa com dificuldade, e sua faca saltou para cima como uma coisa viva. A ponta afiada rasgou a túnica do Mestre, que recuou com um grito grave. Então, diante dos olhos de Conan, o feiticeiro desapareceu. Simplesmente desapareceu, como uma bolha que estoura, e algo longo e ondulante surgiu seguindo para as escadas menores, que levavam para a esquerda ou a direita a partir do chão.

Conan foi atrás dela, subindo pela escada da esquerda, incerto sobre o que tinha visto passar por aqueles degraus, mas num humor furioso que afogou a náusea e o horror que suspiravam no fundo de sua consciência.

Ele mergulhou em um corredor amplo à sua frente, cujo chão sem carpetes e paredes sem tapeçarias eram de jade polido, e algo longo e rápido moveu-se no fim do corredor, e passou por uma passagem fechada por uma cortina. De dentro da câmara, veio um grito de terror absoluto. O som emprestou asas aos pés de Conan, ele atravessou as cortinas e adentrou de peito aberto a câmara interna.

Uma cena assustadora encontrou seu olhar. Yasmina encurralada na extremidade oposta de um estrado coberto de veludo, gritando de repugnância e terror, um braço erguido como que para repelir o ataque, enquanto, diante dela oscilava a cabeça horrível de uma serpente gigantesca, o pescoço lustroso arqueando das espirais escuras e brilhantes. Com um grito surdo, Conan atirou sua faca.

No mesmo instante, o monstro virou-se e estava sobre ele como uma rajada de vento sobre a grama alta. A longa faca cravou-se em seu pescoço, a ponta e um palmo de lâmina aparecendo de um lado, e o cabo e um palmo de aço do outro; porém, aquilo só pareceu enlouquecer o réptil gigante. A enorme cabeça levantou-se acima do homem que a encarava e, então, deu o bote para baixo, as mandíbulas escancaradas gotejando veneno. Mas Conan tinha retirado um punhal do cinturão, e estocou de baixo para cima no instante em que a cabeça mergulhava. A ponta atravessou a mandíbula inferior e transfixou a superior, fixando-as juntas. Em seguida, o grande tronco se enlaçou no cimério quando a cobra, incapaz de usar suas presas, empregou a forma de ataque que lhe restara.

O braço esquerdo de Conan foi envolvido pelo abraço esmagador, mas o direito estava livre. Firmando os pés para permanecer ereto, ele esticou a mão, agarrou o cabo da longa faca cravada no pescoço da serpente, e a arrancou numa chuva de sangue. Como se percebesse seu propósito com mais do que inteligência bestial, a serpente se contorceu e apertou, buscando envolver com suas curvas o braço direito. Porém, com a velocidade da luz, a longa faca subiu e desceu, cortando até a metade do gigantesco tronco do réptil.

Antes que pudesse golpear outra vez, as grandes voltas enroladas o soltaram e o monstro se arrastou pelo chão, com sangue escorrendo de suas terríveis feridas. Conan foi até ele, com a faca erguida, mas seu golpe fatal cortou o ar vazio, ao que a serpente escapou para longe e enfiou o nariz contra uma tela com painéis de madeira de sândalo. Um deles cedeu, e o longo barril ensangüentado chicoteou por ele e desapareceu.

Conan atacou a tela instantaneamente. Alguns golpes a despedaçaram, e ele se viu de frente para uma alcova mal-iluminada. Nenhuma forma horrível se enrolava ali; havia sangue no chão de mármore, e uma trilha levava a uma sinistra porta arqueada. Os rastros eram dos pés descalços de um homem…

— Conan! — ele olhou de volta para a câmara, bem a tempo de segurar a Divina de Vendhya em seus braços, quando ela cruzou a sala correndo e se jogou sobre ele, agarrando-o pelo pescoço com um abraço frenético, meio histérico, de terror, gratidão e alívio.

O sangue selvagem do bárbaro tinha sido levado ao extremo por tudo o que passara. Ele a agarrou num abraço que a teria machucado em outros tempos, e apertou os lábios contra os dela. Ela não resistiu; a Divina estava afogada na mulher elemental, fechou os olhos e se embriagou nos beijos ardentes, ferozes e sem lei, com todo o abandono da sede da paixão. Yasmina estava ofegante com sua violência, quando ele parou para tomar fôlego, e olhou para ela deitada, mole, em seus braços poderosos.

— Sabia que você viria por mim — ela murmurou. — Você não me deixaria neste covil de demônios.

Às palavras dela, um reconhecimento de onde estavam chegou a ele de repente. Conan ergueu a cabeça e ficou ouvindo por um momento. O silêncio reinava em todo o castelo de Yimsha, mas era impregnado de ameaça. Perigo se arrastava em cada canto, espreitava invisível de cada cortina.

— É melhor irmos enquanto podemos — ele resmungou. — Aqueles cortes são o suficiente para matar qualquer homem comum ou besta... Mas um mago tem doze vidas. Mate uma, e ele foge como uma cobra aleijada para sugar veneno fresco de alguma outra fonte de feitiçaria.

Ele apanhou a garota e, carregando-a em seus braços como uma criança, passou pelo corredor brilhante de jade e escadas abaixo, nervos totalmente alertas para qualquer som ou sinal.

— Eu encontrei o Mestre — ela sussurrou, aninhando-se a ele e estremecendo. — Ele lançou seus feitiços sobre mim para quebrar minha vontade. A coisa mais horrível foi um cadáver putrefato que me agarrou em seus braços... Eu desmaiei e fiquei como morta. Não sei por quanto tempo. Logo depois que recobrei a consciência, escutei sons de luta abaixo, e gritos, e então aquela cobra veio deslizando por entre as cortinas... Ah! — Yasmina estremeceu ante a memória daquele horror. — Eu sabia, de alguma forma, que não era uma ilusão, mas uma serpente verdadeira que queria minha vida.

— Pelo menos não era uma sombra — respondeu Conan, sério. — Ele sabia que tinha sido vencido, e optou por matá-la em vez de deixar que fosse resgatada.

— O que quer dizer com ele? — ela perguntou irrequieta, e então se encolheu contra seu corpo, gritando e esquecendo a pergunta. Tinha visto os cadáveres no pé das escadas. Aqueles dos Profetas não eram agradáveis de ser vistos; retorcidos como estavam, suas mãos e pés jaziam expostos à vista, e Yasmina ficou pálida com a visão, e escondeu o rosto no ombro poderoso de Conan.


10) Yasmina e Conan

CONAN PASSOU APRESSADO PELO SALÃO, ATRAVESSOU A CÂMARA exterior e se aproximou da porta que conduzia à galeria. Viu o chão salpicado com pequenos cacos brilhantes. A folha de cristal, que havia recoberto a porta de entrada, tinha sido estilhaçada, e ele se lembrou do estrondo que acompanhara o globo de cristal ao ser despedaçado. Conan acreditava que cada pedaço de cristal no castelo se quebrara naquele instante, e algum instinto débil, ou memória de erudição esotérica, sugeria vagamente a verdade por trás da conexão monstruosa entre os Senhores do Círculo Negro e as romãs douradas. Sentiu calafrios gelados na parte posterior do pescoço, e decidiu, rápido, parar de pensar no assunto.

Deu um grande suspiro de alívio, ao pisar sobre a grande galeria de jade verde. Ainda era preciso cruzar a garganta, mas ao menos ele podia ver os picos brancos brilhando sob o sol, e as longas encostas se esvaindo na distante névoa azulada.

O irakzai jazia onde tinha caído, uma mancha feia na lisura vítrea. Conforme Conan seguia pelo sinuoso caminho, ficou surpreso ao notar a posição do sol. Ele ainda não passara seu zênite; contudo, parecia-lhe que horas tinham transcorrido desde que entrara no castelo dos Profetas Negros.

Sentiu uma urgência para se apressar — não um mero pânico cego, mas um instinto de perigo crescendo atrás de si. Nada disse a Yasmina, e ela parecia contente em aconchegar a cabeça contra seu peito taurino e encontrar segurança no aperto de seus braços de ferro. Ele parou um instante na beira do abismo, olhando carrancudo para baixo. A neblina que dançava na garganta não era mais rosada e brilhante, mas fumarenta, turva e fantasmagórica, como o fluxo de vida que brilha debilmente em um homem ferido. Veio-lhe, vagamente, o pensamento de que os feitiços dos magos estavam mais ligados aos seus entes pessoais do que às ações de um homem comum.

Porém, lá embaixo, o chão brilhava como prata embaçada, e o filão dourado ainda reluzia. Conan jogou Yasmina sobre o ombro, onde ela permaneceu dócil, e começou a descida. Passou apressado pela rampa, e atravessou o caminho dourado. Ele tinha convicção de que estavam correndo contra o tempo; que suas chances de sobrevivência dependiam de cruzarem a garganta dos horrores, antes do ferido Mestre do castelo poder recuperar poder suficiente para liberar alguma outra desgraça sobre eles.

Quando subiu a rampa oposta e chegou ao cume, suspirou aliviado e colocou Yasmina de pé.

— Você anda a partir daqui — disse-lhe. — É descida o caminho inteiro.

Ela lançou um olhar para a pirâmide reluzente do outro lado do abismo, que se empinava contra a colina nevada, como uma silenciosa cidadela de maldade imemorial.

— Você é um feiticeiro por ter derrotado os Profetas Negros de Yimsha, Conan de Ghor? — ela perguntou, enquanto desciam pela trilha, e o pesado braço dele estava enrolado na cintura delgada da moça.

— Foi um cinturão que Khemsa me deu antes de morrer — Conan respondeu. — Sim, eu o encontrei no caminho. É bastante curioso, vou mostrar-lhe quando tivermos tempo. Contra alguns feitiços ele era fraco, mas contra outros era forte, e uma boa faca sempre é um encanto caloroso.

— Mas, se o cinturão o ajudou a derrotar o Mestre — ela argumentou —, por que não ajudou Khemsa?

Ele balançou a cabeça:

— Quem sabe? Mas Khemsa tinha sido escravo do Mestre; talvez isso tenha enfraquecido sua magia. Ele não tinha poder sobre mim como sobre Khemsa. Entretanto, não posso dizer que o derrotei. Ele se retirou; no entanto, tenho a sensação de que ainda o veremos. Quero colocar o máximo de milhas que pudermos entre nós e seu covil.

Ele ficou ainda mais aliviado ao encontrar os cavalos amarrados entre as tamargueiras, como os tinha deixado. Soltou-os rápido e montou no garanhão negro, colocando a garota à sua frente. Os outros o seguiram, revigorados pelo descanso.

— E agora? — ela perguntou — Para o Afghulistão?

— Ainda não — ele sorriu duramente. — Alguém, talvez o governador, matou meus sete chefes, e meus seguidores imbecis pensam que tenho algo a ver com isso. A não ser que consiga convencê-los de que não fui eu, irão me caçar como um chacal ferido.

— E quanto a mim? Se os chefes estão mortos, não tenho mais utilidade para você como refém. Você me mataria para vingá-los?

Ele olhou-a, com olhos ferozmente inflamados, e riu da sugestão.

— Então, vamos cavalgar até a fronteira — ela disse —; lá você estará a salvo dos afghulis...

— Sim; em uma forca vendhyana.

— Eu sou a Rainha de Vendhya — ela disse com um toque de seu velho imperialismo —, você salvou minha vida e será recompensado.

Ela não pretendia que soasse como soou, mas ele soltou um grunhido, pouco satisfeito.

— Guarde a sua recompensa para sua raça de cães da cidade, princesa! Se você é uma rainha das planícies, eu sou um chefe das colinas, e não a levarei nem um passo em direção à fronteira!

— Mas você estaria seguro... — ela implorou, perplexa.

— E você seria Divina novamente — ele a interrompeu. — Não, menina; prefiro você como está agora; uma mulher de carne e osso, cavalgando no arco da minha sela.

— Mas você não pode me manter — ela gritou. — Não pode...

— Observe! — ele a aconselhou com severidade.

— Mas lhe pagarei um bom resgate...

— O diabo leve seu resgate! — ele respondeu de maneira brusca, com os braços apertando a figura magra. — O reino de Vendhya não poderia me dar nada que eu deseje tanto quanto desejo você. Coloquei meu pescoço em risco para apanhá-la, e se seus bajuladores a quiserem de volta, que venham a Zhaibar lutar por você.

— Mas agora você não tem seguidores — ela protestou —, está sendo caçado! Não conseguirá preservar nem a própria vida, quanto mais a minha!

— Ainda tenho amigos nas colinas — respondeu. — Há um chefe dos Khurakzai que a manterá a salvo, enquanto eu me entendo com os afghulis. Por Crom, se estiverem cansados de mim, cavalgarei com você para o norte, até as estepes dos kozakis. Fui um hetman entre os Companheiros Livres antes de cavalgar para o sul, e farei de você uma rainha no Rio Zaporoska!

— Mas eu não posso; você não pode me segurar...

— Se a idéia lhe é tão repulsiva — ele inquiriu —, por que grudou seus lábios nos meus com tanta disposição?

— Reis também são humanos — ela respondeu, enrubescendo —, mas, justamente por ser rainha, tenho de pensar antes em meu reino. Não me carregue para algum país distante; volte comigo para Vendhya!

— Você me tornaria seu rei? — ele perguntou com sarcasmo.

— Bem, há tradições... — ela gaguejou, e Conan a interrompeu com uma sonora gargalhada.

— Sim, costumes civilizados que não lhe permitem fazer o que quiser. Você se casará com um rei velho e murcho das planícies, enquanto eu seguirei meu caminho apenas com a lembrança de alguns beijos roubados de seus lábios. Ah!

— Mas devo retornar ao meu reino — ela repetiu desamparada.

— Por quê? — exigiu ele, zangado. — Para apertar o traseiro em tronos de ouro e escutar os aplausos de tolos sorridentes em saias de veludo? O que você ganha com isso? Ouça, eu nasci nas colinas da Ciméria, onde todas as pessoas são bárbaras. Fui um soldado mercenário, corsário, kozak e uma centena de outras coisas. Que rei vagou pelos países, lutou as batalhas, amou as mulheres e ganhou os saques que eu já tive?

“Eu vim ao Ghulistão, para levantar uma horda e saquear os reinos ao sul — entre eles, o seu. Ser chefe dos afghulis é apenas o começo. Se eu puder conciliar todos os reinos, no prazo de um ano terei uma dúzia de tribos me seguindo; mas, se não puder, voltarei para as estepes e pilharei as fronteiras turanianas com os kozakis, e você irá comigo. Para o diabo o seu reino; eles sabem como se defender desde antes de você nascer.”

Yasmina ficou em seus braços, encarando-o, e se sentiu tocada. Assim como ele, ela também tinha uma urgência negligente e sem lei que ele próprio chamara à existência. Mas mil gerações de soberania pesavam sobre seus ombros.

— Não posso! Não posso! — repetiu indefesa.

— Você não tem escolha — ele a assegurou. — Você... Que diabos!

Yimsha já ficara algumas milhas para trás, e agora cavalgavam por uma cordilheira alta que separava dois vales profundos. Tinham acabado de chegar ao cume, de onde olharam para o vale, à direita, e viram uma luta em progresso. Um forte vento soprava ao longe, carregando o som de seus ouvidos, mas, mesmo assim, o choque do aço e o trovejar dos cascos brotava lá de baixo.

Eles viram o reluzir do sol nas pontas das lanças e dos capacetes espiralados. Três mil cavaleiros encouraçados perseguiam um bando de cavaleiros de turbante, que fugiam rosnando e golpeando como coiotes em retirada.

— Turanianos — murmurou Conan. — Esquadrões de Secunderam. Que diabos estão fazendo aqui?

— A quem eles perseguem? — perguntou Yasmina. — E por que recuam tão teimosamente? Não podem fazer frente aos demais.

— Quinhentos dos meus loucos afghulis — ele rosnou, olhando para o vale com cara feia. — Eles caíram em uma armadilha e sabem disso.

De fato, o vale era um beco sem saída naquela extremidade. Ele se estreitava para uma garganta de paredes altas, as quais se abriam como uma tigela redonda, totalmente margeada por paredes altas e impossíveis de serem escaladas.

Os cavaleiros de turbante estavam sendo empurrados para dentro desta garganta, pois não havia mais para onde ir, e, relutantes, entravam sob uma chuva de flechas e um turbilhão de espadas. Os cavaleiros com elmos os feriam, mas não os pressionavam tão arrojadamente. Eles conheciam a fúria desesperada das tribos das colinas, e também sabiam que sua presa estava numa armadilha sem escapatória. Reconheceram os montanheses como afghulis e queriam cercá-los para forçar uma rendição, pois precisavam de reféns para o propósito que tinham em mente.

Seu emir era um homem de decisão e iniciativa. Quando chegou ao Vale de Gurashah e não encontrou guias ou emissários à sua espera, seguiu adiante, confiante no conhecimento que tinha da região. Durante o caminho inteiro, desde Secunderam, encontrou combates e homens das tribos lambendo suas feridas, em vilarejos empoleirados nos rochedos. Ele sabia que havia uma boa chance de que nem ele nem qualquer um de seus homens voltasse a cavalgar pelos portões de Secunderam, porque todas as tribos agora estavam atrás deles, mas estava determinado a cumprir as ordens que recebera: apanhar a Devi Yasmina dos afghulis e levá-la prisioneira para Secunderam, ou, em caso de confronto, de arrancar fora a cabeça dela antes que perdesse a sua.

Claro que os vigias nas colinas não sabiam disso, mas Conan remexia-se com impaciência.

— Por que diabos se deixaram cair numa armadilha? — perguntou, como se questionasse o universo. — Sei o que os cães faziam por estes lados: estavam me caçando! Remexeram cada vale e, sem perceber, acabaram encurralados. Pobres tolos! Estão fazendo um foco de resistência na garganta, mas não agüentarão por muito tempo; quando os turanianos os empurrarem até aquela bacia, os matarão com a maior facilidade.

O fraco estrondo que vinha lá de baixo cresceu em volume e intensidade. Os afghulis, no estreito da entrada, lutavam desesperados, resistindo aos cavaleiros encouraçados que não conseguiam lançar todo seu peso contra eles.

Conan franziu sombriamente o cenho, dedilhou o cabo de sua faca, e enfim falou abruptamente:

— Divina, preciso descer até lá. Encontrarei um lugar para que se esconda, até eu voltar. Você falou do seu reino... Pois bem, eu não diria que encaro aqueles demônios peludos como meus filhos, mas, seja como for, são meus comparsas. Um chefe nunca pode desertar de seus seguidores, mesmo que estes tenham desertado dele. Eles acham que estão com a razão por terem me chutado... Inferno; não serei rejeitado! Ainda sou o chefe dos afghulis e provarei isso! Posso descer até a garganta a pé.

— E eu? — ela questionou. — Você me toma de meu povo à força, e agora me abandona aqui para morrer, sozinha, nas colinas, enquanto desce e se sacrifica em vão?

Suas veias se incharam com o conflito de emoções.

— Está certo — resmungou Conan, impotente. — Crom sabe o que posso fazer...

Ela virou a cabeça devagar, e uma expressão curiosa foi surgindo em seu belo rosto. Então:

— Ouça! — ela gritou. — Ouça!

Uma distante fanfarra de trombetas chegou aos seus ouvidos. Eles olharam à esquerda do vale profundo, e viram o brilho do aço vindo do lado oposto. Uma longa linha de lanças e capacetes polidos movia-se ao longe.

— Os cavaleiros de Vendhya — ela gritou exultante.

— Há milhares deles! — murmurou Conan. — Muito tempo já passou desde que uma tropa kshatriya veio tão longe nas colinas.

— Estão me procurando! — ela exclamou. — Dê-me seu cavalo; irei até meus guerreiros! A descida não é tão íngreme à esquerda, e poderei chegar ao leito do vale. Então, conduzirei meus cavaleiros para a extremidade superior do vale, e cairemos sobre os turanianos. Nós os esmagaremos por trás! Rápido, Conan! Sacrificará seus homens por um capricho da sua vontade?

A fome ardente das estepes e das florestas invernais brilhou nos olhos de Conan, mas ele balançou a cabeça e desceu do garanhão, entregando as rédeas nas mãos dela.

— Você venceu! — ele grunhiu. — Cavalgue como o demônio!

Ele virou-se, descendo a cordilheira pelo lado esquerdo, e correu apressado pela trilha até chegar a uma longa fenda escarpada, que era o desfiladeiro no qual a luta irrompia. Desceu como um macaco pela parede acidentada, escalando projeções e fendas, para, afinal, cair dentro da peleja que assolava a entrada da garganta. Lâminas batiam e retiniam sobre ele, cavalos relinchavam, empinando-se, e plumas de capacetes acenavam entre turbantes manchados de vermelho.

Assim que desceu, Conan uivou como um lobo, apanhou uma rédea trabalhada a ouro e, desviando-se do golpe de uma cimitarra, fez sua longa faca atravessar as tripas do cavaleiro. No instante seguinte, já estava sobre a sela, gritando com ferocidade ordens aos afghulis, que, por um momento, o encararam com rebeldia. Mas ao verem o estrago que o aço de Conan fazia entre os inimigos, os afghulis voltaram a trabalhar e aceitaram-no sem comentários. Naquele inferno de lâminas cortando, e de sangue espirrando, não havia tempo para perguntas ou respostas.

Os cavaleiros de capacetes espiralados e cotas de malha tecida em ouro infestavam a entrada da garganta, estocando e retalhando, e o estreito desfiladeiro ficou apinhado de homens e cavalos, de guerreiros que colidiam peito contra peito, apunhalando com lâminas curtas e lacerando mortalmente quando o espaço permitia o brandir da espada. E quando um homem caía, não se levantava mais por causa das pisadas e da agitação dos cascos. Peso e força bruta contavam muito ali, e o chefe dos afghulis trabalhou por dez. Em ocasiões como aquela, os homens sentem o peso de seus hábitos, e os guerreiros, acostumados a ver Conan em sua vanguarda, foram poderosamente fortalecidos, apesar de terem desconfiado dele.

Mas não era só isso. A pressão dos homens por trás forçava os cavaleiros de Turan a irem cada vez mais fundo na garganta, sob as garras das fulgurantes tulwars. Pé ante pé, os afghulis foram recuados, deixando o chão do desfiladeiro coberto com um carpete de mortos, sobre os quais os cavaleiros pisoteavam. Enquanto cortava e golpeava como um homem possuído, Conan teve tempo para algumas dúvidas arrepiantes. Yasmina manteria sua palavra? Ela poderia juntar-se aos seus guerreiros, virar para o sul e deixá-lo, junto com seu bando, à própria sorte.

Enfim, após o que pareceram séculos de batalha desesperada, do lado de fora do vale, outro som se sobrepôs à colisão do aço e aos gritos de matança. E, com uma explosão de trombetas que sacudiu as paredes e o trovejar dos cascos, cinco mil cavaleiros de Vendhya assolaram as tropas de Secunderam.

Aquele ataque dividiu os esquadrões turanianos, quebrando, rasgando e despedaçando, e espalhando seus fragmentos por todo o vale. Em um instante, a onda vazara para fora do desfiladeiro, um furacão confuso e caótico de espadachins e cavaleiros virando-se e combatendo sozinhos ou em grupos. Então, o emir caiu com uma lança kshatriya cravada no peito, e os cavaleiros de capacetes espiralados direcionaram seus cavalos vale abaixo, esporando-os de maneira enlouquecida e buscando abrir caminho à força pelo enxame que os atacara por trás. Enquanto os vencidos se espalhavam em fuga, os conquistadores o faziam em perseguição e, por todo o leito do vale, pelas colinas próximas à entrada da garganta e sobre os picos, fluíam fugitivos e algozes. Os afghulis que ainda podiam cavalgar saíram garganta afora e se juntaram na caçada aos inimigos, aceitando a inesperada aliança de modo tão inquestionável quanto tinham aceitado o retorno do chefe repudiado.

O sol descia atrás dos rochedos distantes, quando Conan, com as vestes em farrapos, a malha coberta de sangue e a faca gotejando e com crostas até o cabo, caminhou sobre os cadáveres e foi até o topo da cordilheira, onde a Devi Yasmina se encontrava, entre os nobres, sentada em seu cavalo, próximo a um imponente precipício.

— Você manteve sua palavra, Divina! — ele rugiu. — Por Crom, mas tive alguns maus momentos naquela garganta... — e, sem concluir a frase, Conan bradou:

— Cuidado!

Dos céus, desceu um abutre imenso, com asas trovejantes, capazes de nocautear homens sobre seus cavalos.

O bico, como uma cimitarra, veio lacerando em busca do pescoço macio de Divina, mas Conan foi mais rápido. Uma corrida curta, um salto de tigre, uma punhalada selvagem e uma faca ensangüentada. O abutre soltou um terrível grito humano, pendeu para o lado e desmoronou pelas falésias em direção às rochas e ao rio, trezentos metros abaixo. Conforme caía, com suas asas negras feito refugos no ar, ele foi assumindo a forma, não de um pássaro, mas de um homem com um manto negro e os braços, em mangas largas, voltados para o alto.

Conan virou-se para Yasmina, a faca vermelha em sua mão, os olhos azuis faiscando e o sangue escorrendo das feridas em seus braços e coxas:

— Você é a Divina outra vez — disse, sorrindo ferozmente ao olhar o manto de fios de ouro entrelaçados, que ela jogara por cima de suas vestes montanhesas, e nem um pouco espantado com o imponente conjunto de cavalaria que a cercava. — Preciso agradecê-la pela vida de quase trezentos e cinqüenta homens, meus comparsas, que, afinal, estão convencidos de que não os traí. Você colocou as rédeas da conquista nas minhas mãos outra vez.

— Ainda lhe devo um resgate — ela disse, com os olhos negros brilhando enquanto o esquadrinhavam. — Pagarei a você dez mil peças de ouro...

Ele fez um gesto selvagem e impaciente. Limpou o sangue da faca, enfiou-a de novo na bainha, e limpou as mãos na malha.

— Vou receber o resgate à minha maneira, na hora devida — ele disse. — Vou retirá-lo em seu palácio, em Ayodhya, e irei com cinqüenta mil homens para me certificar de que as taxas serão justas.

Ela riu, juntando as rédeas nas mãos:

— E eu irei encontrá-lo nas margens do Rio Jhumda com cem mil homens!

Os olhos de Conan brilharam em ardente admiração. E, dando um passo para trás, ele ergueu a mão, com um gesto típico da realeza, indicando a ela que a estrada estava livre à sua frente.


FIM


Tradução: Alexandre Callari

Revisão: Fernando Neeser de Aragão.

Fontes: Conan O Bárbaro (Ed. Évora) e site http://gutenberg.net.au/ebooks06/0600941h.html



A Seguir: Natala da Britúnia.




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