Matérias e Entrevistas: Aragorn X Conan

por Ricardo Tavares Medeiros
em 15/02/2005
Guerreiros 'espadas' empunham armas poderosas num choque épico

ARAGORN

PONTOS FORTES: Seu carisma e a vocação natural como líder que o ajudaram a assumir o trono de um dos reinos da Terra-Média

PONTOS FFRACOS: Ele precisa urgentemente de um banho e uma visita ao barbeiro. Além disso, não pode ver um rabo-de-saia!

CONAN

PONTOS FORTES: Bíceps salientes, como os de um Mr. Universo, cara de malvado e a capacidade de grunhir algumas palavras
PONTOS FRACOS: O bárbaro não dá sorte com as mulheres e fica bêbado facilmente – às vezes chega até a brigar com camelos...

O DUELO

Por Crom! Conan tem sua espada selvagem, feita com aço forjado pelos próprios deuses, enquanto a espada de Aragorn foi forjada pelos
anões... Tá certo que ter uma espada de anão não ajuda muito com as mulheres, mas o herói de O senhor dos Anéis combateu mais orcs, trolls, uruku-bakas e smurfs que seu oponente cimério. Aragorn derrotou imensos exércitos formados por oponentes bem mais horrendos que um mísero rei-serpente – Conan mostrou brabeza quando decapitou o rastejante Tulsa Doom, mas não passou disso. Entretanto, o bárbaro é a perfeita
encarnação do ditado 'A ignorância é uma bênção'. Sua proverbial burrice – Conan não teme nada nem a ninguém – pode ser a arma para
enfrentar de igual para igual o adversário épico.

E O VENCEDOR É

Aragorn, afinal ele é um rei e Conan hoje é um mero governador de estado..."

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É engraçado, não dá pra negar. Mas todos concordarão que não foi mostrada a verdadeira face do Cimério. Peço paciência para que leiam a mensagem que enviei ao expediente da revista, endereçada a Carlos Primat, o autor da matéria.

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Esta mensagem é endereçada ao senhor Carlos Primat, autor da matéria "Dez duelos além da imaginação", capa da edição número 31 da revista Mundo Estranho (como não havia um contato pessoal, peço ao interlocutor que encaminhe esta ao devido destino).

Eu nunca havia adquirido em exemplar de Mundo Estranho. Tinha planos de assinar assim que as finanças ajudassem. Folheando meu exemplar da Superinteressante deste mês, me deparei com um anúncio da citada publicação, onde a capa era mostrada. E qual não foi minha surpresa ao
ver que havia a citação de minha publicação favorita: Conan. Fiquei entusiasmadíssimo e controlei todos os meus impulsos de sair correndo à banca mais próxima para comprar esta edição (que, aliás, estava com preço promocional) para adicionar à minha coleção de mais de 450 publicações referentes ao personagem. Veio-me à cabeça: "Enfim, minhas duas leituras prediletas se uniram. Pode ser um passo para que se publique uma tão sonhada matéria sobre o personagem, sua era, seu criador".

Ao comprar a revista em banca (coisa que não costumo fazer, pois prefiro assinatura), fui direto à matéria que me interessava. A euforia se transformou em decepção. Numa matéria (muito bem humorada e inteligente, diga-se de passagem), Conan é totalmente difamado em comparação com Aragorn, um dos personagens principais da trilogia "O Senhor dos Anéis". Eu não discordo das proposições da revista em um único ponto: o Bárbaro descrito, realmente, perde feio para o rei da saga de Tolkien. Mas seu erro principal, Primat, foi se basear no Conan dos filmes.

Primeiro: adaptações cinematográficas, muitas vezes, distorcem totalmente a idéia principal da origem (o que não aconteceu na trilogia da Terra Média). O Cimério dos filmes da década de 80 teve uma adaptação muito infiel e, pra piorar, foi interpretado por Arnold "Bush", que deu uma magnífica imagem à idéia de Robert E. Howard, mas teve uma atuação - porque não dizer - idiota (unindo seu talento e o roteiro mal elaborado). É covardia comparar os filmes.

Segundo: Conan e Arnold são criaturas distintas. Foi muito boa a piadinha de dizer que "Conan é um mero governador de estado", mas isso não influi em nada no fatídico confronto entre os personagens.

Confesse, Carlos: para fazer estes comentários você deve ter visto apenas um dos filmes ou ouvido histórias de outras pessoas que viram. Deveria ter lido contos e quadrinhos. Pelo menos uma pesquisinha no Google. Você não sabe quem é Conan.

As características atribuídas a Aragorn se aplicam ao verdadeiro Conan: o dos contos originais. O dos quadrinhos também não fica atrás. Se o
Bárbaro do filme é burro, como citou, o dos quadrinhos é um manipulador nato, que domina as mais variadas línguas de seu tempo e sabe o que fazer na hora certa. Se você tivesse lido a história "O Tesouro deTranicos", publicado pela sua Editora Abril na extinta Espada Selvagem de Conan 90/91, teria de mudar seu discurso. Se o Cimério do filme não se dá bem com mulheres, o dos quadrinhos traçou a maiores beldades da Era Hiboriana, de rainhas a serviçais, de bruxas a deusas, de escravas a criaturas do mal. Mulheres de todas as cores do arco-íris. Basta dar uma lida em "A Rainha da Costa Negra" (ESC 41 a 57) para conhecer a tigresa Bêlit, ou "A cidadela dos condenados" (ESC 2), para conhecer a Valéria original (a Valéria do primeiro filme foi uma malfadada união destas duas personagens) e tantas outras mulheres incríveis. Se acha que as vítimas de Aragorn são mais que as de Conan, te convido a contar os mortos (como Crom tem feito a pedido do Cimério a muito tempo) nas histórias registradas. E não falo só de humanos: inúmeras bestas, monstruosidades e afins. Leia, por exemplo, "A fronteira do fim do mundo" (ESC 14/15). Todas morreram sob o fio de uma afiada espada, que pode ser qualquer uma retirada de um inimigo morto com uma chave de pescoço (diferente do filme, Conan não depende de espadas mágicas, apenas de um braço forte, como pode ser visto na maioria das histórias). Não ache que o personagem não tem medo de nada, como disse: ele teme a magia, mas não foge da raia. Já detonou inúmeros feiticeiros e guerreiros que usavam armas mágicas. Se acha que Thulsa Doom é um "mísero rei-serpente", como mostrado no filme, convido-te a conhecer o verdadeiro mago da era Pré-Cataclísmica, que atormentou Kull, o Detruidor, resistiu ao Grande Cataclismo e já lutou contra e ao lado do Bárbaro algumas vezes. Leia "A Caveira dos Mares" (ESC 101 a 106). E o principal: Conan também é um rei. Essa informação estava no filme, mas você omitiu, não é, Carlos? E ele chegou ao trono não por herança, mas porque usurpou o trono do déspota da maior nação da Era Hiboriana: a
Aquilônia. Tinha enorme carisma e era um líder nato. E governou com sabedoria. Leia "Conan, o Libertador" (ESC 37 a 40).

Conclusão: você não sabe nada de Conan para fazer estes comentários. O verdadeiro Conan bateria 10 Aragorns empunhando a espada com a mão esquerda. Sua matéria é interessantíssima e muito engraçada (como não conheço tão profundamente os demais personagens sacaneados, não sei se suas avaliações são corretas, mas foram bem elaboradas). Sei que se trata de uma visão pessoal, mas com fontes deturpadas. Você não poderia ter feito algo desse tipo sem uma pesquisa apurada (que um jornalista experiente faria, por mais degradante que fosse a matéria).

A revista não fará parte de minha coleção. Não vou mais assinar este título e penso seriamente em não mais renovar minha assinatura da Super. Se o comprometimento com o leitor continuar nesse nível... Sei que um leitor não é nada para a todo-poderosa "Família Super", mas não posso compactuar com isso e farei a minha parte. Faz tempo que a super se transformou em uma "Veja adolescente", faturando em cima de assuntos polêmicos e delegando assuntos mais interessantes a outras publicações ("pra que oferecer tudo numa única revista se podemos obrigar os leitores a comprar mais títulos?"). Ainda assim, concordo que a separação por assunto ajuda quem se interessa em determinada área. Vocês já tinham me sacaneado quando tiraram a coluna assinada pelo professor Luis Barco, meu ídolo da Superinteressante original, agora isso. Acho que Mundo Estranho está querendo concorrer com Casseta & Planeta em humor negro.

Espero uma retratação a altura. Conan é tão importante quanto, por exemplo, Tarzan. Robert Erwin Howard, seu criador, tem um status tão imponente quanto J. R. R. Tolkien. O personagem passou por um período de baixa nos quadrinhos, como acontece com qualquer outro que cai nas mãos de maus argumentistas e desenhistas. Mas está ressurgindo com sucesso na terra do Tio Sam e precisa se reerguer também no Brasil. Mas como fazer isso com essa propaganda negativa que fizeram? Será que é despeito porque não é mais a Abril que detém os direitos de publicação?

Se a "Família Super" continuar no mesmo estilo, quando o novo longametragem do Cimério emplacar e se tornar um blockbuster, vocês farão uma reportagem de capa como com Tróia, Homem Aranha, Senhor dos Anéis (vende mais, não é?)... E eu serei o primeiro a acusá-los de hipocrisia.

Antes de falar de Conan, leia Conan.

Ricardo Tavares Medeiros

Brasília, DF.

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Não quero influenciá-los - cada um tem direito a ter sua própria opinião, inclusive o autor. Mas isto prejudica novas adesões. Se um jovem que não conhece o Cimério ler a matéria vai cair na gargalhada e achar que as aventuras de Conan são iguais à de Groo, sua sátira de Aragonés. Não deu pra levar na esportiva.

Curtam agora a resposta que recebi:

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Bom dia, Ricardo. Muito obrigado pela longa e atenta mensagem sobre nossa reportagem dos Duelos Imaginários. Primeiro, gostaria de afirmar que cada leitor é importante para nós da família Super -- procuramos dispensar o melhor tratamento a todos que nos escrevem com sugestões, elogios ou críticas. A proposta da reportagem foi imaginar os duelos de maneira informativa e bem humorada, como é a cara da nossa publicação. Mundo Estranho é uma revista mais "pop" que a Super, portanto é natural que a reportagem seguisse esse caminho. De qualquer forma, vale dizer que não pretendemos concorrer com o "Casseta" -- somos uma revista bem humorada, mas não humorística. É nossa intenção escrever de maneira descontraída, mas sem descuidar da informação. Acho que a reportagem como um todo cumpre esse papel. Para completar, encaminhei seu e-mail para nosso repórter Carlos Primati e ele nos enviou uma resposta com vários esclarecimentos importantes. Veja só:

"Oi, Ricardo. Suas reivindicações são válidas, mas nossa proposta inclui a seguinte premissa: os duelos propostos eram baseados no CINEMA, e não na origem do personagem. Só isso. Não apenas eu conheço muito bem CONAN, como fiz um dossiê de tudo que foi publicado no Brasil do personagem Kull, em formato CD-ROM, para a extinta revista PLANETA ZERO, da qual fui editor, na ocasião  do lançamento do filme no Brasil. Na edição em papel, havia uma biografia do escritor que criou Conan e Kull. De resto, muito obrigado pelos elogios à matéria. Grande abraço, Primati".

Valeu pela mensagem e escreva sempre que quiser.

Um abraço,

Rodrigo Ratier.

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Que cada um tire suas prórpias conclusões. "Mundo Estranho", pra mim, nunca mais.
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