Um Novíssimo Recomeço... Reencontros na África
(por Fernando Neeser de Aragão)
1) “Quando ela era apenas uma garota,
Ela tinha expectativas do mundo.
Mas isso voou para longe de seu alcance.
Então ela fugiu em seu sono.
E sonhava com o paraíso, paraíso, paraíso,
Toda vez que ela fechava os olhos”.
(Coldplay, em Paradise/ 2011).
Meu nome é Turlogh O’Brien. Último sobrevivente de uma batalha naval contra os mouros, eu havia, após vingar as mortes dos amigos Athelstane e Don Roderigo, mergulhado no mar e nadado até a costa oeste da África, onde fui perseguido por nativos negros em peles de panteras.
Vendo que eu não agüentaria fugir deles por muito tempo, eu me voltei e os enfrentei. Após decepar a cabeça de um e rachar o crânio de outro, vi que aqueles homens em peles de pantera haviam me cercado. Súbito, vários guerreiros morenos, de crespas barbas negras e usando estranhas armaduras, apareceram naquela clareira e, com flechas, lanças e golpes de espadas, dispersaram os negros. Os poucos que não caíram fugiram desesperados e aos gritos.
Os guerreiros que me salvaram eram liderados por um homem alto e musculoso, o qual me guiou até sua cidade – um local cuja arquitetura eu nunca vira em minha vida. Era uma imponente cidade murada, se erguendo na planície verde. Vi as ameias, as torres além, com pequenas figuras se movendo ao redor delas. Do outro lado da cidade, percebi um pequeno lago, sobre cujas margens se estendiam jardins e campos luxuriantes, e vastidões de campinas ocupadas por gado que pastava.
O líder deles vestia um corselete de escamas de ferro, e na cabeça havia um elmo de ferro. Um escudo de madeira de lei e couro, reforçado com metal, se encontrava em seu braço esquerdo, uma adaga no cinto e uma curta, porém pesada, maça de ferro na mão. Era musculoso, de barba negra e vestido em armadura.
Aquela estranha cidade possuía um muro, com soldados em armaduras a se moverem como sentinelas ao longo da muralha – um muro alto e grosso, com torres espaçadas a intervalos regulares. Vi figuras de aspecto guerreiro daquele povo. As ruas e mercados abaixo das muralhas apresentavam um labirinto colorido, enquanto o povo ricamente vestido se movia num panorama sempre mutável.
Dentro daquela cidade, havia ruas estreitas, largas avenidas flanqueadas pelo que pareciam serem colunas e leões de pedra entalhada, e acima, grandes extensões de casas com tetos planos. Muitas das construções eram de pedra, e as outras, de tijolos secos ao sol. Havia uma imponência vagamente desagradável ao redor desta arquitetura – um tema sombrio e pesado, que parecia sugerir um caráter taciturno e levemente inumano dos construtores.
Quanto à construção que ocupava o centro daquela estranha cidade, pouco consegui imaginar de sua natureza. Contudo, ela tinha uma série de andares sólidos descendo como degraus gigantes. Era construída como a fabulosa Torre de Babel: uma camada sobre outra.
O líder dos guerreiros que me salvaram a vida me explicou que aquela torre escalonada era um templo dedicada a uma deusa, por nome Ishtar – da qual eu nunca ouvira falar. Por fim, chegamos ao palácio real da cidade, onde fui devidamente banhado e alimentado.
* * *
- Seja bem-vindo à cidade de Karkem, forasteiro – disse o rei daquele local, após o banquete.
O Rei Naquerib usava um estranho diadema, semelhante a um elmo e diferente de qualquer coroa que eu já tenha visto sobre as cabeças dos reis europeus. Em altura e musculatura, Naquerib era idêntico ao meu recém-falecido amigo Athelstane, embora o rei fosse escuro onde o saxão era claro – Naquerib era, como todos da classe dominante local, moreno, de barba, cabelos e olhos pretos, e nariz tão aquilino quanto o de todos os homens de seu povo. Seu cabelo e barba preto-azulados eram curiosamente encaracolados. E as feições daquele povo lembravam os árabes e seus parentes muçulmanos de outros países aos quais visitei – apesar de sua cultura e religião serem totalmente diferentes.
Os muros da sala do trono eram ricos em decorações murais, entalhes pintados em várias cores, bem-matizadas e combinadas. De fato, a arte era de um padrão tão elevado quanto qualquer uma que eu já houvesse visto na Ásia ou Europa. Muitas das cenas eram de guerra ou de caça – homens fortes, com barbas negras que eram freqüentemente encaracoladas, em armaduras, matando leões ou expulsando outros guerreiros diante deles. Alguns dos guerreiros perseguidos eram negros nus; outros lembravam bastante meus salvadores.
As figuras humanas não eram tão bem retratadas quanto as das feras; eram convencionadas a um ponto que freqüentemente dava a elas um aspecto um tanto rígido. Mas os leões eram retratados com vívido realismo. Algumas das cenas mostravam os matadores de barbas negras em carruagens, puxadas por cavalos de respiração ardente, e tive novamente aquela estranha sensação de familiaridade, como se já houvesse visto estas cenas – ou cenas semelhantes – antes. As carruagens e cavalos, eu percebi, eram inferiores aos leões em aparência de vida. A imperfeição não estava na estilização, mas na ignorância do artista em relação ao tema, percebi, notando erros que pareciam inadequados, considerando-se a habilidade com a qual haviam sido retratados.
A princesa Naqiya, sobrinha do Rei Naquerib, e que se sentava ao lado dele, era claramente mestiça, com traços do povo do seu tio misturados aos dos nativos. Ela tinha uma expressão cabisbaixa e melancólica. Por um instante, tive a impressão de que ela havia me olhado com ar de súplica, mas ela automaticamente voltou a olhar para baixo, como que temendo que o tio percebesse algo.
- Ah, não repare no jeito de minha sobrinha, Turlogh – o rei disse, ao perceber que eu a olhara. – Ela vive assim, desde que o pai dela foi morto por um maldito negro da tribo que lhe perseguia, achando que ele havia seqüestrado a mãe dela para casar-se com ele, quando, na verdade, a união foi de comum-acordo.
Após eu beber vários copos de vinho daquele povo moreno, o mundo explodiu, com um forte impacto em minha nuca. A última coisa que me lembro, na fração de segundo entre o impacto e o meu desmaio, foi o olhar assustado e chocado de Naqiya em minha direção.
2)
Aquele vinho estava drogado, e aquilo fez com que eu começasse a ter visões e estranhas lembranças de eras passadas durante minha inconsciência. Vi uma poderosa cidade, numa era remota e indistinta – capital de um reino tropical, milhares de quilômetros a leste. Ela era habitada por negros e governada por guerreiras também negras, de estatura elevada, as quais percorriam as ruas da cidade, montadas em zebras e rinocerontes domesticados.
Os negros do reino onde eu me encontrava eram descendentes de remanescentes do reino de Amazon, enquanto a classe dominante era de fugitivos assírios, os karkemitas, que, vindos do norte e leste, se assentaram naquelas estranhas ruínas (outrora um outro poderoso reino negro de uma era pré-Adâmica, e agora com sua arquitetura modificada pelos karkemitas) e governavam opressivamente tribos de negros. E, sempre que alguma tribo negra se rebelava contra os karkemitas, eles chacinavam homens, mulheres e crianças, poupando apenas as jovens mais belas para transformá-las em escravas e concubinas.
* * *
Acordei no calabouço e, pouco depois, fui interrogado pelo Rei Naquerib, cuja língua, assim como a daquele povo, tinha uma vaga semelhança com o idioma dos mouros, aos quais eu e o saxão Athelstane enfrentáramos sob o comando do falecido espanhol Don Roderigo Del Cortez. Eles queriam saber o que um “persa” como eu fazia ali, e quais eram minhas intenções. Sem entender, nada respondi. Enfurecidos diante do meu silêncio, ele e seus guerreiros lançaram em meu rosto um estranho pó que, ao invés de lhes trazer respostas, me fez cair sem sentidos novamente, e ter novas e estranhas visões.
Numa dessas visões, eu jazia imóvel, em outro calabouço, sob o palácio de uma cidade desaparecida, numa era desconhecida e num local distante, que outrora havia sido um reino poderoso, de cidades poderosas, fulgurantes de vida, cor e movimento, sempre em ebulição com várias dinastias. Ali, naquele reino quilômetros a norte de onde eu me encontrava, haviam existido templos, mercados, academias, escolas, fontes e ruas apinhadas de gente, palácios e inúmeras casas, jardins, lagos e terraços. Ali tinham erguido muralhas com portões de bronze, e o burburinho de caravanas e comércio, escritórios comerciais e mercadores de inúmeras cidades – mais tarde, totalmente destruídas por bárbaros do norte.
Naquele calabouço, eu suportava o peso de minhas correntes e o desespero de minha posição, com o estoicismo dos selvagens que me criaram. Eu não me movia, porque o ruído de minhas correntes, quando eu mudava de posição, soava assustadoramente alto na escuridão e no silêncio; e era meu instinto, nascido de mais de dois mil ancestrais nascidos na selva, o de não trair minha posição na minha situação indefesa. Isto não era o resultado de um processo de raciocínio lógico; eu não estava quieto porque havia raciocinado que a escuridão escondia perigos furtivos que poderiam me descobrir na situação impotente em que eu me encontrava. Um estranho homem, de cabeça leonina, rosto barbado e beleza calma e inumana, havia me assegurado de que eu não seria ferido, e eu acreditava que o homem tinha interesse em me preservar, ao menos por enquanto. Mas os instintos do selvagem estavam em mim, aqueles que me faziam, na infância, ficar escondido e em silêncio, enquanto feras selvagens rondavam ao redor de seu esconderijo.
Nem mesmo meus olhos agudos conseguiam penetrar a sólida escuridão. Mas, após um tempo, após um período de tempo do qual eu não tinha meio de calcular, um brilho fraco ficou aparente; uma espécie de raio de luz, oblíquo e cinza, através do qual consegui ver vagamente as barras da porta próxima ao meu cotovelo, e até distinguir a estrutura da outra grade. Isto me intrigou, até que eu finalmente percebi a explicação. Eu estava bem abaixo do chão, nos fossos sob o palácio; mas, por algum motivo, um poço de ventilação havia sido construído em algum lugar no alto. Lá fora, a lua se erguera até um ponto onde sua luz se inclinava fracamente em direção ao orifício. Refleti que, desta maneira, eu poderia acompanhar a passagem dos dias e noites. Talvez o sol também pudesse lançar seu brilho através desse orifício, embora, por outro lado, ele pudesse ser fechado de dia. Talvez isso fosse um sutil método de tortura, permitindo ao prisioneiro apenas um vislumbre da luz do dia ou do luar.
Meu olhar caiu sobre os ossos quebrados no canto mais afastado, brilhando fracamente. Não forcei o cérebro com fúteis especulações sobre quem havia sido o infeliz, ou por qual razão havia sido condenado, mas me perguntei a respeito do estado despedaçado dos ossos. Eles não haviam sido quebrados numa mesa de tortura. Então, enquanto eu olhava, outro detalhe repugnante se fez evidente. Os ossos das canelas estavam partidos ao comprido, e só havia uma explicação: haviam sido quebrados desta maneira, a fim de se obter o tutano. Mas qual criatura, além do homem, quebra ossos em busca de tutano? Talvez aqueles restos fossem evidências mudas de um horrível banquete canibal, feito por algum coitado enlouquecido pela fome. Eu me perguntei se meus próprios ossos seriam encontrados em alguma época do futuro, pendurados em minhas correntes enferrujadas. Lutei contra o pânico insensato de um lobo capturado numa armadilha.
Não praguejei, gritei, chorei nem delirei, como um homem civilizado faria. Mas a dor e agitação em meu peito não eram menos ferozes. Meus grandes membros – nesse interlúdio, maiores que o meu normal – tremiam com a intensidade de minhas emoções. Em algum lugar, bem longe a oeste, o exército do reino onde eu estava aprisionado despedaçava e queimava, em seu caminho para o coração do meu reino. A pequena hoste de aliados do sudoeste não era párea para eles. Um dos cavaleiros daquela hoste poderia ser capaz de defender a capital durante semanas, ou meses; mas, por fim, se não fosse auxiliado, render-se-ia à superioridade numérica dos inimigos. Certamente os barões iriam se reunir a ele contra os invasores. Mas, no momento, eu ficaria indefeso numa cela escura, enquanto outros conduziam minhas lanças e lutavam pelo meu reino. Rangi meus dentes poderosos em fúria vermelha.
Logo, eu me enrijeci ao ouvir um passo furtivo, do lado de fora da porta mais afastada. Forçando os olhos, percebi uma figura curvada e indistinta do outro lado da grade. Havia um ruído de metal contra metal, e ouvi um tinido de trancas, como se uma chave tivesse sido girada na fechadura. Então, a figura se afastou silenciosamente de meu alcance visual. Algum guarda, eu pensei, testando a fechadura. Após algum tempo, ouvi o som ser repetido fracamente em algum lugar mais distante, e este era seguido pelo suave abrir de uma porta, e então, um rápido correr de pés suavemente calçados se retirando à distância. Logo, o silêncio caiu novamente.
Agucei os ouvidos durante o que pareceu ser um longo tempo, mas não poderia ser, pois a lua ainda brilhava através do orifício escondido; mas não ouvi outro som. Eu finalmente mudei de posição, e minhas correntes retiniram. Logo, ouvi outro passo, mais leve – um passo suave do lado de fora da porta mais próxima, a porta através da qual eu havia adentrado a cela. Um instante depois, uma figura delgada se destacou na luz cinza.
Era uma garota, que estava agarrando as grades com seus dedos delgados. O brilho fraco atrás dela lhe delineava o contorno flexível, através do punhado de seda enrolado ao redor de seus quadris, e brilhou vagamente em suas placas peitorais enfeitadas de jóias. Seus olhos escuros brilhavam nas sombras e seus membros brancos cintilavam suavemente, como alabastro. O cabelo dela era uma massa de espuma escura, diante do lustre polido, do qual a luz fraca era apenas uma insinuação.
- As chaves para seus grilhões e para a porta mais distante! – ela sussurrou, e uma delgada mão branca atravessou as grades e deixou cair três objetos, com um tinido, sobre as lajes ao meu lado.
3) “A tua palavra é como um vinho excelente
Indo diretamente para o meu amado,
E escorrendo em meus lábios e dentes.
Eu sou do meu amado,
Seu desejo o traz até mim”.
(Cântico dos Cânticos, 7:10-13).
Subitamente, acordei aquele estranho sonho, e me vi de novo na cela onde Naquerib me prendera. Diante de mim, encontrava-se a linda Naqiya, com um olhar de paixão tão intensa que lhe arrancava lágrimas dos olhos.
- Sou filha do falecido rei Banipal, o qual foi assassinado pelo próprio irmão, o meu tio Naquerib – Naqiya falou subitamente –, e não por um negro, como o rei afirma. Na verdade, o casamento de meu pai com a negra, que era minha mãe, seria um meio de meu povo fazer as pazes com os nativos. Só que meu tio é um homem insano, e não quer saber de paz com os negros. Mas eu sou de carne e osso, e amava meu pai... e amo você, Turlogh dos olhos azuis. Por Ishtar – a jovem mestiça ofegou –, depois que lhe vi, meu coração pulou do meu peito, para cair aos seus pés, sobre o tapete no qual você pisava na sala do trono!
Eu ouvia a tudo estupefato, e aquelas palavras e atos não me causaram indiferença. Durante anos, meu sangue só fervia apenas e tão-somente na fúria berserk de uma batalha – devido a uma grande decepção amorosa que eu havia tido na adolescência –, mas somente um homem totalmente bruto, com um coração ainda mais gelado que o de Thorfel, ficaria indiferente diante de uma declaração tão sincera e ardente quanto aquela. Além disso, aquelas palavras e atos me haviam agitado vagas memórias raciais, meio perdidas nos golfos nebulosos de minha consciência, como se eu já tivesse visto e ouvido tudo aquilo eons atrás. E, de alguma forma inexplicável, senti uma estranha associação entre aquelas palavras e as lembranças que eu havia tido no calabouço.
Mesmo assim, com a eterna desconfiança que me fizera viver até a idade em que cheguei, perguntei a ela:
- Que brincadeira é esta? Naquerib lhe enviou aqui para zombar de mim?
- Não é zombaria. – A garota tremia violentamente. Com seus braceletes e seios colados contra as barras, ela ofegou: – Juro por Ishtar! Meu tio enlouqueceu, e agora acha que você pertence ao antigo povo persa e que você é o culpado pela crescente revolta dos aldeões, a quem ele escraviza e oprime. Roubei as chaves dos carcereiros. Eles são os guardiões, e cada um carrega uma chave que abrirá apenas um conjunto de fechaduras. Eu os embriaguei, e aqui estão as chaves.
Ela me entregou um molho delas e, um tanto impressionado, testei as chaves duvidoso, esperando encontrar apenas fracasso e um estouro de risada zombeteira. Mas fiquei galvanizado ao descobrir que, de fato, uma me soltou de meus grilhões, derrubando não apenas a tranca que as prendia ao aro, mas as que me prendiam os membros. Poucos segundos depois, eu me erguia ereto, exultando ferozmente em minha relativa liberdade. Um rápido passo me levou até a grade, e meus dedos se fecharam ao redor de uma barra e do delgado pulso que se pressionava contra ela, segurando a dona, que ergueu outro molho de chaves, libertando-me das grades da cela.
Num arroubo de paixão, reprimida pelos muitos anos de decepção amorosa que me haviam abafado a libido, eu a tomei nos meus braços de ferro, apertei-lhe a forma esguia e vibrante contra mim e a beijei ferozmente nos olhos, bochechas, pescoço e lábios, até ela ofegar em seu abraço. Percebi que Naqiya estava afogada na mulher elemental, fechando os olhos e se embriagando nos meus beijos ardentes, ferozes e sem lei, com todo o abandono da sede da paixão. Ela estava ofegante com a ferocidade dos beijos, quando parou para tomar fôlego.
- Espere! – ela disse, ainda ofegando de desejo com meus beijos ferozes. – É a nossa chance! O povo se aliou a Agamba, líder dos homens da Tribo das Panteras, e cercou a cidade e o palácio.
- Aquela tribo quer minha cabeça, Naqiya! – respondi, ouvindo um clamor gutural lá fora lhe confirmar as palavras. – Foi por isso que me refugiei aqui.
- Se você matar meu tio, eles lhe respeitarão e seguirão. Aqui estão o seu machado e escudo, Turlogh. Infelizmente, não encontrei sua cota-de-malha. Mas você vai precisar de suas armas, se quiser matar Naquerib.
Bom, isso era evidente. Um homem sem armas era um homem morto – especialmente naquela cidade em revolta. Assim, Naqiya me entregou meu machado e meu escudo. Logo, atravessamos um labirinto de corredores, dispostos a enfrentar o governante de Karkem. Naquela luz, observei novamente as figuras entalhadas, que avançavam interminavelmente ao redor das paredes maciças dos corredores. Muitas delas estavam em tamanho natural; algumas obscurecidas e um tanto desfiguradas como se pela idade. Muitas delas, eu notei, retratavam homens em carruagens puxadas por cavalos, e concluí que as figuras posteriores e imperfeitas, de montarias e carruagens, haviam sido copiadas destes entalhes mais velhos. Aparentemente, não havia mais cavalos ou carruagens na cidade. Várias diferenças raciais eram evidentes nas figuras humanas – os narizes curvos e negras barbas encaracoladas da raça dominante se mostravam claramente distintos. Seus oponentes eram, às vezes, homens negros; às vezes, homens como eles; e ocasionalmente, homens altos, de membros longos, com feições inconfundivelmente árabes. Era surpreendente notar que, em algumas das cenas mais antigas, os homens desenhados tinham aparência e feições totalmente diferentes das dos karkemitas. Estes estranhos eram sempre retratados em cenas de batalhas e de forma significativa, eu notei; mas nem sempre em retratos. Freqüentemente, pareciam estar ganhando a luta, e em nenhum lugar consegui encontrá-los retratados como escravos. Mas o que me interessava era a familiaridade: aquelas feições entalhadas eram como a fisionomia de um amigo, numa terra que me era estranha. Apesar de suas armas e roupas estranhas e bárbaras, poderiam ser ingleses, com suas feições européias e cachos amarelos.
Em algum lugar, há muito, muito tempo, eu sabia, os ancestrais dos homens de Karkem haviam guerreado contra homens aparentados com meus próprios ancestrais. Obviamente, as cenas não estavam postas no país que agora era a terra dos karkemitas, pois estas cenas mostravam planícies férteis, colinas cobertas de grama e rios largos. Sim, e grandes cidades como Karkem, mas estranhamente diferentes.
E, subitamente, me lembrei onde tinha visto entalhes semelhantes, onde reis com negras barbas encaracoladas matavam leões, desde as carruagens. Eu os vira em pedaços desagregados de alvenaria, que marcavam o local de uma cidade há muito esquecida da Mesopotâmia, e os homens haviam me dito que aquelas ruínas eram tudo o que restava de Karkemish – uma antiga cidade mesopotâmica!
Então, próximo ao final de um corredor, ouvimos um agudo grito feminino de pavor e corri até a fonte daquele som.
Do alto de uma sacada, avistamos duas mulheres: uma estava nua e amarrada ao altar, e a outra, seminua, erguia um punhal com os braços abertos, como que invocando deuses das trevas. A mulher amarrada era negra e exibia certa semelhança com Naquiya, enquanto a outra era de pele marrom, como todas da nobreza karkemita.
- É minha mãe, Turlogh! – gritou a bela Naqiya.
Assim, sem pensar duas vezes, arremessei meu machado direto no coração da mulher que ia sacrificar a mãe da minha mulher amada. A karkemita caiu ao chão, numa poça de sangue.
Descemos até o local, desamarramos a negra, e mãe e filha se abraçaram convulsivamente, chorando nos braços uma da outra, enquanto eu tirava meu machado do cadáver da mulher que matei.
- Você está bem? – perguntou Naqiya. – Por Ishtar, que aquela vagabunda quase arrancou seu coração!...
- Agora estou, filha! – a bela negra quarentona respondeu. – Muito obrigada por salvar minha vida.
- Agradeça a Turlogh, mãe – respondeu Naqiya.
Então, a mãe de Naqiya sorriu e correu em minha direção, abraçando-me. O forte cheiro de suor daquela bela negra fez meu desejo despertar novamente. Então, após o abraço daquela mulher que me encarou com muito mais do que simples gratidão, nós três seguimos até a sala do trono.
Súbito, de uma das portas do corredor, apareceu um homem alto, magro e forte, de barba tão negra e cerrada quanto a de seus conterrâneos, empunhando uma maça e um escudo. Com um giro de sua arma, ele deu um golpe barulhento em minha direção, mas meu escudo estava ali, para me proteger. Ele me derrubou com mais um golpe em meu escudo, e ia acertar minha cabeça com sua maça, quando eu me esquivei e lhe acertei meu escudo no queixo, furando o mesmo com a espícula na parte superior do meu broquel e derrubando meu antagonista ao chão de pedra. Antes que ele pudesse se erguer, eu me levantei e desci meu machado sobre o karkemita, rachando-lhe escudo e crânio num único golpe.
Em seguida, vieram outros guerreiros, ameaçando Naqiya e sua mãe. Acertei o primeiro com um giro sangrento do meu machado em suas tripas; cravei mortalmente a espícula do meu escudo entre o queixo barbado e o pescoço de outro, enquanto reavia meu machado, e abri o pescoço de um terceiro com outra machadada. Agora os nativos invadiam o palácio e matavam qualquer um que não fosse da cor deles – exceto Naqiya, por ter sido ela quem abrira os portões para eles, e eu, que estava do lado deles.
Um karkemita tentou acertar uma flecha num dos negros, mas foi atingido pela grande espada de outro enorme nativo, que separou seu corpo em duas metades, de maneira que o tronco caiu para um lado, e as pernas para outro. Logo em seguida, outro membro da Tribo das Panteras teve o coração mortalmente transpassado pela espada de um karkemita, ao mesmo tempo em que lhe decepou a cabeça num giro sangrento de sua espada. Enquanto isso, com uma explosão de fúria que deixou um rastro de corpos dilacerados sobre as pedras, saltei sobre outros rivais.
Naquele meio tempo, com um esforço súbito e violento, um nativo esfaqueado se levantou. Um uivo feroz ecoou pelo palácio, quando ele saltou em direção ao karkemita que o esfaqueara, agarrando-lhe a garganta e enfiando os dedos, como garras de aço, no pescoço de seu assassino, o estrangulando até lhe quebrar as vértebras cervicais e lhe esmagar a traquéia, morrendo junto com seu assassino.
A luta avançava e recuava pelo palácio, lâminas zunindo e afundando em carne, sangue esguichando, pés pisando o chão regado por poças escarlates, enquanto entranhas, cabeças decepadas, corpos mutilados e membros ensangüentados se amontoavam no piso. Alguns revoltosos enfiavam suas lanças nos karkemitas e giravam as lâminas dentro dos mesmos, espalhando sangue e entranhas.
Com sua terrível fúria, a Tribo dos Panteras, bem como os demais nativos, continuavam trazendo morte e desmembramento aos opressores karkemitas. O excesso de confiança se provava mortal à elite que se considerava capaz de se livrar daquela revolta, fruto de séculos de tirania sofrida pelo povo negro. Eu brandia meu machado como um demônio, sem pedir nem dar clemência aos meus antagonistas.
Espadas e lanças trespassavam pescoços e troncos, enquanto eu me punha entre Naquiya e a mãe dela, abrindo crânios até o esterno, bem como pescoços e ventres. Pouco depois, eu consegui manter as duas mulheres em segurança, dentro de um aposento. Logo, o Rei Naquerib apareceu na porta de entrada do aposento – a qual era a única saída de lá – e começamos a lutar. Era sua enorme espada contra meu machado, os quais, brandidos um contra o outro, se partiram, ao mesmo tempo em que o impacto, aliado ao tamanho e peso do Rei de Karkem, me empurrou para dentro do local onde eu deixara a princesa e a verdadeira rainha daquela cidade.
Com meu escudo despedaçado por aquela batalha – a mais infernal de toda a minha vida – e meu machado tão quebrado quanto a espada de Naquerib, a qual voara longe junto com minha arma, vi o rei investir contra mim, agarrando-me pela cintura e me erguendo acima do chão. Um homem comum já teria morrido com a coluna e as costelas quebradas, mas eu pertencia a uma raça de homens de extrema resistência física e, com meus punhos, bati nos ouvidos de Naquerib. Seu aperto afrouxou e eu lhe acertei uma joelhada nos testículos.
Ele se ergueu, me acertando um murro no queixo, mas meu golpe o havia enfraquecido. Eu o deixei semi-inconsciente, com um soco na boca-do-estômago, roubando-lhe o ar, e outro em seu queixo, rachando-lhe a mandíbula. Em seguida, levantei o rei semita pelo pescoço e coxa, ao mesmo tempo em que eu mirava o parapeito da janela.
Quando ergui Naquerib acima de minha cabeça, a minha vontade era gritar “Leve suas conspirações com você ao Inferno!”, mas, de minha garganta, só saiu meu grito de guerra gaélico:
- Lamh Laidir Abu!
E assim, eu o lancei da janela a uma altura de mais de 50 metros, onde o tirano se estatelou lá embaixo, quebrado, ensangüentado e morto.
Então, Naqiya apareceu na janela e gritou para todos lá embaixo:
- Saúdem Turlogh, vosso novo rei!
- Viva o Rei Turlogh e a Rainha Naqiya! – gritou a voz de um mestiço lá fora, e toda a multidão, tanto de negros quanto de mestiços, o imitou. Uma nova era, marcada pela liberdade, começava para os karkemitas.
Eu puxei de meu cinto um pequeno objeto... um emblema curiosamente entalhado em jade, o qual eu havia adquirido acidentalmente em Bal-Sagoth, anos atrás, e que Naquiya me devolvera ao me libertar.
- O emblema da realeza! – exclamou a princesa, com um sorriso de alegria nos lindos lábios carnudos. – Use-o, Turlogh!
Eu o coloquei em meu pescoço, enquanto éramos deixados a sós por sua mãe e pelos cortesãos presentes naquela sala, os quais percebiam o fogo de paixão entre nós, enquanto nos beijávamos.
Então, afastando-se da janela e se despindo totalmente diante de mim, Naqiya abriu um sorriso como o nascer do sol incendiando as nuvens, e começou a dançar sensualmente, seus seios marrons, firmes e fartos balançando a cada pulo que a jovem dava. E ela dançou, girando como um redemoinho do deserto, saltando como uma labareda impossível de apagar. Seus pés moreno-escuros pisavam com desprezo o chão manchado de sangue. Sua dança era um redemoinho de fogo, vento, paixão e todas as forças elementais. De todos os fundamentos básicos e primordiais, ela absorvia os princípios fundamentais e os combinava num movimento giratório. Ela estreitava o universo ao significado de uma ponta de adaga, e seus pés ágeis e corpo tremeluzente entrelaçavam os labirintos daquele Pensamento central. Sua dança aturdia, exaltava, enlouquecia e hipnotizava.
Enquanto rodopiava e girava, ela era a Essência elemental; uma e parte de todos os impulsos poderosos, e poderes ativos ou adormecidos – o sol, a lua, as estrelas, a cega ascensão de raízes ocultas até a luz, o fogo da fornalha, as faíscas da forja, a respiração do cervo novo, as garras da águia. Naqiya dançava, e sua dança era Tempo e Eternidade, o anseio da Criação e o anseio da Morte; nascimento e dissolução em um só, idade e infância combinadas. Sua dança fundia a guerra e o amor, a luta e a procriação, a agressão e volúpia. Seu ventre e ancas suados copulavam com o vazio. O suor exalava forte de sua pele cor de mogno – o cheiro quente e penetrante da mulher jovem, como a terra na fecunda primavera. Comecei a ofegar de desejo, e meu sangue começou a latejar nas veias.
De repente, com um grito selvagem, ela se lançou aos meus braços e, naquele momento, lembrei-me do sonho – na verdade, uma lembrança! – que tive, enquanto eu estava em transe no calabouço, e de como tais lembranças se interligavam com aqueles momentos de sensualidade. Então, entendi tudo... Pelos deuses! Por Crom! Ela era ninguém menos que a reencarnação de Zenóbia de Ophir! A Rainha da Aquilônia, a quem eu conhecera num calabouço da Nemédia!! E eu, outrora rei da Aquilônia e marido dela há muitos eons, agora era um rei de Karkem!
Então, tomado de desejo, abracei aquela bela, suada e ofegante jovem marrom, apertando seus lábios nos meus e o corpo dela no meu. Naqiya parecia ser carne da minha carne; parte da minha respiração e do meu coração. Os pensamentos e sentimentos dela pareciam invadir aquele recinto e se misturarem aos meus, como exalações vivas. Ela estava em toda parte – eu não conseguia ver nem sentir nada, que não fosse Naqiya. Naquele momento, éramos um só; como na vida anterior, na qual nos conhecemos nos calabouços de Belverus, sua dor era minha dor, e sua felicidade sempre foi, e sempre seria, minha felicidade. E, naquele momento, voltei a sentir arder e latejar nas minhas veias um fogo mais poderoso e prazeroso que o de qualquer batalha que eu já tivesse lutado.
Durante aquele longo beijo, amamo-nos prazerosamente, eu largando-lhe a boca para lhe sugar avidamente aqueles seios fartos, firmes e suados, enquanto sentíamos nossos sexos e mentes pulsarem e explodirem do mais intenso prazer que já havíamos sentido em nossas vidas. A excitação sexual que sentíamos era tão vibrante que mal descansávamos. Nós nos deitamos no leito apenas para trocarmos novas carícias, sugando os mamilos e sexos um do outro. Em seguida, eu penetrei e ejaculei novamente em sua vagina, ânus e boca, até finalmente relaxarmos exaustos.
Nós três – eu, Naqiya e sua mãe – governamos aquele local com justiça e sabedoria durante décadas, distribuindo igualitariamente a riqueza do palácio da capital daquele reino – rubis e esmeraldas do tamanho de nozes; barras de ouro tão pesadas, que mal dava para levantar do chão, e pilhas de prata tão altas, que dava para nadar nelas – por todo o povo, especialmente os nativos, tornando, deste modo, o reino de Karkem mais próspero e igualitário do que nunca. Eu e Naqiya tivemos vários filhos e, durante aquelas décadas, ela até me permitiu visitar e possuir a linda mãe dela – a Rainha de Karkem – nos aposentos, até a velhice nos levar.
FIM
Agradecimentos especiais: Aos grandes howardmaníacos e amigos Marco Antonio Collares e Osvaldo Magalhães de Oliveira.
