O poder oculto sob a montanha

 


Considerações sobre o conto que se segue:

 

Esse conto se passa dois anos depois dos acontecimentos de “O Povo do Círculo Negro”, sendo Conan ainda o chefe afghuli que era no respectivo conto em questão, quando os montanheses, ao final da trama, perceberam que o cimério não era o traidor que achavam que ele seria em razão da morte dos sete líderes na prisão de Peshkhauri.

Não utilizei no conto, pelo menos diretamente, qualquer personagem criado por Howard, além de Conan. A devi Yasmina eu apenas cito, visto que a representei como uma amante ocasional do cimério. Isso porque, ao final do conto howardiano, fica subentendido que eles poderiam se encontrar, ainda que as falas finais sejam em um tom de ironia; ela à frente de seu exército, e ele junto de seus afghulis.

Isso significa que eu utilizei apenas referências do conto de Howard, como se as ações de Conan no enfrentamento aos mestres de Yimsha ocasionassem consequências que muito marcaram a região médio-oriental do continente (uso esse termo de forma arbitrária, para tratar dos locais mais próximos ao Mar de Vilayet).

Aqui entra o teor lovecraftiano do conto. Como Howard utilizava tais horrores sutilmente, em seus variados contos e como ele possui uma carta de 1930 para Lovecraft, perguntando sobre os antigos anciões, eu decidi utilizar uma dessas poderosas entidades cósmicas como antagonista, até como forma de pegar a hype lovecraftiana atual.

Inicialmente pensei em Hastur, o Rei Amarelo, mas logo decidi pelo meu deus exterior lovecraftiano favorito, o flautista cósmico de nome Nyarlatotep. Claro que criei elementos a partir do cânone de Lovecraft, ainda que tentando manter certa fidelidade ao mesmo. Se não consegui, só posso pedir desculpas a todos.

 O leitor poderá notar também que Conan demora a aparecer na trama, pois segui certo viés howardiano de colocar o personagem em meio à narrativa, não seguindo necessariamente a estrutura a partir do ponto de vista do cimério. O conto The Black Stranger talvez seja, dentro dos Ciclos de Conan, o que segue esse padrão mais à risca. Como gosto muito de sua estrutura, segui esse modelo no conto que se segue.

Alguns nomes de locais eu tirei do conto howardiano supramencionado, outros termos eu tirei de nomes indianos em pesquisas da internet. O reino tributário de Vendhya que inventei se chama Khymsha, e o coloquei na parte nordeste de Vendhya, no sopé das Montanhas Himelianas.

Howard menciona a presença de vultosas minas de ouro e prata na região, e decidi então que o pequeno reino da princesa Varínia (minha Yasmina do conto, colocada de forma proposital) seria tributário, extraindo os metais para pagar impostos ao centro hegemônico, de modo a ganhar proteção. Esse padrão foi muito comum nos Impérios de nossa Idade Moderna e decidi seguir por esse caminho.

Como sempre digo, meu objetivo é muito simples. Tentar ser fiel ao tom howardiano, como uma homenagem ao grande escritor texano. Tento não distorcer o legado que ele deixou, e normalmente tenho a ajuda mais do que especial do amigo, tradutor e estudioso, Fernando Neeser de Aragão. Seja para corrigir possíveis erros de minha parte na descrição de lugares, nomes, raças, povos, culturas e etnias, seja para dizer se o tom da narrativa está a contento de um assíduo leitor de Howard.

O que importa, claro, é finalizar um conto gratificante à leitura, mas também quero que seja um ciclo dos mais fiéis à obra original. Caso eu não tenha conseguido tal intento, deixo claro que pelo menos eu tentei com todo o afinco, apesar de minhas limitações.

 

Marco Antonio Correa Collares

 

UM CONTO DO CIMÉRIO CONAN

 

O PODER OCULTO SOB A MONTANHA

 

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Ó Entronado distante

Demônio da Noite Antiga

Grandioso ciclope da desavença

Majestoso artificie de imponente presença

 

Tu que singrastes o firmamento 

Envolto em magnitude de magia e mistério, 

Causando em nós tamanha comoção

Fazendo-nos lhe seguir em verdadeira profusão 

 

Ó ser errante majestoso

Agracie-nos com sua paternal aceitação

Crie-nos como filhos e filhas prediletos

Unindo-se a nós em perfeita comunhão

 

Ó senhor das trevas cavernoso

Mesmo que sejamos tomados por confusão

Cantamos melodias em sua homenagem

Canções angustiantes de dor e profanação

 

Por que, eu te pergunto, magnânimo senhor das perfídias?

Por que, em nenhum momento diante de vós?

Estando nós aqui prostrados como crianças famintas

Tu nos agracias com palavras indistintas?

 

 

Canção dos Esquecidos e Condenados de Zanzimar

 

 

 

 

 

 

 

 

I

 

 

DESESPERO E INSANIDADE

 

 

Eu sinto e temo. Sei bem o que vislumbro e minha pele se arrepia diante de tamanho lamentar de dor e loucura. Estou isolada em meus devaneios, próxima ao ocaso da vida, perdida num pranto silencioso de dissabor e desespero. Um destino cruel me aguarda e a predestinação das coisas mundanas é o imperativo inconteste concedido aos miseráveis. As esperanças se desvanecem diante do meu sacrifício, com a percepção de que todos os atos foram em vão.

No mais distante planalto montanhoso do centro-leste continental, próximo ao majestoso Vale das Brumas, em meio a profundos desfiladeiros arenosos ao norte de Vendhya encontra-se a grandiosa Zanzimar, parte do amplo complexo de montanhas congeladas conhecidas como Himelianas. Em meus pensamentos mais prementes, sei que o nome se deve a dois fatores interligados: sua altura titânica e as densas nuvens que constantemente cercam seu cume, envolto em mistérios e, para alguns, em completa sordidez natural e sobrenatural.

Isso porque seu interior se tornou intenso nos últimos anos, com a presença de cultistas de todas as partes, ocorrendo ali as maiores perfídias e violências possíveis que as mentes humanas poderiam conceber, incluindo a minha. Todas as brutalidades contra a vida expressam resquícios de eras ancestrais, insistindo em se reproduzirem no tempo presente.  Ali, no interior do pico propriamente dito, em meio a seus arenosos platôs e elevações, um clamor de sofrimento é constantemente ouvido e propagado em meio aos ganidos fantasmagóricos de ventos cortantes que preenchem seus salões monolíticos. Gritos insanos que me destroçam como garras afiadas.

Pois dentro da rocha bruta, na mais profunda caverna magmática da montanha, encontra-se o monólito daquele a quem todos chamam de “O Entronado”. Um colosso de pedra ostentoso e grandioso como somente o altar de um Demônio da Noite Antiga poderia ser. Em frente a tal escultura de pedra negra, toda incrustada de caracteres indecifráveis, uma turba se ajoelha perante o majestoso ser sobrenatural em aparente descanso, jurando fidelidades com ares de fanatismo, frenesi e desespero, cometendo diversos atos contínuos de canibalismos que apenas os condenados poderiam exercer. Atitudes inumanas, que eu não mais consigo vivenciar.

Mãos para cima crispadas, gritos em uníssono, chacras e feridas abertas pelos corpos dos presentes marcam apenas uma parte da cena horripilante que presencio noite após noite desde minha captura. Pois os corpos mutilados em volta dos vivos, muitos dos quais mastigados pelos presentes, são contornados por outros tantos seres em sofrimento. Homens empalados em vigas colossais dispostas em forma geométrica, preenchendo na cena tétrica os filamentos de dor e agonia que algum ser vivente possa um dia vislumbrar. Algo que destroça o que sobrou de meu espírito.

            O ser antropomórfico ali presente não se move jamais, parecendo um golem de carne negra mumificada, com a altura de três homens titânicos. Sentado no trono como um rei estígio ou como se estivesse na mais profunda hibernação. A cabeça pende levemente para o lado, apoiada no próprio punho fechado, com o cotovelo igualmente postado na extremidade esquerda do trono. A criatura parece estar em alguma espécie de torpor catatônico, quase que a representação de um deus onipresente frente a uma situação completamente insossa e enfadonha.

            Mesmo sem demonstrar qualquer expressão ou movimentos, os mortais em volta encontram-se na mais completa imersão em seus rituais macabros de carnificina e canibalismo, exortando sua divindade inumana com cânticos indecifráveis e orações profanas. Esperando, talvez, que a criatura saia de sua condição inexpressiva, para que lhes acaricie por alguns instantes quaisquer, senão mentalmente, pelo menos fisicamente, com seus tentáculos viscosos de carne mortificada.

            O ritual prossegue dia após dia e a morte espreita os ainda vivos e semimortos na caverna de horrores sobrenaturais, dilacerando mais uma vez o que sobrou de minha sanidade. Então, uma espécie de cultista líder, vestindo peles de camelo, encimado pela cabeça de uma estranha criatura canina, adentra a antecâmara comigo a seus pés, vestindo uma túnica leve de seda e em profundo esgar convulsivo. Ele me arrasta pelos cabelos sem piedade, fazendo-me cair próxima à criatura profana, ajoelhando-me brutalmente em venerável adoração.

            Para o cultista-líder, eu não passo de uma mulher mortal de pele alva e cabelos negros volumosos. Uma princesa de homens com curvas sinuosas e deveras atraentes para a lascívia masculina. Sei bem o quanto minhas formas lembram as mais belas mulheres hiperbóreas do distante reino gélido do misterioso ocidente, de uma raça hiboriana presente sutilmente em meu sangue.

O cultista que me arrasta, por sua vez, assemelha-se a um homem do centro continental, com olhos negros penetrantes e uma barba quase azulada de tão escura, possuindo a tonalidade da pele tipicamente zamoriana, com aquele olhar colérico semelhante ao dos seguidores dos deuses-aranhas daquela terra amaldiçoada.

            Em sua mão direita, ele segura uma adaga curva, quase em forma de meia lua, com o fio entrecortado por fissuras na lâmina enegrecida, como se fosse um objeto de tempos antigos, usados em rituais oníricos de sacrifício, talvez antes mesmo da ascensão da humanidade. Uma época quase esquecida por nós, quando raças cósmicas perambulavam pelos ermos e dominavam as terras que hoje representam a maior parte das regiões ocupadas pelas raças humanas.

            Eu finalmente grito insanamente e os fiéis ali se insuflam com ares de vilania ante meu crescente desespero. Até que por fim, quando toda a esperança se desvanece de meu âmago, um vulto se adianta e empurra com força colossal o cultista líder, jogando-o a alguns metros de distância. O caos reina e o sacerdote levanta-se com sua adaga em mãos, vislumbrando temeroso o homem musculoso que o empurrou. 

Trata-se de alguém que conheço. Um tipo alto e poderoso, com pele escura e olhos azuis celestes, cabelos negros como a noite rubra e um torso titânico que não perderia em nada para uma divindade antropomórfica da guerra. O medo impera no subconsciente do cultista, quase que de forma sobrenatural diante da figura imponente que lhe faz frente. A morte se aproxima de tal forma que minha visão fica turva e nublada. Tudo se torna um esgar espasmódico, congelando-se no espaço-tempo. Finalmente, depois de tantos dias de medo, pavor e loucura; eu desfaleço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II

 

 

TEMORES NOTURNOS

 

 

            Varínia acendeu o pequeno incenso localizado em cima da cômoda e decidiu ler alguns pergaminhos aparentemente envelhecidos sob a fraca luz das velas de seu quarto ostentoso, consultando também algumas atas sobre as últimas decisões de seus principais conselheiros mais sábios e experientes. A princesa do pequeno reino tributário de Khymsha tinha receio de que os sábios da capital, Azhy-Mar estivessem um tanto perdidos diante das crescentes incursões dos afghulis e dos cultistas de Zanzimar dos últimos meses.

            No primeiro caso, tratava-se de ataques cada vez mais constantes dos selvagens montanheses do Afghulistão, ao pequeno país dependente da grandiosa Vendhya, sendo a princesa e seu conselho de anciões, os governantes locais que deveriam zelar pelos súditos. Liderados por um bárbaro vindo do ocidente distante, os selvagens decidiram acirrar suas pilhagens às cidades, vilas e caravanas comerciais do pequeno reino localizado ao sopé nordeste das Himelianas, levando os magistrados dessas respectivas localidades a pedirem auxílio ao governo central.

            No segundo caso, tratava-se de um expediente ainda mais perigoso e misterioso. Poderosos cultistas de diferentes regiões e reinos do entorno do Vilayet tinham vindo ao centro-oriente para adorar um antigo poder que, por muitas eras, se ocultou sob a Montanha Zanzimar, um poder agora fortalecido pelo ocaso dos mestres feiticeiros de Yimsha. Eles, que foram atacados em seu refúgio pelos aliados da devi Yasmina, atual governante de Vendhya, um fato ocorrido há mais ou menos dois invernos atrás.

A Divina, atual monarca dos kshatriyas, tinha com tal ataque vingado a morte de seu irmão, o rei Bhunda Chand, ocasionada a pedidos do monarca Yezdigerd, de Turan, o que fora efetivado pela necromancia dos temidos profetas negros da montanha. Yasmina aliara-se na empreitada ao famoso bárbaro do ocidente, o chefe afghuli de nome Conan, natural de um país distante e mítico conhecido como Ciméria.

Varínia enviou diversas cartas suplicando pela vinda das tropas kshatriyas da capital Ayhodhya, visto que os antigos acordos de tributação serviam como formas de auxílio ao seu protetorado. A princesa falou dos sequestros perpetrados pelos cultistas sob a montanha, recebendo em troca apenas negativas secas e indiferentes, um tanto suspeitas, ousava dizer, como se o poder oculto sob a montanha fosse útil ao governo de Vendhya.

Mais de uma vez, aliás, a jovem governante evocou não apenas os acordos firmados em tempos remotos, como também enviou listas com números e nomes de súditos sequestrados e desaparecidos entre as vilas mais próximas das Himelianas, reafirmando que as ações da capital e de sua governante contra os Profetas Negros e seus acólitos haviam ocasionado uma mudança de poder e equilíbrio local. “Como se os feiticeiros de Yimsha fossem um mal necessário que mantinha o poder oculto sob a montanha inerte ou adormecido” argumentou a jovem na última correspondência enviada.

Novas negativas irritaram Varínia em demasia. Isso, a tal ponto, que ela decidiu conclamar seu conselho superior, para uma parlamentação imediata e extraordinária. Algo que aconteceria no dia seguinte, deixando-a ansiosa durante a madrugada. Lá fora, o vento frio norte trazia um leve lamento irritadiço, como de vozes distantes e dissonantes em sofrimento eterno. Todas elas contornadas por uma melodia sinistra, exercida por um flautista invisível.

Varínia olhou ao redor do amplo quarto coberto de tapeçarias orientais oriundas de Khitai e deitou-se no imenso divã de veludo que lhe servia de descanso, tapando-se com seda e peles de modo a não apenas se abrigar do frio, como também para impedi-la de escutar os lamentos e a música trazidos pela ventania. Era alta madrugada e a escuridão só lhe conferia mais temores insondáveis, enfraquecendo seu espírito, apesar dela ser uma jovem monarca forte e temerária.

Em frente ao quarto da princesa, seu mais fel segurança aguardava, prestativo e com os sentidos despertos, colocando-se de pé ante a porta principal dos aposentos reais do Palácio de Jade. Seu nome era Fazil e ele temia pela saúde e sanidade de Varínia, a mortal que ele tinha por dever sagrado proteger com a própria vida. Sua família, apesar da origem turaniana, servia aos monarcas de Khymsha desde muito tempo, pelo menos há seis gerações e ele tinha uma difícil tarefa pela frente, visto que o poder oculto sob a montanha evocava algo muito além das questões geopolíticas médio-orientais.

Os relatos sobre o assunto, pensava Fazil, eram deveras insidiosos e temíveis, com narrativas macabras de um deus ancestral, talvez há pouco desperto na maior antecâmara de Zanzimar, um ser antropomórfico a quem todos chamavam de “O Entronado”. Havia também antigas canções hirkanianas que tratavam igualmente de um Demônio da Noite Antiga sob as montanhas geladas orientais, parecendo tratar-se da mesma entidade. Diziam os sábios, no entanto, que o poder necromântico e oculto dos Profetas Negros de Yimsha conseguira manter tal senhor demoníaco em seu descanso profano, sem que ele se envolvesse com questões mundanas.

Fazil, assim como a linda jovem de cabelos negros que ele deveria proteger, pensava que a deus oculto sob a montanha tinha despertado no exato momento em que os mestres de Yimsha foram eliminados, incluindo seus acólitos, súditos, aliados e lacaios, ocasionando a ascensão de um antigo caos rastejante no subsolo de Zanzimar. Um ser que retornava agora aos eventos da superfície, depois de milênios de entorpecimento, levando ao conclame de cultistas das mais diferentes divindades de todas as partes do continente.

O jovem protetor ouvira falar, inclusive, de poderosos sacerdotes do deus-aranha Yezud, da cidade homônima de Zamora – homens misteriosos que chegaram à Montanha Enevoada no inverno passado, o mesmo valendo para representantes diabólicos dos sacerdotes-feiticeiros estígios do círculo Negro de Khemi. Como se suas divindades fossem um tanto distantes do ser presente em Zanzimar, prontas para serem sumariamente substituídas por um deus mais antigo e palpável, um poder manifesto e vislumbrado pelos sentidos mortais.

Logo, os sequestros começaram no pequeno reino, ininterruptos. Passaram a ocorrer então desaparecimentos de homens, mulheres e, principalmente crianças em vilas e cidades de Khymsha. Enquanto isso, Vendhya, a metrópole do reino, se mantinha aparentemente indiferente aos lamentos e perdas de seu pequeno conclave tributário. Juntando-se a isso, havia também as incursões dos malditos afghullis, liderados há dois ciclos por um bárbaro demoníaco do ocidente, o mesmo homem que tinha ajudado a monarca de Vendhya a derrubar os profetas de Yimsha, “a aparente proteção contra o antigo poder oculto sob a montanha”.

O jovem segurança sabia que sua espada em estilo koftgari não seria suficiente para proteger Varínia quando a jovem princesa, por fim, tentasse o plano traçado em sua mente, um ardil planejado por ela e por seu principal conselheiro e general, Yang Shan. Tratava-se de um estratagema que deveria ser posto em prática a partir do dia seguinte, quando os anciões do conselho governante se reuniriam para finalmente traçarem planos de ação que pudessem deter o poder oculto sob a montanha, ao mesmo tempo em que reorientaria as relações do pequeno reino com os selvagens nômades liderados por Conan.

O dia seguinte seria imprescindível para os meses vindouros de Khymsha. Fazil temia, mesmo que por breves instantes sob a escuridão da noite sem lua, pela vida de sua protegida. Do lado de fora do palácio, o vento norte continuava uivando, arredio e melancólico, cada vez mais alto, como o ressoar dos lamentos dos mortos, dos desaparecidos e dos desesperados.

 

 

III

 

 

ESPERANÇAS RENOVADAS NO CONSELHO DOS SÁBIOS

 

 

- Eis que esta é minha proposta e considero o melhor caminho a ser trilhado frente a esses fatos tão tenebrosos – argumentou Varínia diante dos anciões, de modo imponente e sem rodeios, mesmo sabendo que suas palavras, um tanto idealistas, poderiam ser facilmente contrapostas por alguns daqueles homens eminentes, versados em retórica e com oratória refinada. Os sábios, ali reunidos em semicírculo, mantiveram-se serenos. Alguns deles, sem demonstrar quaisquer expressões frente à parlamentação da princesa.

Um dos mais experientes deles, Jharin tinha uma longa barba grisalha trançada, usando um arnês tradicional sobre a cabeça e uma túnica oriental de seda com cores espalhafatosas. Ele parecia o sujeito mais calmo e ponderado da existência e costumava falar pausadamente, mantendo a mesma tonalidade serena na voz, conseguindo com isso a atenção total das plateias.

Os mais sábios e eminentes esperavam costumeiramente por suas argutas palavras bem encadeadas na gramática e na validação retórica, enquanto ele alisava a longa barba com a mão direita curtida ao sol. Ao fim de uma longa pausa estratégica, ele por fim respondeu:

- Minha senhora... Posso dizer... Bem, em verdade, ouso dizer até... Que sua ideia é deveras temerária, não tendo necessariamente o resultado esperado... Levar um plano de ação a Conan, um bárbaro tribal selvagem do oeste, na esperança de que ele... Bem, de que ele leve um pedido de ajuda a Devi de Vendhya... Isso seria como colocar o futuro de nosso reino nas mãos de algo inconstante e... Como direi... Destituído de qualquer possiblidade concreta de êxito, fora com muito auxílio da fortuna.

- Não se trata disso, meu velho amigo – interrompeu Varínia, de forma súbita, contrastando com a calma do seu interlocutor – Mas sim de ter algumas vias ação. Iremos até Ghor, terra dos afghulis, requisitar a seu líder, um conhecido aliado da Devi, para que ele implore pelo nosso reino, para que possa requisitar ajuda dos kshatriyas. Desta forma, ganhamos tempo para nosso estratagema contra os cultistas! De atacarmos a entrada da montanha e de usarmos o expediente que trouxemos de Khitai.

“Com isso”, continuou a princesa, “impedimos novos saques dos montanheses, enquanto tentamos agir contra o poder oculto sob a montanha, usando nossos adversários usuais contra o mais temível dos inimigos. Se tivermos ouro e prata excedentes de nossas abundantes minas do sopé oriental das Himelianas, e se temos ainda mais recursos dos tributos que deixamos de pagar a Vendhya, por seu não-cumprimento dos antigos acordos, bem, então temos dois motivos para as tropas de Yasmina virem em nosso auxílio. Em primeiro lugar, o pedido do bárbaro Conan, em segundo, a falta dos pagamentos usuais de nosso reino à capital”, terminou Varínia, com certa segurança e altivez na voz.

- Sim, sim. Não nego que uma ação... Uma ação mesmo que duvidosa, possa ser mais profícua, no presente caso, do que nenhuma ação. Porém, querida princesa... Receio que temos algo para além de mero desinteresse de Vendhya no caso em questão... Além do que, jovem menina... Devo lembrá-la que o bárbaro pode simplesmente pegar nosso ouro e nem sequer cumprir com qualquer acordo, além de lhe sequestrar para pedir algum resgate. Ele pode ainda continuar seus saques e pilhagens contra nossas vilas, cidades e caravanas comerciais... Nada pode depor contra essa afirmativa lógica que lhe faço aqui.

O murmúrio foi geral no salão do conselho. Tratava-se de uma câmara ornamentada com esculturas de deidades muito antigas, uma sala ovalada no interior de uma grande abóbada elevada. Construção essa que tinha, por sua vez, quatro torres arredondadas em volta, além de um enorme vitral suspenso no teto do centro da cúpula, sendo tal estrutura ornamentada com merlões orientais.

O vitral, multicolorido era responsável por deixar a luz do sol entrar no amplo salão, deixando o ambiente quase divino e ao mesmo tempo com uma aparência de positividade e calmaria, como se o próprio deus Asura, a mais cultuada divindade de Vendhya, estivesse presente nas reuniões do conselho.

Os anciões acenaram positivamente frente às sábias palavras de Jharin, deixando Varínia com pouca capacidade de convencimento, o que seria uma obrigação dela em tais ocasiões. Isso porque, segundo as leis locais do reino, o monarca precisava ter a concordância de dois terços dos conselheiros para uma decisão que exigisse o uso de tropas militares ou mesmo de recursos extraídos dos impostos. Mesmo em dúvidas quanto ao êxito de suas colocações, e mesmo sob olhares firmes de Fazil e de Yang Shan, Varínia prosseguiu, intencionando uma contra resposta efetiva.

- Senhores conselheiros. Nada garante o sucesso da empreitada e, realmente, um bárbaro, que lidera outros selvagens, pode não cumprir com qualquer negociação de nossa parte. Meu conselheiro e general de confiança conhece o homem Conan, por conta de outras tratativas fracassadas com ele no passado recente, e sabe bem do que tal homem é capaz, assim como tem consciência que o sujeito costuma cumprir com aquilo que promete – iniciou Varínia, olhando fixamente a todos os presentes no salão, com confiança retomada.

“Acredito ser propositiva uma tentativa desse tipo”, continuou, “mesmo com os riscos mencionados pelo altivo conselheiro Jharin. Pois o sucesso em nosso pedido seria muito melhor do que continuarmos na presente situação, essa da qual meus súditos são seqüestrados e suas famílias separadas em meio aos ataques dos afghulis. Se Vendhya não nos ouve do modo convencional, iremos tentar uma ação inesperada. Todos sabemos que a Devi Yasmina possui algum tipo de dívida pessoal junto ao bárbaro, em razão de seu auxílio no caso dos Profetas Negros de Yimsha”, continuou Varínia, mantendo seu olhar em Fazil.

 “Caso Conan não aceite um acordo”, ela continuou, “eu mesma irei até a Devi para me prostrar e implorar por ajuda das tropas kshatriya. Enquanto isso, nossas forças se dirigirão até a entrada da montanha, sendo lideradas por Yang Shan, um homem que apesar de ter origem estrangeira, de Khitai, já provou mais de uma vez elevadas aptidões estratégicas de combate. O pó mágico que compramos de Khitai será utilizado no local, que sabemos ser um grande terraço próximo ao cume de Zanzimar. Nossos recursos foram empregados para sua aquisição e os sábios do oriente distante afirmam categoricamente que a névoa ficará na entrada da caverna por duas luas, envenenando mortalmente a todos que tiverem contato com ela.

“A partir disso”, prosseguiu a princesa, “colocaremos arqueiros constantemente situados nas montanhas e desfiladeiros em frente à entrada de Zanzimar, com ordens para atacar à distância qualquer um que tente sair ou adentrar em suas câmaras amaldiçoadas. Mas, para isso, senhores, precisamos de nossas tropas mobilizadas e seria imprescindível ganharmos tempo nos ataques e pilhagens dos afghulis de Conan.

“Então, caros e eminentes conselheiros! Cabe agora uma decisão urgente, ou então uma outra ideia melhor do que essa que trago a vocês nessa altiva assembleia. O que me dizem?”, terminou Varínia, sabendo que não tinha mais argumentos para convencer os homens ali reunidos.

O silêncio foi geral e outro membro do conselho, um nobre um tanto mais jovem que os demais, de sangue real e primo da princesa, bastante ganancioso e que costumeiramente apoiava as ideias da família de Varínia, muito por más intenções do que por altruísmo ou lealdade inconteste, decidiu jogar suas próprias cartas.

Seu nome era Punjar e ele começou seu discurso de forma lenta e humilde, tornando-se mais veemente com o desenrolar da oratória, usando de todos os expedientes verbais e entonações de voz que conhecia para tentar convencer os conselheiros quanto à melhor ação a ser tomada. Ele assim parlamentou:

- Meus amigos e colegas conselheiros. Todos sabem o quanto costumo falar pouco e ir direto ao assunto, quando discurso entre vós. Nossa situação é insustentável, como bem nos lembra nossa sábia princesa, minha prima. Frente aos fatos e ideias expostas, digo-lhes que temos que tentar esse plano urdido por nossa magnânima governante.

“Sim, a névoa envenenada de Khitai provavelmente fracassará frente a cultistas que usam de expedientes mágicos e poderá matar, inclusive, mais pessoas inocentes do que nossos inimigos! Sim, Conan pode simplesmente sequestrar nossa querida princesa, ou aceitar nosso ouro e prata, e simplesmente continuar com suas pilhagens e ataques! Sim, podemos ser pessimamente sucedidos em tudo isso que intencionamos, mas creio que as tropas de Ayodhya, sabendo de todos esses fatos que mencionei, serão obrigadas a agirem contra o poder oculto sob a montanha, de um jeito ou de outro.

“Digo-lhes senhores, apesar de não ansiar por isso, que até mesmo se todo o estratagema fracassar, teremos finalmente a atenção de Vendhya, sendo esse o objetivo traçado em caso de sucesso, mas que pode redundar positivo também em caso de fracasso. Digo-lhes, portanto, que apoiem esse plano de ação de nossa querida princesa e de seu principal conselheiro. Em caso de sucesso nas negociações da jovem Varínia, junto ao bárbaro do ocidente, teremos garantido nosso pedido a capital, além de tempo para agir.

“Em caso de fracasso”, finalizou, “eu mesmo irei à metrópole e implorarei pessoalmente à Devi Yasmina que nos ajude no presente caso. E, claro, para que liberte nossa querida princesa das garras imundas do bárbaro, no caso do tão propalado sequestro que ele pode perpetrar. Isso no caso de Conan enveredar por esse caminho”.

Dessa vez se ouviu um murmúrio coletivo, e muitos chegaram a dizer baixinho entre si quais eram as reais intenções de Punjar. Lembraram os sábios ali reunidos que o jovem conselheiro tinha sangue nobiliário e que sua família seria a mais próxima na linha de sucessão da coroa do pequeno reino. Isso caso Varínia fosse sequestrada e morresse na ocasião.

Afinal, falava-se entre o populacho, a jovem princesa não tinha herdeiros e nem parecia propensa a se casar tão cedo, seguindo o mesmo caminho trilhado pela Devi de Vendhya. Mesmo assim, os argumentos de Punjar foram precisos e bem articulados, convencendo os conselheiros ainda indecisos. Afinal, na ausência de outro plano de ação mais condizente, a maioria se viu obrigada a acenar positivamente com a cabeça, gesto que marcava a aprovação tradicional daquele parlamento.

Varínia olhou nos olhos de seu querido e fiel segurança pessoal, Fazil e o sorriso de ambos um para o outro pareceu significar uma vitória final, quando, na verdade, apenas representava que eles estariam arriscando suas próprias vidas para colocar em prática o plano aprovado naquele grande salão abobadado. Yang Shan igualmente acenou para a princesa com um leve sorriso e lhe disse no ouvido quais eram as reais intenções de seu primo, Punjar, o que já era sabido pela moça, afinada que era nas questões políticas de seu pequeno reino.

Mesmo assim, uma comitiva partiria no dia seguinte de Azhy-Mar, dirigindo-se ao oeste, passando pelo estreito de Udaipur dos wazulis, depois pelo monte Yimsha mais adiante, de modo a chegar às montanhas do Afghulistão. Lá, eles procurariam a vila de Ghor, onde se escondiam os selvagens montanheses liderados pelo imponente bárbaro do oeste continental.

Naquela mesma noite, um sujeito misterioso vestindo um turbante negro que lhe tapava o rosto escreveu um bilhete profano, enviando-o momentos após o término do conselho. De imediato, ele usou um pombo-correio que chegaria rapidamente a Zanzimar, de modo a avisar os líderes cultistas sob a montanha.

O recado era direto e sem rodeios: uma princesa virginal estaria em uma comitiva pouco segura, saindo do reino de Khymsha na manhã seguinte, escondida em vestes comuns de modo a chegar ao Afghulistão. As peças do tabuleiro haviam sido lançadas e o perigo chegaria a seu ápice nos dias vindouros.

 

 

IV

 

 

A COMITIVA DOS DESESPERADOS

 

 

A comitiva se arrastou por muitos dias e noites até o desfiladeiro de Udaipur, terra próxima ao território wazuli, os montanheses que viviam na parte mais ao noroeste de Vendhya. Varínia usava uma túnica escura, encimada por um manto negro aveludado, tendo seu rosto escondido por um turbante acinzentado, tal e qual vários de seus soldados. As mesmas vestes cobriam duas outras mulheres que lhe serviam desde criança, tratando-se de suas mais fiéis servidoras no Palácio de Jade: Irinya e Valoya, ambas possuindo o mesmo peso e altura da princesa.

Fazil e Yang Shan estavam presentes e eram ladeados por trinta soldados de elite de Azhy-mar, a metade deles composta por arqueiros e a outra pelos melhores lanceiros de Khymsha. A projeção dos chefes era de que todos iriam juntos até a encosta Karnal, caracterizada por uma bifurcação que levaria a dois pontos distintos das Himelianas.

De um lado, o desfiladeiro subia a encosta Una e a partir dali seguia rumo ao nordeste, até a montanha profana do poder oculto. Do outro lado, a trilha rumava para o noroeste, subindo a encosta wazuli por vales arenosos escarpados, terminando por fim na fronteira com o Afghulistão, o destino da princesa.

Esses dois caminhos dividiriam as forças da comitiva. Shan se dirigiria ao primeiro ponto junto ao grosso das tropas, para que seus soldados se encontrassem com outros integrantes da cavalaria de Khymsha, além dos melhores arqueiros de elite do reino. Soldados esses direcionados para junto da montanha profana, alguns dias antes das decisões do conselho dos sábios. Enquanto isso, Varínia seguiria junto de Fazil pelo outro caminho, estando ladeada por uma de suas fiéis seguidoras, ficando a outra com a comitiva maior de soldados, de modo a despistar quaisquer possíveis perseguidores.

Pois todos sabiam que era comum na cultura vendhyana, desde tempos remotos de formação do imponente reino médio-oriental, as práticas da espionagem e subterfúgios diversos entre nobres e governantes. Não se podia esquecer jamais que os súditos de Varínia, tanto racialmente quanto culturalmente eram vendhyanos em suas origens. Por tais motivos que o esperado se tornou um fato consumado, com os membros da comitiva vislumbrando cavaleiros distantes em pontos mais elevados do desfiladeiro em frente ao que estavam.

Com o início da perseguição, os protetores da Varínia tiveram que apressar o galope dos cavalos, e isso apenas após dois dias de viagem nas fronteiras wazuli. Fazil reconheceu os homens distantes com seus mantos esvoaçantes e capuzes negros, muitos dos quais montados em alazões leves, com cimitarras brilhosas ou tulwar imponentes nas cinturas, além de bolsas de couro cru contendo misteriosos expedientes arcanos. Ele sugeriu tratarem-se dos cultistas do poder oculto sob a montanha, o que foi confirmado ao longo dos dias seguintes.

- Maldito traidor. Provavelmente alguém que estava no conselho e que entregou nossos planos de pedir auxílio à Devi de Vendhya, sabendo que a princesa estaria na comitiva – falou Fazil, dirigindo-se a Varínia e ao general Shan. Esse último respondeu de pronto, com a voz grossa embargada.

- Provavelmente aquele cão traiçoeiro do Punjar. Ele não apoiou nossa causa pelo interesse do povo ou do reino, mas pela ganância de usurpar a coroa com a morte de nossa soberana, sua prima. Maldito porco esnobe. Prefere fazer acordos espúrios com os lacaios do demônio do que com sua própria família ou raça!

Diante dessas palavras fortes, a comitiva apressou os cavalos e se viu mais de uma vez cercada pelos perseguidores, tendo que abrir caminho a ferros e usando a habilidade dos arqueiros na dispendiosa empreitada. No decorrer da perseguição que se seguiu, uma das mulheres foi separada da comitiva por um caminho secundário, levando alguns cavaleiros cultistas a perseguirem-na, estando ela com apenas dois esparsos soldados cansados. Pareceu a todos mais um sacrífico do que qualquer outro plano de ação articulada.

Outra das mulheres ficou junto da comitiva de Shan, quando a tropa separou suas forças, seguindo o plano traçado. Esse grupo adentrou de forma rápida pelos caminhos pedregosos até Zanzimar, apressando os cavalos de modo a encontrar o grosso das forças à espera. De certa forma, pretendia-se uma vitória sumária quando os soldados de Shan encontrassem os demais cavaleiros do reino, colocando os perseguidores na defensiva, usando de flechas certeiras para chacinar os cultistas restantes. “Quem sabe”, pensou Shan, “Nós possamos socorrer a princesa após acabarmos com esses miseráveis”.

Varínia seguiu pelo outro caminho, junto a Fazil, ladeada por apenas oito soldados e arqueiros, tendo seu segurança pessoal e amigo de longa data como o responsável por levá-la até as montanhas do noroeste. Eles passariam pelas terras wazulis e usariam caminhos antigos sob as colinas Nalbari, de modo a chegar ao Afghulistão por baixo dos imensos paredões de rocha e gelo, despistando com isso seus incansáveis perseguidores. Pelo menos era a intenção do jovem segurança.

A insistência dos atacantes denotava um objetivo traçado e muito nítido: o de sequestrar a soberana de Khymsha, de modo a levá-la ao sacrifício. Como costumava sugerir Rashiman, sumo-sacerdote de Asura em Azhi-mar: “Princesas virginais são a preferência dos seguidores dos deuses antigos, pois os seres ancestrais se lambuzam com a essência vital da inocência delas, enquanto seus seguidores saboreiam a volúpia da carne macia dessas beldades desejadas”.

Após dois dias e duas noites de perseguição quase ininterrupta, uma emboscada foi realizada contra a comitiva de Varínia, logo após o grupo passar por baixo da Nalbari, um pouco antes de adentrarem no desfiladeiro wazuli. As flechas vararam os acompanhantes da princesa, culminando em uma chacina sanguinária e deveras eficiente. Fazil, ao lado de três soldados sobreviventes, seguiu desfiladeiro acima, sendo todos perseguidos vorazmente por cavaleiros sem rosto, com suas máscaras profanas e olhos insidiosos.

Não se saberia afirmar que tipo de força mística o jovem segurança tirou de seu espírito, ou mesmo de seus valentes e convalescidos soldados sobreviventes. Magicamente ou não, ele cumpriu muito bem com seu objetivo em um primeiro momento, ceifando cultistas com sua espada curva, cortando ventres e decepando cabeças como um louco ensandecido.

Em meio ao embate selvagem que se seguiu, uma rocha foi estilhaçada mediante algum tipo de pó mágico jogado por um dos atacantes. O restolho de pedras derrubou dois dos defensores, empinando cavalos e levando os alazões de Varínia e Fazil a galoparem desfiladeiro acima, quase caindo na imensidão vazia.

A moça só conseguiu conter o cavalo arredio mediante o auxílio de Fazil, mas ambos não tiveram sequer tempo de comemorar suas sobrevidas. Quatro cultistas vieram no encalço deles, levando Fazil a retomar a fuga desesperada. Percebendo a falta de êxito na nova empreitada, até pelo cansaço dos cavalos e da própria princesa, o segurança decidiu pelo sacrifício pessoal, parte de sua obrigação familiar. Ele apontou para a frente, de modo que Varínia continuasse adiante e logo se virou para enfrentar os cavaleiros diabólicos.

- Vá, princesa! – gritou. – Encontre Conan e seus montanheses. Peça ajuda! Sua mochila está carregada de ouro. Vá agora!!

Mesmo reticente diante daquelas palavras, a moça obedeceu, galopando desfiladeiro acima, enquanto Fazil se interpunha entre ela e seus vorazes algozes. Ele usou da estreiteza do trecho em uma curva fechada para enfrentar os atacantes um a um, impedindo, pelo menos num primeiro momento, qualquer cerco ou manobra de flanquear.

O jovem tinha uma agilidade sobrenatural no manejo da espada e as tulwar dos atacantes foram bloqueadas uma após a outra por sua espada, enquanto a princesa se afastava do embate, sem deixar de verter lágrimas pela provável morte de seu grande amigo de longa data.

Mais acima no desfiladeiro, a jovem ouviu um grito quase inumano. Por um breve instante, ela conseguiu vislumbrar Fazil tendo o torso trespassado por duas lâminas frias, quando dois dos atacantes sobreviventes conseguiram brechas para atacar pelos flancos, atirando o corpo moribundo do rapaz desfiladeiro abaixo. Varínia tinha ganhado pouco tempo e sabia que os atacantes eram apenas dois agora, sendo imprescindível da parte dela não esmorecer diante dos fatos. O sacrifício de Fazil merecia que ela fosse forte e continuasse com a missão.

O galope no desfiladeiro era deveras perigoso, mas a jovem princesa, em total desespero, prosseguiu adiante. Ela era seguida de perto por dois cavaleiros de mantos negros. O vento cortante do cume das Himelianas não dava trégua, e a jovem sentia cada vez mais pesado o ato de respirar, em meio ao ardor da fuga e ao resfolegar sob o vento gelado. Seus pulmões doíam como nunca e os cultistas ganhavam terreno a cada curva na montanha escarpada, enquanto a moça quase parava sua montaria para não cair no imenso precipício.

Um dos cultistas atirou aquele estranho filamento em pó da bolsa de couro cru e um novo estilhaçar na pedra quase desequilibrou a princesa da montaria. Varínia sobrevivera a mais uma daquelas magias profanas, ainda que o esforço tenha minado todas as suas esparsas energias. Seu alazão arfava tanto quanto ela e a desesperança era desoladora em seu espírito. Malditos traidores, cultistas e demônios antigos, pensou em desespero. Que sejam proscritos da existência pelas bênçãos de Asura.

O tempo quase parou, mas a jovem prosseguiu, vendo-se sozinha na montanha. Quando por fim parou seu cavalo exausto, olhando para trás, ela não vislumbrou mais seus dois perseguidores. Eles haviam sumido misteriosamente. O vento uivava e uma neblina gélida solitária percorria o vazio, vinda de todos os lados. A moça tinha seus pés e mãos congelados, sentindo uma tontura inebriante que advinha das dificuldades crescentes de respirar o ar carregado.

A última coisa que Varínia sentiu antes de desfalecer e quase cair de sua montaria foi a presença de um homem a lhe amparar. Ele a carregou no colo até algum cavalo próximo. O destino decidiria, por fim, a sorte da jovem princesa, a soberana de um reino oriental diminuto e quase esquecido daquela era inimaginável pelos deuses.

 

 

V

 

 

HOSPITALIDADE BÁRBARA

 

 

            Estou viva? Como?

Pensou a princesa, deitada em uma cama de palha sob peles de camelo e tecidos rústicos. O ambiente caracterizava-se por um espaço simples de madeira com teto baixio, sustentado em toras grossas, aparentemente revestido de barro e cerâmica. A moça sentiu odores distintos, de leite de cabra, oriundo de uma vasilha acima de uma mesa redonda ao lado da cama, mesclado aos excrementos dos animais pelo chão, como se a peça fosse uma coisa só; parte de uma moradia para humanos junto a um estábulo.

            Em frente à cama da jovem, sentado em uma cadeira amadeirada e com os dois pés sob uma outra mesa simples retangular, ela vislumbrou um homem muito alto e forte, com cabelos negros arredios e vulcânicos olhos azuis.

O homem tinha a pele bronzeada, semelhante à de alguém curtido ao sol, e vestia uma capa de pele de animal por cima de uma camisa branca de tecido grosso, com quatro grandes botões prateados na gola, tendo também um grosso cinturão bakhariot de couro cru com fivela de prata, além de uma bainha pesada para sua tulwar. Ele vestia também uma calça negra de tecido grosso, além de botas de camurça pesada até as canelas grossas.

Seus movimentos tinham um toque de altivez incomum, indicando uma agilidade quase felina, como se sua figura expressasse uma criatura para além do homem mundano, alguém que apenas existia nas fábulas mais antigas do mundo oriental, quando os anciões contavam relatos sobre os poderosos senhores do oeste distante.

            Varínia ruborizou ante o olhar penetrante do homem, tendo ele na face um leve sorriso selvagem e pretensioso. Ela possuía a mais pura certeza de que estava diante do homem que viera pedir auxílio: o bárbaro Conan, do povo cimério. Se o destino gostava de brincar com os mortais, pensou a jovem soberana, aquela era uma pilhéria divina das mais misteriosas. De qualquer forma, com o destino ou não por trás de toda a epopeia pela que passara nos últimos dias, Varínia tentaria ser racional e prática, usando a situação pelo bem de si própria e de seus respectivos súditos.

            - Olá, Conan. Eu vim aqui requerer sua ajuda. Eu trouxe uma mochila cheia de ouro de Khymsha e...

            - Seu ouro eu já tenho, garota. Se pensares, bem, não existe nada que possas barganhar comigo – interrompeu Conan, apoiando a cabeça na mão esquerda fechada, igualmente apoiada sobre o recosto da cadeira, em descanso.

            - Sim, claro. Eu entendo. Mas quero dizer que fui atacada pelos cultistas de Zanzimar. Eu estava junto de meus soldados e eles sacrificaram suas vidas pela minha segurança até aqui. Tal fato deveria ser considerado em alguma possível tratativa nossa – ela interpelou, sentando na cama com movimentos rápidos, tentando mostrar certa imponência diante da atitude um tanto indiferente do bárbaro.

            - Sei bem pelo que passou. Aqueles lobos estavam em seu encalço quando eu e meus batedores varamos seus corpos com flechas. Não é todo dia que vejo esses malditos cães tão longe de sua montanha profana. E, muito menos, a soberana de um reino oriental fugindo da morte nos desfiladeiros das Himelianas – respondeu Conan, deixando de sorrir, mas ainda mantendo seu corpo em aparente descanso.

            - Se sabes quem eu sou, então entendes que posso conseguir mais daquelas bolsas abarrotadas de minérios preciosos. Khymsha possui minas vultosas ao norte e precisamos de seus serviços.

            Conan não respondeu de pronto. Apenas se levantou rapidamente. Ele pegou uma garrafa alocada em cima da mesa e serviu uma taça disposta ao lado. O cimério bebeu um pouco do líquido incolor, limpou a boca com as costas da mão direita e se virou para Varínia. Não havia mais o sorriso de outrora, apenas a expressão de uma sabedoria bárbara primal, seus olhos parecendo dissecar o espírito da moça, desnudando-a por completo.

Podia se dizer que aquele bárbaro causava sentimentos dos mais estranhos em Varínia, algo que ela nunca sentira até então por qualquer outro homem, mesmo Fazil ou algum outro serviçal de seu imponente palácio.

            - Sei um pouco dos seus problemas e de suas vantagens, garota. Pilhamos suas vilas e cidades e observamos os vermes da montanha atacarem suas fronteiras. É o modo afghuli de ser. De aproveitar-se de situações vantajosas e de não se envolver com os problemas alheios – falou Conan, de forma direta e lacônica.

            - Que seja o jeito de ser desses montanheses. Mas pelo que sei, você não é um deles, Conan. E seus seguidores teriam muito a ganhar de Khymsha em uma aliança provisória. E você também poderia se beneficiar ainda mais, caso intercedesse pelo meu reino junto à Devi de Vendhya.

“Pelo que me consta, ela é sua amiga e aliada. Segundo alguns, ela é também sua amante”, terminou Varínia, ainda mais ruborizada com suas últimas palavras. Conan sorriu e respondeu prontamente, com seu teor selvagem e honesto, sem quaisquer tabus dos homens e mulheres civilizados.

            - Minhas visitas a Yasmina realmente não tratam de questões geopolíticas ou do interesse afghuli, e posso dizer que não me arrependo em nada. Muito pelo contrário. Mas o ponto aqui é que me ofereces ouro que posso tomar de seu reino sem precisar me aliar a você. Pedes também que eu deixe meu comando entre os afghulis aqui em Ghor e que eu me dirija até Vendhya, e peça ajuda à líder dos kshatriyas, de modo a que sua rainha ordene um ataque aos cultistas da montanha. Algo que, talvez, Yasmina tenha pouca capacidade de manobra.

“Posso dizer”, continuou Conan, “que a influência desses chacais sacerdotes alcança reinos distantes e, pelo que eu depreendo das ações da rainha de Vendhya, ela parece estar com as mãos atadas por conta de alguns nobres pomposos de sua corte, homens deveras fiéis a esses lobos demoníacos, provavelmente muito bem pagos pelos membros dessa seita maldita que lhe perseguiu até aqui”.

Enquanto Conan, explicava as questões de Estado da região, Varínia se impressionou ainda mais com sua imponência e altivez, muito em razão de um bárbaro tão rude, de uma cultura tão distante das partes ocidentais, entender como poucos das complexas questões das cortes locais de forma tão acurada.

O cimério mais lhe parecia um rei sábio, ou mesmo um conselheiro real do que o rústico selvagem que muitos civilizados das nobrezas locais diziam que ele era. A princesa não apenas se interessara pelo imponente porte físico do cimério, ou mesmo por seu olhar penetrante, como também por sua desenvoltura ao ponderar sobre aquelas questões complexas. Fazia todo o sentido agora o fato de Yasmina aceitar o cimério em sua cama. Conan, sem perceber o olhar de aprovação da jovem princesa, continuou:

            - Mas o ponto aqui é outro e posso te explicar. Os afghulis não se meteriam com os cultistas, e não apenas por conta de suas crendices e tabus tradicionais, mas porque tal ação não lhes traria quaisquer vantagens no curto prazo. Eles preferem pilhar seu ouro, princesa, do que se aliar com seu reino ou mesmo com qualquer outro da região.

“Nem eu, em minha função de liderança” continuou Conan, “me atreveria a ir contra as tradições desses cães, a menos, claro que não mais me importasse com minha posição de liderança, algo que pode acontecer a qualquer momento. Esses chacais da montanha ainda me seguem porque consigo boas pilhagens para eles, e também pelo fato de livrar o couro da maioria quando atacamos reinos e caravanas.

“Então”, terminou o cimério, “eu só posso lhe prometer uma certa segurança aqui, em nome da hospitalidade. Enquanto estiveres em Ghor. Claro que isso pelo ouro de sua bolsa, que já está em minha posse. De resto, eu te aconselho a voltar a Khymsha e tentar conviver com esses malditos fanáticos e seus rituais diabólicos a deuses profanos. Quem sabe, o tal deus antigo deles volte a hibernar sob a montanha e, quem sabe, seus cultistas decidam retornar aos esgotos de Zamora, de modo a retomar suas crenças junto aos deuses-aranhas de lá”.

            - Se fosse tão simples assim, cimério... – respondeu a princesa de pronto, com certa reverência incomum. – Mas não há essa possibilidade agora. Meus súditos são sequestrados pelos cultistas, as crianças de meu reino desaparecem de seus lares nas noites rubras de suas cidades silenciosas e o medo impera em diversas regiões próximas às Himelianas. Lembra-te que esses cultistas atacaram minha comitiva, e isso deixa claro que eles anseiam por algum sacrifício real para sua divindade. O meu sacrifício!

“Se não podes ou não queres me auxiliar”, continuou Varínia, “pois bem, eu entendo. Pelo menos, que me deixes seguir meu caminho em segurança até Ayodhya. Estando lá, eu mesma implorarei a Yasmina. Talvez ela desamarre seus nós políticos em sua corte e decida agir contra esses fanáticos, antes que o poder sob a montanha amplie ainda mais seus tentáculos em Vendhya”.

            A moça ficou orgulhosa de suas últimas palavras e de toda a racionalidade inserida nas mesmas, ainda que ela tenha perdido muito de suas esperanças diante dos argumentos de Conan. As palavras do bárbaro desvelaram que Yasmina talvez não tivesse como ajudar, por alguma influência nefasta entre os nobres de sua corte.

Talvez o traidor da sua própria corte, Punjar, contasse com aliados em Ayodhya, significando que os cultistas alcançavam diferentes palácios e reinos, como bem sugerira o bárbaro na conversa.

Conan também não parecia propenso a deixar os afghulis sem a sua presença na vila. Provavelmente por estar com sua liderança em disputa, ou quem sabe, por não ter o apoio de todos os montanheses do bando. Ela não sabia dizer ao certo, mas lideranças questionadas em bandos nômades, por melhor que elas fossem, não era algo incomum entre grupos de companheiros livres de forma geral.

A princesa, no final das contas, havia conseguido apenas a promessa do bárbaro de mantê-la em segurança na vila afghuli. O que sobrara para ela, então, era garantir uma escolta para que pudesse se dirigir à metrópole, de modo a barganhar pessoalmente por ajuda. Era um pensamento positivo diante do aparente fracasso da empreitada.

            O cimério tomou mais um gole do líquido da taça e se retirou de imediato, sem dizer mais nenhuma palavra, fazendo apenas uma leve mesura sem jeito, de modo a manter a cortesia. Varínia não deixava de se impressionar com a ausência de malícia nos olhos do bárbaro durante a conversa.

Ela sempre pensara que os homens selvagens fossem ainda piores dos que os civilizados em seus desejos instintivos masculinos, mas parecia que Conan tinha um pragmatismo e um respeito a ela que faltava aos civilizados, incluindo os nobres de seu palácio. Se ele a desejava, não transparecia como um tolo obtuso sem critério, mantendo sua compostura, ao mesmo tempo em que todo o vigor de sua masculinidade.

De qualquer forma, a jovem princesa estava se vendo como uma provável enamorada de Conan no futuro, e tais pensamentos a deixavam totalmente desguarnecida e envergonhada. Como pode isso Varínia?, pensou ela. “Como podes estar a pensar nessas coisas, num momento como esse, e logo com um bárbaro brutal do porte de Conan”?

            A noite chegou ao acampamento afghuli e Conan decidiu parlamentar com Agmar, seu velho aliado de confiança dentro do bando. Ambos tratavam dos problemas da princesa e o cimério enfatizava a promessa de segurança feita a ela, seguindo as normas da hospitalidade. O afghuli argumentava que os montanheses não se importavam com tais formalidades e nem com palavras ao vento, mas sim com as vantagens que a presença da soberana de Khymsha poderia trazer ao bando.

Um pedido de resgate ao pequeno reino seria, provavelmente, a opinião da maioria dos integrantes do grupo, caso Conan decidisse colocar essa questão em alguma assembleia de guerreiros. O bárbaro nortenho não era muito propenso a esse expediente tradicional, mas ele sabia que as normas usuais não podiam ser totalmente descartadas, sendo imperativo seguir algumas delas para assegurar a manutenção de sua liderança.

            A questão foi imediatamente suspensa quando um grito desesperado de alarme foi proferido, aparentemente por uma das sentinelas responsáveis pela segurança da vila. Entre avisos e gritos, o homem bradou que Ghor estava sob ataque. Conan não esperou muito para sacar seu tulwar e se dirigir ao local. Quando saiu às ruas, o bárbaro vislumbrou um cerco, com a vila tomada por homens de mantos negros, a maioria nas selas de seus respectivos cavalos. Os cultistas de Zanzimar não tinham desistido de levar sua presa para seu deus profano, e Conan não podia quebrar sua promessa de proteger a soberana de Khymsha.

            O cimério correu em direção aos cavaleiros que adentravam na vila, e logo varou corpos com sua espada larga, derrubando vários sacerdotes de seus alazões leves. Os montanheses igualmente saíam de suas moradias com arcos ou com suas tulwar desembainhadas em mãos, defendendo suas casas com a fúria comum dos desesperados.

Em meio ao caos do ataque e da turba de defensores, o guerreiro cimério vislumbrou, parado em um local mais distante, um imponente cavaleiro. Ele estava à beira de uma encosta elevada no desfiladeiro em frente à vila. Tratava-se de um homem alto e com um pesado capuz negro sobre a face, apontando para a casa de madeira aonde se encontrava Varínia. Provavelmente, pensou Conan, tratava-se do líder do ataque, usando expedientes mágicos para se comunicar mentalmente com seus seguidores.

            Não havia tempo a perder. O cimério precisava chegar até a princesa rapidamente. Ele trespassou membros e músculos de cada cultista próximo à casa. Quando percebeu, Conan estava com sua espada ensanguentada e com uma tocha na outra mão, usando ambas em seus ataques bestiais. Flechas varavam os céus da madrugada fria e cabanas de madeira eram estilhaçadas com mágicas profanas, pegando fogo sem qualquer origem aparente. Os gritos eram proferidos por mulheres e crianças, e os homens afghulis lutavam como bestas inumanas a defender suas crias e famílias.

            Conan decepou a cabeça de um cultista e, logo após, abriu o ventre de outro próximo, antes de chegar à cabana onde deveria encontrar a princesa. Tarde demais. Alguns encapuzados levavam Varínia de seu aposento, desmaiada. Eles montaram rapidamente em seus cavalos bravios e ganharam a inclinação que levava à saída da vila.

O cimério tentou em vão atacar dois cavaleiros postados a sua frente, em uma alameda inclinada, mas os homens estavam dispostos ali para impedir o resgate da princesa, em posições elevadas e um tanto seguras. Logo após derrubar o primeiro com um poderoso golpe de espada, Conan sentiu uma pressão do chão a seus pés, uma aparente erupção e uma explosão a seguir. O piso onde o bárbaro se encontrava foi estilhaçado, jogando seu corpo titânico para o lado, a uma distância incomum.

            Os gritos de desespero continuaram por algum tempo, e Conan se viu quase inconsciente, após bater a cabeça em uma viga de madeira, tendo um forte zumbido nos ouvidos, sendo igualmente acometido pela tontura do choque. Levantando-se com extrema dificuldade, como se estivesse embriagado após uma noite de orgias, o bárbaro apenas conseguiu vislumbrar o bando atacante escapando pelo desfiladeiro de entrada e saída da vila, enquanto os afghulis atiravam flechas para o alto, atingindo alguns cultistas da retaguarda.

A jovem princesa de Khymsha, que viera até Conan pedir auxílio em seu desespero, tinha finalmente caído nas garras daqueles fanáticos diabólicos. O cimério estava indignado e pensou que precisava fazer valer sua palavra, nem que tivesse que descer aos infernos para resgatar a moça. Quando Conan montou em um alazão qualquer para começar a perseguição aos cultistas sequestradores, ele foi interpelado por Agmar. O afghuli colocou a mão no antebraço esquerdo do cimério, olhando firmemente em seus olhos azuis. De modo firme e veemente, ele falou ao nortenho:

            - Sabes bem que se fores no encalço desses malditos chacais, nada garantirá tua liderança entre os homens daqui. Muitos perderam familiares nesse ataque, e provavelmente lhe responsabilizam por trazer o alvo dos cultistas até a vila.

            - Sem dúvida. Mas preciso fazer cumprir o que prometi. A princesa estava sob minha proteção e falhei com ela, assim como cometi um enorme erro em considerar que esses cães não iriam tão longe para capturar seu valioso sacrifício – respondeu Conan, sem deixar de subir no cavalo e de acenar com a cabeça.

            - E mesmo assim, pretendes ir sozinho até Zanzimar? Enfrentar toda uma seita de fanáticos arcanos e mais um deus antigo? – perguntou Agmar, já sabendo a resposta.

            - Não sei responder de imediato – respondeu Conan, com seus olhos em brasa e um leve sorriso nos lábios. – Vou ver o que consigo com uma espada e astúcia. Posso rastrear o grupo e tentar algum empreendimento, antes que cheguem ao destino, ou posso simplesmente entrar na caverna e varar as cabeças dos malditos líderes cultistas. Se puderes, envie alguém até os kshatriyas. Peça para que eles reportem à sua senhora o que aconteceu aqui. Khymsha é tributário de Vendhya e eles devem proteção ao pequeno reino. Uma princesa sequestrada e sacrificada por sacerdotes não seria de bom tom numa corte de nobres civilizados, com suas panças exageradas e fala mansa.

            - Posso tentar isso, sem dúvida. Muito mais pelo que lhe devo pessoalmente, do que por qualquer outra coisa além disso. Mas minha questão é outra. Vais te atrever mesmo a enfrentar um Demônio da Noite Antiga, algo não natural e que segundo dizem vive sob aquela montanha? – perguntou mais uma vez Agmar, não escondendo o tom de desdém e até de descrédito diante da intenção do cimério.

            - Ora. Não sei quase nada sobre deuses ou demônios antigos. O que posso dizer é que se algum sangue corre nas veias desse tal ser, minha espada não irá deixar de cortar sua carne e nem lamentará por fazer o trabalho para o qual foi feita. Não será a primeira vez que entro em situações como essa e como podes ver, ainda estou entre os vivos para contar o velho jargão do noroeste continental: de que tudo o que sangra pode ser morto. Então, homem, espero descobrir sobre isso ou morrer tentando! – finalizou Conan, sem antes deixar de pegar um grosso casaco de peles oferecido por Agmar, junto de uma mochila com provisões para a viagem que ele teria pela frente.

O cimério saiu a galope pelo desfiladeiro escuro. Ele sabia que a princesa de Khymsha tinha se dirigido às pressas até ali, para pedir por auxílio contra os cultistas do terrível poder sob a montanha. Ao ser tomada por aqueles lobos, Varínia acabou conseguindo que um dos homens mais perigosos do continente intercedesse por ela, mesmo que esse homem não tivesse qualquer intenção inicial de realizar tal empreitada.

A seita de fanáticos da montanha iria lidar então com a espada selvagem do bárbaro cimério. Muito provável que um deus poderia não ser suficiente para impedir a ação daquele homem oriundo do oeste distante. O destino havia terminado de jogar suas últimas peças. O homem Conan faria cumprir sua palavra de proteger a princesa, ou morreria tentando. Nenhum deus, sacerdote, cultista ou demônio poderia impedi-lo de vergar sua pesada espada e de extrair algumas tripas entre aqueles que se interpusessem em seu caminho.

 

 

VI

 

 

NO ENCALÇO DOS CULTISTAS

 

 

            Uma vaga lembrança vigorava na mente de Conan, ainda que arredia e incompleta. Seu corpo inerte num elevado terraço da montanha, quase que recoberto de gelo detonava uma imensa queda, certamente que fatal, não fosse a sorte do cimério ao deparar-se com aquela saliência recoberta com neve, o que ajudou a amortecer seu corpo.

Após o ataque dos cultistas e o sequestro da governante de Khymsha, Varínia, o cimério tinha rastreado o grupo, tão logo eles deixaram o desfiladeiro da vila afghuli, entrando em outra trilha que os levaria até a montanha profana. Conan ficara no encalço dos sequestradores da princesa por dois dias ininterruptos, ao longo da Passagem Gurashah e havia chegado a trespassar dois cavaleiros da retaguarda do bando em uma das elevações gélidas das Himelianas, uma curva íngreme fechada caracterizada pela presença de picos escarpados na rocha sólida.

            Logo, o cimério se vira encurralado diante de dois outros cavaleiros a fechar a passagem estreita, com mais outro daqueles fanáticos surgindo de súbito por trás dele, provavelmente escondidos em uma pequena caverna na parede monolítica da elevação. Tal fato levara o bárbaro a se engalfinhar em mais uma contenda de espadas de cima de seu garanhão cansado, e isso contra dois inimigos igualmente montados. Não havia demorado muito para Conan verter sangue de um dos homens, ainda que o ferimento não tenha sido mortal.

A surpresa viera na forma de uma nova explosão, tal e qual havia ocorrido na vila de Ghor, fato que mais uma vez arremetera Conan com força, desta vez sob os pés de sua montaria. O animal havia empinado bruscamente, derrubando o cimério precipício abaixo, fazendo cair no vazio também os dois cultistas adversários. Havia sido o fanático vindo da caverna escura que jogara o pó explosivo em direção aos três combatentes montados, sacrificando até mesmo seus companheiros em nome de livrar seus irmãos do implacável perseguidor.

            Conan não sabia dizer por quando tempo ficou desacordado após a longa queda, mas a julgar pela nevasca severa das Himelianas a nublar sua visão, mais o vento cortante que sequer existia quando enfrentou seus inimigos, ele considerou ter ficado quase meio dia sem seus sentidos. Qualquer homem civilizado teria certamente perecido na queda, sofrendo ainda mais com os rigores do clima. O cimério, porém, fazia parte de uma raça de bárbaros resistentes e brutais, possuindo um vigor e uma força incomum para quaisquer padrões conhecidos dos civilizados.

            Quando recuperou suas forças e reestabeleceu seus respectivos sentidos de ave de rapina, Conan decidiu então escalar a montanha íngreme parcialmente gelada, de modo a retornar ao ponto de onde se encontrava antes da queda. Seriam vários metros com as mãos nuas no paredão rochoso da montanha gelada, ela que continha filamentos de gelo que derrubariam o melhor dos alpinistas hiborianos.

O sangue da raça ciméria lhe dava segurança na empreitada, visto ser Conan membro de um grupo de homens brutais que vivia nos ermos de vastidões sombrias e melancólicas de seu país, uma raça que tinha como uma das suas principais características culturais e biológicas, a capacidade de escalar montanhas íngremes e indiferentes.

            Enquanto subia a rocha escarpada sob a nevasca incessante, enfrentando de peito aberto o vento cortante, o bárbaro se lembrou dos tempos de sua juventude, antes de Venarium, quando ele e outros integrantes de seu clã escalavam as elevadas montanhas da ciméria por pura diversão, incluindo as que separavam seu país da terra dos povos nordheimers, dos altivos aesires e dos brutais vanires.

Não fosse pelas dores viscerais nos poderosos músculos de ferro, mais as dificuldades daquela escalada frente aos rigores do clima gélido, o cimério estaria até mesmo se divertindo na empreitada. De certo que a preocupação com o destino da princesa sequestrada não ajudava em seu humor, absorto em constantes doses de melancolia, mas igualmente condicionando seu espírito em frente.

            Depois de algum tempo na difícil escalada, Conan retornou ao ponto inicial onde encontrara os cultistas. Por mais um acaso da fortuna, seu alazão continuava ali, parado, arfando sobre o vento inóspito do elevado desfiladeiro. O cimério não se demorou e, de pronto, montou no animal alquebrado, seguindo adiante em meio à neve que se tornava cada vez mais forte.

Ele sabia que o clima severo junto da queda e do tempo que estivera inconsciente havia lhe atrasado um dia inteiro, em comparação aos cultistas sequestradores. Isso significava que Conan só conseguiria chegar aos canalhas quando eles já estivessem na segurança de sua montanha profana.

            A decisão inicial do bárbaro não tinha se alterado. Como ele afirmara para Agmar na vila afghuli, ele desceria até o inferno para cumprir sua palavra dada perante a jovem monarca, antes dela ser levada à força de Ghor. O cimério não deixava de amaldiçoar sua honra pessoal bárbara, e mesmo à sua indiferente deidade principal de nome Crom, ao mesmo tempo em que o desafio da empreitada estimulava seus poderosos membros a seguir adiante.

Não era de todo ruim livrar o mundo de uma seita de fanáticos canibais e corruptos, liderados por poderes mágicos necromânticos e gemas explosivas. Muito menos seria problema para ele ceifar algum monstro antigo cultuado como uma divindade demoníaca. Muitos nômades beduínos e hirkanianos das estepes chamavam a criatura da montanha de “Rastejante Negro” e Conan não conseguia deixar de sorrir diante da ideia de cortar um ser rastejante em dois ou três com sua espada indiferente.

            O tempo passou e o cimério venceu a tempestade de neve que se seguiu, tendo que se abrigar a noite seguinte em uma pequena caverna no desfiladeiro mais próximo da Zanzimar, conhecido como Estreito de Amir Jehun, que iniciava a passagem em direção ao Afghulistão.

Ao longe dali, ele podia vislumbrar a montanha próxima a Yimsha, onde ele enfrentara, junto de Kerim Shah, os acólitos e o perigoso mestre dos Profetas do Círculo Negro, mais ou menos há dois invernos atrás. Isso para resgatar uma outra monarca na ocasião, algo que se tornara um padrão em sua vida errante.

Não cabia a Conan julgar o destino, e nem se preocupar com as intempéries da vida ocasionada pelas vontades dos deuses ou demônios. Para o cimério, bastava saber que o sangue fluía quente em suas veias e que sua vontade pessoal era soberana frente aos problemas maiores da existência, até que a morte ceifasse sua última respiração.

            No dia seguinte, com o clima aberto e o frio um tanto mais ameno, Conan seguiu seu rumo, adentrando, ao final da tarde, o desfiladeiro final que o levaria à entrada da caverna do poder oculto sob a montanha. Um pouco antes do cair da noite, ele vislumbrou uma cena tétrica, e até sádica.

Milhares de soldados do pequeno reino de Khymsha empalados na borda da trilha que subia a montanha profana, alguns deles ainda se retorcendo em sofrimento dilacerante ante a viga que lhes perfurava o corpo até a boca. O cimério não tinha dúvidas que eram os soldados da princesa. Homens fiéis, que haviam tentado alguma ação contra os cultistas de Zanzimar, sendo sumariamente chacinados na batalha que se seguiu ali, talvez ainda ontem, enquanto o bárbaro estava apagado na elevação de gelo da impiedosa montanha.

            Subindo lentamente o aclive, Conan foi observando os mortos e semimortos e chegou a reconhecer o provável líder. Um homem chamado Yang Shan, um general que ele já havia encontrado há tempos atrás, quando os súditos de Varínia vieram até Ghor para tentar algum tipo de acordo, de modo a acabar com os ataques afhgulis. O homem estava morto, igualmente trespassado pela viga. Sobre sua armadura despedaçada, os dizeres na língua vendhyana: fiquem longe do poder oculto sob a montanha.

            Por alguns instantes, o cimério pensou estar sendo observado, apesar de não saber com precisão de onde vinha o perigo. Ele parou seu cavalo exausto, perscrutando o ambiente e olhando para todos os lados. Seus sentidos estavam em alerta e sua respiração lenta para tentar solucionar o mistério. Conan chegou a ouvir um zumbido fraco trazido pelo vento, tentando discernir melhor ao tentar ampliar instintivamente seus sentidos, principalmente o da audição.

O vento trazia uma música leve e ignominiosa, algo profano que parecia expressar um cântico em versos hexâmetros, uma oração, talvez, com vozes humanas roucas e em uníssono. Provavelmente, pensou Conan, eram os fanáticos sob a montanha, cantando versos inomináveis em adoração ao seu diabólico deus ancestral.

            Por algum momento, o tempo parou. Em um dos lados, Conan vislumbrou, ainda que por um breve instante, a silhueta de uma pequena criatura. Ele notou que o ser diminuto se escondeu rapidamente em alguma saliência de pedra, atrás de alguma rocha. Por tais motivos, o bárbaro não conseguiu sequer dirimir o que realmente seria tal ser. Mesmo vislumbrando de forma rápida, parecia a Conan um pequeno homem em miniatura, escondido em alguma elevação na parede rochosa. Uma espécie de homúnculo antropomórfico com um tentáculo viscoso no lugar da cabeça.

O cimério nem sequer puxou a espada da bainha, pois sentia que o pequeno ser tinha adentrado em alguma rachadura da caverna, fugindo rapidamente da cena onde o bárbaro se encontrava. Uma certeza se apresentava ao cimério: o monstrinho sabia de sua presença e poderia avisar os cultistas que ele estava ali, para adentrar a montanha e causar confusão.

            Conan seguiu em frente mais uma vez. Ao cair de mais uma noite, ele pôde vislumbrar uma inclinação que descia até um vale aberto entre as paredes rochosas de Zanzimar, onde uma grande entrada em forma de arco abrigava uma turba de pessoas de raças distintas. Era como uma clareira de pedra em meio a paredões elevados, um terraço, como se o desfiladeiro literalmente entrasse num grande cume partido na ponta.

A turba estava dispersa, com alguns sujeitos dormindo ao relento e outros ajoelhados em adoração. Muitos estavam à beira de fogueiras e alguns dividiam restos de carne de animais mortos em volta. Em comum a todos eles, de certo mesmo, os mantos negros em volta dos corpos cheios de chacras abertas na pele, provavelmente pelo constante autoflagelo imposto. Conan vislumbrou alguns fanáticos ali utilizando sobre os próprios corpos certos instrumentos de açoite. Correntes em ferro pontudo ao lado de cordas de couro.

            O cimério seguiu adiante e logo deixou seu garanhão mais afastado, amarrado a alguns galhos no paredão de pedra, temendo que o animal fosse atacado por alguns daqueles homens famintos ali reunidos. Não era incomum vislumbrar os olhos sediciosos de alguns daqueles indivíduos, em direção a sua montaria. O odor era insuportável e acre, visto que alguns dos fanáticos estavam mortos e em decomposição em meio aos ainda vivos. Esses sequer tiveram o trabalho de enterrar os mortos ou queimar as carnes apodrecidas, o que denotava tratar-se de algum motivo de culto ou mero desprezo.

            Logo, Conan se viu obrigado a chutar alguns daqueles insanos que lhe abraçaram os joelhos em uma espécie de veneração sórdida. Não foi difícil a ele encontrar um manto negro, entre algum dos mortos na clareira. Não seriam aqueles desesperados a impedir o bárbaro de entrar na caverna, visto que a passagem estava aberta e parecia convidativa para que novos fanáticos se juntassem à turba profana que preenchia aquela montanha.

Provavelmente, pesou Conan, os corredores cavernosos levavam a muitos dos salões de pedra no interior de Zanzimar. Era o momento final da empreitada e Conan sabia que sua passagem de ida para os subterrâneos da caverna profunda podia não ter volta. Talvez ele se perdesse ali, durante dias, e talvez sequer conseguisse encontrar Varínia, antes de seu sacrifício.

Uma única certeza pairava na mente do cimério. Ele não pereceria ali naquele lugar esquecido pelos deuses, sem antes ceifar muitos de seus filhos diabólicos. Os cultistas do poder oculto sob a montanha teriam nele um inimigo voraz, ansiando eles por algum auxílio de seu deus profano, caso o bárbaro decidisse desembainhar sua espada.

 

 

VII

 

OS SEGREDOS DA MONTANHA PROFANA

 

            Os horrores presenciados por Varínia e mesmo por Conan no interior das cavernas de Zanzimar foram muitos e pode-se dizer que a sanidade da princesa foi para sempre afetada diante dos milhares de mortos, sacrifícios, canibalismos, autoflagelações de fiéis e visões sobrenaturais cósmicas que ela presenciou. Pode-se dizer até que, para o cimério, somente seu espírito bárbaro primal o impediu de perder a respectiva razão, mantendo ele seu objetivo inicial envolto em seu pragmatismo característico.

Passaram-se três dias e três noites, desde que o bárbaro adentrou os subterrâneos da montanha, e ele aproveitou-se de tais momentos para vasculhar o local, como se fosse mais um daqueles fanáticos de mantos negros e capuzes sob olhos insidiosos. Conan entendeu que havia duas sessões bem distintas de ambos os lados da câmara principal cavernosa, onde se encontrava a turba de fanáticos em adoração. Todos eles em frente ao que parecia ser uma imensa escultura de carne em descanso sobre um majestoso trono de pedra.

De um lado da imensa caverna, um corredor estreito que levava a salões menores e contínuos, onde se encontravam os prisioneiros a serem sacrificados, dispostos em gaiolas ou jaulas pendidas em elevações e terraços naturais de pedra, várias delas servindo como pórticos a cavernas menores.

Era exatamente o local onde o bárbaro tinha vislumbrado ao longe a princesa de Khymsha, esperando o melhor momento para libertá-la, sabendo ele que a moça era vigiada continuamente por cultistas e lacaios. Do outro lado da grande caverna da escultura de carne, ele notou um corredor estreito selado com uma pesada porta de ferro, provavelmente a passagem para câmaras onde se abrigavam os cultistas líderes. Onde o bárbaro poderia entender melhor alguns segredos do lugar.

            Varínia estava aprisionada em uma das diversas gaiolas e jaulas daqueles a serem sacrificados, ladeada por nobres pomposos de diferentes reinos civilizados, fossem eles do oriente próximo ou do ocidente distante. A princesa conheceu ali alguns indivíduos de raças diversas, provenientes de reinos famosos, incluindo uma jovem nemédia de nome Júlia e um turaniano de Secunderam, conhecido pela alcunha de Khalid. Fora alguns irakzais irritadiços com peitos e rostos peludos, possuindo todos seu histórico mau humor fatalista e objetividade latente nos modos de falar.

Quando os dois nobres foram retirados de suas respectivas jaulas por cultistas, mesmo que em dias distintos, e quando ambos não mais voltaram para a zona dos reféns, a moça teve a certeza de que eles tinham sido, por fim, sacrificados na grande caverna central de Zanzimar, aonde se encontrava aquela divindade ancestral e diabólica, adorada por um séquito de fanáticos ensandecidos.

A princesa tinha vislumbrado a criatura mais de uma vez quando fora levada em diferentes ocasiões para se banhar em uma caverna paralela. Sua mente entrou em paranoia a partir desse momento. O ser ignominioso parecia um golem vivo de carne mumificada, com quase três metros de altura caso ficasse de pé e não sentado no imponente trono de pedra. A criatura tinha um rosto com nariz aquilino e de formato estígio, possuindo olhos estreitos esverdeados sobrenaturais e brilhantes, olhando comumente o vazio e sua frente.

O crânio da coisa tinha uma abertura estranha, como uma ferida feita por um machado duplo. Dali costumava sair, algumas vezes, uma coisa minúscula em forma antropomórfica, mas com três tentáculos no lugar de cada um dos pequenos braços e mais um maior no lugar da cabeça, como se fosse um pescoço retorcido e flácido, semelhante ao tentáculo longilíneo de um polvo.

Varínia não sabia os motivos daquela pequena coisa que saía e depois retornava ao crânio do ser titânico sentado, mas ela notou um padrão naquela estranha situação, o que a ajudou a manter sua mente arguta em funcionamento. Quando o homúnculo se afastava, os olhos cerrados daquele grande ser se abriam levemente, ganhando certa expressão altiva na face. Quando, por sua vez, o pequeno ser retornava ao crânio e adentrava novamente na ferida aberta, o grande deus cerrava novamente os olhos, ganhando novamente a expressão usual de um ser catatônico e sem vontade.

Parecia a Varínia, em seu discernimento limitado diante de tão bizarra situação, que o homúnculo era um pequeno parasita a sugar a vontade do grande ser diabólico. Tudo era ainda mais estranho em razão dela, mais de uma vez, ter vislumbrado o pequeno ser diminuto no ombro do cultista chefe, o mesmo homem que tinha liderado os demais fanáticos em seu sequestro das terras afghulis.

Enquanto isso tudo acontecia, Conan intentava adentrar no salão com a porta de ferro. Ele esperou a segunda noite, quando um cultista vasculhou uma bolsa consigo e retirou dela um molho de chaves. Uma delas servia na fechadura da grande porta, alertando o cimério de uma situação vantajosa. Logo depois de abri-la, o homem teve seu pescoço quebrado pelo poderoso braço titânico de Conan, que logo adentrou na câmara após jogar o corpo em alguma caverna paralela, de modo a escondê-lo dos demais cultistas.

Com as chaves em mãos, o cimério adentrou aquela seção e logo pegou uma das tochas alocadas nas paredes. Ele percebeu que tinha tempo até o sacrifício da princesa, pois presenciou uma morte a cada noite, a primeira, de um nobre com feições hirkanianas, o outra, de uma jovem mulher de feições hiboriana, provavelmente de origem nemédia ou aquilônia. O que mais chamou a atenção de Conan ali foi o corredor que se seguiu, algo deveras estranho e que ele nunca tinha presenciado até então em sua vida agitada.

As paredes rochosas estavam cobertas com algo que parecia ser diversos dutos de carne e tecido vivo, como se fossem veias de cores esverdeadas distintas, semelhantes a grossas teias de aranhas zamorianas, em variadas direções. Em algumas bifurcações, existiam o que pareciam ser estátuas de carne mortificada, seres antropomórficos com mantos acinzentados, como se fossem feitos também de tecido humano, contendo capuzes a tapar rostos aparentemente humanos.

As diversas veias grudadas e dispostas nas paredes de pedra se bifurcavam por todos os lados e algumas delas entravam nas costas de cada uma das diversas estátuas de carne e de músculos. Eram muitas delas, pensou Conan, quase incontáveis à primeira vista, pois o cimério percebeu estar em uma espécie de labirintos de corredores, nas suas mais variadas direções.

Se Conan aproximava a tocha de um daqueles seres esculpidos de pele, podia vislumbrar que embaixo de seus capuzes de carne, existia apenas um rosto sem face, mas com uma boca rasgada diante do fogo da tocha, algo que quando visto mais de perto, nublava os sentidos do cimério por alguns instantes. Algumas vezes, vindo dos dutos de veias tentaculares dispostas nas paredes, Conan escutava um zunido leve e podia observar o que pareciam ser alguns pequenos feixes de raios faiscantes, como os que ocorriam nas piores tempestades do oeste distante.

O cimério não lembra por quanto tempo vagou por aqueles corredores pulsantes de carne viva e esculturas de tecidos humanos esverdeados, mas ele procurou marcar seus passos e dobrar sempre em cada bifurcação numa mesma direção, à direita, de modo a retornar depois ao ponto de partida. Por alguma sorte do destino, ele encontrou uma pequena porta fechada, parecendo ser de madeira grossa de cedro, talhada com símbolos arcanos indecifráveis. Uma das chaves do molho que tinha em mãos abriu facilmente a fechadura da porta.

Ao abri-la, o cimério se deparou com uma pequena sala de descanso e estudos. Dentro dela, um cultista se encontrava sentado de costas para ele, numa cadeira em frente a uma pequena mesa, o homem com capuz baixo, lendo algo de forma absorta, mas virando-se abruptamente quando ouviu o rangido da porta. O miserável sequer teve tempo de pegar sua cimitarra encostada ao lado da mesa, pois o bárbaro, de imediato partiu sua cabeça como uma abóbora, fechando a porta logo em seguida. Não havia sentido sair do pequeno cômodo sem antes vasculhar a escrivaninha e quem sabe, ler o pergaminho que o homem estava perscrutando, desde que isso fosse possível.

O cimério, em suas andanças mundo afora, tinha aprendido algumas letras civilizadas, afastando-o de seus irmãos de raça, visto que os cimérios eram povos ágrafos. Ele sabia diversos idiomas naquele momento de sua vida e entendeu um pouco das linhas do pergaminho do cultista, entendendo tratar-se ali de algum ritual de sacrifício.  Vasculhando melhor a pequena mesa, ele encontrou outros rolos dobrados, lhe chamando a atenção uma espécie de carta enrolada e lacrada, como uma espécie de códex selado. Ao abrir o rolo do estranho códex, Conan encontrou alguma satisfação no fato de entender a escrita zamoriana ali disposta. Dizia o seguinte:

            Prezado Rudabeh. Estou lhe requerendo que te juntes aos cultistas de Zanzimar, que finalmente tomaram controle sobre um poder muito antigo sob a montanha, um Demônio da Noite Antiga. Isso graças às mágicas ancestrais dos Profetas Negros de Yimsha e de seu mestre, que descobriram um antigo ritual no incrível e venerável Livro de Skelos.

A partir de tais conhecimentos, os arcanos conseguiram criar, da própria essência da divindade da montanha, uma espécie de parasita diminuto de si mesmo, colocando a coisa maior em uma espécie de torpor de sonhos fugidios, ainda que tal parasita seja uma mera manifestação do mesmo ser, desconhecedor dos desejos do outro.

Assim sendo, a entidade conhecida como Rei Negro, Caos Rastejante ou “O Entronado” seria parasitado por uma mimese diminuta da manifestação conhecida como Demônio de Língua Sangrenta, que, segundo as linhas de Skelos, faz parte do mesmo poder ancião ali manifesto, como que uma espécie de homúnculo tentacular. Isso fará com que tenhamos o controle sobre o poder sob a montanha, desde que consigamos condicionar sua poderosa vontade. Até agora, os sacrifícios que temos feito não conseguiram seus intentos, pois o deus se recusa a colaborar, mantendo seu olhar vazio diante de seus fiéis canibais humanos. Tolos malditos, é o que são, mas precisamos deles, como bem sabes.

Também estamos com dificuldades de controlar o ser minúsculo da própria essência do deus. Acho que, cada vez mais, ele percebe que é parte de uma mesma entidade que povos pré-cataclísmicos um dia denominaram de Nyarlatotep, o flautista, demônio exterior. Penso que ele urde uma sanguinária e insidiosa vingança contra nós, principalmente caso venha a perceber a sina da qual ele mesmo faz parte. O fogo é a fraqueza do pequeno homúnculo, mas temo que tudo isso não passe de um mero ardil de um ser que não conseguimos sequer compreender.

Suas veias titânicas crescem na caverna, como teias incontroláveis e parece que a cada dia mais delas aparecem, além de mais esculturas de manifestações suas de carne, músculos e tecidos, dispostas pelos corredores dos salões cavernosos, como se o ser em questão estivesse se fortalecendo aos poucos, caoticamente, enquanto se diverte diante dos sacrifícios que perpetramos em sua homenagem.

Mas não sejamos pessimistas, meu caro. Temos nossa mágica e temos o fogo, caso tudo se afaste do planejado. Ainda acho que estamos brincando com algo muito além de nossos conhecimentos e capacidades, mas não é desistindo da arte que avançamos nos conhecimentos arcanos do mundo.

            A carta terminava abruptamente, sem qualquer assinatura, mas Conan sabia que vira ali algumas informações valiosas. A existência de um parasita a controlar aquele grande ser mumificado na caverna; o fato de tratar-se de uma espécie de deus-demônio da noite antiga, aprisionado por rituais executados por magos humanos; a descoberta do fogo como uma fraqueza para o pequeno ser que parasitava a coisa da caverna, sendo o pequeno homúnculo uma espécie de essência dela mesma.

Malditos necromantes, pensou o cimério. Brincam com seus mistérios e conhecimentos confusos sem sentidos apenas para descobrirem-se marionetes dos deuses e entidades que cultuam. Conan considerou o quanto tudo aquilo era insólito, mas ele também não costumava se preocupar com a estranheza do mundo, sabendo que criaturas diabólicas e profanas existiam muito antes da existência do homem. Além disso, ele elucubrou ali se o pequeno ser antropomórfico que tinha vislumbrado na superfície, antes de adentrar as cavernas, não seria exatamente aquele ser parasita mencionado na carta.

Fosse tal criatura ou não, Conan decidiu que, mesmo sem plena certeza de todos os fatos de sua estranha aventura, ele manteria sempre uma tocha em mãos, pronto para queimar o pequeno homúnculo caso se encontrasse com ele. O cimério então teve uma ideia perigosa e decidiu executar tal empreitada para tentar salvar a princesa de seu cativeiro.

Ao invés de procurar retirá-la da jaula de prisioneiros mediante sua habilidade com a espada, ele decidiu que tentaria livrá-la de seu jugo quando estivesse prestes a ser sacrificada diante do terrível demônio, usando a confusão do ataque em frente aos fanáticos como chamariz para os cultistas. Um pouco de caos, ponderou o cimério, poderia ajudar a escapar daquela situação macabra, levando a monarca de Khymsha consigo.

O homem chamado Conan tinha sua espada, e agora uma tocha, sempre em mãos, além de sua conhecida temeridade frente ao desconhecido. Ele ainda esperava auxílio de fora, tanto dos afghulis como dos kshatriyas, mesmo não acreditando muito em tal possibilidade. No final das contas, pensou o cimério, tudo caberia à fortuna, aos desejos dos deuses.

Quem sabe, ele pudesse contar com qualquer um desses malditos deuses ou mesmo demônios antigos de que muitos falavam, oravam e concediam presentes e oferendas, mas que nunca faziam nada de retorno aos reles mortais. Que fossem para os infernos todos eles, praguejou o cimério, solitário. Conan só precisava do sopro de sua força titânica e de sua espada afiada, e isso lhe bastava em meio ao desespero da luta pela vida contra a morte e o desespero.

 

 

VIII

 

 

LIBERTANDO DEUSES E PRINCESAS

 

 

            A princesa de Khymsha não tinha mais esperanças de escapar de Zanzimar com vida. No terceiro dia de cativeiro, sua sanidade entrou finalmente em colapso. Ela vislumbrou o canibalismo dos fanáticos na caverna, além dos sacrifícios de dois irakzais, homens peludos temerários, mas que choraram como crianças famintas diante das torturas pelas quais passaram antes do ocaso final de suas vidas.

O pior de tudo, na opinião da princesa, fora vislumbrar de perto a criatura de carne enegrecida com olhos esverdeados. Sua expressão era usualmente catatônica, mas se tornava de extrema crueldade quando o pequeno homúnculo saía de seu crânio. Em uma das vezes, o ser diminuto saiu para devorar a carne dos dois irakzais recém sacrificados. Varínia notou que o deus em descanso no trono simplesmente sorriu nesse instante, quase que imperceptivelmente para os fanáticos da caverna.

            A visita inesperada do nobre Punjar, ao lado de dois conselheiros de sua corte apenas respaldou para a princesa tudo aquilo que ela já sabia. Que os tentáculos dos cultistas do poder oculto sob a montanha chegavam às cortes médio-orientais, incluindo Khymsha. A moça lembrou das palavras do general Shan, de que aquele maldito nobre, parente da princesa, preferia efetuar acordos com cultistas fanáticos do que com os membros de sua raça ou mesmo de sua família. Punjar, sem qualquer dose de piedade ou cortesia, falou a Varínia, postado em pé frente à jaula da importante prisioneira:

            - Tu já podes entrar em desespero, minha querida prima. Podes chorar alto, gritar e espernear como uma mulher frágil e infantil. Nada irá mudar o destino de sua sina final nesta montanha. Esses homens acreditam que o sacrifício de uma princesa virginal fará uma mágica necromântica especial junto a seu deus de carne. O que importa, minha cara, mais do que tudo isso, é saber que sua morte me trará como prêmio uma linda coroa em minha cabeça.

            - Seu chacal maldito! – gritou a princesa, em desespero. – Achas que esses lobos deixarão nosso reino em paz? Que não tornarão o povo de Khymsha uma parte de seu culto imoral? Consideras mesmo que um demônio como aquele, sentado em seu trono de pedra, não reclamará mais prêmios em sangue e em vidas inocentes? Seu tolo pretensioso!

            - Minha jovem e magnânima princesinha – respondeu o homem, com olhar cínico e pretensamente indiferente, mas sem esconder um sorriso malicioso nos lábios – o que são alguns prêmios em vidas pelo alcance do poder político? O que são relés vidas mortais de pessoas das castas inferiores, diante do saciar de um deus com poderes absolutos? Seu desespero denota apenas sua crescente insanidade. Seu olhar vingativo desvela que sua mente perecerá ainda antes de seu belo corpo. O maior poder do “Entronado”, minha jovem, é exatamente este.

“Segundo consta nos pergaminhos proibidos”, continuou o homem, “ele desvela, aos homens e mulheres mortais, que sua pretensa ordem natural não passa de um ardil enganoso frente ao caos pleno da existência dos seres exteriores, que vieram ao mundo antigo. Seres que já existem no firmamento, antes mesmo de Mitra ou do pai Set, ou até mesmo da poderosa Ishtar.

            “Além disso, minha cara”, continuou Punjar em sua parlamentação fanática, mostrando uma bolsa de couro para Varínia, já conhecida da princesa, “estou de posse do veneno que você, Fazil e o general Shan adquiriram em Khitai. Nada me impede de liberar o veneno quando eu me retirar dessa maldita montanha, deixando esse lugar vazio da presença humana. Teríamos nós, os reais monarcas de Khymsha, um deus só nosso para nos auxiliar, para que possamos governar os homens. Essa empreitada, minha doce parente, você jamais poderia imaginar, não é mesmo?”.

            O homem não esperou sequer uma resposta da princesa, virando as costas e se afastando da jaula de grades de ferro. A moça apenas se agachou diante das palavras ensandecidas de Punjar e, pela primeira vez ali naquele cativeiro, ela chorou copiosamente, sem conseguir segurar as lágrimas por qualquer provável orgulho nobiliário. Seu espírito estava partido.

A princesa tinha finalmente desistido frente àquela situação e diante de tal traição, ainda que deveras prevista. As palavras de Punjar desvelavam o futuro dos súditos de Varínia. Escravidão, sacrifícios de crianças e de mulheres inocentes, tirania de um rei sujo e vil a governar um país em nome de um culto de fanáticos canibais.

Diante de tudo aquilo, ela apenas vislumbrou o crescimento ininterrupto de uma religião profana, um culto imoral em homenagem a um demônio insaciável, mas que não demostrava sequer considerações por seus súditos. Varínia não tinha mais forças para lutar contra aquilo. Seu próprio sacrifício se tornou uma certeza absoluta em sua mente dilacerada.

            Na noite seguinte, a princesa foi banhada novamente, desta vez sendo ungida com aromas agridoces, óleos orientais mais a fantástica mirra, denotando que chegara o momento de seu sacrifício. A jovem estava sem qualquer vontade, aceitando seu destino passivamente, como se não existisse qualquer fio de esperança em seu coração, fosse para ela própria, fosse para o reino e para seu povo. O culto ao deus entronado seria hegemônico na região médio-oriental, mesmo com os arroubos de Punjar, acreditando que o veneno de Khitai poderia dar fim a toda uma seita diabólica. Nem ela tinha planejado desta forma, pois o veneno servia apenas para que o reino pudesse ganhar tempo para a chegada dos kshatriyas.

            Os fiéis da montanha estavam em completo frenesi na caverna do deus ancestral e a princesa foi desnudada, banhada e, em seguida, levada pelos cabelos sob a ação agressiva do cultista-chefe. O homem encapuzado a maltratou sadicamente, conduzindo a jovem até os pés do trono do deus amorfo.

O sacerdote-chefe, com feições de Zamora, entoava cânticos e orações em alguma língua antiga e indecifrável e a caverna pulsava de forma diabólica. Não se tratava apenas das orações em júbilo dos fiéis ali ajoelhados, em um frenesi coletivo, mas uma espécie de pulsar sobrenatural e insólito, algo que fazia todo o ambiente tremer.

Como se as próprias paredes rochosas latejassem, como que se as mesmas paredes fizessem parte de algum tipo de organismo vivo, aparecendo, aos poucos, tubulações nas mesmas, até então invisíveis aos presentes, deixando o ambiente e o clima ainda mais tétrico e ameaçador para a monarca de Khymsha. Em meio a palavreados tórridos dos fiéis, fanáticos e cultistas ali reunidos, Varínia conseguiu discernir um verbete em versos. Algo como:

 

Que possas pulsar e nos elevar.

Que possas nos acariciar ao se desvelar

 

            Foi no momento de maior intensidade, de completo desespero da parte de Varínia, que a jovem finalmente vislumbrou o bárbaro Conan. Em um primeiro momento, ela considerou tratar-se de uma ilusão oriunda de sua mente enlouquecida, mas ao se deparar com aqueles olhos bárbaros primordiais de cor azul, ela quase conseguiu vislumbrar as chamas de todas as hordas selvagens que singraram o mundo antigo.

Homens brutais a destruir civilizações inteiras de reis civilizados, de magos necromantes diabólicos ou sacerdotes poderosos, incluindo adoradores de deuses ou demônios da noite antiga, com grandes semelhanças ao ser rastejante que agora se encontrava na caverna de Zanzimar.

O cimério empurrou com seu corpo titânico o líder sacerdote, vergando a espada na mão direita e a tocha acesa na poderosa mão contrária. A princesa desfaleceu finalmente e não viu as ações que se seguiram. Em primeiro lugar, o susto do cultista-chefe, seu levantar confuso e surpreendido, apontando lentamente sua adaga curva em direção ao bárbaro cimério, como se ele quisesse eliminar pessoalmente aquele invasor, como se ali existisse um ritual de sacrifício duplo a ser processado. Uma homenagem ao caos entronado.

Certamente que esse foi um dos erros mortais da parte do cultista-chefe, visto que ele deixou os demais ali presentes, seus seguidores e lacaios, em uma espécie de prontidão destituída de ação concreta, considerando eles que tudo aquilo que vislumbravam fazia parte de algum espetáculo em homenagem ao deus de carne alocado diante de todos.

            Os cânticos eram ainda entoados e o frenesi da turba se tornou ainda mais insano e teatral. Muitos homens e mulheres ali reunidos se ajoelharam em completa adoração ante o espetáculo bizarro que se processava, enquanto vislumbravam o cultista-chefe se aproximando de Conan, tendo a princesa desmaiada ao chão. Todos pareciam atores trágicos, em uma peça ritualizada diante de uma plateia ensandecida, e do grande ser mumificado indiferente sentado no trono.

O cimério encontrava-se com seus sentidos em total sincronia e ele logo percebeu dois movimentos distintos, decidindo a partir de tais informações, as melhores ações a serem tomadas. Em primeiro lugar, ele viu o aproximar lento do cultista-líder em sua direção. Ao mesmo tempo, ele captou o movimento do pequeno homúnculo saindo do crânio rachado do grande ser em descanso, posicionando-se no ombro da imponente criatura.

            Conan, mesmo que de forma inconsciente, ansiou por esse momento quando elaborou seu plano arriscado, pois ele sabia que teria uma única chance de não ser engolido pelos atores do palco que ele mesmo arquitetara. Então, em movimentos rápidos e precisos, o guerreiro cimério fez dois ataques brutais surpreendentes.

Primeiramente, ele correu em direção ao grande ser, dando um salto fantástico e usando o próprio trono de pedra como seu trampolim. Com isso, Conan acertou o homúnculo com a ponta incandescente da tocha, fazendo-o cair do ombro da grande criatura. Enquanto todos vibravam e urravam sem saber o que significava tudo aquilo, o cultista-chefe recuou, percebendo agora, ainda que tarde demais e em completo desespero, que a pequena criatura estava sofrendo, debatendo-se em meio às chamas.

            Em seguida, antes que o cultista-chefe esboçasse qualquer outra reação mais concreta aos eventos caóticos, o bárbaro aproveitou-se de sua força titânica e agilidade felina para avançar em carga na direção de seu antagonista, agora segurando sua espada com suas duas mãos de ferro, após largar a tocha ao chão.

O movimento foi novamente preciso e o sacerdote zamoriano nem sequer teve tempo de levantar sua adaga em forma de lua crescente. Seu torso foi trespassado ao meio pela espada de Conan, quase que se dividindo em dois, como uma espiga de milho ceifada brutalmente.

            Foi somente nesse momento apoteótico da peça teatral na caverna, em que o pequeno homúnculo se debatia nas chamas e do qual o cultista-chefe caía ao chão da caverna, envolto no próprio sangue escarlate, que os demais seguidores perceberam o que se passava ali, saindo de seus respectivos frenesis catatônicos de fanatismo, cantoria e adoração.

Como uma criança tola na flor da idade, um dos cultistas bradou alto. Que todos estavam sob ataque, sendo aquele bárbaro o inimigo a ser abatido. Logo após tais gritos de ordem, os demais cultistas, lacaios e fanáticos entraram em uma nova convulsão de caos e correria, alguns apontando espadas e flechas na direção do cimério. Conan aproveitou-se da confusão geral e correu em direção à princesa, acordando a jovem em meio à loucura que se seguiu.

            A caverna pulsou ainda forte e logo, todos os presentes vislumbraram uma cena ainda mais insólita. O gigante entronado abriu os olhos e levantou de seu trono, lentamente. Sua face pulsava de ódio e de dor, seus olhos brilhavam como nunca. Logo, sua cabeça foi aos poucos se tornando pontiaguda, perdendo o formato usual humanoide, em uma espécie de metamorfose lenta e sobrenatural.

Por fim, o que fora uma cabeça não passava agora de um imenso tentáculo flexível, dobrando-se para todos os lados. A pequena criaturinha, por sua vez, ainda se debatia no fogo e, sem qualquer retidão, o golem de três metros de altura pisou nela, esmagando seu corpo como uma lesma de sangue verde.

Foi então que se processou outra necromancia perversa. O grande ser absorveu a pequena criatura e seu corpo se tornou ainda maior e ao mesmo tempo mais semelhante à forma original da diminuta criatura absorvida. Os cultistas e fanáticos ali reunidos, diante daquela cena tétrica titânica, se ajoelharam em completa veneração e os canibais da caverna, pela primeira vez desde que ali chegaram, ficaram em completo silêncio, prostrando-se como escravos obtusos daquela besta primordial.

Conan não titubeou diante do acontecimento macabro. Ele pegou a princesa no colo, pois a moça ainda estava meio inconsciente, e agiu como um lobo antes de ser percebido por seus temíveis caçadores. Mesmo assim, o cimério acabou parando em frente à própria criatura, visto que ela lhe impedia de sair da caverna, postada de pé à sua frente. O tempo parou, e o grande ser pareceu encarar o cimério com seus olhos bestiais esverdeados, por longos momentos.

O guerreiro ergueu sua espada com uma das mãos, enquanto a outra segurava desajeitadamente Varínia, postando-se como um protetor divino diante da profanação contra uma inocente. Da boca escancarada e rasgada do mostro tentacular, se esboçou algo totalmente inesperado, pois um leve sorriso e depois um esgar convulsivo foi dirigido ao cimério. Como se ambos, besta e homem, fossem dois aliados momentâneos naquele teatro de mortais condenados e de seres ancestrais.

Então, o caos rastejante simplesmente virou as costas para o cimério e no lugar de suas mãos, imensos tentáculos começaram igualmente se projetar, perfurando os corpos dos cultistas, fanáticos e lacaios ali presentes. Todos passaram a correr e a fugir em desespero para todos os lados, e a tentar sobreviver diante do que parecia ser a fúria de um deus insaciável.

Corpos eram sumariamente perfurados por tentáculos gelatinosos, muitos deles destroçados e esmagados diante da fúria daquele ser antigo, agora com cinco metros de altura e em constante crescimento. A caverna pulsava ainda mais alto, caindo rochas por todos os lados e rachando-se o chão em todas as direções possíveis. Interessante que, se alguém parasse por um instante, poderia ouvir levemente até o som de uma flauta onírica, vindo do grande ser tentacular.

            Para piorar ainda mais aquela situação macabra, diversas outras criaturas com mantos de tecidos de carne e músculos apareceram, arqueadas e penduradas nas paredes da caverna magmática, escalando-as como que se fossem aranhas humanoides. Elas não passavam de mimeses do grande deus vingador ali presente, lembrando-se Conan que se tratavam exatamente das estátuas que ele vislumbrara nos corredores por onde perambulou no interior da caverna.

Uma nova leva de humanos, fossem eles cultistas de mantos negros ou apenas fanáticos despidos, era sumariamente dizimada pelo novo perigo que surgia na montanha profana. Os cultistas tentavam, em vão, invocar suas mágicas necromânticas, alguns deles até orando a deuses antigos e tradicionais que tinham abandonado em nome do Caos Rastejante. Algo que não teve qualquer chance de sucesso, claro.

O Entronado era agora o deus vingador que rastejava entre os vivos, e ao mesmo tempo varava corpos com seus tentáculos viscosos longilíneos, enquanto filamentos de raios e relâmpagos saíam de todos os lados e atingiam muitos dos mortais que ainda lutavam por suas vidas perenes.

A ironia do destino fora forjada em sangue e morte. Não se podia querer agradar ou controlar o caos por meio de rituais ordenados contra uma vontade divina, pensou Conan. O cimério tentou de todas as formas não se desesperar diante da cena grotesca de morte e fúria do Demônio da Noite Antiga e de seus asseclas monstruosos.

Ele seguiria com o plano e fazer valer sua promessa a Varínia, levando a princesa a salvo da caverna, em direção à liberdade. Conan pegou um corredor diagonal, que ele sabia ser o caminho para o lado de fora da montanha profana. O cimério traspassou vários cultistas e fanáticos desesperados que se interpunham em seu caminho. Um primeiro, ele cortou a cabeça de forma precisa, enquanto dois outros, ele simplesmente varou o ventre e o peito, respectivamente.

Logo, a princesa foi recobrando seus sentidos, mantendo ainda um tanto de sua confusão e desespero. O cheiro de sangue era insuportável, e aqueles que não caíam trespassados pela espada do cimério ou pelos tentáculos vingadores das criaturas profanas, eram literalmente dizimados por raios e relâmpagos que surgiam de todos os lados, tornando homens apenas cinzas em um piscar de olhos.

Conan sequer teve tempo de pegar na mão da moça para dizer algumas palavras de incentivo, pois ela gritou para o cimério que havia um nobre de seu reino que deveria ser detido imediatamente. Segundo a moça, tratava-se de um homem que estava de posse de uma bolsa perigosa. Uma bolsa a envolver uma espécie de pequena urna contendo um veneno perigoso, igualmente profano. Provavelmente, falou ela ao cimério, o homem estaria agora tentando escapar da montanha, de modo a usar o conteúdo da bolsa, envenenando a todos com sua fumaça diabólica.

            O bárbaro foi novamente mais ágil e rápido do que qualquer mortal naquela caverna. Ele seguiu em frente, como uma pantera esfomeada, literalmente trespassando a todos que se interpusessem em seu caminho, fossem cultistas, fanáticos ou humanos canibais. Mais atrás, tanto ele como Varínia podiam ouvir as criaturas tentaculares trespassando homens sem qualquer piedade, fossem eles adoradores ardorosos do caos rastejante ou apenas tolos desesperados.

O titã de bronze não deixava de imaginar que, talvez, o deus tenha feito tudo aquilo de acordo com algum plano cósmico por ele concebido. Que o deus tinha deixado tudo acontecer exatamente como queria, fortalecendo, aos poucos, sua vontade no interior da caverna, ao mesmo tempo em que brincava com os estúpidos mortais ali reunidos em adoração. Homens tolos que pretendiam controlar sua potente vontade, mas que não passavam de joguetes de um ser mais antigo do que o tempo ou a realidade.

            Não cabia mais devaneios ao cimério. Na saída da caverna, o caos igualmente imperava entre os mortais ali presentes. No acampamento em frente à entrada, homens eram ceifados como moscas, dessa vez por flechas que varavam o céu noturno do inverno gélido das montanhas orientais. Varínia então apontou para o chão, chamando a atenção do cimério.

            - Olhe Conan. O homem de quem te falei! Punjar!

            O nobre estava com os olhos vazios, devidamente morto, com duas flechas no peito. A sacola com o veneno mencionado pela princesa se encontrava em seus braços. O cimério pensou rápido e de forma ágil, sem receios. Ele apontou para a mulher correr em direção ao desfiladeiro localizado à esquerda, constituindo-se na saída daquele terraço diabólico. Depois, Conan correu atrás dela, varando outros dois cultistas que ousaram se interpor em seu caminho. Em seguida, vendo que a princesa seguiu o plano urdido por ele, o cimério jogou o conteúdo da pequena urna com o veneno na direção da entrada da caverna, entre seu arco principal.

            As fechas vinham dos paredões em frente e Conan sabia o estilo dos ataques, entendendo imediatamente de que tipo de arcos elas provinham, pois ele conhecia o modo de luta dos afghulis como nenhum homem ocidental. Logo, o bárbaro seguiu a moça desfiladeiro abaixo, vislumbrando a fumaça avermelhada saindo da pequena ânfora jogada por ele – uma fumaça que não tardou a se espalhar entre os homens ainda vivos ali naquela elevação.

As flechas afghulis continuavam chovendo na noite rubra, todas na direção da entrada da caverna, acertando acólitos, fanáticos e até algumas criaturas tentaculares que apareceram para esmigalhar e perfurar suas presas. Lá dentro, o som de um urro inumano era ouvido junto à melodia da flauta, tornando-se mais tênue e baixo aos poucos, até que se seguiu o som de rochas caindo e batendo umas nas outras, como que em um desabamento impiedoso.

O poder sob a montanha tinha finalmente acordado e ele tinha colocado fim ao próprio culto organizado em seu nome. Parecia, ao bárbaro cimério, uma ironia inexplicável do destino. Podia tratar-se de um jogo de seres ancestrais ou, quem sabe, a manifestação do caos em uma de suas variantes, mas um fato se sobressaía. Que Conan tinha, não apenas libertado uma princesa de seu cativeiro, mas igualmente um deus ancestral ou Demônio da Noite Antiga.

 

 

VIII

 

 

VARÍNIA E CONAN

 

 

            - Parece que você finalmente se convenceu a me auxiliar, Agmar – sinalizou Conan, sorrindo frente ao agora novo líder dos afghulis.

            - Ah, não meu amigo. Muito lhe devo, e por esse motivo, até enviei um mensageiro até a corte de Ayodhya, mas não decidi vir até aqui em seu auxílio, muito menos por qualquer sentimento de consideração. Na verdade, aquele homem ali me convenceu, bem como a todos os guerreiros que aqui estão.

            Agmar apontou para um senhor de idade, um sábio de barba branca, vestindo uma túnica tipicamente vendhyana e mais um arnês na cabeça, levemente caído sobre o lado da fronte. Montado em um pequeno cavalo pintado, o velho sorriu honestamente em direção ao cimério e fez uma reverência saudosa, ainda que leve. Tratava-se de Jharin, o mais eminente sábio do Conselho dos Anciões de Khymsha, um homem deveras respeitado naquelas bandas e que Conan já ouvira falar pela boca pequena das mulheres montanhesas.

            - Um homem sábio sempre tem bons argumentos, presumo – falou Conan a Jharin, com um olhar levemente zombeteiro na face.

            - Na verdade... Eu apontei nada mais do que certos fatos, meu caro bárbaro do ocidente – respondeu Jharin. – Me dirigi até Ghor, logo depois da saída da comitiva da princesa... Vamos dizer que... Bem, que arquitetei um plano secundário de pedido de auxílio. Afinal, se tudo desse errado com o plano real, alguém precisava tomar as rédeas da situação... Pode-se dizer que levei mais ouro a Ghor, e simplesmente falei o que todos ali deveriam ouvir.

“Que os fanáticos, os canibais e os cultistas de qualquer montanha profana... Eles não passam de adoradores de demônios antigos, e eles não costumam se preocupar com a extração de metais em minas de ouro ou prata... Muito menos com a fabricação de riquezas... Falei a todos, de forma, vamos dizer, direta... Que o solo de governos teocráticos de demônios antigos é comumente estéril, e a fome toma conta das vilas e cidades próximas... Falei que não existem boas pilhagens em reinos assim e que tudo que sobra é sangue, sacrifícios, carniças e urubus a rondar os céus escarlates... Pois sim, terminei afirmando que o modo de ser afghuli não ganharia em nada com tais governantes.

            - Palavras sábias, sem dúvida – respondeu Conan, olhando nos olhos do experiente ancião, em total concordância. – Usar um argumento pragmático para convencer os afghulis a ajudarem uma causa de terceiros não é para muitos.

            - Diferente de você, meu caro, que estava numa causa do salvamento de uma donzela em perigo, nós pensamos sempre na nossa própria causa, segundo a tradição montanhesa – sorriu Agmar, como que entrando na pilhéria do argumento contra o cimério.

            - Bem, eu tinha minha palavra a cumprir. Além do mais – retorquiu Conan –, estava querendo mudar de ares. Não acho má ideia me tornar general de Khymsha e ajudar sua soberana a proteger suas riquezas contra montanheses perigosos, caso eles venham a atacar suas vilas e cidades.

            - Pois vai ser assim? Depois de nos deixar, irás te voltar contra nós? – perguntou Agmar, sem deixar de esboçar um tom irônico, mas sabendo que Conan faria exatamente aquilo que dizia.

            - Ora, eu sou um bárbaro errante e um mercenário acima de tudo. Essa é a conduta dos Companheiros Livres, pelo que bem sabes. Minha espada vai para o lado que me concede maiores benefícios. Mas não acho que trocarei espadas com sua tulwar ou cimitarra, meu amigo. Agora você e seus afghulis têm um bom estoque de ouro para se voltarem a outras paragens que não o reino médio-oriental de Khymsha. Acho que seus liderados vão gostar de atacar caravanas turanianas, após terem adquirido uma boa quantia de metal precioso de Varínia e Jharin – respondeu Conan, dirigindo-se também ao velho, que concordou com seus bons argumentos.

Sem dúvida que o cimério ganhou a simpatia do ancião ali presente, mudando de imediato sua opinião destituída de critérios no que tange ao ocidental. Ele estava longe de ser o homem bruto que tinha vindo à mente de Jharin, quando ouvira falar de sua pessoa. O eminente conselheiro de Varínia percebeu em Conan um guerreiro deveras astuto e ágil em pensamento. Isso se tornou um novo ensinamento para o sábio. Não se devia prejulgar ninguém, muito menos os integrantes da raça ciméria.

            - Bem. Que seja, meu amigo. Espadas sempre podem ser cruzadas e também ainda podemos beber de um bom caneco de vinho em alguma taverna distante, ou quem sabe nos encontrarmos pelos ermos orientais. Nada disso nos impediria de seguir rumos diferentes, claro, de acordo com as mais diferentes situações – respondeu Agmar.

– Espero apenas que você possa ajudar a jovem governante de Khymsha, pois ela não me parece nada bem – terminou Agmar apontando para Varínia, localizada mais distante de todos. A jovem se encontrava sozinha, ajoelhada na beira do precipício do desfiladeiro, com um olhar vago para o vazio em frente.

            Conan dirigiu o olhar com seriedade para os dois homens reunidos, e logo se virou de imediato. Ele caminhou devagar até a princesa, e percebeu que ela soluçava e parecia encolhida de frio e medo, como se destituída de razão e sanidade. O titã de bronze sabia que a jovem tinha vislumbrado uma série de perfídias e violências na caverna profana durante três dias e noites. Sem falar na presença do gólem de carne tentacular, algo completamente fora do normal e do natural.

Sem dúvida que manter a mente intacta, frente a todos esses fatos, seria impossível para a maioria dos mortais na mesma situação de Varínia. Antes que Conan dissesse qualquer coisa, a princesa falou a ele, sem sequer se virar para o cimério.

            - Como você consegue, Conan? Como podes seguir em frente, mantendo sua perspectiva da mesma forma que antes? Como passas por tudo que passamos ali na caverna sem sequer se desesperar?

            - Ora, garota. Eu simplesmente decido que seguirei adiante, vivendo o instante de minha existência sem me importar com questões que vão muito além de minhas capacidades – respondeu o cimério, abraçando a princesa e encostando o rosto no dela. Varínia aceitou de bom grado o afago do bárbaro e se viu envolvida pelos braços titânicos de Conan, como dois carvalhos imponentes a envolver seu corpo frágil.

            - Sem perder a razão, ou sem te preocupar com o fato de que não somos nada diante de seres sobrenaturais como aquele? – perguntou a moça, deveras chorosa e trêmula.

            - Certamente. Pois o mundo e a realidade são mais antigos do que nós, meros mortais. Não há porque me preocupar em controlar uma realidade infinita ou me desesperar com questões metafísicas complexas do mundo, dos deuses e dos seres ancestrais. Já vi demônios e raças antigas, animais titânicos e criaturas simiescas aladas, já lutei contra muitos deles até. Matei alguns, e perdi aqueles à minha volta frente a tais seres perigosos. Mas sempre continuei em frente, garota, com perdas ou não.

“Sendo o ser ali um deus ou apenas uma besta-fera, não cabe a mim me preocupar com ela”, continuou o cimério, “seu poder é maior do que o nosso e, se minha espada consegue cortar sua carne para me defender, tanto melhor para mim. Caso eu não possa mais caminhar com minhas próprias pernas no enfrentamento e tais criaturas, bem, que eu consiga então apenas viver até meu ocaso final.

“Sou um bárbaro, eu vivo meus instantes plenamente, da mesma forma que faziam meus ancestrais. E, se tem uma coisa que aprendi com eles, com todos os bárbaros que vieram antes de mim, é que viver o instante é a única forma de não perdermos a razão diante do caos a nossa volta.

“Deixo que os cães civilizados percam a sanidade ao tentarem entender tudo que existe. Deixo que eles se desesperem em sua ânsia infantil de controlar todas as coisas, com sua petulância e falsa ilusão de ordem ou organização social. No final, se o caos decide agir e matar seus próprios seguidores, bem, princesa, só cabe a nós não estarmos entre as pilhas de corpos que ele deixa para trás ao passar com seus tentáculos viscosos”.

            - Tão simples assim? – perguntou a jovem novamente, ainda incrédula, mas mais segura do que outrora.

            - Sim, da forma como as coisas são no mundo e não como deveriam ser segundo certos sábios enganadores, ou mesmo adoradores malditos de demônios – respondeu o cimério.

            Conan a virou para si e, antes mesmo que ela pudesse se afastar ou até continuar a argumentar, ele a beijou de forma firme, envolvendo-a com seus braços musculosos e apertando-a junto de seu corpo rígido. Varínia se sentiu consolada, e até plena, naquele breve instante ali, à beira do precipício. Parte de suas dúvidas se dissiparam e ela aceitou finalmente os dizeres melancólicos, porém sábios, do cimério.

A princesa sabia que Conan seguiria com ela até Khymsha e que ele ficaria um bom tempo vivendo no pequeno reino ao lado dela, aproveitando os sabores da liderança de suas tropas, organizando as defesas da capital após a morte de seu imponente general.

O bárbaro sorvia tudo o que a vida lhe reservava e ele jamais mudava seu jeito de ser, apenas passando um verniz de civilização em seu comportamento cotidiano diante dos demais homens civilizados. Conan era como o carvalho frente ao tempo, do mesmo jeito de ser que tal árvore, intocada ante as mudanças ocorridas, mantendo-se mais resistente com as eras e ainda mais sábio e temerário.

Ao final de um ciclo de seis meses ininterruptos, o cimério partiu para o ocidente distante, de volta à sua terra natal, deixando sua enamorada, a princesa Varínia, sozinha com seus temores profanos, terrores crescentes em sua psique. Ela seria assolada por eles durante toda sua breve vida. Tocada no inconsciente pela visão assustadora daquele grande ser tentacular, além das lembranças dos sacrificados na montanha profana.

Uma antiga canção hirkaniana relataria, em um futuro distante, sobre o trágico destino da princesa de Khymsha, quando ela completou metade de sua vida após uma longa solidão no Palácio de Jade. Dizia a letra, que a soberana do pequeno reino teria vagado sozinha de volta à montanha profana de Zanzimar e que, de boa vontade, teria se prostrado diante do trono do ser colossal ali presente. Varínia tinha se tornado o ansiado sacrifício que o deus desejara presenciar em sua existência mundana.

Pois o “Poder Oculto sob a Montanha” nunca cessou suas atividades. Como bem falou Conan para a princesa nos momentos em que viveram juntos no reino: não caberia aos mortais tentar ordenar o caos. Pois ele sempre se voltaria contra os tolos que tentavam impedir sua livre manifestação desenfreada.

 

 

 

FIM

 

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1 Comentários

  1. NiarlaHotep triturando as mentes sofisticadas. As mentes que imaginam futuros possiveis e as mais suicidas, aquelas que acham pode controla-los. Ass: Klaus do Iate.

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