<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016</id><updated>2012-02-16T18:49:03.091-02:00</updated><title type='text'>Crônicas da Ciméria · Conan</title><subtitle type='html'>O portal brasileiro da Era Hiboriana de Conan, o bárbaro</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Alessandro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14430585262929703127</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_jqiGnxAFb70/TOv0vZENIpI/AAAAAAAAYZk/ihWfAjKTB6s/S220/orkut_2007.2.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>494</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016.post-8045694401420161911</id><published>2011-11-07T21:07:00.007-02:00</published><updated>2011-11-07T21:28:11.756-02:00</updated><title type='text'>A Voz de El-Lil</title><content type='html'>(por Robert E. Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Originalmente publicado em &lt;em&gt;Oriental Stories&lt;/em&gt;, outubro e novembro de 1930.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mascate, como muitos outros portos, é um abrigo para andarilhos de muitas nações, os quais trazem consigo seus costumes tribais e peculiaridades. Turcos se misturam com gregos, e árabes discutem com hindus. As línguas de metade do Oriente ressoam no bazar ruidoso e fedorento. Por isso, não pareceu particularmente incongruente ouvir, ao me inclinar sobre um balcão atendido por um eurasiático de sorriso afetado, as notas musicais de um gongo chinês, soando claramente através do zumbido indolente do tráfego nativo. Certamente, não havia nada de tão assustador naqueles tons suaves, para que o enorme inglês ao meu lado se sobressaltasse, praguejasse e derramasse seu uísque com soda na manga de minha camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se desculpou e censurou sua falta de jeito com imprecações francas, mas vi que ele estava abalado. Ele me interessava, como seu tipo sempre faz: com bem mais de 1m80 de altura, ombros largos, quadris estreitos e membros pesados – o lutador perfeito, de rosto moreno, olhos azuis e cabelos claros. Sua raça é antiga na Europa, e o próprio homem me trazia à mente vagas figuras lendárias – Hengist, Hereward, Cerdic –, viajantes e lutadores natos do molde anglo-saxônico original.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi, além disso, que ele estava com humor para conversar. Eu me apresentei, pedi bebidas e esperei. Meu espécime me agradeceu, murmurou para si mesmo, bebeu seu licor apressadamente e falou de forma abrupta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está se perguntando por que um homem adulto ficaria tão subitamente perturbado por uma coisa tão pequena... Bem, eu admito que esse maldito gongo me deu um susto. É esse idiota do Yotai Lao, trazendo seus repugnantes pagodes orientais e budas a uma cidade decente... por meio peni, eu subornaria algum muçulmano fanático para cortar aquela garganta amarela e afundaria seu amaldiçoado gongo no golfo. E lhe contarei por que odeio aquela coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu nome”, disse meu saxão, “é Bill Kirby. Foi no Djibuti, no Golfo de Adem, que conheci John Conrad. Era um jovem magro e de olhos agudos, procedente de Nova Inglaterra – era professor, também, apesar de jovem. Era vítima de uma obsessão, também, como a maioria dos da sua espécie. Era um estudante de insetos, e era um inseto em particular que o havia trazido para a Costa Leste; ou melhor, a esperança de encontrar o bicho, pois ele nunca o havia encontrado. Era quase sobrenatural ver o rapaz trabalhar num ardente entusiasmo, quando falava de seu assunto favorito. Sem dúvida, ele poderia ter me ensinado muitas coisas que eu deveria saber, mas insetos não estão entre meus interesses; e ele falava, sonhava e pensava em poucas coisas mais...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, saímos juntos desde o início. Ele tinha dinheiro e ambições, eu tinha um pouco de experiência e um pé andarilho. Conseguimos juntos um safári pequeno e modesto, porém eficiente, e nos aventuramos juntos para dentro do país negro da Somália. Hoje você ouve falar que aquela região havia sido explorada exaustivamente, e posso provar que aquela afirmação é uma mentira. Encontramos coisas com as quais nenhum homem branco havia sonhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos viajado por quase um mês, e adentramos uma parte do país, a qual eu sabia ser desconhecida por um explorador comum. As savanas e florestas de espinhos deram lugar ao que se aproximava de verdadeira selva, e os nativos que víamos eram de uma raça de lábios grossos, testa baixa e dentes de cães – nada parecidos com os somalis. Mas continuamos perambulando, e nossos bagageiros e soldados começaram a murmurar entre si. Alguns dos acompanhantes negros tinham intimidade com eles, e lhes contaram histórias que lhes davam medo de seguirem adiante. Nossos homens não queriam falar disso comigo ou com Conrad, mas tínhamos um criado no acampamento – um mestiço chamado Selim – e eu disse a ele para ver o que pudesse averiguar. Naquela noite, ele veio à minha tenda. Havíamos montado acampamento numa espécie de grande clareira e construído uma cerca de espinhos, pois os leões estavam fazendo uma boa algazarra nos arbustos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amo – ele disse, no inglês hibrido, do qual tanto se orgulhava –; os negros está assustando os bagageiros e soldados com conversa de má ju-ju. Eles falar de uma poderosa maldição ju-ju na região para onde vamos, e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parou bruscamente, ficou pálido e minha cabeça se sacudiu. Dos labirintos escuros de selva do sul, saiu sussurrando uma voz assombrosa. Era como o eco de um eco, mas estranhamente distinta, profunda, vibrante e melodiosa. Saí de minha tenda e vi Conrad de pé, diante de uma fogueira, tenso como um cão de caça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ouviu isso? – ele perguntou – O que teria sido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um tambor nativo. – respondi; mas sabíamos que não era verdade. O ruído e tagarelar de nossos nativos, ao redor de suas fogueiras de cozinhar, havia parado como se todos tivessem morrido de repente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ouvimos mais nada naquela noite, mas, na manhã seguinte, havíamos sido abandonados. Os jovens negros haviam levantado acampamento com toda a bagagem que puderam levar. Conrad, Selim e eu celebramos um conselho de guerra. O mestiço estava morto de medo, mas o orgulho de seu sangue branco fez com que seguisse adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E agora? – perguntei a Conrad – Temos nossas armas, e comida suficiente para nos dar uma chance digna de alcançar a costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouça! – ele ergueu a mão. Do outro lado da região das moitas, palpitou novamente aquele sussurro apavorante – Vamos prosseguir. Não descansarei até saber o que produz aquele som. Nunca antes ouvi nada parecido no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A selva recolherá nossos ossos. – eu disse. Ele sacudiu a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escute! – ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era como um chamado. Entrava em seu sangue. Arrastava-lhe como a música de um faquir atrai uma naja. Eu sabia que era loucura. Mas não discuti. Escondemos quase toda a bagagem e começamos a seguir. A cada noite, construíamos uma cerca de espinhos e nos sentávamos dentro dela, enquanto os grandes felinos uivavam e grunhiam do lado de fora. E, à medida que adentrávamos cada vez mais profundamente os labirintos da selva, ouvíamos mais claramente aquela voz. Era profunda, suave e musical. Ela lhe fazia sonhar com coisas estranhas; estava carregada por uma idade vasta. As glórias perdidas da antiguidade sussurravam em seu ribombar. Em sua ressonância, ela reunia todo o anseio e mistério da vida; toda a alma mágica do Leste. Acordei no meio da noite para escutar seus ecos sussurrantes, e dormi para sonhar com minaretes que se erguiam até o céu; com longas fileiras de adoradores de pele morena, se curvando; com tronos de pavão com dosséis púrpuras, e trovejantes carruagens douradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conrad havia finalmente achado algo que rivalizava com seus insetos infernais, em seu interesse. Ele não falava muito; caçava insetos de forma alheia a tudo. O dia inteiro, ele parecia estar em atitude de escuta e, quando as profundas notas douradas rolavam pela selva, ele ficava tenso como um cão de caça que farejava, enquanto em seus olhos se movia furtivamente um olhar estranho para um professor civilizado. Por Júpiter, é curioso ver uma influência antiga e primordial deslizar pelo verniz da alma de um cientista de sangue frio, e tocar o fluxo vermelho da vida sob ele! Era algo novo e estranho para Conrad; aqui havia algo que ele não conseguia explicar com sua psicologia moderna e fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, nós vagamos naquela busca louca – pois a maldição do homem branco é a de ir até o Inferno para satisfazer sua curiosidade. Então, na luz cinza do início de um amanhecer, o acampamento foi atacado. Não houve luta. Fomos simplesmente inundados e submergidos pelos números. Eles devem ter se esgueirado e nos cercado por todos os lados; pois, quando me dei conta, o acampamento estava cheio de figuras fantásticas e havia meia-dúzia de lanças apontadas no meu pescoço. Irritava-me terrivelmente me render sem dar um só tiro, mas não havia nada a ser feito e eu me amaldiçoei por não ter mantido uma vigilância melhor. Deveríamos ter esperado algo do tipo, com aquele repicar diabólico do sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia pelo menos 100 deles, e tive um calafrio quando os olhei de perto. Não eram jovens negros e não eram árabes. Eram homens magros, de estatura mediana, pele marrom levemente amarelada, com olhos escuros e narizes grandes. Não usavam barba e suas cabeças eram totalmente raspadas. Vestiam uma espécie de túnica, amarrada à cintura por um largo cinto de couro, e sandálias. Também usavam um tipo estranho de elmo de ferro, com ponta no alto, aberto na frente e que lhes caía quase até os ombros, atrás e pelos lados. Traziam grandes escudos reforçados com metal, quase quadrados, e estavam armados com lanças de lâmina estreita, arcos e flechas de estranho feitio e curtas espadas retas, como eu nunca tinha visto antes – ou depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amarraram a mim e a Conrad – pés e mãos –, e mataram Selim ali mesmo: cortaram sua garganta, como se fosse um porco, enquanto ele chutava e uivava. Uma visão de dar náuseas; Conrad quase desmaiou, e ouso dizer que empalideci um pouco. Então, partiram na direção que seguíamos, fazendo-nos andar entre eles, com nossas mãos amarradas às costas e suas lanças nos ameaçando. Carregavam nosso escasso equipamento, mas, pela forma como carregavam as armas, não creio que soubessem para que serviam. Mal trocavam palavras entre si e, quando ensaiei vários dialetos, só tive como resposta a espetada da ponta de uma lança. O silêncio deles era um pouco fantasmagórico e totalmente horrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sabia o que pensar deles. Tinham aparência oriental, mas não do Oriente com o qual eu estava familiarizado, se é que você me entende. A África é do Leste, mas não é o mesmo. Eles não se pareciam mais africanos do que um chinês. É difícil de explicar. Mas direi isto: Tóquio é oriental e Benares também, mas Benares simboliza uma fase diferente e mais antiga do Oriente, enquanto Pequim representa ainda outra, e mais antiga. Estes homens eram de um Oriente que eu nunca conhecera; faziam parte de um Leste mais antigo que a Pérsia, mais antigo que a Assíria; mais antigo que a Babilônia! Senti algo como uma aura ao redor deles, e estremeci ao pensar nos abismos de Tempo que simbolizavam. Mas aquilo também me fascinava. Sob as arcadas góticas de uma selva antiqüíssima, atravessada por silenciosos orientais de uma espécie esquecida por Deus sabe quantos eons, um homem pode ter pensamentos fantásticos. Eu quase me perguntava se aqueles indivíduos eram reais, ou somente os fantasmas de guerreiros mortos há quatro mil anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As árvores começaram a ficar esparsas, e o chão se inclinou para o alto. Finalmente chegamos a uma espécie de penhasco e vimos uma imagem que nos fez ofegar. Olhávamos para um grande vale, totalmente cercado por rochedos altos e íngremes, através dos quais vários riachos haviam aberto estreitos desfiladeiros para alimentar um lago de bom tamanho no centro do vale. No centro daquele lago havia uma ilha e, naquela ilha, um templo; e, do outro lado do lago, uma cidade! E não era nenhuma aldeia nativa de barro e bambu. Parecia ser feita de pedra, de cor marrom-amarelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade era murada e consistia em casas quadradas e de teto plano, algumas aparentemente com três ou quatro pavimentos. Todas as margens do lago tinham plantações, e os campos eram verdes e florescentes, alimentados por regos artificiais. Eles tinham um sistema de irrigação que me impressionou. Mas a coisa mais impressionante era o templo da ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ofeguei, fiquei boquiaberto e pisquei os olhos. Era a Torre de Babel tornada realidade! Não tão alta nem grande quanto eu a imaginara, mas com uns dez andares de altura, sombria e imensa como nas gravuras, e com a mesma impressão intangível de maldade pairando sobre ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, enquanto estávamos lá, daquela imensa pilha de alvenaria saiu flutuando, através do lago, aquele profundo ribombar ressonante – agora próximo e claro – e os próprios penhascos pareciam tremer com as vibrações daquele ar carregado de música. Olhei de relance para Conrad; ele parecia totalmente perdido. Ele pertencia àquela classe de cientistas que têm o universo classificado e arquivado, e tudo em seu local apropriado. Por Júpiter! Eles ficam mais estarrecidos quando se defrontam com o paradoxal-inexplicável-que-não-deveria-existir, do que homens comuns como você e eu, que não têm muitas idéias pré-concebidas das coisas em geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os soldados nos fizeram descer numa escadaria talhada na rocha sólida dos penhascos, e atravessamos campos irrigados, onde homens de cabeça raspada e mulheres de olhos escuros interrompiam suas tarefas para nos olhar com curiosidade. Levaram-nos a um grande portão, reforçado com ferro, onde um pequeno destacamento de soldados, equipados como nossos captores, lhes pediu a senha; e, após breve conversa, fomos escoltados para dentro da cidade. Parecia muito com qualquer outra cidade oriental – homens, mulheres e crianças indo e vindo, discutindo, comprando e vendendo. Mas, no geral, ela tinha aquele mesmo efeito de isolamento, de vasta antiguidade. Eu não conseguia classificar a arquitetura mais do que podia entender o idioma. A única coisa na qual eu conseguia pensar, ao encarar aquelas construções atarracadas e quadradas, era nas cabanas que certos povos mestiços de classe baixa ainda constroem no vale do Eufrates, na Mesopotâmia. Aquelas cabanas deviam ser uma evolução degradada da arquitetura naquela estranha cidade africana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossos captores nos levaram diretamente à maior construção da cidade e, enquanto avançávamos ao longo das ruas, descobrimos que as casas e paredes não eram de pedra, mas de uma espécie de ladrilho. Fomos levados para um salão de imensas colunas, diante do qual se estendiam filas de soldados silenciosos, e para diante de um estrado sobre largos degraus. Havia guerreiros armados, atrás e de cada lado do trono; um escriba em pé ao lado deste, jovens vestidas com plumas de avestruz se reclinando nos largos degraus e, sobre o trono, se sentava um demônio de olhos sombrios, o qual era o único homem daquela cidade fantástica a usar cabelos longos. Tinha barba negra, usava uma espécie de coroa e tinha o rosto mais altivo e cruel que eu já vira num homem. Um sheik árabe ou um xá turco era um cordeiro ao lado dele. Ele me lembrava algumas concepções artísticas de Belzhazzar ou dos faraós: um rei que era mais que um rei ante seus próprios olhos e os de seu povo; um rei que era ao mesmo tempo rei, sumo-sacerdote e deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa escolta prontamente se prostrou diante dele, batendo suas cabeças na esteira, até ele dirigir uma palavra lânguida ao escriba, e esta pessoa fazer sinal para que eles se erguessem. Eles se levantaram, e o líder começou a fazer um grande discurso sem nexo para o rei, enquanto o escriba escrevia feito um louco numa tabuleta de barro, e Conrad e eu permanecíamos de pé como um par de jovens burros, nos perguntando o que significava aquilo tudo. Então, ouvi uma palavra repetida continuamente e, a cada vez que ele a repetia, apontava para nós. A palavra soava como “acadiano”, e subitamente meu cérebro deu voltas com as possibilidades que indicava. Não podia ser – e, no entanto, tinha que ser!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem querer interromper a conversa e talvez perder minha maldita cabeça, eu nada disse e, finalmente, o rei gesticulou e falou, os soldados se curvaram novamente para ele e, nos agarrando, afastaram-nos rudemente, aos empurrões, da presença real, em direção a um corredor com colunas, através de um enorme salão e para dentro de uma pequena cela, onde nos enfiaram e trancaram a porta. Ali só havia um banco pesado e uma janela, fortemente gradeada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Céus, Bill – exclamou Conrad –; quem imaginaria algo igual a isto? É como um pesadelo... ou um conto das &lt;em&gt;Mil e Uma Noites&lt;/em&gt;! Onde estamos? Quem é esta gente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não vai acreditar em mim – eu disse –, mas... já leu sobre o antigo império da Suméria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sem dúvida; ele floresceu na Mesopotâmia, há uns quatro mil anos. Mas o que... por Júpiter! – ele exclamou, me encarando com os olhos arregalados ao entender a relação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixo à sua imaginação o que os descendentes de um reino da Ásia Menor possam estar fazendo no Leste da África – eu disse, procurando às cegas meu cachimbo –; mas tem que ser... os sumérios construíam suas cidades com tijolos secos ao sol. Vi homens fazendo tijolos e amontoando-os para secarem ao longo da beira do lago. O barro é extraordinariamente igual àquele que você encontra no vale do Tigre e Eufrates. Provavelmente, foi por isso que essa gente se estabeleceu aqui. Os sumérios escreviam em tabuletas de barro, riscando a superfície com uma ponta afiada, exatamente como aquele homem fazia na sala do trono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E veja suas armas, roupas e fisionomias. Já vi a arte deles entalhada em pedra e cerâmica, e me perguntava se aqueles narizes grandes eram parte de seus rostos ou capacetes. E veja o templo no lago! Uma pequena réplica do templo erguido ao deus El-Lil, em Nippur, o qual provavelmente originou o mito da Torre de Babel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o que arrebata é o fato deles terem se referido a nós como acadianos. O império deles foi conquistado e subjugado por Sargão de Acad em 2750 a.C. Se eles forem descendentes de um grupo que fugiu de seu conquistador, é natural que, enclausurados nestas terras interiores e separados do resto do mundo, eles chamem todos os forasteiros de acadianos, assim como nações orientais isoladas chamam todos os europeus de francos, em memória aos guerreiros de Martel, que os expulsaram em Tours”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que acha que não foram descobertos até agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom, se algum homem branco esteve aqui antes, eles tiveram o cuidado de não o deixarem sair para contar a história. Duvido que eles se aventurem para muito longe; provavelmente, pensam que o mundo exterior está infestado de acadianos sanguinários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, a porta de nossa cela se abriu para deixar entrar uma jovem esguia, vestida apenas com uma cinta de seda e placas douradas nos seios. Ela nos trouxe comida e vinho, e notei o quão longamente ela olhava para Conrad. E, para nossa surpresa, ela falhou conosco em claro Somali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde estamos? – perguntei a ela – O que eles farão conosco? Quem é você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou Naluna, a dançarina de El-Lil. – ela respondeu... e parecia ágil como uma pantera – Lamento vê-los neste lugar; nenhum acadiano sai vivo daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que gente amigável. – grunhi, embora estivesse feliz de encontrar alguém com quem pudesse falar e entender – E qual o nome desta cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui é Eridu. – ela disse – Nossos ancestrais vieram para cá há muitas eras, desde a antiga Suméria, muitas luas a Leste. Eles foram expulsos por um grande rei cruel: Sargão, dos acadianos... um povo do deserto. Mas nossos ancestrais não queriam ser escravos, como seus parentes, de modo que fugiram, milhares deles, num grande grupo, e atravessaram muitas regiões estranhas e selvagens antes de chegarem a esta terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além daquilo, o conhecimento dela era muito vago e misturado com mitos e lendas improváveis. Conrad e eu discutimos isso depois, nos questionando se os antigos sumérios desceram a costa ocidental da Arábia e cruzaram o Mar Vermelho, mais ou menos onde hoje fica Moca, ou se passaram pelo Canal de Suez e vieram pelo lado da África. Estou inclinado a esta última opinião. Provavelmente, os egípcios os encontraram quando vinham da Ásia Menor e os perseguiram até o sul. Conrad achou que eles poderiam ter feito a maior parte da viagem pela água, porque, como ele disse, o Golfo Pérsico chegava a quase 50 km a mais de distância do que hoje, e a Antiga Eridu era uma cidade com porto marítimo. Mas, naquele exato momento, outra coisa me veio à mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde aprendeu a falar Somali? – perguntei a Naluna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando eu era pequena – ela respondeu –, me aventurei para fora do vale e selva adentro, onde um bando de incursores negros me capturou. Eles me venderam a uma tribo que vivia próxima à costa, e passei minha infância com eles. Mas, quando fiquei moça, eu me lembrei de Eridu, e um dia roubei um camelo e cavalguei por muitas léguas de savana e selva, e assim retornei à minha cidade natal. Em toda Eridu, só eu sei falar uma língua que não seja minha, exceto pelos escravos negros... e eles não falam nada, pois cortamos suas línguas ao capturá-los. O povo de Eridu não se aventura além das selvas, e não trafica com os povos negros, que às vezes nos atacam, exceto para capturar alguns escravos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei a ela por que mataram o criado de nosso acampamento, e ela disse que era proibido negros e brancos se casarem em Eridu, e ao filho de tal união não era permitido viver. Eles não gostaram da cor do coitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naluna poderia nos contar um pouco da história da cidade, desde sua fundação, à parte dos eventos que haviam acontecido em sua própria memória – os quais tinham a ver, principalmente, com ataques esporádicos de alguma tribo canibal que vivia nas selvas ao sul; intrigas triviais da corte e do templo, coisas diferentes e semelhantes. O alcance da vida de uma mulher no Leste é muito parecido, seja no palácio de Akbar, Ciro ou Assurbanipal. Mas descobri que o nome do governante era Sostoras, e que ele era tanto sumo-sacerdote quanto rei – exatamente como foram os governantes da antiga Suméria, há quatro mil anos. El-Lil era seu deus, o qual morava no templo do lago; e o profundo ribombar que havíamos escutado era, segundo Naluna, a voz do deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela finalmente se ergueu para partir, lançando um olhar ansioso para Conrad, o qual estava sentado como um homem em transe – pelo menos uma vez, seus malditos insetos foram tirados de seu pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem – eu disse –, o que acha disso, meu bom jovem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É incrível. – ele disse, sacudindo a cabeça – É absurdo... uma tribo inteligente vivendo aqui durante quatro mil anos, sem avançar mais que seus ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você foi picado pelo inseto do progresso. – eu disse cinicamente a ele, enchendo meu cachimbo com fumo – Você está pensando no crescimento rápido de seu próprio país. Não consegue generalizar sobre um oriental de um ponto de vista ocidental. O que me diz do famoso longo sono da China? Quanto a esses homens, você esquece que eles não são uma tribo, mas os remanescentes de uma civilização que durou mais tempo que qualquer uma posterior. Alcançaram o pico de seu progresso há milhares de anos. Sem nenhum intercâmbio com o mundo exterior, e sem sangue novo para suscitá-los, esta gente está lentamente afundando. Aposto que sua cultura e arte são bem inferiores às de seus ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, por que não caíram no barbarismo completo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez tenham, para todos os propósitos práticos. – respondi, começando a tragar meu velho cachimbo – Eles não me dão a impressão de serem os descendentes apropriados de uma civilização antiga e honrosa. Mas lembre-se que eles cresceram lentamente, e seu retrocesso tem que ser igualmente lento. A cultura suméria era extraordinariamente viril. Sua influência é sentida na Ásia Menor até hoje. Os sumérios já tinham sua civilização quando nossos ancestrais primitivos lutavam com ursos das cavernas e tigres dentes-de-sabre, por assim dizer. Pelo menos, os arianos não haviam atravessado os primeiros fatos importantes na estrada do progresso, quaisquer que fossem seus vizinhos animais. A antiga Eridu já era um porto marítimo importante em 6500 a.C. De então até 2750 a.C., é bastante tempo para qualquer império. Qual outro império durou tanto quanto o sumério? A dinastia acadiana, estabelecida por Sargão, durou 200 anos, antes de ser derrotada por outro povo semita: os babilônios, que tomaram sua cultura emprestada, exatamente como mais tarde os romanos roubaram a sua da grega; a dinastia kassita dos elamitas suplantou os babilônios originais, e logo vieram os assírios e caldeus; bom, você conhece a rápida sucessão de dinastias na Ásia Menor, um povo semita derrotando outro, até os verdadeiros conquistadores avultarem do horizonte leste: os medos arianos, ou persas, que estavam destinados a durar um pouco mais que suas vítimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Compare cada reino fugaz com o longo reinado fantástico dos antigos sumérios pré-semíticos! Nós achamos que a Era Minóica de Creta foi há muito tempo, mas o império sumério de Erech já estava começando a decair diante do poder ascendente da Nippur suméria, antes que os ancestrais dos cretenses tivessem emergido da Era Neolítica. Os sumérios tinham algo que sucessivos hamitas, semitas e arianos não possuíam. Eram estáveis. Cresceram lentamente e, se fossem deixados sós, teriam decaído tão lentamente quanto estes homens o estão. Ainda assim, notei que esses sujeitos fizeram um progresso – percebeu as armas deles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A Antiga Suméria estava na Idade do Bronze. Os assírios foram os primeiros a usarem ferro para algo diferente de ornamentos. Mas estes rapazes aprenderam a trabalhar o ferro – provavelmente por uma questão de necessidade. Não há cobre por aqui, mas está cheio de minério de ferro, ouso dizer”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas o mistério da Suméria continua. – Conrad interrompeu – Quem são eles? De onde vieram? Algumas autoridades sustentam que eram de origem dravidiana, parentes dos bascos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso não me pega, rapaz. – eu disse – Mesmo aceitando uma possível mistura de sangue ariano ou turaniano nos descendentes dravidianos, posso ver, num piscar de olhos, que esta gente não é da mesma raça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas sua linguagem... – Conrad começou a argumentar, o que é uma boa forma de passar o tempo, enquanto está esperando ser colocado na panela, mas não serve para muita coisa, exceto reforçar suas próprias idéias originais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naluna veio novamente, por volta do pôr-do-sol, com comida, e desta vez se sentou ao lado de Conrad e o observou comer. Vendo-a sentada assim, com os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos, devorando-o com os grandes olhos brilhantes, eu disse ao professor em Inglês, para que ela não entendesse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A garota está apaixonada por você; jogue com ela. Ela é nossa única chance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele corou como uma colegial:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho uma noiva nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dane-se sua noiva. – eu disse – É ela quem irá conservar nossas cabeças idiotas sobre nossos malditos ombros? Eu lhe digo que esta garota está louca por você. Pergunte a ela o que farão conosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele o fez, e Naluna disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seus destinos estão no colo de El-Lil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E no cérebro de Sostoras. – murmurei – Naluna, o que aconteceu com as pistolas que eles tomaram de nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela respondeu que estavam penduradas no templo de El-Lil, como troféus de vitória. Nenhum dos sumérios conhecia sua utilidade. Eu a perguntei se os nativos, com os quais às vezes lutavam, haviam usado pistolas, e ela disse que não. Eu pude facilmente acreditar naquilo, já que havia muitas tribos selvagens, naquelas terras interiores, que mal tinham visto um homem branco. Mas parecia inacreditável que alguns dos árabes que haviam feito incursões na Somália, durante mil anos, nunca tivessem se deparado com Eridu e dado tiros. Mas era verdade – apenas mais um daqueles peculiares caprichos do destino, como os lobos e gatos selvagens que você ainda encontra no estado de Nova Iorque; ou aqueles estranhos povos pré-arianos que você encontra em pequenas comunidades, nas colinas de Connaught e Galway. Estou certo de que grandes incursões escravistas passaram a poucas milhas de Eridu, mas os árabes nunca a encontraram nem lhe deixaram gravado o significado de armas de fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, falei a Conrad:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jogue com ela, seu tolo! Se conseguir convencê-la a nos dar uma arma às escondidas, teremos uma chance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, Conrad tomou coragem e começou a falar com Naluna de uma forma nervosa. Não sei como conseguiu, pois ele não era nenhum Don Juan, mas Naluna se aninhou a ele, deixando-o desconcertado, e escutou seu Somali vacilante com a alma nos olhos. O amor floresce súbita e inesperadamente no Oriente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, uma voz imperiosa, do lado de fora da cela, fez Naluna dar um salto e sair correndo; mas, enquanto saía, ela apertou a mão de Conrad e lhe sussurrou algo no ouvido, que não conseguimos entender; mas aquilo soou bastante apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo depois que ela partira, a cela se abriu novamente e apareceu uma fila de silenciosos guerreiros de pele morena. Uma espécie de chefe, a quem o resto chamava de Gorat, gesticulou para que saíssemos. Então, descemos um longo e escuro corredor, cheio de colunas, em perfeito silêncio, exceto pelo suave roçar de suas sandálias e o pisar de nossas botas nos ladrilhos. Uma tocha ocasional, lampejando nas paredes ou num nicho das colunas, iluminava vagamente o caminho. Por fim, saímos nas ruas vazias da cidade silenciosa. Nenhuma sentinela percorria as ruas ou os muros, e nenhuma luz saía de dentro das casas de teto plano. Era como andar nas ruas de uma cidade-fantasma. Se toda noite em Eridu era assim, ou se o povo ficou dentro de suas casas porque aquela era uma ocasião especial e terrível, não tenho idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descemos as ruas, em direção ao lado onde ficava o lago na cidade. Ali, atravessamos um pequeno portão no muro – sobre o qual, eu notei com um leve tremor, havia uma sorridente caveira entalhada –, e nos encontramos fora da cidade. Um largo lance de escadas descia até a margem da água, e as lanças em nossas costas nos fizeram descê-las. Um bote nos esperava lá – uma coisa estranha, de proa alta, cujo modelo original deve ter percorrido o Golfo Pérsico nos dias da Antiga Eridu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro negros descansavam sobre seus remos e, quando abriram suas bocas, vi que suas línguas haviam sido cortadas. Fomos colocados dentro do bote, nossos guardas entraram e começamos uma estranha viagem. Sobre o lago silencioso, nós nos movíamos como num sonho, cujo silêncio era interrompido apenas pelo suave murmúrio dos longos e finos remos trabalhados a ouro pela água. As estrelas pintavam o abismo azul-escuro do lago com pontos prateados. Olhei para trás, e vi a cidade de Eridu dormindo sob as estrelas. Olhei à frente e vi o vulto escuro do templo assomar contra as estrelas. Os desnudos negros mudos puxavam seus remos brilhantes e os guerreiros silenciosos se sentavam diante e atrás de nós, com suas lanças, elmos e escudos. Era como o sonho de alguma cidade fabulosa, do tempo de Harun al-Rashid, ou de Salomão filho de Davi, e pensei o quão incongruentes eu e Conrad parecíamos naquele local, com nossas botas e esfarrapadas roupas cáqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desembarcamos na ilha, e vi que ela era cercada por alvenaria – a qual se erguia da beira d’água em largos lances de degraus, os quais circulavam toda a ilha. O conjunto parecia mais velho até do que a própria cidade – os sumérios devem tê-lo construído assim que encontraram o vale, antes de construírem a própria cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subimos as escadas, que estavam bastante desgastadas por incontáveis pés, até um conjunto de portas de ferro no templo, e lá Gorat abaixou sua lança e escudo, e se prostrou, batendo sua cabeça coberta pelo elmo na grande soleira. Alguém devia estar observando de alguma seteira, pois, do alto da torre, soou uma profunda nota dourada, e as portas se abriram silenciosamente para mostrar uma entrada escura, iluminada por tochas. Gorat se ergueu e caminhou à frente, nós o seguindo com aquelas malditas lanças espetando nossas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subimos um lance de escada e saímos numa série de galerias, construída no interior de cada piso e subindo em espiral. Olhando para o alto, o local parecia bem maior e mais alto do que parecia visto de fora; e aquela escuridão meio iluminada, o silêncio e o mistério me faziam estremecer. O rosto de Conrad reluzia pálido na semi-escuridão. As sombras de eras passadas se aglomeravam sobre nós, caóticas e aterrorizantes, e me senti como se os fantasmas de todos os sacerdotes e vítimas, que haviam caminhado naquelas galerias por quatro mil anos, seguissem nossos passos. As enormes asas de deuses escuros e esquecidos pairavam sobre aquela pilha horrível de antiguidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao andar mais alto. Havia três círculos de colunas altas, um dentro do outro – e devo dizer que, apesar de serem colunas feitas de tijolos secos ao sol, elas eram curiosamente simétricas. Mas não havia nada da graça e indisfarçada beleza de, por exemplo, a arquitetura grega. Aquilo era sombrio, taciturno e monstruoso – semelhante à arquitetura egípcia; não tão imensa, mas ainda mais formidável na inflexibilidade: uma arquitetura simbolizando uma era em que os homens ainda estavam nas sombras do alvorecer da Criação, e sonhavam com deuses monstruosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o círculo interno de colunas, havia um teto curvo – quase uma cúpula. Como a construíram, ou como chegaram a antecipar os arquitetos romanos em tantas eras, não sei dizer, pois era uma divergência surpreendente do restante de seu estilo arquitetônico, mas lá estava. E, daquele teto em forma de domo, pendia uma coisa grande, redonda e brilhante que capturava a luz das estrelas numa rede prateada. Percebi, então, que havíamos sido seguidos por muitas e enlouquecedoras milhas! Era um grande gongo: a Voz de El-Lil. Parecia de jade, mas hoje não tenho certeza. Mas, o que quer que fosse, era o símbolo no qual se apoiava a fé e o culto dos sumérios – o símbolo do próprio deus. E sei que Naluna estava certa, quando nos contou que seus ancestrais o trouxeram com eles naquela viagem longa e cansativa, eras atrás, quando fugiram dos cavaleiros selvagens de Sargão. E, durante quantos eons antes daquela era obscura ele deve ter ficado pendurado no templo de El-Lil em Nippur, Erech ou na Antiga Eridu, bramindo suas suaves ameaças ou promessas sobre o vale fantástico do Eufrates, ou através da espuma verde do Golfo Pérsico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles nos colocaram dentro do primeiro círculo de colunas e, das sombras, como se ele mesmo fosse uma sombra do passado, saiu o velho Sostoras, o rei-sacerdote de Eridu. Ele estava vestido num longo robe verde, coberto por escamas como a pele de uma serpente, o qual ondulava e tremeluzia a cada passo. Sobre sua cabeça, ele usava um capacete de plumas ondulantes e, em sua mão, segurava uma marreta dourada de cabo longo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele bateu levemente no gongo, e ondas douradas de som fluíram sobre nós como uma vaga, sufocando-nos em sua doçura exótica. E então Naluna veio. Eu nunca soube se ela veio de trás das colunas, ou se emergiu de alguma abertura no chão. Num momento, o espaço diante do gongo estava vazio; no outro, ela estava dançando como um raio de lua sobre um poço. Ele estava vestida com um tecido leve e tremeluzente, que mal cobria seu corpo sinuoso e membros flexíveis. E ela dançava diante de Sostoras e da Voz de El-Lil, como as mulheres de sua raça haviam dançado na antiga Suméria, há quatro mil anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem consigo começar a descrever aquela dança. Ela me fez congelar, tremer e queimar por dentro. Ouvi a respiração de Conrad ficar ofegante, e ele tremia como um junco ao vento. De algum lugar, vinha música que já era antiga quando a Babilônia era jovem; música tão elemental quanto o fogo nos olhos de uma tigresa, e tão desalmada quanto uma meia-noite africana. E Naluna dançava. Sua dança era um redemoinho de fogo, vento, paixão e todas as forças elementais. De todos os fundamentos básicos e primordiais, ela absorvia os princípios fundamentais e os combinava num movimento giratório. Ela estreitava o universo ao significado de uma ponta de adaga, e seus pés ágeis e corpo tremeluzente entrelaçavam os labirintos daquele Pensamento central. Sua dança aturdia, exaltava, enlouquecia e hipnotizava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto rodopiava e girava, ela era a Essência elemental; uma e parte de todos os impulsos poderosos, e poderes ativos ou adormecidos – o sol, a lua, as estrelas, a cega ascensão de raízes ocultas até a luz, o fogo da fornalha, as faíscas da forja, a respiração do cervo novo, as garras da águia. Naluna dançava, e sua dança era Tempo e Eternidade, o anseio da Criação e o anseio da Morte; nascimento e dissolução em um só, idade e infância combinadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mente atônita se recusou a conservar mais impressões; a jovem se fundia num rodopiante tremular de fogo branco diante de meus olhos aturdidos; então, Sostoras bateu uma leve nota na Voz de El-Lil, e ela caiu aos pés dele, uma sombra branca e trêmula. A lua acabava de começar a brilhar sobre os penhascos a Leste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os guerreiros agarraram Conrad e eu, e me amarraram a uma das colunas externas. A ele, arrastaram até o círculo interno e amarraram a uma coluna diretamente à frente do grande gongo. E vi Naluna, branca ao brilho crescente, olhar preguiçosamente para ele e depois lançar um olhar cheio de significado para mim, enquanto sumia de vista entre as escuras colunas soturnas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Sostoras fez um gesto e, das sombras, saiu um mirrado escravo negro, o qual parecia incrivelmente velho. Ele tinha as feições murchas e o olhar vago de um surdo-mudo, e o rei-sacerdote entregou a marreta dourada a ele. Então Sostoras recuou e ficou ao meu lado, enquanto Gorat se curvava e dava um passo para trás, e os guerreiros também se curvavam e recuavam mais ainda. De fato, eles pareciam bastante ansiosos para se afastarem o máximo possível daquele sinistro anel de colunas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um momento tenso de espera. Eu olhava para fora, através do lago, em direção aos penhascos altos e sombrios que cingiam o vale, e para a cidade silenciosa que ficava sob a lua que se erguia. Parecia uma cidade morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o cenário era bastante irreal, como se Conrad e eu houvéssemos sido transportados para outro planeta, ou de volta a uma era morta e esquecida. Então, o negro mudo bateu no gongo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio, era um sussurro baixo e suave que fluía de baixo da firme marreta do negro. Mas ele cresceu rapidamente em intensidade. O som suportável e crescente se tornou torturante – insuportável. Era mais que um mero som. O mudo evocou uma qualidade de vibração que adentrava todos os nervos e os despedaçava. Ficou cada vez mais alto, até eu achar que a coisa mais desejável do mundo seria a surdez total, ser como aquele mudo de olhos vazios, o qual nem ouvia nem sentia a perdição de som que criava. Mesmo assim, eu via o suor lhe brotar da testa simiesca. Certamente, algum trovão daquele cataclismo de despedaçar o cérebro repercutia em sua própria alma. El-Lil falava conosco, e a morte estava em sua voz. Certamente, se algum dos terríveis deuses negros de eras passadas pudesse falar, ele falaria exatamente naquela língua! Não havia misericórdia, piedade nem fraqueza em seu rugido. Tinha a confiança de um deus canibal, para quem a humanidade era apenas um brinquedo e marionete, para dançar em sua corda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som pode ficar grave demais, estridente demais ou alto demais para o ouvido humano registrar. Isso não ocorria com a Voz de El-Lil, a qual foi criada em alguma era inumana, quando magos escuros sabiam como despedaçar cérebro, corpo e alma. Sua profundidade era insuportável e seu volume era insuportável, mas o ouvido e a alma estavam intensamente vivos para sua ressonância, e não ficavam piedosamente entorpecidos nem anulados. E sua terrível doçura estava além da resistência humana; ela nos sufocava numa onda asfixiante de som que, no entanto, estava farpada por presas douradas. Eu arfava e me debatia em agonia física. Atrás de mim, eu sabia que até mesmo o velho Sostoras tapava os ouvidos com as mãos, e Gorat se arrastava pelo chão, esfregando o rosto contra os tijolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, se aquilo afetava a mim, que estava logo dentro do círculo mágico de colunas, e àqueles sumérios que estavam do lado de fora do círculo, o que estaria fazendo a Conrad, que estava dentro do anel mais interno e sob aquele teto abobadado, o qual intensificava cada nota?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o dia em que morrer, Conrad nunca estará mais perto da loucura e morte do que esteve então. Ele se contorcia sob as amarras, como uma cobra com as costas quebradas; seu rosto estava horrivelmente contorcido, seus olhos arregalados e a espuma lhe salpicava os lábios pálidos. Mas, naquele inferno de som dourado e angustiante, eu não conseguia ouvir nada – só conseguia ver sua boca aberta e seus espumantes lábios flácidos se afrouxarem e contraírem como os de um imbecil. Mas eu sentia que ele uivava feito um cão moribundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, a adaga sacrifical dos semitas era piedosa. Até mesmo a medonha fornalha de Moloch era mais confortável que a morte prometida por esta vibração rascante e cortante, a qual armava ondas de som com garras envenenadas. Senti meu próprio cérebro ficar tão quebradiço quanto vidro congelado. Eu sabia que, mais alguns segundos daquela tortura, e o cérebro de Conrad iria se despedaçar como uma taça de cristal e ele morreria num negro delírio de loucura total. Então, algo me arrebatou de volta dos labirintos nos quais eu entrara. Era o firme agarrar de uma pequena mão na minha, atrás da coluna à qual eu estava amarrado. Senti uns puxões em minhas cordas, como se a lâmina de uma faca estivesse sendo passada por elas, e minhas mãos estavam livres. Senti algo ser pressionado dentro de minha mão, e uma exultação feroz me invadiu. Eu reconheceria a culatra axadrezada de minha Webley 44 entre mil!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agi numa rapidez que pegou todo o bando de surpresa. Pulei para fora da coluna e derrubei o negro mudo com uma bala em seu cérebro, girei e baleei o velho Sostoras na barriga. Ele caiu, vomitando sangue, e disparei uma descarga diretamente sobre as fileiras aturdidas dos soldados. Naquela distância, eu não poderia errar. Três deles caíram, e o resto reagiu e se dispersou como um grupo de pássaros. Num segundo, o local estava vazio, exceto por Conrad, Naluna e eu, assim como os homens sobre o chão. Era como um sonho, os ecos dos tiros ainda reverberando, e o cheiro acre de pólvora e sangue apunhalando o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota soltou Conrad, e ele caiu ao chão, choramingando como um idiota moribundo. Eu o sacudi, mas ele tinha o olhar desvairado e espumava como um cão louco, de modo que eu o puxei para cima, deslizei um braço sob ele e parti em direção à escada. Ainda não havíamos saído da confusão por uma longa distância. Descemos por aquelas galerias largas, sinuosas e escuras, esperando ser emboscados a qualquer momento; mas aqueles sujeitos deveriam estar ainda muito apavorados, pois saímos daquele templo infernal sem qualquer interferência. Do lado de fora dos portais de ferro, Conrad desfaleceu e eu tentei falar com ele, mas ele não podia ouvir nem falar. Eu me voltei para Naluna:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você pode fazer algo por ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos dela relampejaram ao luar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não desafiei meu povo e meu deus, nem traí meu culto e raça por nada! Roubei a arma de fumaça e fogo, e lhe soltei, não? Eu o amo e não o perderei agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela correu para dentro do templo, e logo saía de lá com um jarro de vinho. Ela afirmou que ele tinha poderes mágicos. Não ceio nisso. Acho que Conrad estava simplesmente sofrendo de uma espécie de trauma, devido à grande proximidade daquele ruído pavoroso, e que a água do lago lhe faria tão bem quanto o vinho. Mas Naluna derramou um pouco de vinho entre os lábios dele, e um pouco sobre a cabeça de Conrad, e logo ele gemia e praguejava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja! – ela gritou triunfante – O vinho mágico dissolveu o feitiço que El-Lil pôs nele! – E ela lançou os braços ao redor do pescoço dele, e o beijou vigorosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus, Bill! – ele grunhiu, sentando-se e segurando a própria cabeça – Que tipo de pesadelo é este?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Consegue caminhar, velho amigo? – perguntei – Acho que mexemos num maldito ninho de vespas, e é melhor sairmos daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tentarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se ergueu cambaleante, com Naluna o ajudando. Ouvi um sussurro na boca negra do templo, e julguei que os guerreiros e sacerdotes lá dentro estivessem reunindo coragem para correr atrás de nós. Descemos degraus em grande pressa, até o local onde ficava o bote que nos trouxera para a ilha. Nem mesmo os remadores negros estavam lá. Havia um machado e um escudo dentro dele, e eu agarrei o machado e abri buracos nos fundos dos outros botes que estavam amarrados perto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, o grande gongo havia começado a soar novamente, e Conrad gemeu e se contorceu, como se cada entonação lhe raspasse os nervos à flor da pele. Era uma nota de alarme desta vez, e eu vi luzes se acenderem na cidade e ouvi um súbito zumbido de gritos flutuar através do lago. Algo assobiou suavemente pela minha cabeça e cortou a água. Uma rápida olhada me mostrou Gorat na porta do templo, curvando seu pesado arco. Pulei dentro do bote, Naluna ajudou Conrad a entrar, e nos afastamos apressadamente ao som de várias outras setas do encantador Gorat, uma das quais arrancou uma mecha do cabelo da linda cabeça de Naluna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me ocupei com os remos, enquanto Naluna guiava o timão, e Conrad se estirava no fundo do bote e estava violentamente enfermo. Vimos uma frota de barcos sair da cidade e, quando nos viram ao brilho da lua, ergueu-se um de fúria concentrada que congelou o sangue em minhas veias. Estávamos nos dirigindo à extremidade oposta do lago, e levávamos uma boa vantagem em relação a eles; mas, daquela forma, éramos obrigados a contornar a ilha e mal havíamos deixado a popa, quando, de algum esconderijo, saiu um longo bote com seis guerreiros; vi Gorat na proa, com aquele seu maldito arco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não tinha cartuchos sobrando, de modo que remei com toda a minha força, e Conrad, com o rosto um tanto esverdeado, pegou o escudo e o fixou na popa, o que foi nossa salvação, porque Gorat estava a um tiro de flecha de nós por todo o caminho através do lago, e ele deixou aquele escudo tão cheio de flechas, que lembrava um viçoso porco-espinho. Você pensaria que eles teriam o suficiente após o massacre que fiz entre eles no teto, mas eles estavam atrás de nós, como cães atrás de uma lebre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos uma boa vantagem em relação a eles, mas os cinco remadores de Gorat disparavam seu bote através da água como um cavalo de corrida e, quando desembarcamos na margem, eles estavam a menos de meia-dúzia de passos atrás de nós. Enquanto saíamos com dificuldade, eu vi que ou lutávamos ali e seríamos derrubados de frente para eles, ou seríamos derrubados como coelhos enquanto corríamos. Pedi a Naluna que corresse, mas ela riu e puxou uma adaga – aquela garota era uma mulher para um homem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gorat e seus folgazões vinham rapidamente ao desembarque, com um clamor de gritos e um remoinho de remos – eles se aglomeravam sobre o lado, como um bando de piratas sanguinários, e a batalha estava travada! A sorte estava com Gorat na primeira investida, pois eu errei o disparo e matei o homem atrás dele. O martelo bateu numa concha vazia, soltei a Webley e ergui o machado quando eles se aproximaram de nós. Por Júpiter! Ainda me agita o sangue em pensar na fúria perigosa daquela luta! Com a água nos joelhos, nós os enfrentamos mão a mão, peito a peito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conrad arrebentou os miolos de um com uma pedra que tirou da água e, com o rabo do meu olho, enquanto lançava um golpe em direção à cabeça de Gorat, vi Naluna saltar como uma pantera sobre o outro, e eles caíram juntos num remoinho de membros e num relampejar de aço. A espada de Gorat estocava em busca de minha vida, mas eu a desviei com o machado, ele perdeu seu equilíbrio e caiu... pois o fundo do lago ali era de pedra sólida, e traiçoeiro como o pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos guerreiros investiu com uma lança, mas ele tropeçou sobre o companheiro a quem Conrad matara, seu elmo lhe caiu da cabeça e eu lhe esmaguei o crânio antes que ele pudesse recuperar seu equilíbrio. Gorat havia se levantado e vinha em minha direção, e o outro girava sua espada com ambas as mãos para dar um golpe fatal, mas ele nunca golpeou, pois Conrad pegou a lança que havia sido largada e o estocou por trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lâmina de Gorat me raspou as costelas, ao me buscar o coração; eu girei para um lado e seu braço esticado se quebrou como um galho podre sob meu golpe, mas salvou sua vida. Ele era valente – todos eram valentes; do contrário, nunca teriam se lançado em direção à minha pistola. Ele saltou como um tigre louco por sangue, golpeando em direção à minha cabeça. Eu me esquivei e evitei a força total do golpe, mas não consegui evitá-lo completamente, e ele me abriu o couro cabeludo num corte de 7 centímetros, expondo o osso – aqui está a cicatriz como prova. O sangue me cegou, e contra-ataquei, como um leão ferido, cega e terrivelmente, e por pura sorte acertei em cheio. Senti o machado afundar em metal e osso, o cabo se lascou em minha mão, e lá estava Gorat morto aos meus pés, numa horrível mistura de sangue e miolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacudi o sangue dos meus olhos e olhei ao redor, em busca de meus companheiros. Conrad ajudava Naluna a se erguer, e me parecia que ela cambaleava um pouco. Havia sangue em seu peito, mas ele parecia vir da adaga vermelha, a qual ela segurava numa mão manchada até o pulso. Deus! Era um pouco repugnante pensar nisso agora. A água onde nos encontrávamos estava cheia de cadáveres e horrivelmente vermelha. Naluna apontou para o outro lado do lago, e vimos os barcos de Eridu se movendo em nossa direção – a uma boa distância ainda, mas vinha rapidamente. Ela nos guiou a uma fuga desde a beirada do lago. Meu ferimento sangrava, como só um ferimento no escalpo pode sangrar, mas eu ainda não estava enfraquecido. Sacudi o sangue dos meus olhos, vi Naluna cambalear enquanto corria e tentei pôr meu braço ao seu redor para sustentá-la, mas ela se desvencilhou de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se dirigia aos penhascos, e nós os alcançamos sem fôlego. Naluna se inclinou sobre Conrad e apontou para cima com uma mão trêmula, respirando em grandes ofegos soluçantes. Entendi o que ela queria dizer. Uma escada de cordas levava para o alto. Eu a fiz ir primeiro, com Conrad a seguindo. Segui atrás dele, recolhendo a escada de mão atrás de mim. Havíamos subido a metade do caminho, quando os barcos chegaram à terra e os guerreiros correram praia acima, lançando suas flechas enquanto corriam. Mas estávamos na sombra dos penhascos, o que dificultava a pontaria, e a maioria das setas caíam sem alcançar o alvo ou se espatifavam na parede do penhasco. Uma me atingiu o braço esquerdo, mas eu a arranquei e não parei para felicitar o atirador por sua pontaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez sobre a beirada do penhasco, puxei a escada para cima e a soltei, e então me voltei para ver Naluna oscilar e desabar nos braços de Conrad. Nós a deitamos delicadamente sobre a grama, mas até um homem com meia-visão poderia perceber que ela estava nas últimas. Limpei o sangue do peito dela e arregalei os olhos, horrorizado. Só uma mulher com muito amor conseguiria correr e escalar os penhascos daquele jeito, com um ferimento igual ao que aquela garota tinha no coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conrad deitou a cabeça dela no colo e tentou balbuciar algumas palavras, mas ela o abraçou fracamente no pescoço e puxou-lhe o rosto para o dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não chores por mim, meu amor. – ela disse, enquanto sua voz se enfraquecia até um sussurro – Tu já foste meu anteriormente, assim como serás de novo. Nas cabanas de barro do Velho Rio, antes que a Suméria existisse, quando cuidávamos dos rebanhos, éramos como um. Nos palácios da Antiga Eridu, antes que os bárbaros viessem do Leste, amamos um ao outro. Sim, neste mesmo lago, flutuamos em eras passadas, vivendo e amando, tu e eu. Por isso, não chore, meu amor, pois o que é uma pequena vida, quando conhecemos tantas e conheceremos muito mais? E, em cada uma delas, tu és meu e eu sou tua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas não deves demorar. Ouça! Eles clamam por teu sangue lá embaixo. Mas, uma vez que a escada está destruída, só há outro caminho pelo qual eles podem subir os penhascos – o caminho pelo qual te trouxeram para dentro do vale. Depressa! Eles voltarão através do lago, escalarão os penhascos lá e te perseguirão, mas tu escaparás deles se fores rápido. E, quando ouvires a Voz de El-Lil, lembre-se que, viva ou morta, Naluna te ama com um amor maior que qualquer deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas te suplico um favor”, ela sussurrou, com as pálpebras pesadas se fechando como as de uma criança com sono. “Aperte, eu te imploro, teus lábios nos meus, meu senhor, antes que as sombras me envolvam totalmente; depois, deixe-me aqui e vá; e não chores, oh meu amor, pois o que é... uma... pequena... vida... para... nós... que... nos... amamos... em... tantas...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conrad chorou como um bebê, e eu também o fiz, por Judas; e eu esmagarei a cabeça piolhenta do imbecil que me censurar por isso! Nós a deixamos com os braços cruzados no peito e um sorriso em seu lindo rosto, e, se existir um paraíso para os cristãos, ela está lá com os melhores deles, eu juro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, nós nos afastamos cambaleantes sob o luar, meus ferimentos ainda sangravam e eu estava quase acabado. Tudo o que me manteve indo foi uma espécie de selvagem instinto animal para viver, eu imagino, pois, se eu já estive alguma vez prestes a cair e morrer, foi naquela ocasião. Havíamos avançado talvez uma milha, quando os sumérios jogaram seu último ás. Acho que eles perceberam que havíamos escapado de suas garras e levávamos vantagem demais para sermos pegos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, aquele maldito gongo havia repentinamente começado a retumbar. Tive vontade de uivar feito um cão raivoso. Desta vez, era um som diferente. Nunca vi ou ouvi um gongo, antes ou depois, cujas notas pudessem transmitir tantos significados distintos. Era um chamado traiçoeiro – uma insistência sinistra, mas uma ordem imperiosa para retornarmos. Ameaçava e prometia; se sua atração havia sido grande antes de estarmos na torre de El-Lil, e sentimos seu poder total, ela agora era quase irresistível. Era hipnótica. Agora sei como um pássaro se sente quando é encantado por uma serpente, ou como a serpente se sente quando os faquires tocam suas flautas. Não consigo começar a lhe fazer entender o magnetismo irresistível daquele chamado. Ele lhe fazia querer se contorcer, cortar o ar e correr de volta, cego e guinchando, como uma lebre que corre para dentro das mandíbulas de um píton. Tive que combatê-lo, como um homem que luta por sua alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a Conrad, o chamado o tinha nas garras. Ele parava e tremia como um bêbado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É inútil. – ele murmurava roucamente – Ele me agarra as fibras do coração; acorrentou meu cérebro e minha alma; reúne toda a sedução maligna de todos os universos. Devo voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele começou a cambalear de volta pelo caminho de onde viera – em direção àquela mentira dourada que flutuava até nós sobre a selva. Mas pensei na jovem Naluna, que tinha dado sua vida para nos salvar daquela abominação, e uma estranha fúria me dominou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escute! – eu gritei – Não pode fazê-lo, seu maldito idiota! Você está fora de si! Não consentirei, está me ouvindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele não prestou atenção, me empurrando com olhos iguais aos de um homem em transe, e então tive que bater nele... um bom gancho de direita na mandíbula, que o deixou estirado e inconsciente. Eu o lancei por cima do meu ombro e segui meu caminho, cambaleante, e se passou quase uma hora antes que ele recuperasse os sentidos, completamente lúcido e agradecido a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, nós não vimos mais o povo de Eridu. Não tenho nem idéia se nos seguiram. Não podíamos ter fugido mais rápido do que fizemos, pois fugíamos do assombroso e horrível sussurro harmonioso que nos perseguia desde o sul. Finalmente, chegamos ao local onde havíamos escondido nossas bagagens, e então, armados e minimamente equipados, iniciamos a longa jornada para a costa. Talvez você tenha lido, ou ouvido, algo a respeito de dois andarilhos macilentos, que foram recolhidos por uma expedição de caçadores de elefantes na região atrasada da Somália, atordoados e incoerentes pelos sofrimentos. Bom, nós estávamos quase mortos, eu admito, mas estávamos perfeitamente lúcidos. A parte incoerente foi quando tentamos contar nossa história, e os malditos idiotas não quiseram acreditar nela. Davam tapinhas em nossas costas, falavam num tom suave e nos davam uísque com soda. Logo calamos nossas bocas, ao ver que só seríamos estigmatizados como mentirosos ou lunáticos. Eles nos levaram de volta ao Djibuti, e nós ficamos fartos da África por um tempo. Embarquei para a Índia, e Conrad foi à direção oposta... ele não via a hora de voltar à Nova Inglaterra, onde eu espero que ele tenha se casado com aquela mocinha americana e esteja vivendo feliz. Um amigo maravilhoso, apesar de todos os seus malditos insetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quanto a mim, não posso ouvir qualquer tipo de gongo hoje, sem me sobressaltar. Naquela longa e cansativa viagem, eu nunca respirei tranqüilo até ficarmos longe do som daquela Voz medonha. Você não consegue imaginar o que uma coisa como aquela pode fazer com sua mente. Ela faz um estrago enorme em todas as idéias racionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Às vezes, ainda ouço aquele gongo infernal em meus sonhos, e vejo aquela cidade silenciosa e horrendamente antiga naquele vale de pesadelo. Às vezes me pergunto se ele continua me seguindo ao longo dos anos. Mas isso é bobagem. De qualquer forma, esta é a história e, se você não acredita em mim, não lhe censurarei de modo algum”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu prefiro acreditar em Bill Kirby, pois conheço sua raça desde Hengist, e sei que ele é como todo o resto: sincero, agressivo, profano, inquieto, sentimental e direto; um verdadeiro irmão dos errantes, lutadores e aventureiros Filhos dos Arianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://gutenberg.net.au/ebooks06/0608121h.html"&gt;http://gutenberg.net.au/ebooks06/0608121h.html&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. Conan, o B?rbaro, e Era Hiboriana s?o marcas registradas da Conan Properties Inc. Este site é dedicado ao personagem e n?o possui fins comerciais, nem o objetivo de infringir as leis de direitos autorais.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26866016-8045694401420161911?l=cronicasdacimeria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/feeds/8045694401420161911/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26866016&amp;postID=8045694401420161911&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/8045694401420161911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/8045694401420161911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/2011/11/voz-de-el-lil.html' title='A Voz de El-Lil'/><author><name>Neeser</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17947846921349013572</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016.post-5984805383516128267</id><published>2011-08-16T22:04:00.004-03:00</published><updated>2011-08-16T22:11:58.543-03:00</updated><title type='text'>Espadas para a França</title><content type='html'>(por Robert E. Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1) Quem Encontrei: Homens Usando Máscaras&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;- RAPAZINHO, o que faz com uma espada? Há, por Saint Denis, é uma mulher! Uma mulher com espada e elmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o grande velhaco de barba negra parou, com a mão no cabo da lâmina, e ficou boquiaberto e espantado ao me ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu lhe devolvi o olhar fixo sem me embaraçar. Uma mulher, sim, e era um lugar solitário, uma sombria clareira de floresta, distante de habitações humanas. Mas eu não usava gibão, largos calções curtos e botas espanholas meramente para me exibir; e o capacete morion sobre meus cachos vermelhos, e a espada que pendia do meu quadril, não eram simples enfeites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para aquele sujeito que encontrei por acaso na floresta, e gostei pouco dele. Era bastante grande, com um rosto maligno e cicatrizado; seu morion estava lavrado a ouro e, sob seu manto, brilhavam uma couraça e nesgas. O manto era uma veste notável, de veludo cipriota, habilmente trabalhado com fios de ouro. Aparentemente, o dono havia cochilado sob uma enorme árvore próxima. Havia um grande cavalo ali, amarrado a um galho, com ricos arreios de couro vermelho e rédeas douradas. Suspirei diante da visão, pois eu havia caminhado muito desde a aurora, e meus pés em minhas longas botas doíam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma mulher! – repetiu o patife, pasmo – E vestida como um homem! Tire esse manto esfarrapado, moça; quero te ver melhor! Diabos, você é uma vadia linda, alta e flexível! Venha, tire seu manto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pare com isso, cão! – eu o adverti asperamente – Não sou nenhuma vagabunda chorona para sua diversão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem, então? – ele me devorava com os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agnes de La Fere. – respondi – Se você não fosse um forasteiro aqui, saberia a meu respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sacudiu a cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, eu sou novo por aqui. Eu me chamo Chalons. Mas não importa. Um nome é tão bom quanto outro. Venha cá, Agnes, e me dê um beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Idiota! – Minha raiva sempre pronta estava começando a arder às ocultas – Será que devo matar metade dos homens da França, pra os ensinar respeito? Veja! Visto estas roupas, mas como vestimentas e instrumentos de minha profissão, e não para chamar a atenção dos homens. Eu bebo, luto e vivo como um homem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas amará como uma mulher! – ele disse e, pulando subitamente em minha direção como um grande urso, ele tentou me arrastar para seu abraço, mas recuou de uma bofetada que lhe partiu os lábios e fez correr um fio de sangue por sua barba negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cadela! – ele rugiu em breve fúria, seus olhos queimando – Vou lhe aleijar por isso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele avançou novamente em minha direção, com suas grandes mãos se fechando, mas quando desembainhei minha espada, ele subitamente pareceu sóbrio pelo que viu em meus olhos e, como se finalmente percebesse que isto não era brincadeira, recuou e puxou sua própria lâmina, lançando seu manto para longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas lâminas se encontraram com um estrondo que ecoou pela floresta, e quase o matei no primeiro golpe. Foi mais por sorte que ele deteve parcialmente minha estocada feroz, e a ponta de minha espada lhe atravessou toda a pele da mandíbula, de modo que o sangue lhe jorrou na parte da armadura que lhe protegia o pescoço. Ele gritou feito um cão louco, mas o ferimento lhe deu juízo e o fez perceber que não estava diante de uma brincadeira de criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele brandiu sua lâmina com toda a força e habilidade, e não o achei um espadachim médio. Bom para mim, que havia aprendido a arte pela melhor lâmina da França, pois este patife de barba negra era forte, habilidoso, e cheio de truques sujos e subterfúgios assassinos, através dos quais eu soube que ele não era um homem honesto, mas um sicário, um daqueles matadores pagos que vendem suas espadas a qualquer um que possa lhes pagar o salário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não era inocente naquele jogo, e minha rapidez de olhos, mãos e pés era tal, que nenhum homem poderia igualar. Falhando em todos os truques e estratégias, o barba-negra tentou me derrubar com pura força bruta, despejando golpes trovejantes sobre minha guarda com toda a sua força. Mas isto não lhe foi de melhor serventia, porque, apesar de eu ser mulher, meu corpo era como se fosse de molas de aço e ossos de baleia, e tinha a arte de desviar seus golpes antes que eles fossem bem começados e, deste modo, evitar sua fúria total. Dentro em pouco, sua respiração começou a assobiar através de seus dentes expostos, a espuma começou a se misturar com o sangue em sua barba, e sua barriga a ofegar sob sua couraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, quando sua força e fúria começaram a falhar, ataquei implacavelmente e, abrindo sua guarda, enfiei a ponta de minha espada no meio de sua barba negra, acima da armadura, cortando jugular, traquéia e espinha numa só estocada, de modo que ele morreu enquanto caía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limpando minha lâmina, ponderei sobre minha próxima ação, e logo lhe esvaziei a bolsa, encontrando algumas moedas de prata ali dentro; e fiquei desapontada com a pobreza dali, pois eu estava sem dinheiro e faminta. Mesmo assim, seriam suficientes para um jantar em alguma estalagem na floresta. Então, vendo que meu manto estava, como ele dissera, gasto e esfarrapado, peguei o dele, o qual admirei bastante por causa da rara qualidade do acabamento a ouro que o decorava. Quando o levantei, uma máscara de seda negra caiu dele, e pensei em deixá-la onde caiu, mas pensei melhor e a enfiei no meu cinto. Envolvi o cadáver em meu manto velho e o arrastei para dentro dos arbustos, onde não seria visto por nenhum possível transeunte; e, montando o cavalo, cavalguei na direção para a qual eu estava viajando, muito grata pelo alívio dos meus pés cansados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu avançava pelo anoitecer, fiquei meditando sobre os eventos que ocorreram comigo desde que eu, como uma garota ignorante do campo, havia esfaqueado o homem com o qual meu pai estava me forçando a me casar, e fugi da aldeia de La Fere, para me tornar uma espadachim e uma fanfarrona de calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, a violência e morte pareciam seguir meu caminho. Guiscard de Clisson, que me ensinou a arte da espada, e com quem eu estava cavalgando para as guerras da Itália, morrera baleado numa emboscada armada por sicários pagos pelo Duque d’Alencon, os quais pensaram que ele fosse meu amigo Etienne Villiers. Etienne sabia da intriga contra o Rei Francis no pacto do duque e, por causa desse conhecimento, sua vida estava a prêmio. Agora eu também estava sendo caçada por Renault d’Valence, o líder daqueles assassinos pagos, desde que souberam que eu era a única além deles a saber dos verdadeiros fatos sobre o assassinato de De Clisson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Valence sabia que, se todos soubessem que ele e seus sicários haviam matado De Clisson, o famoso general dos mercenários, d’Alencon enforcaria todos eles para acalmar os amigos de De Clisson. O corpo de Guiscard apodrecia no rio onde os sicários o haviam lançado, e agora d’Valence me caçava por conta própria, ao mesmo tempo em que perseguia Etienne para o duque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Villiers e eu havíamos corrido, nos escondido e esquivado como ratos fugindo de cães, desejosos de adentrar a Itália, mas até agora sendo encurralados naquele canto do mundo por causa do medo pelos nossos inimigos, os quais esquadrinhavam o reino à nossa busca. Agora mesmo, eu estava em meu caminho para um encontro com Etienne, que havia ido furtivamente à costa, a fim de encontrar, se pudesse, um certo pirata chamado Roger Hawksly, um inglês que assolava as costas; fomos forçados a tais extremos, pois éramos obrigados a sair do país, de qualquer modo que pudéssemos, vez que era certo não podermos evitar para sempre os cães de caça em nosso rastro. Eu fiquei de encontrar meu camarada à meia-noite, num certo ponto da estrada que serpenteava até a costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, enquanto cavalgava pelo crepúsculo, não encontrei arrependimento em meu coração por ter trocado minha vida de trabalho servil pela de perambulação e violência. Era a vida para a qual o misterioso Destino havia me guiado, e eu me ajustei a ela tão bem quanto qualquer homem: bebendo, brigando, jogando e lutando. Com pistola, adaga ou espada, eu havia demonstrado várias vezes minha bravura, e eu não temia homem algum que caminhasse pela terra. Melhor uma curta vida de aventura e selvageria, do que uma longa e enfadonha labuta de fadiga doméstica me esmagando a alma, tendo filhos e me encolhendo sob o porrete de um homem a quem odiasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim eu meditava, quando cheguei a uma pequena taverna, situada ao lado da estrada da floresta e cuja luz fez minha barriga roncar novamente. Eu me aproximei cautelosamente, mas não vi ninguém na sala principal, exceto o garoto que lavava os pratos e uma jovem garçonete; então, deixei meu cavalo aos cuidados de um criado no estábulo, e caminhei para dentro da taverna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lavador de pratos ficou boquiaberto enquanto me trazia um grande caneco de vinho, e a moça arregalou os olhos, até estes parecerem que iam saltar das órbitas; mas eu estava acostumada a tais olhares, e simplesmente mandei que ela me trouxesse comida, enquanto eu me sentava à mesa, com meu manto ao redor dos ombros e meu morion ainda em minha cabeça – pois me era bastante útil ficar alerta e totalmente preparada o tempo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, enquanto comia, eu parecia ouvir portas se abrindo e fechando furtivamente na parte de trás da taverna, e um baixo resmungar de vozes chegava aos meus ouvidos. Eu não sabia o que isto anunciava, mas eu estava ocupada em terminar minha refeição e fingi não dar atenção quando o dono da taverna, um homem silencioso e moreno em avental de couro, saiu de algum quarto interno, me olhou fixamente e logo se retirou novamente para o interior da taverna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não muito tempo depois do seu desaparecimento, outro homem adentrou a taverna por uma porta lateral – um homem pequeno, de aspecto severo, com feições morenas e agudas, vestido de forma sombria e envolto num negro manto de seda. Senti os olhos dele sobre mim, mas não aparentei olhar para ele, exceto pelo fato de eu ter soltado furtivamente minha espada na bainha. Ele veio apressadamente em minha direção e sibilou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- La Balafre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele estava obviamente falando comigo, eu girei, com minha mão no cabo da espada, e ele recuou, sua respiração lhe silvando através dos dentes. Assim, por um instante, encaramos um ao outro. Então:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Saint Denis! Uma mulher! La Balafre é uma mulher! Eles não me contaram... eu não sabia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem? – indaguei cautelosamente, sem lhe entender o espanto, mas sem pensar em deixar que ele soubesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, isto não importa. – ele finalmente disse – Você não é a primeira mulher a usar calças e uma espada. Pouco importa qual dedo puxa o gatilho, a bala voa até o alvo. Seu mestre me mandou lhe procurar pelo seu manto... eu o reconheci pelo bordado a ouro. Venha, venha, está ficando tarde. Eles lhe esperam na sala secreta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eu percebia que esse homem havia me confundido com o sicário a quem eu matara; sem dúvida, o sujeito estava se dirigindo a um encontro marcado para algum crime. Eu não sabia o que fazer. Se eu negasse que era La Balafre, seus amigos não me deixariam ir em paz, sem que eu explicasse como consegui o manto dele. Não vi saída, exceto matar o homem de rosto escuro e cavalgar pela minha vida. Mas, com suas palavras seguintes, toda a situação mudou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ponha sua máscara e envolva bem o manto ao seu redor. – ele disse – Ninguém sabe que você está aqui, exceto eu, e isso porque seu manto me foi descrito. Foi tolice sua se sentar aqui, abertamente, na taverna, onde qualquer homem poderia lhe ver. A tarefa que temos a fazer é de tal natureza, que todas as nossas identidades devem estar escondidas, não apenas esta noite, mas de hoje em diante. Você me conhece apenas como Jehan. Você não conhecerá nenhum dos outros, nem eles a você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante destas palavras, um louco capricho imediatamente tomou conta de mim, nascido da curiosidade imprudente e feminil. Sem dizer nada, me levantei, coloquei a máscara que eu havia encontrado no corpo do verdadeiro La Balafre; envolvi-me no manto, de modo que ninguém pudesse saber que eu era uma mulher, e segui o homem que chamava a si mesmo de Jehan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi à frente, através de uma porta nos fundos da sala, à qual ele fechou e trancou atrás de nós, e, puxando uma máscara semelhante à minha, ele a colocou. Logo, tirando uma vela de uma mesa, ele seguiu à frente por um corredor estreito, com pesados retábulos de carvalho. Finalmente, ele parou, apagou a vela e bateu cuidadosamente na parede. Houve um som de remexer com as mãos no outro lado, e uma luz fraca brilhou, enquanto um falso painel era deslizado para o lado. Gesticulando para que eu o seguisse, Jehan deslizou através da abertura e, depois que entrei, ele a fechou atrás de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me vi num compartimento pequeno, sem portas nem janelas visíveis, embora lá devesse haver algum sistema sutil de ventilação. Uma lanterna oculta iluminava a sala com uma luz vaga e fantasmagórica. Nove figuras se amontoavam contra as paredes em cadeiras – nove figuras bem envoltas em mantos escuros, chapéus emplumados ou morions negros bem puxados para baixo, para encontrarem as máscaras negras que lhes escondiam os rostos. Somente seus olhos ardiam através dos buracos nas máscaras. Ninguém se mexia nem falava. Parecia um conclave do condenado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jehan não falou, mas gesticulou para que eu tomasse meu lugar numa cadeira, e então ele deslizou pelo compartimento e puxou outro painel para trás. Através desta abertura, outra figura entrou furtivamente – mascarada e envolvida num manto como o resto, mas com uma sutil diferença no porte. Ele caminhava como um homem acostumado a comandar e, mesmo em seu disfarce, havia algo levemente familiar nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele andou altivamente até o centro da pequena câmara, e Jehan gesticulou em nossa direção nos bancos, como se para dizer que estavam todos prontos. O forasteiro alto acenou com a cabeça e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você recebeu suas instruções antes de vir para cá. Vocês sabem, todos vocês, que só precisam me seguir e obedecer minhas ordens. Não façam perguntas; vocês estão sendo bem pagos; basta saberem disso. Falem o mínimo possível. Vocês não me conhecem, e eu não lhes conheço. Quanto menos cada homem conhecer de seus companheiros, melhor para todos. Assim que nossa tarefa estiver completa, a gente se dispersa, cada homem por si. Entendido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dez cabeças encapuzadas balançaram sombriamente à luz da lanterna. Mas eu recuei em minha cadeira, me envolvendo mais ainda no manto; ele foi mais entendido do que sabia. Eu tinha escutado aquela voz, em circunstâncias impossíveis de serem esquecidas; era a voz que havia gritado ordens aos assassinos de Guiscard de Clisson, enquanto eu estava ferida numa fenda do penhasco e os repelia com minhas pistolas. O homem que comandava esses vilões contra os quais eu lutara era Renault d’Valence, o homem que queria minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando seus olhos de aço, ardendo dentro da máscara, passaram por nós, eu inconscientemente me retesei, agarrando o cabo de minha espada sob meu manto. Mas ele não me reconheceria em meu disfarce, nem que ele fosse o próprio Satã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gesticulando para Jehan, meu inimigo se levantou e caminhou até o painel pelo qual havia entrado. Jehan acenou para nós, e seguimos d’Valence pela abertura em fila única, como uma procissão de silenciosos fantasmas negros. Atrás de nós, Jehan apagou a lanterna e nos seguiu. Tateamos nosso caminho em total escuridão por um curto espaço de tempo, e logo uma porta se abriu e os ombros largos de nosso líder se emolduraram por um instante contra as estrelas. Saímos num pequeno pátio atrás da taverna, onde 12 cavalos pastavam inquietos e escavavam o chão. O meu estava entre eles, embora eu houvesse dito ao criado para alojá-lo no estábulo. Evidentemente, todo mundo na taverna da Meia Lua estava sob suas ordens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem uma só palavra, montamos e seguimos d’Valence pelo pátio e para dentro de uma trilha que guiava através da floresta. Cavalgávamos em silêncio, exceto pelo bater dos cascos dos cavalos no chão duro, e o ocasional ranger de couro ou tinir de arreios. Tomávamos a direção oeste, para a costa, e logo a floresta se diluía em moitas e árvores dispersas, e a vereda diminuía e desaparecia num labirinto de arbustos. Aqui já não cavalgávamos em fila única, mas num grupo irregular. Para onde cavalgávamos, eu não sabia nem me importava muito. Devia ser algum trabalho do Duque d’Alencon, vez que seu braço-direito d’Valence estava no comando. Mas eu sabia que, enquanto d’Valence vivesse, minha vida e a de Etienne não valeriam uma peça de cobre quebrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava escuro. A lua ainda não havia se erguido, e as estrelas estavam ocultas por massas rolantes de nuvens, as quais, embora nem turbulentas nem muito negras, ainda ocultavam a luz do céu em seu incessante rolar de horizonte a horizonte. Um vento noturno gemia através das árvores, enquanto eu lentamente movia meu cavalo cada vez mais perto do de Renault d’Valence, agarrando meu punhal sob meu manto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, eu estava parando ao lado dele, e o ouvi murmurar para Jehan, que cavalgava emparelhado com ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele foi um idiota em desrespeitá-la, quando ela podia torná-lo mais grandioso que o rei da França. Se Roger Hawksly...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erguendo-se em meus estribos, enfiei meu punhal entre seus ombros, com toda a força de tendões preparados para uma tarefa desesperada. Sua respiração se extinguiu numa arfada, ele caiu de ponta-cabeça da sela e, naquele instante, dei a volta com meu cavalo, puxando-o pelas rédeas, e o esporeei fortemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um erguer e mergulhar desesperado, ele correu precipitadamente através das figuras que nos cercavam, derrubando cavalos e cavaleiros para os lados; mergulhou através das moitas e foi embora, enquanto eles tateavam por suas lâminas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás de mim, ouvi pragas e gritos sobressaltados, o tinir do aço, a voz de Jehan bradando maldições e d’Valence, sufocado e ofegante, rosnando ordens. Amaldiçoei minha sorte. Mesmo com o impacto do golpe, eu sabia que havia falhado. D’Valence usava uma camisa de cota-de-malha sob seu gibão, assim como eu. O punhal havia quase dobrado nele, sem feri-lo. Foi somente a força terrível do golpe que o derrubara, meio sem sentidos, do seu cavalo. E, conhecendo o homem como eu conhecia, eu sabia que ele provavelmente estaria logo em meu rastro, a não ser que sua outra ocupação fosse urgente demais para permiti-lo – e seu negócio teria que ser deveras urgente para interferir na vingança pessoal de d’Valence.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, se Jehan contasse a ele que “La Balafre” era uma jovem de cabelos ruivos, ele certamente reconheceria sua velha inimiga Agnes de Chastillon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, soltei as rédeas do cavalo e cavalguei num galope arrojado, sobre extensões cobertas por moitas e através de bosques dispersos, esperando a qualquer momento ouvir o rufar de cascos de cavalos atrás de mim. Cavalguei para o sul, em direção à estrada onde fiquei de encontrar Etienne Villiers, e cheguei até ela mais rápido do que eu esperava. A estrada corria na direção oeste até a costa, e havíamos seguido paralelamente o curso dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a uma milha na direção oeste ficasse uma cruz de pedra, ao lado da estrada, onde esta se dividia – uma bifurcação correndo para oeste, e a outra para sudoeste –, e era lá que ocorreria o encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Etienne Villiers. Faltavam algumas horas até a meia-noite, e eu não pretendia esperá-lo em local aberto até ele chegar, para que d’Valence não viesse primeiro. Assim, quando cheguei até a cruz, eu me escondi entre as árvores que cresciam lá, num denso amontoado, e me sentei para aguardar meu camarada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite estava quieta, e eu não ouvia sons de perseguição; esperava que, se os sicários houvessem me perseguido, eles tenham me perdido na escuridão, a qual era uma fácil enganadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amarrei meu cavalo em meio às árvores e, eu mal havia me acocorado entre as sombras da beira da estrada, quase ouvi o rufar de cascos. Mas este barulho veio do sudoeste, e era apenas um cavalo. Agachei-me ali, de espada na mão, enquanto o rufar ficava cada vez mais alto e próximo; e logo, a lua ascendente, despontando através das nuvens rolantes, mostrou um cavaleiro galopando ao longo da estrada branca, seu manto ondulando atrás dele. E reconheci a figura esbelta e o gorro emplumado de Etienne Villiers.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2) Como uma Amante do Rei se Ajoelhou Para Mim&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELE PAROU diante da cruz, e praguejou entre dentes, falando em voz suavemente alta, como de costume:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito cedo; faltam horas. Bem, eu a esperarei aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não precisará esperar muito. – eu disse, saindo das sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele girou em sua sela, pistola na mão, e logo riu e desmontou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Saint Denis, Agnes. – ele disse – Eu não deveria me surpreender em lhe encontrar em qualquer lugar, a qualquer hora. O que, um cavalo? E não é um cavalo esquelético! E um belo manto novo! Por Satã, amiga, você teve sorte... foram os dados ou a espada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A espada. – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas por que chegou aqui tão cedo? – ele perguntou – O que isto pressagia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que Renault d’Valence não está longe de nós. – respondi e ouvi sua respiração sibilar entre dentes, e vi sua mão se fechar novamente ao redor da coronha da pistola. Então, eu o contei rapidamente o que havia acontecido e ele balançou a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Diabo tome conta dele. – ele murmurou – Renault é duro de matar. Mas ouça: tenho uma história estranha para contar e, até que eu a termine, este lugar é tão bom quanto outro. Aqui podemos olhar e ouvir, e a morte não pode deslizar sobre nós por trás de portas fechadas e através de corredores secretos. E, quando minha história for contada, devemos chegar a um acordo sobre nosso próximo ato, pois não podemos mais contar com Roger Hawksly.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ouça: noite passada, logo ao erguer da lua, eu me aproximei de uma pequena baía isolada, na qual eu sabia que o inglês havia ancorado. Nós, velhacos, temos meios de conhecer segredos, como você sabe, Agnes. A costa nos arredores é acidentada, com penhascos, promontórios e enseadas. A baía em questão é cercada por árvores, que crescem sob inclinações acidentadas até a própria beira da água. Andei furtivamente através delas, e vi o navio. O Amigo Resoluto estava realmente ancorado, e todos a sua bordo estavam aparentemente em sono embriagado. Esses piratas são tolos, especialmente o inglês, que mantém baixa vigilância. Eu podia ver homens estirados no convés, com barris quebrados perto deles, e julguei que aqueles que deveriam estar de vigia haviam se embriagado até ficarem indefesos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, enquanto eu ponderava se os chamava ou se nadava até o navio, ouvi o som abafado de remos e vi três lanchas darem a volta no promontório e se precipitarem sobre o navio silencioso. Os botes estavam apinhados de homens, e eu vi o brilho de aço ao luar. Sem serem vistos pelos piratas adormecidos, eles pararam ao lado do navio, e eu não sabia se gritava ou ficava quieto, pois achei que pudesse ser Roger e seus homens retornando de algum ataque-surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao luar, eu os vi subirem aos montes pelas correntes do navio: ingleses, sem dúvida, vestidos com roupas de marinheiros comuns. Então, enquanto eu os olhava, um dos bêbados no convés acordou, ficou boquiaberto e logo se ergueu subitamente, cambaleando e gritando um aviso. De dentro do porão e da cabine, saíram correndo Roger Hawksly e seus homens em suas camisas, meio adormecidos, agarrando espantados suas armas; e, sobre o parapeito, se aglomeravam aqueles recém-chegados, que caíam sobre os piratas de espada na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi mais um massacre do que uma luta. Os piratas, meio adormecidos e evidentemente meio bêbados também, foram quase todos mortos. Vi seus corpos lançados ao mar. Uma minoria mergulhou na água e nadou até a praia, mas a maioria morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, os vitoriosos içaram âncora e alguns deles, retornando para os botes, rebocaram o Amigo Resoluto para fora da enseada e, olhando de onde eu estava, logo o vi estender suas velas e sair ao mar. Em seguida, outro navio deu a volta no promontório e o seguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada sei dos sobreviventes da tripulação pirata, pois eles fugiram para dentro da floresta e desapareceram. Mas Roger Hawksly não é mais dono de um navio e, se ele vive ou morreu, eu não sei, mas temos de encontrar outro homem que nos leve até a Itália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas há um mistério nisso: alguns dos ingleses que se apossaram do Amigo Resoluto não eram mais do que marinheiros rudes. Mas outros não eram. Eu entendo Inglês; reconheço uma voz de alta linhagem quando a ouço, e calças de alcatrão nem sempre conseguem esconder uma classe social elevada de um olho agudo. A lua estava brilhante como o dia. Agnes, aqueles marujos eram liderados por nobres disfarçados em roupas comuns”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por quê? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim; por quê? É fácil ver como o truque foi feito. Eles navegaram até o promontório, onde ancoraram fora da vista da enseada, e mandaram homens em botes para tomarem a presa deles. Mas por que correr tal risco? A sorte estava de um lado; do contrário, Hawksly e seus lobos-do-mar estariam sóbrios e alertas, e os teriam expulsado da água quando chegassem. Mas há também outra explicação: discrição. Isto também explica os nobres em camisas e calças de marujos. Por algum motivo, alguém desejava destruir os piratas rápida, silenciosa e secretamente. Qual o motivo para isso, eu não sei, vez que Hawksly era um homem odiado tanto por franceses quanto ingleses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, quanto a isso... Ouça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estrada, da direção leste, soava o bater de cascos em corrida. Nuvens haviam rolado novamente sobre a lua, e estava escuro como Érebo (*).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- D’Valence! – sibilei – Ele está me seguindo... e sozinho. Dê-me uma pistola! Ele não vai escapar desta vez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É melhor termos certeza de que ele está só. – advertiu Etienne, enquanto me entregava uma pistola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está só. – rosnei – É apenas um cavaleiro... mas, se o próprio Diabo cavalgasse com ele... há!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma forma veloz avultava na noite; naquele instante, um único raio de lua atravessou as nuvens e iluminou fracamente o cavalo galopante e seu cavaleiro. E atirei à queima-roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande cavalo empinou e caiu de ponta-cabeça, e um grito lastimoso cortou a noite. Foi ecoado por Etienne. Ele havia visto, assim como eu, no clarão do tiro, uma mulher se agarrando às rédeas do cavalo que corria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corremos para a frente, vendo uma figura esguia se mover no chão ao lado do cavalo – uma figura que se ajoelhava e erguia indefesa os braços, choramingando de medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está ferida? – ofegou Etienne – Meu Deus, Agnes, você matou uma mulher...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acertei o cavalo. – respondi – Ele ergueu a cabeça no momento em que atirei. Aqui, deixe-me cuidar dela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curvando-me sobre ela, eu lhe ergui o rosto, um pálido oval na escuridão. Sob meus dedos calejados, suas roupas e pele pareciam suaves e maravilhosamente finas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está gravemente ferida, moça? – indaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ao som de minha voz, ela soltou um grito ofegante e lançou seus braços ao redor de meus joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, você também é uma mulher! Tenha piedade! Não me machuque! Por favor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pare de choramingar, rapariga! – ordenei impacientemente – Não há nada para lhe ferir. Seus ossos estão quebrados por causa da queda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, eu só estou machucada e abalada. Mas... oh, meu pobre cavalo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu lamento. – murmurei – Não mato animais voluntariamente. Eu estava apontando para seu montador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas por que você me mataria? – ela chorou – Não lhe conheço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou Agnes de Chastillon – respondi –, a quem alguns homens chamam Agnes, a Escura de La Fere. Quem é você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a havia erguido de pé e soltado, e agora, enquanto ela se erguia diante de nós, a lua irrompeu subitamente das nuvens e inundou a estrada com luz prateada. Olhei maravilhada para as vestes de nossa cativa e para a beleza de seu rosto oval, emoldurado numa glória de cabelo que parecia espuma escura; seus olhos escuros brilhavam como jóias negras ao luar. E um grito estrangulado veio de Etienne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha senhora! – Ele tirou o gorro emplumado e se ajoelhou – Ajoelhe-se, Agnes; ajoelhe, garota! É Françoise de Foix!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que uma mulher honesta iria se ajoelhar para uma rameira real? – indaguei, enfiando meus polegares em meu cinto, e abrindo e firmando minhas pernas enquanto a encarava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Etienne ficou subitamente mudo, e a jovem parecia se encolher diante de minha sinceridade camponesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levante-se, eu lhe imploro. – ela disse humildemente a Etienne, e ele o fez, de gorro na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas isto foi imprudente demais, minha senhora. – ele disse – Ter vindo sozinha e à noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! – ela gritou subitamente, agarrando as têmporas, como se lembrada de sua missão – Agora mesmo, eles devem estar matando-o. Oh, senhor, se você for um homem, ajude-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela agarrou Etienne pelo gibão e o sacudiu, na angústia de sua insistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escute! – ela suplicou, embora Etienne fosse todo ouvidos – Vim aqui esta noite, sozinha como você vê, para tentar consertar um erro e salvar uma vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você me conhece como Françoise de Foix, a amante do rei...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu já lhe vi na corte, onde eu nunca fui sempre um estranho. – disse Etienne, falando com uma estranha dificuldade – Eu lhe conheço como a mais bela mulher de toda a França.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu lhe agradeço, meu amigo. – ela disse, ainda se agarrando a ele – Mas o mundo vê pouco do que acontece por trás das portas do palácio. Dizem que eu manipulo o rei, Deus me ajude... mas eu juro que sou apenas um peão num jogo que não conheço... a escrava de uma vontade maior que a de Francis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Louise de Savoy. – murmurou Etienne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, a qual, através de mim, governa o filho dela e, através dele, toda a França. Foi ela quem fez de mim o que sou. Do contrário, eu seria, não a amante de um rei, mas a esposa honesta de algum homem honesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ouça, meu amigo; oh, ouça e acredite em mim! Esta noite, um homem está cavalgando em direção à costa e à morte! E a carta que o atraiu para lá foi escrita por mim! Oh, sou uma coisa detestável, para servir deste modo a alguém que... que me ama...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas não sou dona de minha própria vontade. Sou a escrava de Louise de Savoy. O que ela me ordena fazer, ou eu faço ou pago por isso. Ela me domina, e eu não ouso me opor a ela. Esse... esse homem estava em Alencon, quando recebeu a carta suplicando a ele que me encontrasse numa certa taverna próxima à costa. Ele só foi por minha causa, pois ele conhece seus poderosos inimigos. Mas ele confia em mim... oh, Deus tenha piedade de mim!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela soluçou histericamente por um instante, enquanto eu assistia surpresa, pois eu jamais conseguiria chorar em toda a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É uma conspiração de Louise. – ela disse – Ela outrora amou este homem, mas ele a desprezou, e ela planeja a ruína dele. Ela já o despojou de títulos e honra; agora, ela o quer despojar da própria vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na taverna do Falcão, ele será encontrado, não pela minha miserável pessoa, mas por um bando de sicários pagos, os quais lhe matarão os servos, o levarão prisioneiro e entregarão ao pirata Roger Hawksly, o qual foi bem pago para se livrar dele para sempre”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que tanto planejamento e trabalho elaborado? – indaguei – Certamente, uma adaga nas costas também poria fim à tarefa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem mesmo Louise ousa ser tão aberta. – ela respondeu – O... o homem é muito poderoso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só existe um homem na França, a quem Louise odeia tão ferozmente. – disse Etienne, olhando fundo nos olhos de Françoise. Ela curvou a cabeça, e depois a ergueu e devolveu o olhar com seus brilhantes olhos escuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim! – ela falou de forma simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um golpe para a França – murmurou Etienne –, se ele falhasse... mas, minha senhora: Roger Hawksly não estará lá para recebê-lo. – E ele contou rapidamente o que havia visto na costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então os sicários irão matá-lo pessoalmente. – ela disse com um estremecimento – Eles jamais ousarão deixá-lo partir. São liderados por Jehan, o braço-direito de Louise...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E por Renault d’Valence. – murmurou Etienne – Agora vejo tudo; você esteve com aquele bando, Agnes. Eu me pergunto se d’Alencon sabe da conspiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. – respondeu Françoise – Mas Louise planeja alçá-lo ao mesmo posto de sua vítima; por isso, usa seu homem de maior confiança, Renault d’Valence, para seus planos. Mas, oh, estamos perdendo tempo! Por favor, não vão me ajudar? Cavalguem comigo até a taverna do Falcão. Talvez possamos resgatá-lo... talvez possamos alcançá-lo a tempo de afastá-lo dali antes que eles cheguem. Eu saí às escondidas, e cavalguei a noite inteira a toda velocidade... por favor; ajude-me, por favor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Françoise de Foix nunca precisou pedir duas vezes para Etienne Villiers. – disse Etienne, naquela estranha voz não-natural, erguendo-se ao luar, gorro na mão. Talvez fosse a lua, mas havia uma estranha expressão em seu rosto, suavizando as linhas de sarcasmo e vida selvagem, e fazendo-o parecer outro homem, mais nobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você, &lt;em&gt;mademoiselle&lt;/em&gt;! – A beldade da corte se voltou para mim, com seus braços estendidos – Você não quer se ajoelhar para mim, Agnes Escura. Veja; eu me ajoelho para você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim ela o fez – ajoelhada no pó, suas mãos brancas entrelaçadas e seus olhos escuros brilhando com lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levante-se, garota. – eu disse constrangida, envergonhada por algum motivo indistinto – Não se ajoelhe para mim. Farei tudo o que puder. Nada sei de intrigas da corte, e o que você me contou zumbe em minha cabeça até me deixar tonta, mas o que pudermos fazer, faremos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um soluço, ela se levantou, lançou seus braços macios ao redor do meu pescoço e me beijou nos lábios, me deixando mais envergonhado ainda. Era a primeira vez em que eu me lembrava de qualquer pessoa me beijando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha. – eu disse asperamente – Estamos perdendo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Etienne ergueu a jovem até a sela de seu cavalo e montou atrás dela, e eu montei o grande cavalo negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que planeja? – ele me perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho planos. Seremos guiados pelas circunstâncias que nos confrontam. Cavalgaremos o mais rápido possível para a Taverna do Falcão. Se Renault perdeu muito tempo procurando por mim... como, sem dúvida, fez... ele e seus sicários podem ainda não terem alcançado a taverna. Se eles alcançaram... bem, nós somos apenas duas espadas, mas podemos fazer nosso melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, me pus a recarregar a pistola que eu havia tomado de Etienne, e era uma tarefa tediosa, na escuridão e trabalhando duro. Assim, não sei qual a conversa que houve entre Etienne e Françoise de Foix, mas o murmúrio de suas vozes me alcançava de tempos em tempos, e na voz dele havia uma suavidade desconhecida – estranha num velhaco como Etienne Villiers.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, nós finalmente alcançamos a taverna do Falcão, a qual avultava rígida contra a noite, escura exceto por uma única lanterna na sala principal. O silêncio reinava completamente, e havia o cheiro de sangue recém-derramado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estrada diante da taverna, jazia um homem em farda de criado, seu rosto branco encarando as estrelas e salpicado de sangue. Próxima à porta, jazia uma forma num manto negro; e os fragmentos de uma máscara negra, encharcada de sangue, jaziam ao lado dela, assim como um chapéu emplumado. Mas as feições do homem não passavam de uma máscara horrível de carne cortada, retalhada e irreconhecível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo dentro da porta, jazia outro criado, seus miolos escorrendo da cabeça esmagada e um cabo quebrado de espada ainda agarrado por sua mão. O interior da taverna era uma desolação de bancos quebrados e mesas esmagadas, com grandes gotas de sangue sujando o chão. Um terceiro criado jazia contorcido no canto, seu gibão ensangüentado mostrando uma dúzia de furos de espada. Sobre tudo, o silêncio pairava como uma mortalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Françoise caíra com um gemido, ao ver o horror de tudo aquilo, e agora Etienne meio a guiava, meio a carregava nos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Renault e seus degoladores estiveram aqui. – ele disse – Eles pegaram sua presa e partiram. Mas para onde? Todos os servos teriam fugido aterrorizados, não retornando até o amanhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, perscrutando aqui e ali, de espada na mão, vi algo escondido sob um banco derrubado e, puxando-o para fora, descobri uma aterrorizada serva jovem, a qual caiu de joelhos e gritou por misericórdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pare com isso, rapariga. – eu disse impacientemente – Ninguém lhe fará mal. Mas diga logo o que aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os homens mascarados. – ela choramingou – Eles entraram subitamente pela porta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não ouviu os cavalos deles? – indagou Etienne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Renault iria avisar sua vítima? – perguntei impacientemente – Sem dúvida, deixaram suas montarias a pouca distância daqui e vieram silenciosamente a pé. Prossiga, garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Atacaram o cavaleiro e seus servos. – ela chorou ruidosamente – O cavalheiro que havia chegado ao início desta noite e que se sentou silenciosamente para beber seu vinho, e parecia em dúvida e reflexão. Quando os mascarados entraram, ele se ergueu de um pulo e gritou que foi traído...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! – Era um grito de tormento de Françoise de Foix. Ela apertou as mãos e se torceu, como se agonizasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, houve luta, matança e morte. – lamentou a criada – Mataram os servos do cavalheiro, e o amarraram e levaram...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi ele quem desfigurou o sicário que jaz do lado externo da porta? – indaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não; ele o matou com uma bala de pistola. O líder dos mascarados, o homem alto que usava uma camisa de cota-de-malha sob seu gibão... ele despedaçou o rosto do morto com a espada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. – murmurei – D’Valence não desejaria deixá-lo ser identificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E este mesmo homem, antes de partir, enfiou a espada em cada um dos servos moribundos, para ter certeza de que estavam mortos. – ela soluçou aterrorizada – Eu me escondi sob o banco e assisti, pois estava aterrorizada demais para correr, como fez o dono da taverna e os outros criados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para qual direção eles foram? – exigi, sacudindo a desventurada garota em minha intensidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por... por ali! – ela arfou, apontando – Pela velha estrada até a costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você, por acaso, ouviu algo que possa dar uma pista sobre o destino deles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não... não... eles falaram pouco, e eu estava muito assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelos cascos do diabo, garota! – exclamei furiosa – Tal trabalho nunca é feito em silêncio. Pense melhor... lembre-se de algo que disseram, antes que eu lhe deite em meus joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tudo o que me lembro – ela ofegou – é o que o líder alto disse ao pobre cavalheiro, quando o amarraram... tirando seu elmo numa majestosa reverência: “Meu senhor”, ele disse, zombeteiro, “seu navio lhe aguarda!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles certamente queriam colocá-lo a bordo do navio. – exclamou Etienne – E o lugar mais próximo para o desembarque de um navio é a Enseada do Corsário! Eles não devem estar muito longe de nós. Se eles seguiram a velha estrada... como certamente fariam, sem conhecerem a região como eu... isso tirará deles meia hora a mais para alcançarem a cova do que de nós, seguindo um atalho que conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então vamos! – gritou Françoise, novamente reanimada pela esperança de ação. E, poucos momentos depois, cavalgávamos pelas sombras em direção à costa. Seguíamos uma trilha indistinta, cuja entrada era oculta por densas moitas e que serpenteava por uma aresta rochosa, descendo para o mar entre matacões e árvores retorcidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, chegamos a uma enseada, cercada por inclinações ásperas e densamente arborizada; e, através das árvores, vimos o lampejo de água e o tremeluzir da lua furtiva em velas largas. E, deixando nossos cavalos – e Françoise com eles – engatinhamos para a frente, Etienne e eu, e logo vimos uma praia aberta, iluminada pela lua, a qual, àquela hora, brilhava através das nuvens encaracoladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob as sombras das árvores, havia um grupo de silhuetas negras e sombrias e, para fora de um bote, recém-puxado para a praia (ainda podíamos ver a espuma flutuando na água que remoinhara em seu rastro), se movia uns 20 homens em roupa de marujo. Mais distante no mar, havia um navio com o luar brilhando em seu acabamento dourado. Etienne praguejou em voz baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lá está o Amigo Resoluto, mas aquela não é sua tripulação. Eles são comida para os peixes. Esses são os homens que o tomaram. Que jogo do diabo é esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vimos um homem sendo empurrado para a frente pelos sicários mascarados – um homem alto e bem-formado, que, mesmo com a camisa rasgada e manchado de sangue, e com os braços amarrados para trás, tinha o porte de um líder entre homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Saint Denis. – cochichou Etienne – É ele mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem? – eu indaguei – Quem é esse sujeito para cujo resgate arriscaremos nossas vidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Charles... – ele começou, e logo se interrompeu: – Ouça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos nos retorcido para mais perto, e a voz de Renault d’Valence chegou claramente até nós:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não foi esse o acordo. Eu não lhe conheço. Deixe que Roger Hawksly, seu capitão, desembarque. Quero ter certeza de que ele conhece as instruções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Capitão Hawksly não pode ser incomodado. – respondeu um dos marinheiros em Francês com sotaque; era um homem alto, com porte orgulhoso – Não precisa temer; lá, é o Amigo Resoluto; aqui, os valentões de Hawksly. Você nos deu o prisioneiro. Nós o levaremos a bordo e zarparemos. Você fez sua parte; agora, faremos a nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu arregalava os olhos em fascinação, por nunca antes ter visto ingleses. Aqueles eram todos homens altos e robustos, com espadas grandes afiveladas em seus quadris, e aço brilhando sob seus gibões. Eu nunca tinha visto tais marinheiros de aparência orgulhosa, nem marujos tão bem-armados. Eles haviam capturado o homem a quem Etienne chamara de Charles, e o arrastavam até o bote – aquele trabalho parecia ser supervisionado por um homem corpulento num manto vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim – disse Renault –; o Amigo Resoluto fica lá. Eu o conheço bem; do contrário, eu jamais entregaria meu prisioneiro a você. Mas não lhe conheço. Chame o Capitão Hawksly, ou traga meu prisioneiro de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chega! – o outro exclamou arrogantemente – Já disse que Hawksly não pode vir. Você não me conhece...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas d’Valence, que ficara escutando atentamente a voz do outro, gritou aguda e ferozmente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, por Deus, acho que lhe conheço, meu senhor! – E, arrancando a touca de marinheiro que o homem usava, ele viu um gorro de aço por baixo, sobre um orgulhoso rosto aquilino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então! – exclamou d’Valence – Você queria pegar meu prisioneiro, mas não para matá-lo, e sim para usá-lo como um porrete sobre a cabeça de Francis! Eu posso ser um patife, mas trair o meu rei... jamais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, agarrando uma pistola, ele atirou a queima-roupa, não no lorde, mas no prisioneiro Charles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o inglês lhe empurrou o braço para cima, e a bala foi desviada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No instante seguinte, tudo era tumulto e confusão, quando os sicários de Renault entraram correndo em resposta aos seus tiros, e os ingleses os enfrentaram corpo-a-corpo. Vi as lâminas brilharem e relampejarem ao luar, enquanto Renault e o lorde inglês lutavam, e subitamente a espada de Renault estava tingida de vermelho e o inglês estava caído, expirando sua vida sobre a areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eu via que os homens que haviam arrastado o prisioneiro Charles haviam corrido para dentro do conflito, deixando-o nas mãos do homem corpulento em manto vermelho, que o arrastava, apesar dele se debater, em direção ao bote que fora trazido à praia. Agora eu ouvia o ruído de toletes e, olhando em direção ao navio, vi outros três botes se dirigirem à praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, enquanto olhava, eu sussurrei para Etienne e saímos do esconderijo, correndo silenciosamente através da extensão de areia branca, em direção ao par que se debatia perto da praia. Por todo o nosso redor rugia a luta, enquanto os sicários – superados numericamente, porém perigosos como lobos – retalhavam, desviavam golpes e estocavam junto com os indiferentes ingleses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entramos na luta, os ingleses correram em direção a cada um de nós. Etienne atirou e errou – pois o luar é ilusório –, e, no momento seguinte, estava lutando espada a espada. Não atirei antes que a boca de minha pistola quase tocasse o peito de meu inimigo e, quando puxei o gatilho, a pesada bala lhe atravessou a cota-de-malha sob o gibão como se fosse papel, e a espada erguida caiu inofensiva sobre a areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais algumas passadas me levaram a Charles e seu captor, mas, enquanto eu os alcançava, alguém ficou diante de mim. Enquanto homens lutavam, matavam e praguejavam loucamente, d’Valence nunca perdia a visão de seu objetivo. Percebendo que não conseguiria recapturar seu prisioneiro, ele estava disposto a matá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ele havia aberto seu caminho através da briga, e corria com propósitos sombrios através das areias, sua espada gotejante na mão. Correndo em direção ao prisioneiro, ele deu um talho assassino em direção à sua cabeça desprotegida. O golpe foi detido desajeitadamente pelo homem corpulento de manto vermelho, que começou a berrar por ajuda, numa voz ofegante e com pouco fôlego, a qual não foi notada na gritaria da confusão. Ele havia detido tão inadequadamente, que a espada lhe foi arrancada da mão. Mas, antes que d’Valence pudesse golpear de novo, eu me aproximei silenciosa e rapidamente pelo lado, e estoquei em sua direção com toda a minha força, visando lhe furar o pescoço acima da armadura. Mas a sorte me traiu novamente: meu pé escorregou na areia, e a ponta da espada lhe raspou inofensivamente a malha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instantaneamente, ele se virou e me reconheceu. Havia perdido sua máscara, e seus olhos dançavam com uma espécie de loucura indiferente, sob o luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Deus! – ele gritou, com uma risada feroz – É a vadia espadachim ruiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto falava, ele detia minha lâmina sibilante e, sem mais palavras, nos colocamos a trabalhar, girando e estocando. Ele tirou sangue da minha mão da espada e de minha coxa, mas eu o golpeei com tal fúria que minha lâmina lhe atravessou o morion e o couro cabeludo sob este, de modo que o sangue lhe brotou sob a borguinhota e lhe escorreu pelo rosto. Outro golpe como esse teria dado fim a ele, mas ele, olhando rapidamente para o lado, viu que a maioria de seus sicários estava morta, e ele numa situação desesperadora. Assim, com outra risada selvagem, ele pulou para trás, saltou para o lado; abriu seu caminho através de quem tentasse matá-lo, com meia dúzia de golpes fracassados, e, escapado de um salto, ele desapareceu dentro das sombras, das quais logo emergiu o ruído de um cavalo correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, eu corria até o prisioneiro, cujo braço o homem corpulento em vermelho ainda agarrava, ofegando e arfando, e, cortando as cordas que lhe amarravam o braço, eu o empurrei em direção à floresta. Mas fui tão férrea que meu empurrão foi mais forte do que eu pretendia, e o deixei estatelado de quatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de manto vermelho guinchou selvagemente e saltou para agarrar novamente seu prisioneiro, mas eu o pus de lado com uma bofetada e, erguendo Charles, eu o mandei correr. Mas ele parecia meio atordoado por um golpe ao acaso da parte plana de uma lâmina na cabeça. Mas agora Etienne, com a espada gotejando vermelho, correu para diante e, agarrando o braço do prisioneiro, o apressou em direção à floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o homem de manto vermelho, evidentemente desesperado, recorreu às táticas de d’Valence, pois, erguendo sua espada, ele correu até as costas de Charles e deu um talho em sua direção. Mas, enquanto ele o fazia, eu o golpeei sob a axila com tal força que ele rolou na areia, gritando como um porco atravessado. Agora, vários dos ingleses paravam em suas corridas à minha direção, gritavam de horror e corriam para erguer o sujeito; pois alguns dos anéis de seu colete de malha haviam se partido sob minha lâmina, e ele havia sido levemente ferido, de modo que o sangue lhe escorria do gibão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles gritaram um nome que soou como “Wolsey”, e interromperam sua perseguição para levantá-lo e cuidar de seu ferimento, enquanto ele os xingava. E eu e Etienne carregamos o homem resgatado, entre nós dois, para dentro da floresta e para os cavalos onde Françoise nos aguardava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se erguia como uma sombra branca sob as árvores mosqueadas pela lua e, quando ele a viu, recuou com uma exclamação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, Charles – ela exclamou –; tenha piedade! Não tive escolha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Confiei em você mais do que nos outros. – ele disse, mais triste do que com raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Senhor Duque de Bourbon – disse Etienne, tocando-lhe o ombro –; é meu privilégio lhe contar que qualquer erro cometido foi consertado esta noite tão bem quanto possível. Se Françoise de Foix lhe traiu, ela arriscou a vida para lhe resgatar. Agora eu lhes imploro: peguem estes cavalos e montem, pois ninguém sabe qual pode ser o próximo acontecimento. Era o Cardeal Wolsey quem liderava aqueles homens, e ele não é fácil de ser derrotado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um homem num sonho, o Duque de Bourbon montou, e Etienne ergueu Françoise de Foix até a outra sela. Eles se afastaram a galope, cavalgaram através do luar e então desapareceram. E eu me virei para Etienne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem – eu disse –, com todo o nosso cavalheirismo, estamos aqui de volta a onde começamos, sem dinheiro nem meios de alcançar a Itália; e mais, você ainda se desfez de seu cavalo! Qual será a nossa próxima aventura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tive Françoise de Foix em meus braços. – ele respondeu – Depois disso, qualquer aventura não passa de anticlímax para Etienne Villiers.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FIM&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;(*) – Érebo:&lt;/strong&gt; Morada provisória dos mortos, na mitologia grega (Nota do Tradutor).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Digitação:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão e Edilene Brito da Cruz de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://www.vb-tech.co.za/ebooks/Howard%20Robert%20E%20-%20Blades%20For%20France%20-%20FF.txt"&gt;http://www.vb-tech.co.za/ebooks/Howard%20Robert%20E%20-%20Blades%20For%20France%20-%20FF.txt&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. 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Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Originalmente publicado em &lt;em&gt;Weird Tales&lt;/em&gt;, abril de 1926.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medo? Perdão, senhores, mas vocês não sabem o que significa medo. Não, eu mantenho minha afirmação. Vocês são soldados e aventureiros. Conheceram o ataque de regimentos de soldados de cavalaria, o frenesi de mares açoitados pelo vento. Mas medo, o verdadeiro arrepiar de cabelos, o medo que arrepia de horror, vocês não conheceram. Eu próprio já conheci tal medo; mas, até as legiões da escuridão rodopiarem do portão do Inferno e o mundo se incendiar em ruínas, tal medo nunca será conhecido pelos homens:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutem, eu lhes contarei a história; foi há muitos anos atrás e a meio mundo daqui; e nenhum de vocês verá o homem de quem falo, nem saberá se o ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retornem, então, comigo, pelos anos, até um dia quando eu, um jovem cavaleiro imprudente, saí do pequeno bote que havia me desembarcado desde o navio que flutuava no porto, amaldiçoei a lama que cobria o desembarcadouro tosco, e caminhei pelo cais em direção ao castelo, em resposta ao convite de um velho amigo, Dom Vincente da Lusto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dom Vicente era um homem estranho e sagaz – um homem forte, que tinha visões além do alcance de sua época. Em suas veias talvez corresse o sangue daqueles antigos fenícios que, dizem-nos os sacerdotes, governaram os mares e construíram cidades em terras distantes nas eras indistintas. Seu plano de fortuna era estranho, mas bem-sucedido; poucos homens pensariam nisso, e menos ainda teriam sucesso. Pois seu poder ficava sobre a costa oeste daquele continente escuro e místico, aquela frustradora de exploradores: África.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, ele havia aberto uma pequena baía na selva sombria, e com mão impiedosa ele havia arrebatado as riquezas da terra. Ele tinha quatro navios: três embarcações menores e um grande galeão. Estes trabalhavam entre seus domínios e as cidades da Espanha, Portugal, França e até mesmo Inglaterra, carregadas com madeiras raras, marfim e escravos; as mil riquezas estranhas que Dom Vincente havia ganhado através do comércio e da conquista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, um empreendedor feroz e um comerciante mais feroz ainda. E, embora ele tenha formado um império na terra escura, não havia sido para o cara-de-rato Carlos, seu sobrinho – mas seguirei adiante em minha história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejam, senhores, eu desenho um mapa sobre a mesa, portanto, com o dedo mergulhado em vinho. Aqui fica o pequeno porto raso; e aqui, os largos desembarcadouros a ambos os lados. Um patamar de escada segue, deste modo, para cima da leve inclinação, com armazéns semelhantes a cabanas em cada lado, e aqui ele pára numa vala larga e rasa. Sobre ela se erguia uma estreita ponte levadiça, e logo alguém ficava de frente a uma alta paliçada de troncos de árvores situada no chão. Esta se estendia inteiramente ao redor do castelo. O próprio castelo era construído no modelo de outra época, mais antiga, tendo mais força do que beleza. Feito de pedra trazida de certa distância, anos de labor e mil negros, labutando sob o chicote, ergueram seus muros; e agora, ele oferecia completamente uma aparência quase inexpugnável. Era esta a intenção dos construtores, pois piratas berberes percorriam as costas, e o horror de uma revolta nativa sempre se escondia por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um espaço de 800 metros a cada lado do castelo era mantido limpo, e estradas haviam sido construídas através da terra pantanosa. Tudo isto havia exigido uma imensa quantidade de trabalho, mas a força de trabalho era abundante. Um presente para seu chefe, e ele forneceu tudo o que era necessário. E portugueses sabem como fazer homens trabalharem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menos de trezentos metros a leste do castelo, corria um rio largo e raso, o qual desembocava no porto. O nome havia arrebentado minha mente. Era um título bárbaro e pagão, e eu nunca conseguia usar minha língua para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que eu fosse o único amigo convidado para o castelo. Parece que, uma vez ao ano ou algo assim, Dom Vincente trazia uma multidão de companheiros joviais à sua propriedade e se divertia por algumas semanas, para compensar o trabalho e solidão do resto do ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, era quase noite e um grande banquete estava em andamento quando entrei. Fui aclamado com grande deleite, cumprimentado ruidosamente por amigos e apresentado a alguns desconhecidos que estavam lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansado demais para participar muito da festança, comi e bebi em silêncio, ouvi os brindes e músicas, e examinei aqueles que festejavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dom Vincente, é claro, eu conhecia, pois eu havia sido seu amigo e confidente durante anos; também conhecia sua linda sobrinha Ysabel, a qual foi uma razão para que eu aceitasse seu convite para ir até aquela selva malcheirosa. Seu primo-segundo, Carlos, eu conhecia e não gostava – um sujeito ardiloso e afetado, com cara de marta. Então, lá estava meu velho amigo, Luigi Verenza, um italiano, e sua irmã namoradora, Marcita, flertando com os homens, como sempre. Havia um germano baixo e forte, que se chamava Barão Von Scluller; Jean Desmarte, um nobre esfarrapado da Gasconha; e Don Florenzo de Sevilha – um homem magro, moreno e silencioso, o qual chamava a si mesmo de espanhol e usava uma espada fina e reta, quase tão longa quanto ele próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia outros homens e mulheres, mas foi há muito tempo, e não me lembro de todos os seus nomes e rostos. Mas havia um homem cujo rosto, de alguma forma, atraiu meu olhar tanto quanto o ímã de um alquimista atrai aço. Era um homem de constituição esguia e altura pouco mais que mediana, vestido de forma simples, quase austera, e usava uma espada quase tão longa quanto a do espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foram suas roupas nem sua espada que me atraíram a atenção. Foi o seu rosto. Uma face refinada, de alta educação, era sulcada profundamente com linhas que lhe davam uma expressão cansada e macilenta. Pequenas cicatrizes lhe salpicavam o maxilar e testa, como se rasgadas por garras selvagens; eu poderia jurar que os estreitos olhos cinzas tinham, às vezes, um olhar fugaz e assombrado em sua expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curvei-me sobre aquela namoradeira, Marcita, e perguntei o nome do homem, como se me incomodasse em sermos apresentados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De Montour, da Normandia. – ela respondeu – Um homem estranho. Não acho que gosto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele resiste, então, aos seus ardis, minha pequena encantadora? – murmurei; a longa amizade me tornara imune, tanto à sua fúria quanto aos seus ardis. Mas ela preferiu não ficar furiosa, e responde recatadamente, olhando sob cílios pudicamente abaixados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhava muito para De Montour, sentido de alguma forma uma estranha fascinação. Ele comia pouco, bebia muito e raramente falava – apenas para responder perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, enquanto brindes eram feitos, percebi seus companheiros insistindo para que ele se levantasse e brindasse. Inicialmente ele recusou, mas depois se levantou sob suas repetidas insistências e ficou calado por um momento, com o copo de vinho erguido. Ele parecia dominar e intimidar o grupo de convidados. Então, com uma risada zombeteira e feroz, ele ergueu o copo de vinho acima da cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para Salomão – ele exclamou –, que prendeu todos os demônios! E três vezes maldito seja ele, por alguns que escaparam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um brinde e uma maldição ao mesmo tempo! Bebeu-se em silêncio e com muitos olhares atravessados e duvidosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, eu me recolhi mais cedo, cansado da longa viagem marítima e com minha cabeça girando devido ao vinho forte – do qual Dom Vincente tinha grandes estoques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu quarto era próximo ao topo do castelo, e dava vista para as florestas do sul e o rio. O quarto era mobiliado com esplendor tosco e bárbaro, como todo o restante do castelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indo para a janela, olhei para o soldado, armado com arcabuz, marchando pela área do castelo, logo dentro da paliçada; para o espaço desmatado que estava disforme e árido ao luar; para a floresta além; para o rio silencioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do bairro dos nativos, próximo à margem do rio, veio o estranho som agudo e vibrante de algum alaúde tosco, soando uma melodia bárbara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas sombras escuras da floresta, algum misterioso pássaro noturno erguia uma voz zombeteira. Mil pássaros em tons menores, feras e sabe o diabo o que mais! Um grande felino selvagem começava a dar uivos de arrepiar. Encolhi os ombros e me afastei da janela. Certamente, demônios se escondiam naquelas profundezas sombrias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém bateu à minha porta, e eu a abri para receber De Montour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele andou a passos largos até a janela e olhou para a lua, a qual se erguia resplandecente e gloriosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A lua está quase cheia, não, &lt;em&gt;Monsieur&lt;/em&gt;? – ele comentou, voltando-se para mim. Balancei a cabeça afirmativamente, e seria capaz de jurar que ele estremeceu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdão, &lt;em&gt;Monsieur&lt;/em&gt;. Não vou mais lhe importunar. – Ele deu a volta para se retirar, mas, ao chegar à porta, ele girou e voltou sobre os seus passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Monsieur&lt;/em&gt; – ele quase sussurrou, com intensidade feroz –; o que quer que faça, não deixe de barrar e trancar sua porta esta noite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, ele foi embora, deixando-me perplexo e com o olhar fixo nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui dormir, com os gritos distantes dos convidados em meus ouvidos, e, apesar de cansado – ou talvez por causa disso –, tive um sono leve. Embora eu só tenha acordado pela manhã, os sons e ruídos pareciam se arrastar até a mim, através do véu do meu sono; e parecia que, por um momento, algo estava espreitando e empurrando a porta trancada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era de se imaginar, a maioria dos convidados estava de péssimo humor no dia seguinte, e ficaram em seus quartos a manhã quase toda e só mais tarde desceram. Além de Dom Vincente, só havia mesmo três homens sóbrios: De Montour; o espanhol, de Sevilha (como ele chamava a si próprio), e eu mesmo. O espanhol não tocou no vinho e, embora De Montour houvesse consumido quantidades incríveis deste, o vinho não o afetou de forma alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As damas nos cumprimentaram da forma mais graciosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Verdade, &lt;em&gt;signor&lt;/em&gt;. – observou a sirigaita da Marcita, oferecendo-me a mão com ar gracioso, como que para me fazer dar pequenas risadas – Estou feliz em ver que há cavalheiros entre nós, que se importam mais com nossa companhia do que com a do copo de vinho; pois muitos deles estão surpreendentemente embriagados esta manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, com um escandaloso virar de seus olhos maravilhosos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece-me que alguém estava bêbado demais para ser discreto na noite passada... ou não estava bêbado o bastante. Pois, a menos que meus pobres sentidos estivessem me enganando demais, alguém ficou mexendo em minha porta durante a noite.&lt;br /&gt;- Há! – exclamei em raiva fugaz – Alg...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Silêncio. – Ela olhou ao redor para ver se estávamos sozinhos, e então: – Não é estranho que &lt;em&gt;Signor&lt;/em&gt; de Montour, antes de se recolher na noite passada, tenha me orientado a trancar firmemente minha porta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estranho. – murmurei, mas não contei a ela que ele havia me dito a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E não é estranho, Pierre, que, embora &lt;em&gt;Signor&lt;/em&gt; de Mountour tenha deixado o salão de banquetes antes mesmo de você, ele tenha a aparência de quem ficou acordado a noite toda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estremeci. A imaginação de uma mulher é quase sempre estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esta noite – ela disse de forma travessa –, deixarei minha porta destrancada e verei a quem pego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não faria tal coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela mostrou os dentes pequenos, num sorriso desdenhoso, e mostrou uma pequena e maldosa adaga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouça, diabinho. De Montour me deu o mesmo aviso que tinha dado a você. O que quer que ele soubesse, quem quer que rondasse os salões noite passada, estava mais apto a matar do que a aventuras amorosas. Deixe suas portas trancadas. A dama Ysabel divide seu quarto, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela não. E mando minha criada para o bairro dos escravos à noite. – ela murmurou, olhando maliciosamente para mim sob as pálpebras abaixadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguém acharia que você é uma jovem sem caráter, se ouvisse sua conversa. – eu disse a ela, com a franqueza da juventude e de uma longa amizade – Ande com cuidado, jovem dama, senão mando seu irmão lhe dar palmadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me afastei para apresentar meus respeitos a Ysabel. A jovem portuguesa era o exato oposto de Marcita – uma coisa tímida, modesta e jovem, não tão bela quanto a italiana, mas delicadamente linda num aspecto suplicante e quase infantil. Uma vez tive pensamentos... deixa pra lá! Coisas de um jovem tolo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdão, senhores. O pensamento de um homem velho devaneia. Era sobre De Montour que eu pretendia lhes falar – De Montour e o primo cara-de-marta de Dom Vincente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bando de nativos armados se aglomerava ao redor dos portões, mantidos à distância pelos soldados portugueses. Entre eles, havia uns 20 homens e mulheres totalmente nus, acorrentados pelos pescoços. Eram escravos, capturados por alguma tribo guerreira e trazidos para a venda. Dom Vincente os examinava pessoalmente. Seguiu-se uma longa discussão e permuta, da qual eu logo me cansei e saí dali, espantado por um homem da categoria de Dom Vincente se comportar de modo a se rebaixar a comercializar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu retornava, quando um dos nativos da aldeia vizinha interrompeu a venda com um longo discurso para Dom Vincente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eles conversavam, De Montour chegou e, logo depois, Dom Vincente se voltou para nós e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dos lenhadores da aldeia foi despedaçado por um leopardo, ou alguma fera do tipo, na noite passada. Um jovem forte e solteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um leopardo? Eles viram o animal? – De Montour perguntou subitamente e, quando Dom Vincente disse que não, que ele veio e partiu na noite, De Montour ergueu uma mão trêmula e passou-a pela testa, como se para limpar o suor frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja, Pierre. – disse Dom Vincente – Eu tenho aqui um escravo que, maravilha das maravilhas, quer ser seu criado. Só o diabo sabe por quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ergueu um esguio e jovem jakri, um mero rapaz, cujo principal valor parecia ser um sorriso alegre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é seu. – disse Dom Vincente – É bem-treinado e será um bom criado. E veja: um escravo é mais vantajoso que um criado, pois tudo o que precisa é de comida e uma tanga, ou algo do tipo, e o toque do chicote para mantê-lo no lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito tempo. Descobri por que Gola queria ser “meu criado”, me escolhendo entre todo o resto. Era por causa do meu cabelo. Como muitos janotas daquela época, eu o usava longo e cacheado, os fios caindo até meus ombros. Eu era o único homem da festa que usava meu cabelo assim, e Gola queria se sentar e olhá-lo em silenciosa admiração durante horas, ou até, eu ficando nervoso com seu exame sem piscar, expulsá-lo com um pontapé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi naquela noite que uma hostilidade latente e mal-aparente, entre o Barão Von Schiller e Jean Desmarte, brotou em chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sempre, a causa era uma mulher. Marcita levou adiante o mais escandaloso flerte com ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo não era sábio. Desmarte era um jovem feroz e tolo. Von Schiller era uma fera lasciva. Mas quando foi, senhores, que uma mulher usou de sabedoria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A raiva deles se inflamou numa fúria assassina, quando o germano tentou beijar Marcita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espadas colidiram num instante. Mas, antes que Dom Vincente pudesse gritar uma ordem para pararem, Luigi estava entre os combatentes e lhes derrubou as espadas, lançando-os maldosamente para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Signori&lt;/em&gt; – ele disse suavemente, mas com uma intensidade feroz –, é função de senhores de alta educação lutarem por minha irmã? Há, pelas unhas dos pés de Satã, se me lançassem uma moeda, eu desafiaria vocês dois! Você, Marcita, vá para seu quarto imediatamente, e não saia enquanto eu não lhe der permissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela foi, pois, apesar de ela ser independente, ninguém gostava de encarar o jovem esguio, de aparência afeminada, quando um rosnado de tigre lhe curvava os lábios e um brilho assassino lhe iluminava os olhos escuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpas foram pedidas, mas, pelos olhares que os dois rivais lançaram um ao outro, sabíamos que a contenda não foi esquecida e que se acenderia novamente ao menor pretexto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, naquela noite, acordei subitamente, com uma estranha e lúgubre sensação de horror. Por que, eu não conseguiria dizer. Levantei-me, vi que a porta estava firmemente trancada e, ao ver Gola dormindo no chão, eu o chutei, irritado, para que acordasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no exato momento em que ele se levantava apressadamente e se friccionava, o silêncio foi quebrado por um grito desvairado, um grito que vibrou através do castelo e arrancou outro grito do assustado soldado que caminhava pela paliçada; um grito da boca de uma jovem desesperada de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gola soltou um grito áspero e mergulhou atrás do leito. Abri bruscamente a porta e me apressei pelo corredor escuro. Descendo rapidamente uma escada espiralada, eu me esbarrei em alguém ao pé desta e rolamos abruptamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse algo asperamente, e reconheci a voz de Jean Desmarte. Eu o coloquei de pé e continuei correndo, seguido por ele; os gritos haviam parado, mas o castelo inteiro estava num rebuliço: vozes gritando, o tinir de armas, luzes sendo acesas, a voz de Dom Vincente gritando pelos soldados, o barulho de homens armados correndo pelas salas e caindo uns sobre os outros. Apesar de toda a confusão, Desmarte, o espanhol e eu alcançamos o quarto de Marcita no exato momento em que Luigi corria para dentro e abraçava a irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros corriam para dentro, carregando luzes e armas, gritando e exigindo saber o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota descansava calmamente nos braços do irmão, seu cabelo escuro solto e enrolado sobre os ombros, sua delicada roupa de dormir rasgada em trapos e expondo o lindo corpo dela. Havia longos arranhões em seus braços, seios e ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo ela abriu os olhos, estremeceu e então gritou aguda e desvairadamente, e se agarrou freneticamente a Luigi, implorando a ele que não deixasse nada levá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A porta! – ela chorou – Eu a deixei destrancada. E algo entrou furtivamente em meu quarto, através da escuridão. Eu golpeei com minha adaga e aquilo me lançou ao chão, me rasgando e rasgando. Então, desmaiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde está Von Schiller? – perguntou o espanhol, com um brilho feroz nos olhos escuros. Todos os homens olharam, cada um para seu vizinho. Todos os convidados estavam ali, exceto o germano. Notei De Montour olhando para a jovem aterrorizada, o rosto dele mais macilento que o normal. E achei estranho que ele não usasse arma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim; Von Schiller! – exclamou ferozmente Desmarte. E metade de nós seguiu Dom Vincente no corredor. Começamos uma busca vingativa pelo castelo e, num pequeno e escuro vestíbulo, encontramos Von Schiller. Jazia de bruços, numa crescente poça escarlate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto é obra de algum nativo! – exclamou Desmarte, com o rosto horrorizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bobagem. – bramiu Dom Vincente – Nenhum nativo lá fora consegue passar pelos soldados. Todos os escravos, inclusive os de Von Schiller, foram trancados e aferrolhados no bairro dos escravos, exceto Gola, que dorme no quarto de Pierre, e a criada de Ysabel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas quem mais poderia ter feito tal coisa? – exclamou Desmarte, furioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você! – eu disse abruptamente – Do contrário, por que saiu rapidamente do quarto de Marcita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Maldito seja, seu mentiroso! – ele gritou, e sua espada rapidamente desembainhada foi brandida contra meu peito; mas, embora ele fosse rápido, o espanhol era mais ainda. A espada de Desmarte se espatifou ruidosamente contra a parede, e Desmarte ficou como uma estátua, a ponta imóvel da espada do espanhol apenas lhe tocando o pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amarrem-no. – disse calmamente o espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Abaixe sua lâmina, Don Florenzo. – ordenou Dom Vincente, dando um passo para a frente e dominando a cena – &lt;em&gt;Signor&lt;/em&gt; Desmarte, você é um dos meus melhores amigos, mas eu sou a única lei aqui e o dever tem que ser cumprido. Dê sua palavra de que não tentará fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu a dou. – respondeu calmamente o gascão – Agi precipitadamente. Peço desculpas. Não estava fugindo intencionalmente, mas os salões e corredores deste maldito castelo me confundem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todos nós, provavelmente apenas um homem acreditou nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senhores! – De Montour deu um passo à frente – Este jovem não é culpado. Soltem o germano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois soldados fizeram como ele pediu. De Montour estremeceu, apontando. O restante de nós olhou uma vez, e depois recuamos horrorizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Poderia algum homem fazer isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com uma adaga... – alguém começou a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nenhuma adaga faria ferimentos como esses. – disse o espanhol – O germano foi despedaçado pelas garras de alguma fera terrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhamos ao nosso redor, meio na expectativa de que algum monstro horrendo saltasse sobre nós, vindo das sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vasculhamos aquele castelo – cada metro, cada centímetro dele. E não encontramos sinais de qualquer fera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia raiava, quando retornei ao meu quarto e vi que Gola havia se trancado lá dentro; levei quase meia hora para convencê-lo a me deixar entrar. Tendo lhe dado um sonoro tapa e o repreendido por sua covardia, contei a ele o que havia acontecido, por ele conseguir entender Francês e conseguir falar uma estranha mistura à qual ele orgulhosamente chamava de Francês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou boquiaberto, e só o branco de seus olhos ficou visível quando a história alcançou seu clímax.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ju-ju! – ele sussurrou espantosamente – Feiticeiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, uma idéia me ocorreu. Eu já ouvi histórias vagas, pouco mais que insinuações de lendas, do diabólico culto ao leopardo que existia na Costa Oeste. Nenhum branco havia visto algum dos seus devotos, mas Dom Vincente nos contou histórias de homens-fera, disfarçados em peles de leopardos, que se esgueiravam através da selva à meia-noite, matavam e devoravam. Um arrepio medonho subiu e desceu por minha espinha, e, num instante, eu agarrei Gola de um jeito que o fez dar um grito agudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Era um homem-leopardo? – sibilei, sacudindo-o violentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Massa, massa (*)! – ele ofegou – Mim, bom rapaz! Tenho medo de homem ju-ju! Melhor não dizer nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai... me contar. – rangi meus dentes, renovando meus esforços, até que, com as mãos fazendo débeis protestos, ele prometeu me contar o que sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não homem-leopardo. – ele sussurrou, e seus olhos se arregalaram de medo do sobrenatural – Lua cheia, encontrado lenhador destroçado por garras. Encontrado outro lenhador. O Grande Massa (Dom Vincente) disse “leopardo”. Não leopardo. Mas homem-leopardo, ele vem para matar. Alguém mata homem-leopardo. Destroça com as garras! Hai, hai! Lua cheia novamente. Alguma coisa entrou na cabana solitária, destroçou uma mulher e um menino. Eu encontrei um destroçado. O Grande Massa diz “leopardo”... Lua cheia de novo, e lenhador encontrado despedaçado por garras. Agora entra no castelo. Não leopardo. Mas sempre pegadas de um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltei uma exclamação sobressaltada e incrédula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era verdade. Gola garantiu. Sempre as pegadas de um homem guiavam para a cena do assassinato. Então, por que os nativos não contavam ao “Grande Massa” que eles deveriam caçar aquele demônio? Agora Gola assumia uma expressão astuta e sussurrava em meu ouvido. As pegadas eram de um homem que usava sapatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que Gola estivesse mentindo, senti um calafrio de inexplicável horror. Quem, então, os nativos acreditavam que estivesse cometendo estes terríveis assassinatos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele respondeu: Dom Vincente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, senhores, minha mente rodopiava. Qual o significado disso tudo? Quem matou o germano e tentou violentar Marcita? Enquanto eu examinava o crime, me parecia que o objetivo do ataque era mais assassinato do que estupro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que De Montour nos preveniu, e depois apareceu para tomar conhecimento do crime, contando-nos que Desmarte era inocente e em seguida provando-o?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava tudo além do meu conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história da matança se espalhou entre os nativos, apesar de tudo o que podíamos fazer; eles ficaram inquietos e nervosos, e por três vezes naquele dia, Dom Vincente chicoteou um negro por insolência. Uma atmosfera tensa impregnava o castelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considerei a possibilidade de ir até Dom Vincente, contar a história de Gola, mas decidi esperar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres guardavam seus quartos naquele dia; os homens estavam inquietos e mal-humorados. Dom Vincente anunciou que a quantidade de sentinelas fosse dobrada, e alguns patrulhassem os corredores do próprio castelo. Eu me peguei refletindo cinicamente que, se as suspeitas de Gola fossem verdadeiras, sentinelas pouco adiantariam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou, senhores, um homem que tolera tal situação com paciência. E eu era jovem na época. Assim, quando bebemos antes de nos recolhermos, arremessei meu copo de vinho sobre a mesa e, furiosamente, anunciei que, independente de homem, fera ou demônio, eu dormiria naquela noite com as portas abertas. E caminhei furiosamente até o meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez, como na primeira noite, De Montour chegou. E seu rosto era o de um homem que havia olhado para os portões abertos do inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vim – ele disse – para lhe pedir... não, &lt;em&gt;Monsieur&lt;/em&gt;, para lhe implorar... que reconsidere sua determinação precipitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacudi minha cabeça impacientemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está decidido? Sim? Então, eu lhe peço que faça isto por mim; que, depois que eu entrar em meu quarto, você trancará minhas portas pelo lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz como ele pediu, e depois voltei para meu quarto, com minha mente num labirinto de questionamentos. Eu havia mandado Gola para o alojamento dos escravos, e coloquei espada e adaga ao meu alcance. Nem fui à cama, mas me agachei numa grande cadeira, na escuridão. Então, tive muita dificuldade para evitar o sono. Para me manter acordado, comecei a refletir sobre as estranhas palavras de De Montour. Ele parecia sofrer de grande agitação; seus olhos insinuavam mistérios horríveis que só ele conhecia. E, mesmo assim, seu rosto não era o de um homem mau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, a idéia me fez ir ao quarto e falar com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andar por aquelas passagens foi uma tarefa estremecedora, mas eu finalmente cheguei à porta de De Montour. Chamei baixinho. Silêncio. Estendi uma das mãos e senti fragmentos de madeira estilhada. Rapidamente, bati sílex e aço que eu trazia, e o estojo flamejante me mostrou a grande porta de carvalho pendurada em suas enormes dobradiças; mostrou uma porta esmagada e estilhaçada por dentro. E o quarto de De Montour estava vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum instinto me induziu a correr de volta ao meu quarto – rápida, porém silenciosamente, com meus pés descalços dando passos furtivos. E, ao me aproximar da porta, percebi algo na escuridão diante de mim. Algo que rastejava de um corredor ao lado e andava deslizando furtivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num pânico selvagem, eu pulei, golpeando desvairadamente e ao acaso no escuro. Tudo o que meu punho fechado encontrou foi uma cabeça humana, e algo caiu com um estrondo. Novamente, acendi uma luz: um homem jazia inconsciente no chão, e era De Montour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfiei uma vela num nicho da parede e, naquele instante, os olhos de De Montour se abriram, e ele se ergueu vacilante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você! – exclamei, mal sabendo o que dizia – Precisamente você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apenas balançou afirmativamente a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você matou Von Schiller?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recuei com uma arfada de horror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouça. – ele ergueu sua mão – Pegue sua espada e me atravesse. Nenhum homem lhe tocará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. – exclamei – Não posso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, rápido – ele disse apressadamente –; entre no seu quarto e tranque a porta! Depressa! Ele voltará!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que retornará? – perguntei, estremecendo de horror – Se ele vai me ferir, ferirá você também. Venha comigo para o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não! – ele guinchou totalmente, recuando, de um pulo, do meu braço esticado – Depressa, depressa! Ele me deixou por um instante, mas vai retornar. – Então, com uma voz baixa de horror indescritível: – Está retornando. Está aqui agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu senti alguma coisa, uma presença sem forma por perto. Uma coisa assustadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour se erguia, com as pernas firmadas, os braços lançados para trás e os punhos cerrados. Os músculos se salientavam sob sua pele, seus olhos se arregalavam e estreitavam, as veias se sobressaíam em sua testa, como se num grande esforço físico. Enquanto eu olhava, para meu horror, alguma coisa sem forma nem nome assumia forma vaga do nada! Como uma sombra, ela se movia sobre De Montour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava pairando sobre ele! Bom Deus, ela estava se fundindo, se tornando uma com o homem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour balançou; um grande ofego escapou dele. A coisa indistinta desapareceu. De Montour tremulou. Logo, ele se voltou em minha direção, e Deus permita que eu nunca veja um rosto como aquele novamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um rosto horrendo e bestial. Os olhos brilhavam com uma ferocidade assustadora; os lábios a rosnarem recuavam de dentes brilhantes, os quais, para meu olhar sobressaltado, mais pareciam com presas bestiais do que com dentes humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silenciosamente, a coisa – não posso chamá-la de humano – se moveu furtivamente em minha direção. Arfando de horror, dei um pulo para trás através da porta, no exato momento em que a coisa se lançava no ar, com um movimento sinuoso que, mesmo naquele momento, me fez pensar num lobo saltando. Bati a porta, segurando-a contra a coisa assustadora que se lançava várias vezes contra ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente desisti e a ouvi escapar furtivamente pelo corredor. Fraco e exausto, eu me sentei, esperando e escutando. Através da janela aberta, a brisa soprava, trazendo todos os cheiros da África – os aromáticos e os repugnantes. Da aldeia nativa, vinha o som de um tambor nativo. Então, de algum lugar na selva, soou de forma horrivelmente incongruente o longo e alto grito de um lobo da floresta. Minha alma se repugnou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aurora trouxe a história de aldeões aterrorizados, de uma mulher negra rasgada por algum demônio da noite, e que mal escapara. Dirigi-me até De Montour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, encontrei Dom Vincente. Ele estava perplexo e furioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há algo infernal acontecendo neste castelo. – ele disse – Noite passada, apesar de eu não ter dito nada a ninguém, alguma coisa saltou sobre as costas de um dos soldados, arrancou-lhe o gibão de couro dos ombros e o perseguiu até a torre. E mais: alguém trancou De Montour em seu quarto na noite passada, e ele foi forçado arrombar a porta para sair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continuou caminhando, murmurando para si mesmo, e eu continuei descendo as escadas, mais perplexo do que nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour se sentou sobre um banco, olhando para a janela. Havia um ar de indescritível cansaço nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu longo cabelo estava despenteado e emaranhado, e suas roupas estavam em farrapos. Com um estremecimento, vi leves manchas escarlates em suas mãos – e notei que suas unhas estavam rasgadas e quebradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhava para cima quando me aproximei, e gesticulou para que eu me sentasse. Seu rosto estava desgastado e macilento, mas era o de um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após um silêncio momentâneo, ele falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou lhe contar minha estranha história. Ela nunca antes havia brotado de meus lábios e, por que lhe contarei, sabendo que você não acreditará em mim, não consigo dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então escutei ao que era certamente a mais desvairada, fantástica e bizarra história já ouvida pelo homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Anos atrás – disse De Montour –, eu estava numa missão militar no norte da França. Fui obrigado a atravessar sozinho as florestas, assombradas por demônios, de Villefére. Naquelas florestas assustadoras, fui atacado por uma coisa inumana e medonha: um lobisomem. Sob a lua da meia-noite, nós lutamos e eu o matei. Agora esta é a verdade: que, se um lobisomem for morto na meia-forma de um homem, seu fantasma assombrará seu matador através da eternidade. Mas, se for morto como um lobo, o inferno se abre para recebê-lo. Na verdade, o lobisomem não é, como muitos pensam, um homem que pode assumir forma de lobo, mas um lobo que assume a forma de um homem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora escute, meu amigo, e lhe contarei sobre a sabedoria, o conhecimento infernal que me pertence, adquirido através de muitos atos assustadores, dado a mim entre as sombras medonhas de florestas à meia-noite, onde perambulavam demônios e homens-fera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No começo, o mundo era estranho e disforme. Feras grotescas perambulavam através de suas selvas. Expulsos de outro mundo, antigos demônios chegaram em grandes números e se estabeleceram neste mundo mais novo e jovem. Por muito tempo, as forças do bem e do mal guerrearam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Uma estranha fera, chamada homem, perambulava entre os outros animais selvagens e, uma vez que o bem ou o mal deve ter uma forma concreta antes de realizar seu desejo, os espíritos do bem entraram no homem. Os demônios entraram nas outras feras, répteis e pássaros; e, por muito tempo e ferozmente, empreenderam uma era de batalha. Mas os homens ganharam. Os grandes dragões e serpentes foram mortos e, com eles, os demônios. Finalmente, Salomão, que era sábio além da compreensão humana, fez uma grande guerra contra eles e, em virtude de sua sabedoria, matou, capturou e prendeu. Mas havia alguns que eram os mais ferozes e ousados; e, embora Salomão os tenha expulsado, ele não conseguiu derrotá-los. Eles haviam assumido forma de lobos. Enquanto as eras passavam, lobo e demônio se fundiram. O demônio não poderia mais abandonar o corpo de um lobo à vontade. Em muitos casos, a selvageria do lobo vencia a astúcia do demônio e o escravizava, de modo que o lobo voltava a ser apenas uma fera – uma fera selvagem e astuta, mas meramente uma fera. Mas ainda há muitos lobisomens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E, durante o período da lua cheia, o lobo pode assumir a forma, ou a meia-forma, de um homem. Quando a lua alcança seu zênite, no entanto, o espírito do lobo adquire novamente o domínio, e o lobisomem se torna mais uma vez um verdadeiro lobo. Mas, se ele for morto na forma de homem, então aquele espírito é livre para assombrar seu matador através das eras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora escute. Eu pensei ter matado a coisa após ela ter mudado para sua verdadeira forma. Mas eu a matei um instante cedo demais. Embora a lua se aproximasse do zênite, ela ainda não o havia alcançado, nem a coisa havia assumido totalmente a forma de lobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu nada sabia disto, e segui meu caminho. Mas, quando se aproximou o período da lua cheia, comecei a perceber uma influência estranha e maligna. Uma atmosfera de horror pairava no ar, e senti impulsos inexplicáveis e sobrenaturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certa noite, numa pequena aldeia no centro de uma grande floresta, a influência caiu sobre mim com força total. Era noite, e a lua quase cheia se erguia sobre a floresta. E, entre a lua e eu, vi, flutuando no ar, fantasmagórico e mal distinguível, o contorno da cabeça de um lobo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lembro-me de pouca coisa do que aconteceu depois disso. Eu me lembro vagamente de escalar para dentro de uma rua silenciosa, lembro-me de luta corpo-a-corpo, de resistência breve e em vão, e o resto é um labirinto escarlate, até eu voltar a mim mesmo na manhã seguinte e encontrar minhas roupas e mãos empastadas e manchadas de escarlate; e ouvi o horrorizado tagarelar dos aldeões, falando de um par de amantes clandestinos, massacrados de forma medonha, um pouco além dos limites da aldeia, rasgados em pedaços como se por feras selvagens, como se por lobos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fugi horrorizado daquela aldeia, mas não fugi só. Durante o dia, eu não conseguia sentir o impulso de meu terrível captor; mas, quando a noite caía e a lua se erguia, eu vagava pela floresta silenciosa – uma coisa aterrorizante, um matador de humanos, um demônio no corpo de um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deus, as batalhas que já lutei! Mas ele sempre me derrotava e fazia devorar alguma nova vítima. Mas, depois que a lua cheia passava, o poder da coisa sobre mim parava subitamente. Ele só retornava três noites antes da lua ficar novamente cheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desde então, tenho perambulado pelo mundo – fugindo, fugindo, tentando escapar. E a coisa sempre me segue, tomando conta do meu corpo, quando a lua está cheia. Deuses, as coisas pavorosas que já fiz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu poderia ter me matado há muito tempo, mas não me atrevo. Pois a alma de um suicida é amaldiçoada, e a minha alma seria eternamente caçada através das chamas do inferno. E ouça – o mais horrorizante de tudo –: meu corpo sem vida vagaria eternamente pela terra, movido e habitado pela alma de um lobisomem. Pode qualquer outro pensamento ser mais horrível?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E eu pareço imune às armas do homem. Espadas já me perfuraram, adagas já me cortaram. Estou coberto de cicatrizes. Mas elas nunca me mataram. Na Germânia, me amarraram e levaram ao cepo. Lá, eu teria, de boa-vontade, colocado minha cabeça, mas a coisa caiu sobre mim e, arrebentando minhas amarras, matei e fugi. Já percorri o mundo todo, deixando horror e carnificina em meu rastro. Correntes e celas não conseguem me deter. A coisa está amarrada a mim por toda a eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No desespero, aceitei o convite de Dom Vincente, pois, veja você, ninguém sabe de minha assustadora vida dupla, vez que ninguém me reconhece possuído pelo demônio; e poucos, ao me verem, vivem para contar isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minhas mãos estão vermelhas; minha alma, condenada a chamas eternas, e minha mente está dilacerada de remorso pelos meus crimes. E, mesmo assim, não posso fazer nada para ajudar a mim mesmo. Certamente, Pierre, nenhum homem conheceu o inferno que conheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, eu matei Von Schiller e tentei destruir a jovem Marcita. Por que não o fiz, não sei dizer, pois já matei tanto homens quanto mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora, se você quiser, pegue sua espada e me mate; e, com meu último suspiro, lhe darei a bênção do bom Deus. Não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você agora conhece minha história, e vê diante de ti um homem assombrado por demônios por toda a eternidade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mente girava de assombro enquanto eu saía do quarto de De Montour. Eu não sabia o que fazer. Parecia que ele provavelmente ainda mataria a nós todos, e mesmo assim eu não conseguia me decidir a contar nada a Dom Vincente. Do fundo de minha alma, eu sentia pena de De Montour.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, mantive minha tranqüilidade e, nos dias que se seguiram, eu aproveitava para procurá-lo e conversar com ele. Uma amizade verdadeira brotou entre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase nesta época, aquele diabo negro, Gola, começou a mostrar um ar de agitação reprimida, como se soubesse de algo que ele desejava desesperadamente contar, mas não queria ou não ousava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, os dias se passavam em festa, bebida e caça, até que numa noite De Montour veio até meu quarto e apontou silenciosamente para a lua, a qual estava se erguendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja. – ele disse – Eu tenho um plano. Fingirei que estou indo para dentro da selva, caçar, e você sairá, aparentemente por muitos dias. Mas, à noite, retornarei ao castelo e você me trancará na masmorra que é usada como despensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi feito, e eu conseguia escapulir duas vezes ao dia e levar comida e bebida para meu amigo. Ele insistia em permanecer no calabouço, mesmo durante o dia, embora o demônio nunca houvesse exercido sua influência sobre ele durante o dia, e ele acreditasse na impotência da criatura nessas horas; mas ele não se arriscaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi durante este período que comecei a perceber que Carlos, o primo cara-de-marta de Dom Vincente, estava forçando suas atenções para Ysabel, a qual era sua prima em segundo grau e parecia estar ofendida com aqueles galanteios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mesmo já o teria desafiado para um duelo, pois o desprezava, mas isso não era realmente um assunto da minha conta. No entanto, parecia que Ysabel o temia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo, Luigi, enquanto isso, havia se apaixonado pela graciosa jovem portuguesa e a cortejava assídua e diariamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour permanecia em sua cela e recapitulava seus atos medonhos, até golpear repetidas vezes as barras com suas mãos nuas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Don Florenzo perambulava pelos terrenos do castelo, como um obstinado Mefistófeles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros convidados cavalgavam, brigavam e bebiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Gola deslizava por perto e me olhava como se estivesse sempre a ponto de revelar uma informação de grande importância. Qual a surpresa, se meus nervos ficassem irritados a um ponto estridente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada dia, os nativos ficavam mais ríspidos, e cada vez mais mal-humorados e intratáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite, não muito antes do zênite da lua, entrei no calabouço onde De Montour estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ergueu rapidamente o olhar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você se arrisca muito, vindo aqui à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encolhi meus ombros e me sentei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pequena janela gradeada deixava, na noite, os cheiros e sons da África.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escute os tambores nativos. – eu disse – Pois, nessa última semana, eles soaram quase incessantemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour assentiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os nativos estão inquietos. Parece-me que estão planejando perversidade. Já notou que Carlos anda muito com eles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não – eu respondi –; mas parece que haverá uma ruptura entre ele e Luigi. Luigi está cortejando Ysabel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim conversávamos, quando de repente De Montour ficou silencioso e taciturno, respondendo somente em monossílabos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua se ergueu e penetrou pelas janelas gradeadas. O rosto de De Montour foi iluminado pelos seus raios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, fui tomado de horror. Na parede atrás de De Montour, apareceu uma sombra, uma sombra claramente definida como a de uma cabeça de lobo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele mesmo instante, De Montour sentiu sua influência. Com um guincho, ele saltou de seu assento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apontou selvagemente e, enquanto com minhas mãos trêmulas, batia e trancava a porta atrás de mim, eu o senti lançar seu peso contra ela. Enquanto subia correndo a escada, ouvi selvagens bramidos e golpes contra a porta trancada a ferro. Mas, apesar de toda a força do lobisomem, a grande porta resistia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando adentrei meu quarto, Gola entrou correndo e contou, ofegante, a história que ele havia guardado durante dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi incrédulo, e então corri para encontrar Dom Vincente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui informado de que Carlos o havia pedido que o acompanhasse à aldeia, para arranjar uma venda de escravos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu informante foi Don Florenzo de Sevilha e, quando fiz para ele um breve resumo da história de Gola, ele me acompanhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntos, saímos às pressas pelo portão do castelo, lançando uma ordem para os guardas, e seguimos pelo desembarcadouro em direção à aldeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dom Vincente, Dom Vincente, ande com cuidado, mantenha a espada solta na bainha! Tolo, idiota, para andar à noite com Carlos, o traidor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se aproximavam da aldeia, quando os alcançamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dom Vincente! – exclamei – Volte instantaneamente para o castelo. Carlos está lhe vendendo aos nativos! Gola me disse que ele deseja as suas riquezas e Ysabel! Um nativo aterrorizado balbuciou a ele sobre as marcas de pés calçados, próximas aos locais onde os lenhadores foram assassinados, e Carlos fez os nativos acreditarem que o matador era você! Esta noite, os nativos vão se revoltar e matar todos os homens do castelo, exceto Carlos! Acredita em mim, Dom Vincente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto é verdade, Carlos? – Dom Vincente perguntou, espantado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos riu zombeteiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O idiota fala a verdade – ele disse –, mas isso só acontecerá sem você. Ho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele gritou enquanto pulava em direção a Dom Vincente. Aço reluziu ao luar, e a espada do espanhol havia atravessado Carlos, antes que este pudesse se mover.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as sombras se ergueram ao nosso redor. Então foram costas contra costas, espada e adaga, três homens contra cem. Lanças reluziam e um brado diabólico se erguia de gargantas selvagens. Espetei três nativos com várias estocadas e logo caí, devido ao espantoso giro de um porrete de guerra; e, no instante seguinte, Dom Vincente caiu sobre mim, com uma lança num braço e outra atravessada na perna. Don Florenzo se erguia acima de nós, a espada saltando como uma coisa viva, quando um ataque de arcabuzes varreu a margem do rio e fomos levados para dentro do castelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As hordas negras vinham correndo, as lanças brilhando como uma onda de aço, um rugido trovejante de selvageria se erguendo até os céus. Repetidas vezes, eles subiam as inclinações e pulavam o fosso, até se amontoarem nas paliçadas. E, repetidas vezes, o fogo dos cem defensores os fazia recuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles haviam incendiado os armazéns saqueados, e a luz do fogo neles competia com a da lua. Próximo, do outro lado do rio, havia um armazém maior, e as hordas de nativos se agrupavam ao redor dele, destruindo-o em busca de saque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tomara que lancem tochas aí – disse Dom Vincente –, pois não há nada armazenado lá, exceto algumas toneladas de pólvora. Eu não ousei guardar este material perigoso deste lado do rio. Todas as tribos do rio e da costa se reuniram para nos massacrar, e todos os meus navios estão nos mares. Podemos agüentar um pouco, mas no final eles se aglomerarão na paliçada e nos massacrarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri até o calabouço onde estava De Montour. Do lado de fora da porta, chamei por ele, e ele me mandou entrar, numa voz que me dizia que o demônio o havia deixado por um instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os negros se revoltaram! – eu disse a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Imaginei isso. Como anda a batalha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei a ele os detalhes da traição e luta, e mencionei a casa de pólvora do outro lado do rio. Ele se ergueu de um pulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora, pela minha alma enfeitiçada! – ele exclamou – Lançarei os dados com o inferno, mais uma vez! Rápido, deixe-me sair do castelo! Tentarei atravessar o rio a nado e explodir a pólvora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso é loucura! – exclamei – Mil negros se escondem entre as paliçadas e o rio, e o triplo além! O próprio rio está apinhado de crocodilos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tentarei! – ele respondeu, com uma grande luz no rosto – Se eu puder alcançá-la, alguns milhares de nativos iluminarão o cerco; se eu morrer, minha alma estará livre e talvez ganhe algum perdão, pois terei dado minha vida para expiar meus crimes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rápido – ele exclamou –, pois o demônio está retornando! Já sinto sua influência! Apressa-te!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corremos em direção aos portões do castelo e, enquanto De Montour corria, ele ofegava como um homem numa batalha aterradora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No portão, ele se lançou de ponta-cabeça, e logo se ergueu, para saltar através dele. Gritos selvagens o receberam desde os nativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os atiradores de arcabuzes gritavam pragas para ele e para mim. Olhando desde o alto das paliçadas, eu o vi virar de um lado a outro, incerto. Uns vinte nativos corriam temerariamente para a frente, as lanças erguidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, um medonho uivo lupino se ergueu até os céus, e De Montour pulou para a frente. Horrorizados, os nativos pararam e, antes que um homem deles pudesse se mexer, ele estava no meio deles. Guinchos selvagens, não de fúria, mas de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espantados, os atiradores de arcabuz suspenderam fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour atacou através do grupo de negros e, quando eles se dispersaram e fugiram, três deles não fugiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Montour deu doze passos em perseguição; então, parou, completamente imóvel. Ele ficou assim por um momento, enquanto lanças lhe voavam ao redor, e depois girou e correu rapidamente em direção ao rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poucos passos do rio, outro bando de negros lhe barrou o caminho. À luz das casas incendiadas, a cena estava claramente iluminada. Uma lança arremessada atravessou o ombro de De Montour. Sem parar em suas passadas, ele a arrancou e enfiou num nativo, pulando-lhe o corpo para ficar no meio dos outros. Eles não conseguiam encarar o branco endemoniado. Fugiram aos gritos, e De Montour, saltando sobre as costas de um, o derrubou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele se ergueu, oscilou e saltou até a margem do rio. Por um instante, ele parou ali e logo desapareceu nas sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em nome do diabo! – ofegou Dom Vincente, próximo ao meu ombro – Que tipo de homem é aquele? Aquilo era De Montour?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balancei afirmativamente a cabeça. Os gritos selvagens dos nativos se erguiam acima do crepitar dos tiros dos arcabuzes. Eles estavam bastante aglomerados ao redor do grande armazém do outro lado do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estão planejando uma grande investida. – disse Dom Vincente – Perece-me que eles vão se aglomerar sobre a paliçada. Há!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um estrondo que parecia rasgar os céus! Uma explosão de fogo que se elevava até as estrelas! O castelo tremeu com a explosão. Depois, o silêncio, enquanto a fumaça, levada pelo vento, mostrava apenas uma grande cratera onde antes havia um armazém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia contar sobre como Dom Vincente liderou um ataque, apesar de enfraquecido, para fora do portão do castelo, e desceu a inclinação, para cair sobre os aterrorizados negros que haviam escapado da explosão. Eu poderia falar do massacre, da vitória e perseguição aos nativos que fugiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia contar, também, senhores, de como fiquei separado do grupo e vaguei para longe, selva adentro, incapaz de achar meu caminho de volta à costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia contar como fui capturado por um grupo errante de incursores escravagistas, e como escapei. Mas esta não é minha intenção. Isso daria uma longa história; e é de De Montour que estou falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei muito a respeito das coisas que haviam acontecido, e me perguntei se, de fato, De Montour alcançou o armazém para explodi-lo, ou se isso foi apenas um ato do acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia impossível que um homem pudesse nadar por aquele rio apinhado de répteis, apesar de guiado por demônios. E, se ele ateou fogo no armazém, deve ter ido para os ares com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, numa noite, eu avançava cansado através da selva, avistei a costa, e me aproximei de uma pequena e desmantelada cabana de palha. Fui até ela, pensando em dormir lá, se os insetos e répteis permitissem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adentrei a portada, e então parei bruscamente. Um homem se sentava num banco improvisado. Ele ergueu o olhar quando entrei, e os raios da lua lhe caíam sobre o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recuei sobressaltado, com um medonho calafrio de horror. Era De Montour, e a lua estava cheia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, enquanto eu estava parado e incapaz de fugir, ele se levantou e veio em minha direção. E seu rosto, embora macilento como o de um homem que olhara para dentro do inferno, era o de um homem são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entre, meu amigo. – ele disse, e havia uma grande paz em sua voz – Entre e não me tema. O demônio me abandonou para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas me diga, como você venceu? – exclamei enquanto lhe agarrava a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lutei uma batalha terrível, enquanto corria para o rio – ele respondeu –, pois o demônio me dominava e guiava para cair sobre os nativos. Mas, pela primeira vez, minha alma e mente ganharam domínio por um instante; um instante longo o bastante para me deter do meu propósito. E acredito que os bons santos vieram me ajudar, pois dei minha vida para salvar vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mergulhei no rio e nadei; e, num instante, os crocodilos se amontoavam ao meu redor. Novamente possuído pelo demônio, lutei contra eles lá no rio. Então, a coisa subitamente me abandonou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Saí do rio e lancei fogo no armazém. A explosão me lançou a dezenas de metros e, durante dias, perambulei estúpido pela selva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas a lua cheia veio, e veio novamente, e não senti a influência do demônio. Estou livre, livre!”. E um tom maravilhoso de exultação, não, exaltação, vibrou em suas palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha alma está livre. Por incrível que pareça, o demônio jaz afogado no leito do rio, ou então habita o corpo de um dos répteis selvagens que nadam pelo Niger.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FIM&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(*) Massa:&lt;/strong&gt; Corruptela de “monsieur” (Nota do Tradutor).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://en.wikisource.org/wiki/Wolfshead"&gt;http://en.wikisource.org/wiki/Wolfshead&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. Conan, o B?rbaro, e Era Hiboriana s?o marcas registradas da Conan Properties Inc. 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Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Originalmente publicado em &lt;em&gt;Weird Tales&lt;/em&gt;, agosto de 1925.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol havia se posto. As grandes sombras se espalhavam sobre a floresta. No estranho crepúsculo de um dia de fim de verão, vi a trilha adiante deslizar entre grandes árvores e desaparecer. Estremeci e olhei temerosamente sobre meu ombro. Milhas atrás, ficava a aldeia mais próxima; e, milhas adiante, a seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para a esquerda e continuei andando a passos largos para a direita, e logo olhei atrás de mim. Então, parei subitamente, agarrando minha espada de dois gumes e lâmina estreita, quando um pequeno galho quebrado anunciou a vinda de alguma pequena fera. Ou seria uma fera?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a trilha continuava e eu seguia, porque, certamente, eu não tinha mais nada a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto seguia, eu refletia: “Meus próprios pensamentos me conduzirão, se eu não souber. O que há nesta floresta, exceto as criaturas que a percorrem – o cervo e coisas parecidas? Bah, essas lendas ridículas desses aldeões!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim eu segui, e o crepúsculo se transformava em penumbra. Estrelas começavam a piscar e as folhas das árvores sussurravam na brisa fraca. Logo parei subitamente, minha espada pulando até minha mão, pois logo adiante, numa curva de trilha, alguém cantava. Eu não conseguia distinguir as palavras, mas o sotaque era estranho, quase bárbaro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhei para trás de uma grande árvore, e o suor frio brotou de minha testa. Então, o cantor ficou à vista: um homem alto e magro, indistinto no crepúsculo. Encolhi meus ombros. Um homem eu não temia. Pulei para fora, a ponta de minha espada erguida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pare!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não demonstrou surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor, manuseie tua lâmina com cuidado, amigo. – ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tanto envergonhado, abaixei minha espada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou novo nesta floresta. – eu disse, em tom de desculpa – Ouço rumores sobre bandidos. Peço perdão. Onde fica a estrada para Villefére?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Corbleu&lt;/em&gt;, você a perdeu. – ele respondeu – Você deveria ter se desviado à direita a alguma distância atrás. Eu mesmo estou indo para lá. Se puder ficar comigo, lhe guiarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hesitei. Mas por que eu hesitaria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, com certeza. Meu nome é De Montour, da Normandia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E eu sou Carolus le Loup.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! – recuei estremecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdão – eu disse –; o nome é estranho. &lt;em&gt;Loup&lt;/em&gt; não significa “lobo”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha família sempre foi de grandes caçadores. – respondeu. Ele não ofereceu sua mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdoe-me meu olhar fixo – eu disse, enquanto caminhávamos pela trilha –, mas mal consigo ver seu rosto na penumbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti que ele estava rindo, embora não fizesse som algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há pouco para olhar. – ele respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximei-me com um passo e logo dei um pulo, meu cabelo arrepiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma máscara! – exclamei – Por que usa uma máscara, &lt;em&gt;m’sieu&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um juramento. – ele exclamou – Ao fugir de um bando de cães de caça, jurei que, se eu escapasse, usaria uma máscara por certo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cães de caça, &lt;em&gt;m’sieu&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lobos. – ele respondeu rapidamente – Eu disse lobos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos em silêncio por algum tempo, e então meu companheiro disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou surpreso que você caminhe nestas florestas à noite. Poucas pessoas vêm nestes dias, mesmo durante o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou com pressa de alcançar a fronteira. – respondi – Um tratado havia sido assinado com os ingleses, e o Duque de Borgonha deveria saber dele. O povo na aldeia tentou me dissuadir. Falaram de... um lobo que supostamente perambulava por esta floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui o caminho se desvia para Villefére. – ele disse, e eu vi uma trilha estreita e tortuosa, a qual não vira quando passei por ela antes. Ela guiava para dentro, entre a escuridão das árvores. Estremeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostaria de retornar à aldeia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! – eu exclamei – Não, não! Continue me guiando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A trilha era tão estreita que caminhávamos em fila única, ele à frente. Eu o olhava bem. Era mais alto, bem mais alto que eu, magro e forte. Vestia uma roupa com toque da Espanha. Uma longa espada fina e reta lhe pendia do quadril. Ele andava com longas passadas tranqüilas e silenciosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele começou a falar de viagens e aventuras. Falava de muitas terras e mares que ele havia visto, e muitas coisas estranhas. Assim caminhávamos e entrávamos cada vez mais na floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presumi que ele fosse francês, e, no entanto, ele tinha um sotaque muito estranho, o qual não era francês, espanhol nem inglês, nem de qualquer outra linguagem que eu já houvesse escutado. Algumas palavras ele pronunciava estranhamente, e algumas ele não conseguia pronunciar de modo algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este caminho é usado freqüentemente? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não por muitos. – ele respondeu e riu silenciosamente. Estremeci. Estava muito escuro, e as folhas sussurravam juntas entre os galhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um demônio assombra esta floresta. – eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim dizem os camponeses – ele respondeu –, mas já a percorri várias vezes e nunca vi o rosto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele começou a falar de estranhas criaturas da escuridão, a lua se ergueu e sombras deslizavam entre as árvores. Ele ergueu o olhar para a lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Depressa! – ele disse – Temos que alcançar nosso destino, antes que a lua chegue ao seu zênite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corremos ao longo do caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dizem – eu falei – que um lobisomem assombra estes bosques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode ser. – ele disse, e discutimos bastante sobre o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dizem as velhas – ele falou – que, se um lobisomem for morto enquanto é um lobo, então ele está morto; mas, se ele for morto enquanto é homem, então sua meia-alma assombrará seu matador para sempre. Mas apressa-te; a lua se aproxima de seu zênite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos a uma pequena clareira, iluminada pela lua, e o estranho parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos parar um pouco. – ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, vamos embora. – insisti – Não gosto deste lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu silenciosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora. – ele disse – Aqui é uma clareira bonita. Tão boa quanto um salão de banquete, e me deleitei muitas vezes aqui. Há, há, há! Veja, vou te mostrar uma dança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele começou a pular aqui e ali, dali a pouco lançando a cabeça para trás e rindo silenciosamente. Aquele homem é louco, eu pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ele executava sua estranha dança, olhei ao meu redor. &lt;em&gt;A trilha não seguia, mas terminava na clareira&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha – eu disse –; temos que prosseguir. Não sentiu o cheiro rançoso e peludo que paira na clareira? Há lobos por aqui. Talvez estejam ao nosso redor e, neste momento, deslizando em nossa direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele caiu de quatro, pulou mais alto que minha cabeça e veio em minha direção, com um estranho movimento furtivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa dança é chamada A Dança do Lobo. – ele disse, e meu cabelo se arrepiou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Afaste-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei um passo para trás e, com um guincho que ressoou de forma estremecedora, ele pulou em minha direção; e, embora uma espada lhe pendesse do cinto, ele não a puxou. Minha lâmina estava meio desembainhada, quando ele agarrou meu braço e me lançou de ponta-cabeça. Eu o arrastei comigo e caímos juntos ao chão. Livrando uma de minhas mãos com um puxão, arranquei a máscara. Um guincho de horror irrompeu de meus lábios. Olhos animalescos cintilavam sob aquela máscara e presas brancas brilhavam ao luar. &lt;em&gt;O rosto era o de um lobo&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num instante, aquelas presas estavam próximas à minha garganta. Mãos com garras arrancaram a espada de meu punho. Bati naquele rosto horrível com meus punhos fechados, mas suas mandíbulas estavam presas em meus ombros, suas garras tentavam me rasgar a garganta. Logo, eu estava com as costas sobre o chão. O mundo estava desbotando. Eu golpeava cegamente. Minha mão caiu, e logo se fechou automaticamente sobre o cabo de minha adaga, à qual eu estivera incapaz de pegar. Puxei e apunhalei. Saiu um bramido terrível, semi-bestial e estridente. Então cambaleei livre, de pé. Aos meus pés, jazia o lobisomem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me curvei, ergui a adaga, e então parei e olhei para o alto. A lua estava perto de seu zênite. &lt;em&gt;Se eu matasse a coisa enquanto fosse homem, seu espírito horrendo me assombraria para sempre&lt;/em&gt;. Sentei-me e aguardei. A coisa me olhava com flamejantes olhos de lobo. Os longos membros esguios e fortes pareciam encolher; o cabelo parecia crescer sobre eles. Temendo enlouquecer, agarrei e ergui a espada da coisa, e a cortei em pedaços. Então, lancei a espada para longe e fugi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FIM&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://en.wikisource.org/wiki/In_the_Forest_of_Villef%C3%A9re"&gt;http://en.wikisource.org/wiki/In_the_Forest_of_Villef%C3%A9re&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. Conan, o B?rbaro, e Era Hiboriana s?o marcas registradas da Conan Properties Inc. Este site é dedicado ao personagem e n?o possui fins comerciais, nem o objetivo de infringir as leis de direitos autorais.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26866016-7297525547903235787?l=cronicasdacimeria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/feeds/7297525547903235787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26866016&amp;postID=7297525547903235787&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/7297525547903235787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/7297525547903235787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/2011/07/na-floresta-de-villefere.html' title='Na Floresta de Villefére'/><author><name>Neeser</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17947846921349013572</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016.post-6137108027741812265</id><published>2011-07-05T19:50:00.005-03:00</published><updated>2011-07-05T20:06:24.430-03:00</updated><title type='text'>A Princesa Escrava (fragmento/sinopse)</title><content type='html'>(por Robert E. Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, o clamor era ensurdecedor. O ruído de aço com aço, misturado com gritos de sede de sangue e gritos de triunfo selvagem. A jovem escrava hesitava e olhava ao redor da sala onde se encontrava. Havia resignada impotência em seu olhar. A cidade havia caído; os turcomanos embriagados de sangue cavalgavam pelas ruas, queimando, saqueando e massacrando. A qualquer momento, ela poderia ver os vitoriosos selvagens correndo, com mãos ensangüentadas, pela casa de seu dono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De outra parte da casa, um mercador gordo veio correndo. Seus olhos estavam arregalados de terror, e ele respirava ofegante. Ele trazia pedras preciosas e bugigangas sem valor nas mãos – pertences agarrados cegamente e ao acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika! – sua voz era o guincho de uma doninha numa armadilha – Abra a porta, rápido; e depois tranque-a deste lado... fugirei pelos fundos. Por Alá! Os demônios turcos estão matando a todos nas ruas... as sarjetas estão ensangüentadas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E quanto a mim, meu amo? – a garota perguntou humildemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanto a você, vadia? – gritou o homem, batendo violentamente nela – Abra a porta; abra a porta, estou lhe dizendo... ahhhhhh!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua voz ficou quebradiça como gelo. Através de uma porta externa, veio entrando uma figura selvagem e medonha – um turcomano peludo e esfarrapado, cujos olhos eram os de um cão louco. Zuleika, em terror congelado, viu os grandes olhos que miravam ferozmente, o cabelo escorrido e a lança curta agarrada por uma mão com pingos escarlates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz do mercador se ergueu a um guincho desvairado. Ele correu desesperadamente para atravessar a sala, mas o homem tribal pulou como um gato sobre um rato, e uma mão magra agarrou as vestes do mercador. Zuleika assistia em horror mudo. Ela tinha motivos para odiar o homem – motivos de afronta, castigo e indignidade –, mas, no fundo do coração, ela sentiu pena do infeliz uivante, quando ele se contorceu e encolheu diante de seu destino. A lança rasgou para cima; os gritos cessaram num terrível gorgolejo. O turcomano deu um passo sobre a horrível coisa vermelha sobre o chão e se aproximou da jovem aterrorizada. Ela recuou, muda. Sozinha, ela havia percebido a crueldade do homem e a inutilidade de suplicar. Ela não implorou por sua vida. O turcomano a agarrou pelo peito da única roupa sumária que ela usava, e ela sentiu aqueles selvagens olhos bestiais arderem para os dela. Ele estava arrebatado demais pelo desejo de matança, para que ela lhe despertasse outro desejo em sua alma selvagem. Naquele momento rubro, ela era apenas uma coisa viva, pulsante e que latejava com vida, para ele silenciar para sempre em sangue e agonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela procurou fechar os olhos, mas não conseguiu. Numa clara luz branca de semi-desinteresse, ela deu boas-vindas à morte, para terminar uma estrada que havia sido dura e cruel. Mas sua carne se encolhia do destino que seu espírito aceitara, e somente o aperto de seu atacante a manteve ereta. Com um esgar de lobo, ele encostou a ponta afiada da lança contra o peito dela, e um pequeno fio de sangue brotou da pele delicada. O homem tribal inspirou em êxtase feroz; ele enfiaria a lâmina devagar, gradualmente, torcendo-a de forma torturante, saciando sua crueldade nas contorções agonizadas e gritos de sua bela vítima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um passo pesado soou atrás deles, e uma voz áspera praguejou numa língua não-familiar. O turcomano girou, com a barba eriçada num rosnado feroz. A garota semi-desmaiada cambaleou para trás, contra um divã, sua mão no peito. Era um franco encouraçado, que havia adentrado a sala e, para o olhar aturdido da jovem, ele avultava como um gigante vestido em ferro. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, e seus ombros e membros vestidos de aço eram poderosos. De seus calcanhares até seu pesado elmo sem viseira, ele estava compactamente encouraçado, e suas feições bronzeadas e cicatrizadas se somavam à importância sinistra de sua aparência. Não havia uma mancha de sangue em sua malha, e sua espada lhe pendia embainhada no cinto. A jovem sabia que ele só poderia ser um homem: Cormac FitzGeoffrey, o fora-da-lei franco que, às vezes, caçava com a matilha turcomana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, ele andava a passos largos e pesados em direção a eles, rosnando um aviso para o guerreiro, cujos olhos ardiam com uma luz feroz. O turcomano cuspiu uma praga e saltou como um lobo, arremetendo ferozmente. Um braço vestido em cota-de-malha pôs a lança de lado e, quase com o mesmo movimento, Cormac agarrou o pescoço do turcomano com a mão esquerda, num aperto semelhante ao de um torno, e, com a cerrada mão direita, acertou sua vítima com um golpe semelhante ao de uma marreta na têmpora. Sob o punho encouraçado, o crânio do homem tribal partiu como uma abóbora, e Cormac deixou o cadáver contorcido cair descuidadamente aos seus pés. Zuleika ficou calada, a cabeça baixa em submissão, como se resignada a este novo mestre tanto quanto ao outro, mas o franco não mostrou sinais de reivindicar sua presa. Ele se afastou, com um único olhar casual para a garota, e então parou bruscamente, quando seu breve olhar descansou no pálido rosto dela. Seus olhos se estreitaram, e ele se aproximou dela. Ela se erguia diante dele, como uma criança diante de seu volume ofuscante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pôs a mão encouraçada sobre seu ombro delicado, e os joelhos dela se dobraram sob o peso involuntário dele. Ela ergueu a cabeça para olhar o rosto dele. Seus ardentes olhos azuis lhe pareciam os de um animal da selva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Garota, qual o seu nome? – ele ribombou em Árabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika, senhor. – ela respondeu na mesma linguagem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava calado, como se ponderando. Seu rosto cicatrizado era inescrutável, mas ela percebeu o novo brilho de seus olhos vulcânicos. Sem uma palavra, ele a ergueu com o braço esquerdo, como um homem faria com um bebê. Sua cativa não exprimiu protesto, enquanto ele a carregava para a rua. Sorte. Nenhuma mulher sabia qual Destino estava reservado para ela, e Zuleika havia aprendido submissão numa escola amarga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fumaça era soprada pelas ruas em rajadas intermitentes; os turcomanos estavam queimando a cidade. Os prantos de terror e agonia, e os gritos de fúria exultante, ainda se erguiam. Cormac caminhou sobre o corpo de um judeu que jazia numa poça escarlate. Zuleika percebeu, com um tremor, que os dedos haviam sido decepados – mesmo na morte, o judeu se agarrava aos seus tesouros mesquinhos. Uma onda de náusea rolou sobre ela, e ela pressionou o rosto contra o ombro encouraçado de seu captor, impedindo a entrada das visões de horror. Um súbito grito feroz a fez erguer o olhar novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac caminhava em direção a um enorme garanhão negro, de aparência selvagem, que estava com as rédeas penduradas na rua; e um guerreiro alto, usando elmo com pluma de garça e malha lavrada a ouro, corria em sua direção, agarrando uma cimitarra gotejante. Zuleika percebeu que o guerreiro a desejava e, mesmo naquele momento, sentiu que ele estava disposto a disputar a posse de uma escrava com o sombrio franco, quando muitas mulheres poderiam ser tomadas. Cormac a mudou de posição, de modo que seu corpo protegesse o dela, e desembainhou sua pesada espada. Quando o guerreiro deu um salto, o franco golpeou como um leão, e a cabeça do turcomano rolou sobre a poeira ensangüentada. Chutando o corpo caído para um lado, Cormac alcançou seu cavalo, o qual empinava e bufava com as narinas alargadas diante do cheiro de sangue. Mas nem a impaciência de seu cavalo, nem sua cativa, tolheram o franco, que montou facilmente na sela e galopou em direção aos portões despedaçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fumaça, o sangue e o clamor desapareciam lá atrás, e o deserto em terreno elevado aparecia ao redor deles. Zuleika ergueu o olhar para o rosto sombrio e inescrutável de seu novo amo, e uma estranha fantasia lhe cruzou o pensamento. Qual garota nunca sonhou em ser levada na sela de seu príncipe de romance? Assim Zuleika sonhara em outros tempos. Longo sofrimento a havia limpado de amargura, mas ela se surpreendia indefesa diante do capricho do acaso. “Ela foi levada na sela do cavalo”; mas suas roupas não eram as túnicas de uma princesa, e sim a veste de uma escrava; nem ela cavalgava ao ritmo das harpas, mas ao de uivos penosos de horror e massacre; e seu captor não era o príncipe de seus sonhos infantis, mas um sombrio fora-da-lei, duro e selvagem como a terra montanhosa que o gerou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O castelo do Senhor Amory ficava em meio a uma terra selvagem. Construído originalmente pelos cruzados, caíra nas mãos dos seljúcidas, dos quais havia sido novamente tomado pela astúcia e desesperada coragem de seu atual dono. Era um dos poucos domínios em terras desoladas que restavam dos francos; um posto avançado que se erguia corajosamente numa terra hostil. Havia léguas de distância entre a fortaleza de Amory e o mais próximo castelo cristão. Ao sul ficava o deserto. A leste, pelas areias, se erguiam as montanhas selvagens onde se escondiam inimigos ferozes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite havia caído, e Amory se sentava numa sala interna, ouvindo atenciosamente o seu convidado. Amory era alto, esguio e belo, com agudos olhos cinzas e cachos dourados. Suas roupas outrora haviam sido ricas e suntuosas, mas agora estavam desgastadas e desbotadas. As jóias que outrora adornavam o cabo de sua espada haviam sumido. A pobreza se refletia tanto em seu vestuário quanto no próprio castelo, o qual era improdutivo além do normal, mesmo dos castelos feudais daqueles dias rudes. Amory vivia do saque, como vive um lobo; e, como um lobo do deserto, sua vida era magra e dura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se sentava no banco tosco, o punho no queixo, e olhava para seus convidados. Seu castelo era um dos poucos abertos para Cormac FitzGeoffrey. A cabeça do fora-da-lei tinha um preço, e as magras fortalezas dos francos de Outremer estavam trancadas para ele; mas aqui, além da fronteira, ninguém sabia o que estava acontecendo naquela propriedade isolada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac saciava sua sede e fome, com gigantescos goles de vinho e pedaços enormes de carne, arrancados pelos seus dentes fortes de um quarto de animal assado, e Zuleika também havia comido e bebido. Agora a jovem se sentava pacientemente, sabendo que os guerreiros discutiam a respeito dela, mas sem entender sua língua francônica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E então – Cormac dizia –, quando ouvi que os turcomanos haviam sitiado a cidade, cavalguei duro para chegar lá, sabendo que ela não resistiria a eles por muito tempo, com aquele idiota do Yurzed Beg comandando as muralhas. Bem, ela caiu antes que eu pudesse adentrá-la; os homens do deserto a haviam despojado... os sortudos pegaram todo o saque que viram, e os outros queimavam os dedos dos pés dos citadinos, para fazerem-nos dar suas riquezas secretas... mas encontrei esta garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E quanto a ela, então? – perguntou Amory, curioso – Ela é linda... vestida em roupa rica, ficaria ainda mais bonita. Mas, apesar de tudo, ela é apenas uma escrava seminua. Ninguém pagará muito por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac sorriu friamente, e o interesse de Amory se avivou. Ele havia tido muitas negociações com aquele guerreiro irlandês e sabia que, quando Cormac sorria, havia coisas em marcha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já ouviu falar em Zalda, a filha do sheik Abdullah bin Kheram, dos Roualli?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory balançou a cabeça afirmativamente, e a jovem, compreendendo as palavras árabes, ergueu o olhar com súbito interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela estava prestes a ser casada, há três anos – disse Cormac –, com Khelru Shah, chefe de Kizil-hissar, mas um bando errante de curdos a raptou, e desde então, nenhuma palavra mais foi ouvida sobre ela. Sem dúvida, eles a venderam no Leste distante... ou cortaram a garganta dela. Você nunca a viu? Eu vi... essas mulheres beduínas andam sem véu. E esta jovem árabe, Zuleika, se parece com a princesa Zalda o bastante para ser irmã dela, por Crom!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Começo a lhe entender. – disse Amory.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Khelru Shah – disse Cormac – pagará um enorme resgate por sua noiva. Zalda era de sangue nobre... casar-se com ela significa aliança com os Roualli... o sheik é mais poderoso que muitos príncipes... quando ele chama seus guerreiros, os cascos de 3000 corcéis estremecem o deserto. Embora ele more nas tendas de feltro dos beduínos, seu poder é grande e sua riqueza também. Nenhum dote deve ir junto com a princesa Zalda, mas Khelru Shah pagaria pelo privilégio de se casar com ela... aqueles selvagens Rouallas têm este orgulho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mantenha a jovem árabe aqui com você. Cavalgarei para Kizil-hissar e darei minhas condições ao turco. Deixe-a bem escondida e não deixe nenhum árabe vê-la... ela pode ser confundida de fato com Zalda, e se Abdullah bin Kheram vir a saber disso, ele pode lançar contra nós um exército capaz de tomar o castelo de assalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se eu cavalgar sem pausa, posso alcançar Kizil-hissar em três dias; não gastarei mais do que um dia em discussão com Khelru Shah. Se eu conheço o homem, ele cavalgará comigo para cá, com vários milhares de homens. Alcançaremos este castelo em não mais do que quatro dias após partirmos da cidade das colinas. Deixe os portões bem trancados na minha ausência, e não cavalgue para muito longe daqui. Khelru Shah é tão astuto e traiçoeiro quanto...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você mesmo. – completou Amory, com um sorriso sombrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac grunhiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando chegarmos, cavalgaremos até as muralhas. Então, traga a escrava árabe para cima dos muros da torre... em algum lugar, você deve conseguir achar roupas mais adequadas a uma princesa cativa. E a convença de que ela deve se comportar, pelo menos enquanto estiver no muro, com menos humildade. A princesa Zalda era orgulhosa e soberba como uma imperatriz, e se comportava como se todos os seres inferiores fossem pó sob seus pés brancos. Agora cavalgarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No meio da noite? – perguntou Amory – Não vai dormir em meu castelo e cavalgar ao amanhecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu cavalo está descansado. – respondeu Cormac – Nunca me canso. Além disso, sou um falcão, que voa melhor à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se levantou, colocando seu gorro de malha na cabeça, juntamente com o elmo. Pegou seu escudo, o qual trazia o símbolo de uma caveira sorridente. Amory olhava curioso para ele e, embora conhecesse o homem há muito tempo, ele não poderia fazer mais do que se maravilhar diante do espírito selvagem e da auto-suficiência que o capacitavam a cavalgar à noite através de uma terra selvagem e hostil, para dentro das próprias fortalezas de seus inimigos naturais. Amory sabia que Cormac FitzGeoffrey fora proscrito pelos francos por matar um certo nobre, que ele era ferozmente odiado pelos sarracenos e tinha meia dúzia de rixas pessoais em suas mãos, tanto com cristãos quanto com muçulmanos. Tinha poucos amigos, nenhum seguidor e nenhuma posição de poder. Era um exilado, que dependia de sua própria inteligência e bravura para sobreviver. Mas estas coisas se ajustavam tranqüilamente na alma de Cormac FitzGeoffrey; para ele, eram apenas circunstâncias naturais. Toda a sua vida havia sido de incrível selvageria e violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory sabia que as condições na terra natal de Cormac eram selvagens e sangrentas, pois o nome da Irlanda era uma expressão de violência em toda a Europa Ocidental. Mas quão turbulentas e sacudidas pela guerra eram essas condições, Amory não podia saber. Filho de um impiedoso aventureiro normando de um lado, e de um feroz clã irlandês do outro, Cormac FitzGeoffrey havia herdado as paixões, ódios e antigas rixas de ambas as raças. Ele havia seguido Richard da Inglaterra até a Palestina e ganhou um nome sangrento para si mesmo na cega batalha daquela Cruzada vã. Retornando novamente para Outremer para pagar uma dívida de gratidão, ele havia sido pego no turbilhão cego de conspiração e intriga, e havia mergulhado no jogo perigoso com feroz deleite. Cavalgava quase sempre só e, repetidas vezes, seus muitos inimigos pensavam tê-lo capturado, mas ele escapava a cada vez, por habilidade e astúcia, ou pela pura força de seu braço da espada. Pois ele era como um leão do deserto, este gigante normando-gaélico que conspirava como um turco, cavalgava como um centauro, lutava como um tigre sedento de sangue e pilhava os mais fortes e ferozes lordes de terras estrangeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele cavalgou totalmente encouraçado noite adentro em seu grande garanhão negro, e Amory voltou sua atenção casual para a jovem escrava. As mãos dela estavam sujas e ásperas devido à labuta servil, mas eram esguias e bem-feitas. Em algum lugar de suas veias, julgou o jovem francês, corria sangue aristocrático, o que se mostrava na delicada textura de pétala de rosa na pele dela, na textura sedosa de seu ondulado cabelo negro e na profunda maciez de seus olhos escuros. Toda a herança quente do deserto do Sul era evidente em cada movimento dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não nasceu escrava?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que isso importa, senhor? – ela perguntou – Basta que eu seja uma escrava agora. Melhor nascer para os chicotes e correntes, do que ser domado por eles. Outrora fui livre; agora sou escrava. Não é o bastante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma escrava. – ele murmurou – O que são os pensamentos de um escravo? Estranho... nunca me ocorreu pensar no que se passa na mente de um escravo... ou de um animal também, no que diz respeito ao assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor um cavalo de um homem do que o escravo de um homem, senhor. – disse a garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. – ele respondeu –, pois há nobreza num bom cavalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela curvou a cabeça e entrelaçou as mãos, muda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O anoitecer escurecia as colinas, quando Cormac FitzGeoffrey cavalgou até o grande portão de Kizil-hissar, o Castelo Vermelho, o qual dava seu nome à cidade à qual guardava e dominava. Os guardas – turcos magros e barbados, com olhos de falcão – praguejaram espantados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Alá e por Alá! O lobo veio colocar a cabeça na armadilha! Corra, Yaser, e conte ao nosso lorde, Suleyman Bey, que o cão infiel, Cormac, está diante dos portões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ei, você aí sobre os muros! – gritou o franco – Diga a seu chefe que Cormac FitzGeoffrey gostaria de conversar com ele. E se apresse, pois não sou de perder tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Distraia-o com conversa por apenas um momento. – murmurou um mulçumano, se agachando atrás de um bastião e armando sua balestra, um maciço objeto tomado dos francos – Vou mandá-lo para vestir seu escudo no Inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pare! – disse um barbado, velho e magro falcão, cujos olhos eram ferozes e desconfiados – Quando este chefe cavalga ousadamente até as mãos de seus inimigos, esteja certo de que ele tem forças secretas. Espere até Suleyman chegar. – Para Cormac, ele gritou de forma cortês: – Tenha paciência, poderoso lorde; o príncipe Suleyman Bey já foi enviado, e logo estará sobre os muros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, que ele chegue logo. – rosnou Cormac, que não tinha mais respeito por um príncipe do que por um camponês – Não o aguardarei por muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman Bey chegou ao alto das grandes muralhas, e desceu o olhar curiosa e desconfiadamente sobre seu inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que queres, Cormac FitzGeoffrey? – ele perguntou – Você é louco, para cavalgar sozinho até os portões de Kizil-hissar? Já esqueceu que existe rixa entre nós? Que eu havia jurado decepar seu pescoço com minha espada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, você o jurou – sorriu Cormac –, e assim juraram Abdullah bin Kheram, Ali Bahadur e o curdo Abdallah Mirza. E assim, em anos passados e em outra terra, juraram Sir John Courcey, o clã dos O’Donnels e Sir William Le Botelier, mas ainda conservo minha cabeça firmemente sobre meus ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Escute até eu lhe contar o que tenho a dizer. Então, se você ainda quiser minha cabeça, saia de seus muros de pedra e veja se sois homem o bastante para pegá-la. Isto diz respeito à princesa Zalda, filha do Sheik Abdullah bin Kheram – maldito seja o nome dele!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman Bey se enrijeceu com súbito interesse; ele era um homem alto e esbelto, jovem e belo de forma aquilina. Sua curta barba negra contrastava com suas feições aristocráticas, e seus olhos eram delicados e expressivos, com sombras de crueldade ocultas em suas profundezas. Seu turbante era coberto por gemas douradas. O cabo de sua cimitarra delgada e lavrada a prata era incrustado por jóias brilhantes. Suleyman era jovem, mas poderoso, na cidade da montanha, sobre a qual ele investira com seus falcões poucos anos antes e se fez governante. Ele poderia trazer 600 guerreiros para a batalha, e ansiava por mais poder. Por essa razão, ele havia desejado se aliar à poderosa tribo Roualla de Abdullah bin Kheram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que tem a princesa Zalda? – ele perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela é minha prisioneira. – respondeu Cormac.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman Bey se sobressaltou violentamente, sua mão agarrou o cabo da espada e logo ele riu em sarcasmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você mente; a princesa Zalda está morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim pensei. – respondeu Cormac com franqueza – Mas, durante o ataque-surpresa à cidade, eu a encontrei cativa de um mercador que não conhecia sua verdadeira identidade, pois ela a escondera, temendo que um mal ainda maior caísse sobre ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman Bey ficou pensativo por um momento, e logo ergueu sua mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Abram os portões para ele. Entre, Cormac FitzGeoffrey; nenhum dano lhe acontecerá. Ponha sua espada no chão e entre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Usei minha espada na tenda de Richard Coração de Leão. – rugiu o normando – Quando eu a desabotoar dentro das muralhas de meus inimigos, será quando eu estiver morto. Destranquem esses portões, idiotas; meu corcel está cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de uma sala interna com cortinas de seda escarlate, cristal, ouro e madeira de teca, Suleyman Bey ouvia, sentado, seu convidado. O rosto do jovem chefe era inescrutável, mas seus olhos escuros estavam empolgados. Atrás dele se erguia, como uma imagem escura, Belek, o egípcio, braço-direito de Suleyman, um homem grande, escuro e forte, com um rosto satânico e olhos perversos. De onde ele veio, quem era e por que seguia o jovem turco, ninguém sabia, exceto Suleyman; mas todos o temiam e odiavam, pois, no cérebro insondável do egípcio, havia a astúcia e crueldade de uma serpente negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac FitzGeoffrey havia posto seu elmo de lado e lançado para trás o gorro de malha, descobrindo o grosso pescoço musculoso e sua negra cabeleira de corte reto. Seus vulcânicos olhos azuis ardiam ainda mais ferozmente quando ele falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma vez com a princesa Zalda em suas mãos, você pode entrar num acordo com o Sheik. Ao invés de pagar a ele um grande valor por ela, você pode obrigá-lo a lhe pagar um dote. Ele prefere vê-la como sua esposa, mesmo às custas de muito ouro, do que como sua escrava. Uma vez casando-a, ele unirá forças com você. Você terá tudo o que planejou há três anos, adicionado ao rico dote do Sheik.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que não cavalgou até ele, ao invés de mim? – perguntou abruptamente Suleyman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque você tem as coisas que eu e meu amigo desejamos. Abdullah é mais poderoso que você, mas o tesouro dele é menor. Muitos dos pertences dele consistem em gado, cavalos, armas, tendas, terras... os pertences de um chefe nômade. Aqui no seu castelo, você tem baús de moedas de ouro, pilhados de caravanas e tomados como resgate de cavaleiros cativos. Você tem gemas, prata, sedas, especiarias raras, jóias. Você tem o que eu desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E qual prova tenho eu de que você não está mentindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cavalgue conosco amanhã – grunhiu Cormac – até o castelo de meu amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman riu como um lobo rosnando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você quer nos guiar para dentro de uma armadilha. – disse o egípcio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Traga 3 mil homens com você, traga quantos homens você quiser, todo o bando de ladrões. – disse Cormac – Onde você acha que eu conseguiria guerreiros suficientes para emboscar todo o seu exército?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde ela está detida? – perguntou o seljúcida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No castelo do Sieur Amory, a três, quatro dias, de cavalgada para oeste. – disse Cormac – Você jamais conseguiria tomá-lo de assalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho certeza. – murmurou Suleyman – O lorde Amory tem apenas 40 guerreiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas o castelo é inexpugnável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim já ouvi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos do egípcio se estreitaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Poderíamos lhe capturar e segurar em troca de um resgate – ele sugeriu –, e forçar o Sieur Amory a devolver a garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac riu selvagem e zombeteiramente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amory riria de você e lhe diria para cortar minha garganta e se danar, ou cortaria a garganta da garota se quisesse. Além disso, embora eu esteja em seu castelo, cercado por seus guerreiros, não estou totalmente indefeso. Tente me pegar, e inundarei estas paredes com sangue antes de morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era bazófia vã, como os muçulmanos bem sabiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chega! – Suleyman fez um gesto impaciente – Prometo-lhe segurança... o que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tumulto havia surgido lá fora: briga, gritos, ameaças e maldições na língua Árabe. A porta externa foi aberta bruscamente, e um turco barbado, o qual vigiava a porta, entrou, arrastando uma vítima que se debatia e cuja barba estava eriçada de cólera. Ele agarrava firmemente um pacote, o qual expelia várias bugigangas e ornamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Encontrei este cão se esgueirando numa sala adjacente, senhor. – ribombou o guarda – Parece-me que ele estava escutando a conversa. Devo cortar fora a cabeça dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou Ali bin Nasru, um mercador honesto! – gritou o árabe, com raiva e medo – Sou bem conhecido em Kizil-hissar! Vendo utensílios para os xás e sheiks, e eu não estava escutando a conversa. Acaso sou um cão, para espionar meu patrão? Eu estava procurando o grande chefe Suleyman Bey, para mostrar minhas mercadorias a ele!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor cortar a língua dele. – grunhiu Belek – Ele pode ter escutado demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não ouvi nada! – gritou Ali – Cheguei ao castelo agora há pouco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Expulsem-no daqui. – Suleyman Bey disse bruscamente, irritado – Será que vou me aborrecer com os ganidos de um vira-lata? Expulsem-no com chibatadas e, se ele voltar com o lixo dele, arranquem sua roupa e o pendurem pelos pés na praça do mercado, para as crianças atirarem pedras nele. Cormac, cavalgaremos ao nascer do sol e, se você tiver me enganado, faça suas pazes com Alá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E, se você tentar me enganar – rosnou Cormac –, faça suas pazes com o Demônio, pois você logo o encontrará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era mais de meia-noite, quando uma figura descia cuidadosamente por uma corda pendurada na muralha externa da cidade. Descendo apressadamente as inclinações, o homem logo chegou a um matagal, onde um camelo veloz estava escondido em segurança, juntamente com uma trouxa grande – pois o homem não confiava todos os seus pertences a uma cidade governada por turcos. Lançando indiferentemente o embrulho para o lado, ele montou no camelo e fugiu para o sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory descansava o queixo no punho e olhava pensativo para a jovem árabe Zuleika. Nos últimos dias, ele percebera seus olhos se demorando freqüentemente em sua esguia cativa. Ele se assombrava com o silêncio e a submissão dela, pois sabia que, em certa época de sua vida, ela havia conhecido uma posição mais elevada que a de uma escrava. Seus modos não eram os de alguém que nasceu escrava; ela não era atrevida nem servil. Ele pensou vagamente na escola cruel e feroz, na qual ela fora quebrada – não, não quebrada, pois havia nela uma estranha e profunda força, a qual não fora tocada; ou, se fora, apenas ficou mais flexível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela era bonita – não com a beleza passional e feroz das turcas que haviam dado a ele seu amor selvagem, mas com uma beleza profunda e tranqüila, de alguém cuja alma fora forjada em fogos ferozes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Conte-me como você se tornou uma escrava. – A voz era de comando, e Zuleika entrelaçou os dedos em submissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nasci entre as negras tendas de feltro do sul, mestre, e passei minha infância no deserto. Todas as coisas eram livres... no início de minha mocidade, eu era orgulhosa, pois os homens me diziam que eu era bonita, e muitos pretendentes vinham me cortejar. Mas vieram outros, também... homens que cortejavam com aço nu, e me raptaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eles me venderam a um turco, o qual logo se cansou de mim e me vendeu a um escravista persa. Assim, cheguei à casa do mercador da cidade, e lá trabalhei penosamente, uma escrava entre as mais baixas escravas. Meu mestre uma vez me ofereceu liberdade, se eu o amasse, mas eu não podia. Meu corpo era dele; meu amor, ele não poderia algemar. Então, ele fez de mim seu burro de carga”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você aprendeu profunda submissão. – comentou Amory.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por açoite, grilhões, tortura e labuta, eu aprendi, mestre. – ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe o que pretendemos fazer com você? – ele perguntou abruptamente. Ela sacudiu a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cormac acha que você se parece com a princesa Zalda – disse Amory –, e nossa intenção é trapacear Suleyman Bey com você. Nós lhe mostraremos a ele na muralha, e acho que ele pagará um alto preço por você. Quando lhe tivermos entregado a ele, você terá sua chance. Jogue bem suas cartas, e talvez você possa encantá-lo, de modo que, quando souber de nossa fraude, ele não lhe ponha de lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez, os olhos de Amory passearam sobre sua forma esbelta. Um pulsar começou a tamborilar em sua têmpora. Por enquanto, ela era dele; por que ele não poderia tomá-la, antes de entregá-la aos braços de Suleyman Bey? Havia aprendido que, o que um homem quer, ele deve tomar. Com uma única e longa passada, ele a alcançou e colocou entre os braços. Ela não ofereceu resistência, mas se desviou do rosto dele, recuando a cabeça de seus lábios ferozes. Seus olhos escuros miraram os dele com uma profunda dor, e subitamente ele se sentiu envergonhado. Ele a soltou e deu as costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há algumas roupas que eu comprei de um bando errante de ciganos. – ele disse abruptamente – Vista-as; ouço uma trombeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo deserto, uma trombeta ecoava fracamente. Amory alinhava seus homens em completa armadura nas muralhas, com armas nas mãos, quando o cavaleiro se dirigiu até o portão do castelo, o qual era flanqueado por uma torre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory os saudou. Ele viu Suleyman Bey em elmo de pluma de garça e malha de escamas douradas, sentado em sua égua negra. Bem próximo a ele, Belek do Egito montava um cavalo baio e, ao lado do chefe, Cormac FitzGeoffrey em seu grande garanhão. E Amory arreganhou os dentes. Não era estranho ver o homem cavalgando na companhia daqueles que haviam jurado cortar o pescoço deste? Uns três mil cavaleiros estavam enfileirados atrás do líder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, Amory! – disse Cormac – Traga a princesa... que ela seja mostrada sobre o muro da torre, e Suleyman Bey seja convencido; ele pensa que somos mentirosos, pelos cascos do Demônio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory hesitou, enquanto uma súbita repulsa o sacudia; então, com um encolher de seus ombros, ele fez um gesto para seus guerreiros. Zuleika foi escoltada para o alto do muro sobre o portão, e Amory ofegou. Roupas ricas haviam causado uma transformação na jovem escrava; de fato, ela as usava como se nunca houvesse vestido os frágeis farrapos de uma escrava. Ela não se portava com o orgulho soberbo de uma princesa, pensou Amory, mas havia certa dignidade calma nela, certa humildade orgulhosa que muitos de sangue real mal poderiam copiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman Bey também ofegou; ele a fitava perplexo e cavalgou para mais perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Alá! – ele disse, pasmo – Zalda! É ela? Não... sim... por Asrael, não sei dizer! Ela não anda de queixo erguido, como fazia, se for ela; e, no entanto... no entanto... pelos deuses, deve ser ela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com certeza, é a princesa Zalda! – retumbou Cormac – Por Satã, você acha que os francos não têm palavra? Bem, chefe, o que diz? Ela vale dez mil peças de ouro para você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espere. – respondeu o turco – Preciso de tempo para refletir. Esta jovem é idêntica à princesa Zalda... mas toda a sua postura é diferente... Preciso me convencer. Deixe-a falar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory acenou com a cabeça para Zuleika, que lhe lançou um olhar lastimoso, e logo, erguendo a voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Milorde, eu sou Zalda, filha de Abdullah bin Kheram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez, o turco sacudiu sua cabeça de falcão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A voz é suave e melodiosa como a de Zalda, mas o tom é diferente... a princesa estava acostumada a dar ordens, e seu tom era autoritário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela foi uma escrava. – grunhiu Cormac – Três anos de cativeiro podem mudar até mesmo uma princesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Verdade... bem, eu cavalgarei até a fonte de Mechmet, que fica a pouco mais de uma milha daqui, e acamparei lá. Amanhã voltarei e conversaremos sobre o assunto. Dez mil peças de ouro... um preço alto a ser pago, até mesmo pela princesa Zalda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem. – grunhiu Cormac – Vou permanecer no castelo... e atenção, Suleyman: sem truques. À primeira insinuação de um ataque noturno, cortaremos o pescoço de Zalda e lançaremos a cabeça dela para você. Cuidado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suleyman balançou a cabeça com a mente distraída, e se afastou a cavalo, à frente de seus cavaleiros, em intensa conversa com Belek, do rosto escuro. Cormac cavalgou para dentro do portão, o qual foi instantaneamente barrado e trancado atrás dele, e Zuleika deu a volta para ir ao seu quarto. Sua cabeça estava curvada e suas mãos entrelaçadas; ela assumia novamente os modos de escrava. Mas ela parou por um momento diante de Amory e, em seus olhos escuros, havia uma profunda mágoa, quando ela disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai me vender a Suleyman, meu senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory corou sombriamente – há anos que o sangue não lhe ruborizava o rosto desta forma. Ele tentou responder e procurou palavras. Inconscientemente, sua mão encouraçada procurou-lhe o ombro esguio, meio carinhosamente. Então, ele se sacudiu e falou asperamente, por causa das estranhas emoções em conflito dentro dele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá para seu quarto, rapariga! Que lhe interessa o que estou fazendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enquanto ela ia, a cabeça afundada no peito, ele ficou olhando atrás dela, cerrando os punhos encouraçados até os dedos estalarem, e se amaldiçoando desconcertadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cormac FitzGeoffrey e Amory se sentavam numa câmara interna, embora fosse tarde da noite. Cormac estava com armadura completa, exceto pelo elmo, assim como Amory. Os gorros de malha de ambos os homens estavam puxados sobre seus ombros, revelando os cachos amarelos de Amory e a cabeleira preta e lustrosa de Cormac. Amory estava silencioso e taciturno; bebia pouco e falava ainda menos. Cormac, por outro lado, estava num espírito de total satisfação. Ele bebia intensamente, e sua gratificação o levava a um humor retrospectivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Guerras e batalhas amontoadas, eu já vi em abundância. – ele disse, erguendo seu grande copo de vinho – Sim! Lutei na batalha de Dublin quando eu tinha apenas oito anos, pelos cascos do Diabo! Miles de Cogan e seu irmão Richard defendiam a cidade para Strongbow... homens de ferro numa era de ferro. Hascuf Mac Turkill, Rei de Dublin, que havia sido empurrado para dentro das Órcades, veio navegando pela praia com 65 navios... galés dos pagãos escandinavos, cujo chefe era o &lt;em&gt;berserk&lt;/em&gt; Jon o Louco... e ele era louco, pelos cascos de Satã! Assim, Hasculf voltou para ganhar sua cidade novamente, com os dinamarqueses, dano-irlandeses, e seus aliados da Noruega e das Ilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A notícia da guerra chegou oeste adentro, onde eu era um garoto, correndo seminu pelas urzes, na terra dos O’Briens. Tínhamos um guerreiro cujo nome era Wulfgar, e ele era um escandinavo. ‘Darei mais um golpe pelo povo do mar’, ele disse, e seguimos através dos pântanos e brejos, como lobos, e fui com ele e com meu arco de menino, pois o anseio por perambulação e sangue já existia em mim. Assim, atacamos de surpresa a praia de Dublin no momento em que a batalha estava unida. Por Satã, os escandinavos empurraram os normandos de volta à cidade e estavam despedaçando os portões, quando Richard de Cogan fez uma sortida desde o portão de trás e caiu sobre eles pela retaguarda. E então, Sir Miles saiu dos portões principais com seus cavaleiros, e os corvos se alimentaram intensamente. Por Satã, lá os machados beberam e as espadas não deixaram de se saciar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, Wulfgar e eu entramos na batalha, e o primeiro homem ferido que vi foi um guerreiro inglês que havia outrora me esmagado o lóbulo da orelha a uma polpa, de modo que o sangue fluiu sobre seus dedos encouraçados, para ver se ele conseguia me fazer gritar – não gritei, mas cuspi na cara dele, e então ele me deu um golpe que me deixou inconsciente. Agora, aquele homem me reconhecia e chamava pelo nome, ofegando por água. ‘Água?’, eu disse. ‘É nos rios gelados do inferno que você vai saciar sua sede!’. E puxei a cabeça dele para trás, para cortar a garganta, mas antes que eu pudesse enfiar meu punhal no esôfago dele, ele morreu. Suas pernas foram quebradas por uma grande pedra, e uma lança havia se quebrado em suas costelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Wulfgar havia se afastado de mim e, naquele momento, eu avançava para dentro do grosso da batalha, atirando minhas flechas com toda a força de meus músculos infantis, cegamente e ao acaso, de modo que eu não sabia se acertava ou não, nem a quem, pois o barulho e gritos me confundiam, o cheiro de sangue que estava em minhas narinas, e a cegueira e fúria de minha primeira grande batalha estava sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assim, cheguei até o local onde Jon o Louco estava aliado com alguns de seus vikings pelos cavaleiros normandos – por Saint John. Nunca vi um homem dar golpes como aquele &lt;em&gt;berserk&lt;/em&gt; dava! Ele lutava seminu e sem malha nem escudo, e não havia escudo ou armadura que pudesse resistir àquele machado. E eu vi Wulfgar – ele jazia numa pilha de mortos, ainda agarrando um cabo cuja lâmina havia se quebrado dentro do coração de um cavaleiro normando. Ele morria rapidamente, sua vida vazando dele em grossas ondas escarlates, mas ele me falava fracamente e disse: ‘Curve seu arco, Cormac, contra o homem grande em armadura de cota-de-malha’. E assim, ele morreu, e eu sabia que ele se referia a Miles de Cogan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, naquele momento, Jon, sangrando de cem ferimentos, deu um golpe que decepou a perna de um cavaleiro na altura do quadril, embora este estivesse vestido em espessa cota-de-malha; o cabo do machado se estilhaçou na mão do viking, e Miles de Cogan lhe acertou seu golpe fatal. Naquele momento, todos os escandinavos estavam mortos ou haviam fugido, e os guerreiros arrastavam o Rei Hasculf Mac Turkill diante de Miles de Cogan e lhe decepavam a cabeça no mesmo instante. Aquela visão me enlouqueceu, pois, embora eu não amasse o dinamarquês, eu odiava ainda mais os normandos e, correndo pelos corpos dilacerados, curvei meu arco contra Miles de Cogan. Era minha última flecha, e ela se quebrou em sua placa peitoral. Um guerreiro me agarrou e suspendeu para Miles me ver, enquanto eu o amaldiçoava em Gaélico e quebrava meus dentes de leite em seu punho encouraçado, ao mordê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“‘Por São Jorge!’, disse Miles, ‘é o lobinho irlandês, filhote de Geoffrey o Bastardo’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“‘Esmague-o’, disse Richard de Cogan. ‘Ele é meio gaélico – ele será um lobo para os O’Briens’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“‘Ele é meio Geoffrey’, disse Miles. ‘Será um bom soldado para o rei’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom, ambos estavam certos, mas Miles viria a amaldiçoar o dia em que me poupou. Quando eu o reencontrei em batalha, anos mais tarde, dei a ele um ferimento que o marcou por toda a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lutando em vão numa terra estéril. Por Satã, parece no entanto que agora seremos recompensados por nosso zelo. Você postou todos os guerreiros nos muros? É uma noite escura e sem estrelas, e devemos ter cuidado com Suleyman Bey. Há, nós o enganamos! Estamos dez mil peças de ouro mais ricos! Agora, você pode reconstruir este castelo, empregar mais guerreiros, comprar armaduras e armas. Juntarei um bando de valentões degoladores e viajarei para leste em busca de uma cidade gorda para saquear”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cormac – os olhos de Amory estavam embotados e perturbados –, o que você acha que Suleyman Bey fará com a jovem Zuleika, quando descobrir que o trapaceamos? Ele não irá matá-la em sua fúria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não ele. – Cormac bebeu intensamente – Ele a usará para enganar o velho Abdullah bin Kheram, como fizemos com ele. Se a garota jogar corretamente, ela ainda pode se tornar uma rainha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cormac – Amory disse abruptamente –, não posso fazer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O normando o olhou ferozmente e perplexo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Do que está falando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory estendeu as mãos, sem saber o que fazer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desculpe. Eu percebi isso quando ela estava no muro... não posso deixar essa garota ir embora... eu a amo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê! – exclamou Cormac, completamente assombrado – Que dizer que você vai retê-la... e não entregá-la a Suleyman Bey... por quê?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu a amo. – disse Amory teimosamente – Essa é a única justificativa que posso dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fagulhas azuis do fogo do Inferno começaram a palpitar nos olhos de Cormac. Seus dedos encouraçados se fecharam no copo de vinho e o destruíram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você quer me passar a perna, é? – ele rugiu – Você quer me trapacear! É lobo mordendo lobo, com seu desejo maldito? Seu cão francês, vou lhe mandar para cortar as unhas do Diabo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amory esticou rapidamente o braço, em busca de sua espada, enquanto Cormac investia desde seu assento, mas o gigante irlandês pulou diretamente sobre sua garganta, estilhando a mesa compacta em lascas. Antes que o jovem francês pudesse retirar sua espada, o impacto do arremesso do corpo encouraçado de Cormac o deixou cambaleando, e ele lutava desesperadamente para afastar os dedos férreos do normando de sua garganta. Uma das mãos de Cormac havia se fechado como um torno numa prega da malha de Amory, em seu pescoço, mal lhe errando a garganta, e a outra mão agarrava repentinamente, para um aperto mortal. O rosto de Amory estava pálido, pois ele já vira Cormac arrancar o pescoço de um gigante turco com os dedos nus, e sabia que, uma vez que aquelas mãos de ferro se fechassem na sua garganta, nenhum poder na terra conseguia soltá-las antes que elas arrancassem a vida que pulsava sob ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sala, eles lutavam e se engalfinhavam – aqueles dois grandes guerreiros encouraçados, numa batalha estranha e silenciosa. Cormac não havia tentado puxar seu aço, e Amory não teve tempo de fazê-lo. Com toda a sua habilidade, rapidez e força, ele lutava uma batalha perdida para se livrar daquelas terríveis mãos que apertavam. Amory golpeou com toda a sua força, acertando seu punho cerrado e encouraçado em cheio no rosto de Cormac, e o sangue respingou, mas o tremendo golpe não deteve nem um pouco o normando – Amory nem sequer achou que Cormac havia piscado. Eles se espatifaram de ponta-cabeça nos destroços da mesa e, ao caírem engalfinhados, Cormac rugiu breve e trovejantemente, enquanto seus dedos finalmente se fechavam no aperto que ele procurava. Instantaneamente, a cabeça de Amory começou a ter vertigens e a luz da vela ficou ensangüentada aos seus olhos dilatados. Os dedos de Cormac estavam afundados nas pregas soltas de sua touca, a qual, puxada para trás de sua cabeça, estava solta ao redor de seu pescoço; e apenas isto o salvou de morrer instantaneamente, mas mesmo assim ele sentia sua consciência se esvair. Ele golpeava em vão os pulsos; sua cabeça foi curvada para trás num ângulo torturante... seu pescoço estava prestes a se quebrar... então, veio um rápido correr de pés no corredor externo: um guerreiro de olhos selvagens entrou repentinamente na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meus senhores... mestres... os pagãos... eles estão dentro das muralhas, e o castelo está em chamas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sons do castelo desvaneciam enquanto os guardas assumiam seus postos e o restante se acalmava para dormir. No grande salão, o mendigo se movia; de seus farrapos, olhos estranhamente inapropriados para um mendigo brilhavam: olhos semelhantes aos de basilisco. Com um rápido movimento, ele se levantou, livrando-se de suas roupas sujas e esfarrapadas, e revelando o rosto demoníaco e a forma felina de Belek, o egípcio. Vestido apenas numa tanga despojada e com uma longa adaga na mão, ele se esgueirou pelo grande salão e subiu a escadaria em espiral como um fantasma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por todo o castelo, reinava o silêncio; diante da porta de Zuleika, o sonolento guarda bocejava e se curvava sonolento sobre sua lança. Qual a utilidade de um guarda diante de uma sala interna? Qual pagão conseguia passar pelos muros sem despertar toda a tropa dos defensores? O guarda não ouviu os pés descalços, que deslizavam silenciosamente pelas lajes. Não viu a figura parda que deslizou atrás dele. Mas sentiu subitamente um braço de ferro lhe envolver o pescoço, estrangulando o grito sobressaltado que tentava subir até seus lábios; sentiu a agonia momentânea de uma lâmina que lhe perfurou o coração, e depois não sentiu mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belek soltou o corpo flácido ao chão e, rapidamente, lhe tirou as chaves do cinto. Escolheu uma e abriu a porta, trabalhando rápida, mas silenciosamente. Ele se esgueirou para dentro, fechando a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zuleika acordou percebendo que havia alguém no seu quarto, mas, na total escuridão, ela não conseguia ver ninguém. Mas Belek conseguia enxergar como um gato no escuro. Zuleika sentiu uma mão lhe estalar subitamente na boca e, ao erguer instintivamente as mãos para se desviar daquele ataque, seus pulsos esguios foram presos um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique quieta, princesa. – sibilou uma voz no escuro – Se gritar, morre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão foi tirada de seus lábios, e Zuleika sentiu as próprias mãos serem amarradas; em seguida, uma mordaça lhe foi colocada na boca. Belek do Egito tinha suas próprias idéias sobre como tratar mulheres. Ele havia sido enviado para resgatar Zuleika, sim; mas sabia que mulheres muito freqüentemente preferem não ser resgatadas de seus captores, e que ela poderia preferir continuar com seus donos atuais a cavalgar para longe com Suleyman Bey. Belek não pretendia deixar que o grito de uma mulher o levasse à sua condenação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele levantou sua esguia cativa e, carregando-a cuidadosamente sobre um ombro, andou silenciosa e cuidadosamente pelo corredor, a adaga de prontidão. Desceu a escada e deslizou através da grande cozinha. Ouviu o cozinheiro roncando na despensa. Normalmente, seria impossível para um homem se esgueirar pelo castelo de Sieur Amory sem ser detectado, mas esta noite todos os homens estavam nos muros, ou então dormindo profundamente à espera do chamado para o turno de vigia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belek cautelosamente destrancou uma pequena porta e deslizou para fora, mantendo-se próximo à parede. Estava escuro como breu, com nuvens baixas obscurecendo as estrelas, e não havia lua. Belek hesitou, incerto por um momento; logo, ele cruzou rapidamente o pátio e entrou nos estábulos. Ele sabia que o grande garanhão de Cormac estava alojado ali, e tremeu, receoso de despertar a fúria total da fera selvagem, a qual poderia fazer barulho suficiente para despertar todo o castelo. Mas a entrada furtiva de Belek não causou agitação; o grande animal estava alojado em outra parte dos estábulos. O egípcio deitou a garota numa cocheira vazia em outra parte dos estábulos, primeiro lhe amarrando os tornozelos, e depois se esgueirou de volta ao castelo. Entrando na cozinha, ele a atravessou até a pequena sala, onde a lenha estava empilhada, e se ocupou por alguns momentos. Então, ele fechou a porta e, apressadamente, abandonou mais uma vez o castelo. Um leve sorriso sombrio ondulou sobre seus lábios finos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, ele estava pronto para a parte mais perigosa de seu ousado trabalho noturno. Agachando-se como uma pantera, ele deslizou através do pátio até o portão dos fundos. Só havia um guarda ali, curvado sobre sua lança e meio adormecido; era a hora da escuridão antes do amanhecer, quando a vitalidade está baixa. Belek se agachou e pulou, silenciosa e mortalmente como uma pantera. Sua mão poderosa se fechou ao redor do pescoço de sua vítima, e o homem morreu sem dar um grito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belek manuseou cuidadosamente o portão, sentiu-o mover sob suas mãos e abrir para dentro. Ele se agachou silenciosamente, quase prendendo o fôlego, e forçou seus olhos na noite. Ele conseguia reconhecer as obscuras e sombrias extensões do deserto, cortado por desfiladeiros e ravinas; havia homens se movendo ali? Nem mesmo o egípcio de olhos agudos poderia dizer, pois as nuvens estavam baixas e uma intensa escuridão repousava sobre tudo. Ele pensou em voltar atrás da garota, escapar com ela e desistir do plano. Os homens no muro acima dele não estavam dormindo. Seus baixos e breves trechos de conversa lhe alcançavam de tempos em tempos. Ele havia se esgueirado até o portão dos fundos e matado o guarda deles quase sob seus pés, mas isso foi atrás deles. Seus olhares estavam virados para fora; eles veriam qualquer coisa que se movesse do lado externo da muralha, caso ele deslizasse para fora, e flechas cairiam como chuva ao seu redor. Sozinho, ele se arriscaria, mas não ousaria fazê-lo com a garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, entre os desfiladeiros, um chacal latiu três vezes e parou. Belek sorriu ferozmente; Suleyman Bey não havia falhado em cumprir sua parte no plano. Atrás de si, ele ouviu um quebrar e estalar que aumentava cada vez mais; uma luz sinistra ficou visível através da abertura do castelo, e os homens no muro começaram a falar alto e de forma apressada, quando um súbito grito selvagem se ergueu da fortaleza. Como que em resposta, um clamor de gritos ferozes soou do deserto lá fora, e subitamente a escuridão estava viva com sombras que atacavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio Belek deu um único grito, em triunfo feroz, e correu rapidamente até o estábulo onde havia deixado a jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O punhado de homens no castelo abre seu caminho para fora do círculo de fogo, mas são cercados no pátio e estão prestes a serem despedaçados, quando Abdullah bin Kheram vem cavalgando com mil homens. O mercador Ali havia lhe contado que sua filha é prisioneira lá. A luta cessa quando todos descobrem, espantados, que Zuleika é de fato a princesa Zalda. Khelru Shah – ou Suleyman Bey – é morto por Cormac, que talha seu caminho através dos árabes e foge; e Zalda declara seu amor por Amory. O sheik dá seu consentimento para que se casem, e uma poderosa aliança é formada para sempre entre os árabes e Amory.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Digitação:&lt;/strong&gt; Edilene Brito da Cruz de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;The Lord of Samarcand.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Agradecimento especial:&lt;/strong&gt; Ao howardmaníaco e amigo Karoly Mazak, da Hungria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. Conan, o B?rbaro, e Era Hiboriana s?o marcas registradas da Conan Properties Inc. Este site é dedicado ao personagem e n?o possui fins comerciais, nem o objetivo de infringir as leis de direitos autorais.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26866016-6137108027741812265?l=cronicasdacimeria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/feeds/6137108027741812265/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26866016&amp;postID=6137108027741812265&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/6137108027741812265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/6137108027741812265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/2011/07/princesa-escrava-fragmentosinopse.html' title='A Princesa Escrava (fragmento/sinopse)'/><author><name>Neeser</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17947846921349013572</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016.post-8404753309670931114</id><published>2011-05-28T15:12:00.003-03:00</published><updated>2011-05-28T15:52:05.428-03:00</updated><title type='text'>Falcões Sobre o Egito</title><content type='html'>(por Robert E. Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A figura alta em &lt;em&gt;khalat&lt;/em&gt; branco girou, praguejando em voz baixa, com a mão no cabo da cimitarra. Nenhum homem andava despreocupado pelas ruas noturnas do Cairo, nos dias agitados do ano 1021 d.C. Neste beco escuro e sinuoso do repugnante bairro fluvial de El Maks, tudo poderia acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que está me seguindo, cão? – A voz era áspera, aguçada com um sotaque turco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra figura alta emergiu das sombras, vestida, como a primeira, num &lt;em&gt;khalat&lt;/em&gt; de seda branca, mas sem o elmo espiralado do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estou lhe seguindo! – A voz não era tão gutural quanto a do turco, e o sotaque era diferente – Um forasteiro não pode caminhar pelas ruas, sem ser alvo de insulto de cada bêbado cambaleante da sarjeta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ira violenta em sua voz não era fingida, assim como a suspeita na voz do outro também não. Olharam ferozmente um para o outro, cada um agarrando o cabo de sua respectiva lâmina com uma mão tensa de fúria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venho sendo seguido desde o cair da noite. – acusou o turco – Venho escutando passos furtivos ao longo dos becos escuros. Agora, você aparece inesperadamente, num local dos mais apropriados para um assassinato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alá lhe amaldiçoe! – praguejou o outro, encolerizado – Por que eu lhe seguiria? Eu me perdi nas ruas. Nunca lhe vi antes, assim como espero nunca mais lhe ver. Sou Yusuf ibn Suleyman, de Córdoba, mas cheguei recentemente ao Egito... seu cão turco! – ele acrescentou, como se levado por uma ira transbordante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pensei que seu sotaque fosse mouro. – disse o turco – Não importa. Uma espada andaluza pode ser comprada tão facilmente quanto uma cairota, e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pela barba de Ali! – exclamou o mouro, numa rajada de fúria incontrolável, puxando o sabre; então, um som furtivo de passos o fez dar a volta, e ele saltou para trás e girou, para manter tanto o turco quanto os recém-chegados à sua frente. Mas o turco havia puxado a própria cimitarra e olhava ferozmente perto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três figuras enormes avultavam ameaçadoramente nas sombras, a fraca luz das estrelas cintilando em largas lâminas curvas. Havia também um vislumbre de dentes brancos e olhos em movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um instante, houve uma quietude tensa; logo, um deles murmurou no tom rouco e gutural do Sudão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual deles é o cão? Aqui tem dois com a mesma roupa e, na escuridão, parecem irmãos gêmeos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Matem os dois. – respondeu outro, meia cabeça maior que seus companheiros altos – Assim, não erramos nem deixamos qualquer testemunha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, dito isto, os três negros se aproximaram em tenso silêncio, o gigante avançando em direção ao mouro, e os outros dois em direção ao turco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yusuf ibn Suleyman não esperou pelo ataque. Rosnando uma praga, ele avançou sobre o colosso que se aproximava e arremeteu em direção à sua cabeça. O negro deteve o golpe com sua lâmina erguida, e grunhiu com o impacto. Mas, no momento seguinte, com uma astuta torção e um puxão, ele havia prendido a lâmina do mouro sob sua guarda e arrancado a arma da mão de seu oponente, de modo que esta caiu com um tinido sobre as pedras. Uma praga cáustica irrompeu dos lábios de Yusuf. Ele não esperava encontrar tamanha combinação entre habilidade e força bruta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, incendiado à loucura da luta, ele não hesitou. Quando o gigante ergueu a larga cimitarra, o mouro saltou para baixo do braço levantado, soltando um selvagem grito de guerra, e enfiou seu punhal até o cabo no largo peito do negro. O sangue esguichou pelo punho de Yusuf, e a cimitarra caiu vacilante, para lhe cortar o turbante de seda e resvalar no gorro de aço sob ele. O gigante desabou moribundo ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yusuf ibn Suleyman pegou seu sabre e olhou ao redor, para localizar seu próximo antagonista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turco havia enfrentado calmamente o ataque de dois negros, recuando devagar para mantê-los à sua frente, e subitamente talhou um, de um lado a outro do peito e ombro, de modo que este deixou a espada cair e caiu de joelhos com um gemido. Mas, ao cair, ele agarrou os joelhos de seu matador e se segurou neles como uma sanguessuga sem cérebro, pensamento ou razão. O turco chutou e se debateu em vão; aqueles braços negros, salientando-se com músculos de aço, o deixaram imóvel, enquanto o negro restante redobrava a fúria de seus golpes. O turco não conseguia avançar nem recuar, nem poupar o simples palpitar relampejante de sua lâmina, a qual o livraria de seu pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o espadachim negro tomou fôlego para dar um golpe ao qual o estorvado turco não conseguiria deter, ele ouviu o rápido correr de pés atrás de si, olhou ferozmente por cima do ombro e viu o mouro se aproximar, com os olhos ardentes e os lábios rosnando à luz das estrelas. Antes que o negro pudesse girar, o sabre mouro o atravessou com tal fúria que a lâmina se sobressaiu bastante pelo seu peito, enquanto o cabo o batia ferozmente entre os ombros; a vida o abandonou com um grito inarticulado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turco rachou o crânio raspado do outro negro com o cabo de sua cimitarra e, se desembaraçando do cadáver, se voltou para o mouro que puxava seu sabre do corpo contorcido ao qual este trespassara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que veio me ajudar? – indagou o turco. Yusuf ibn Suleyman encolheu os ombros largos diante da qualidade desnecessária da pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Éramos dois homens cercados por velhacos. – ele disse – O destino nos fez aliados. Agora, se você quiser, podemos continuar nossa briga. Você disse que eu lhe espionava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E vejo meu erro e solicito suas desculpas. – o outro respondeu prontamente – Agora eu sei quem me seguia furtivamente pelos becos escuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embainhando sua cimitarra, ele se curvou sobre cada um dos corpos, observando-lhes atentamente as feições sangrentas. Quando alcançou o corpo do gigante morto pelo punhal do mouro, ele fez uma pausa mais longa e logo depois murmurou baixinho, como que para si mesmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hã! Zaman, o Espadachim! De um alto posto de arqueiros, cujas flechas são enfeitadas por pérolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, puxando do flácido dedo negro um anel grosso e curiosamente biselado, ele o guardou dentro do cinto e depois agarrou as vestes do morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ajude-me, irmão. – ele disse – Vamos nos livrar desta carniça, para que perguntas não sejam feitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem questionar, Yusuf ibn Suleyman agarrou uma jaqueta ensangüentada em cada mão, e arrastou os corpos atrás do turco por um beco malcheiroso e escuro, no meio do qual havia a beirada quebrada de um poço esquecido. Os cadáveres caíram de ponta-cabeça dentro do abismo e bateram lá embaixo com um chapinhar sombrio; e, com uma leve risada, o turco se voltou para o mouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alá nos tornou aliados. – ele repetiu – Estou em dívida com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não me deve nada. – respondeu o mouro, num tom ríspido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Palavras não podem se igualar a uma montanha. – respondeu o turco imperturbavelmente – Sou Al Afdhal, um mameluco. Venha comigo, para longe deste covil de ratos, e conversaremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yusuf ibn Suleyman embainhou seu sabre com um pouco de má-vontade, como se estivesse meio arrependido da decisão de paz do turco, mas ele o seguiu sem fazer comentários. O caminho deles seguia através da escuridão, infestada por ratos, de becos fedorentos; e através de ruas estreitas e sinuosas, fedendo a lixo. O Cairo era na época, assim como mais tarde, um fantástico contraste entre esplendor e decadência, onde palácios exóticos se erguiam entre as ruínas esfumaçadas de cidades esquecidas; um enxame de subúrbios variados se agrupando ao redor dos muros de El Kahira, a proibida cidade interna onde morava o califa e seus nobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, os companheiros chegaram a um bairro mais novo e respeitável, onde os balcões salientes, com suas janelas ricamente treliçadas por desenhos de cedro e madrepérola, quase se tocavam ao longo da rua estreita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Todas as lojas estão às escuras. – grunhiu o mouro – Há poucos dias, a cidade estava iluminada como se fosse dia, do escurecer ao nascer do sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse foi um dos caprichos de Al Hakim. – disse o turco – Agora, ele tem outro capricho, e nenhuma luz queima nas ruas de &lt;em&gt;al medina&lt;/em&gt;. Qual será o humor dele amanhã, só Alá sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não há conhecimento, salvo em Alá – o mouro concordou religiosamente e franziu a testa. O turco havia puxado o fino bigode caído, como se para disfarçar um largo sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pararam diante de uma porta com tranca de ferro, numa compacta arcada de pedra, e o turco bateu cuidadosamente. Uma voz pediu uma senha lá dentro, e foi respondida nos tons guturais de Turan, ininteligíveis para Yusuf ibn Suleyman. A porta foi aberta, e Al Afdhal entrou em densa escuridão, puxando o mouro consigo. Ouviram a porta se fechar atrás deles, e depois uma pesada cortina foi puxada para trás, revelando um corredor iluminado por lampiões, e um ancião cicatrizado cujos bigodes ferozes o anunciavam como sendo turco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um velho mameluco que se tornou vendedor de vinho. – disse Al Afdhal para o mouro – Leve-nos a uma sala onde possamos ficar a sós, Ahmed.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Todas as salas estão vazias. – queixou-se o velho Ahmed, mancando à frente deles – Sou um homem arruinado. Os homens temem tocar na taça, desde que o califa proibiu vinho. Alá o castigue com gota!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curvando-os para dentro de uma pequena sala, ele estendeu panos para eles, colocou diante deles um grande prato de grãos de pistacho, uvas-passa de Tihama e cidras; serviu vinho de um odre bojudo, e se afastou manquejando e murmurando baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Egito caiu em maus dias. – o turco falou arrastada e indolentemente, bebendo a grandes goles o licor de Xiraz. Era um homem alto, magro porém fortemente constituído, com agudos olhos negros que dançavam incansáveis e nunca ficavam parados. Seu &lt;em&gt;khalat&lt;/em&gt; era simples, mas de feito suntuoso; seu elmo espiralado estava cinzelado com prata, e jóias brilhavam no cabo de sua cimitarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De frente para ele, Yusuf ibn Suleyman apresentava algo da mesma aparência de falcão, o que é característico de todos os homens que vivem pela guerra. O mouro era tão alto quanto o turco, mas com membros mais grossos e peito mais volumoso. Ele tinha a constituição física de um montanhês – força combinada com resistência. Sob o turbante branco, seu rosto marrom se mostrava bem barbeado, e ele tinha feições mais suaves que o turco, sendo a cor escura de sua pele mais devido ao sol que à Natureza. Seus calmos olhos cinzas eram frios como aço, mas mesmo assim, ardia neles uma insinuação de fogos tempestuosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele bebia sofregamente seu vinho e estalava os lábios com gosto, e o turco sorria largamente e tornava a lhe encher o copo de vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como vão os fiéis na Espanha, irmão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito mal, desde que o Vizir Mozaffar ibn Al Mansur morreu. – respondeu o mouro – O Califa Hischam é um fraco. Ele não consegue frear seus nobres, cada um dos quais quer fundar um estado independente. A terra geme sob a guerra civil, e a cada ano os reinos cristãos ficam mais poderosos. Uma mão forte ainda pode salvar a Andaluzia; mas, em toda a Espanha, não há tal mão forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No Egito, uma mão assim pode ser encontrada. – observou o turco – Aqui há emires muito poderosos, que adoram homens bravos. Nas fileiras dos mamelucos, há sempre um lugar para um sabre como o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sou turco nem escravo. – grunhiu Yusuf.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! – a voz de Al Afdhal era suave; a insinuação de um sorriso lhe tocava os lábios finos – Não tema; estou em débito com você, e posso guardar seu segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que quer dizer? – A cabeça aquilina do mouro se ergueu bruscamente. Seus olhos cinzentos começaram a arder. Sua mão forte procurou o cabo da espada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouvi você gritar, na tensão da luta, quando golpeou o espadachim negro. – disse Al Afdhal – Você rugiu “Santiago!”. Assim gritam os cáfaros da Espanha em batalha. Você não é mouro; você é um cristão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro estava de pé num instante, o sabre desembainhado. Mas Al Afdhal não estava agitado; ele se reclinava tranqüilamente sobre as almofadas, sorvendo seu vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tema. – ele repetiu – Já disse que guardarei seu segredo. Eu lhe devo minha vida. Um homem como você jamais poderia ser um espião; você é muito rápido na ira, e aberto demais em sua fúria. Só há uma razão para você ter vindo para entre os muçulmanos: vingar-se de um inimigo pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cristão ficou imóvel por um momento, os pés firmados como se para um ataque, a manga de seu &lt;em&gt;khalat&lt;/em&gt; recuada para revelar os músculos enrijecidos de seu grosso braço moreno. Ele carranqueou incerto e, deste modo, parecia bem menos um muçulmano do que antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um instante de tensão ofegante; então, com um encolher de seus ombros musculosos, o falso mouro se sentou novamente, embora com seu sabre deitado sobre os joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem. – ele disse com sinceridade, agarrando um cacho de uvas com uma mão bronzeada e enfiando-as na boca. Ele falou enquanto mastigava: – Sou Diego de Guzman, de Castela. Procuro um inimigo no Egito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem? – indagou Al Afdhal com interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um berbere chamado Zahir el Ghazi; que os cães mastiguem seus ossos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turco se sobressaltou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Alá, você aponta para um alvo elevado! Sabia que esse homem é agora um emir do Egito, e general de todas as tropas berberes dos califas fatímidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por São Pedro – respondeu o espanhol –, isso importa tão pouco quanto se ele fosse um varredor de ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sua rixa de sangue lhe levou para longe. – comentou Al Afdhal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os berberes de Málaga se revoltaram contra seu governante árabe. – disse abruptamente de Guzman – Eles pediram ajuda de Castela. Quinhentos cavaleiros marcharam em seu auxílio. Antes que pudéssemos alcançar Málaga, este amaldiçoado Zahir el Ghazi havia traído seus companheiros para o califa. Então, ele traiu a nós, que estávamos marchando para a ajuda deles. Ignorantes de tudo o que havia acontecido, caímos numa armadilha feita pelos mouros. Somente eu escapei com vida. Três irmãos e um tio caíram ao meu lado naquele dia. Fui lançado numa prisão mourisca, e um ano se passou antes que meu povo pudesse juntar ouro bastante para me resgatar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando fiquei livre novamente, eu soube que Zahir havia fugido da Espanha, por medo de seu próprio povo. Mas minha espada era necessária em Castela. Passou-se mais um ano, antes que eu pudesse tomar a estrada da vingança. E, durante um ano, procurei pelos países muçulmanos, disfarçado de mouro, cuja fala e costumes aprendi através de uma vida de batalhas contra eles, e por conta de meu cativeiro entre eles. Só recentemente soube que o homem a quem eu procurava estava no Egito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al Afdhal não respondeu imediatamente, mas ficou examinando atentamente as feições ásperas do homem à sua frente, vendo refletida nelas a natureza indomável das selvagens regiões montanhosas, onde um punhado de guerreiros cristãos desafiava as espadas do Islã durante 300 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há quanto tempo você está em &lt;em&gt;al medina&lt;/em&gt;? – ele indagou abruptamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há poucos dias apenas. – grunhiu de Guzman – Tempo suficiente para saber que o califa é louco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há mais para saber. – respondeu Al Afdhal – Al Hakim é realmente louco. Eu digo a um franco o que não ouso dizer a um muçulmano... mas todos os homens sabem disso. O povo, que é sunita, resmunga sob seu calcanhar. Três grandes tropas sustentam seu poder. Primeiro, os berberes de Kairouan, onde a dinastia xiita dos Fatímidas inicialmente criou raízes; segundo, os sudaneses negros, os quais, sob o comando do General Othman, ganham mais poder a cada ano; e terceiro, os mamelucos, ou baharitas, os Escravos Brancos do Rio: turcos e sunitas como eu. O emir deles é Es Salih Muhammad, e entre ele, el Ghazi e o negro Othman, há ódio e inveja suficientes para começar uma dúzia de guerras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Zahir el Ghazi veio ao Egito há três anos como um aventureiro sem dinheiro. Ele foi elevado à categoria de emir, em parte graças à virtude de uma escrava veneziana chamada Zaida. Há também uma mulher por trás da cortina do califa: a árabe Zulaikha. Mas nenhuma mulher consegue jogar com Al Hakim”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diego abaixou seu copo vazio e olhou diretamente para Al Afdhal. Os espanhóis ainda não haviam adquirido a formalidade polida, a qual seria mais tarde considerada sua característica dominante. O castelhano ainda era mais nórdico do que latino. Diego de Guzman possuía a franqueza rude dos godos, que eram seus ancestrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, e agora? – ele indagou – Você vai me trair para os muçulmanos, ou foi sincero quando disse que guardaria meu segredo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho amor nenhum por Zahir el Ghazi. – murmurou Al Afdhal, como que para si mesmo, revirando em seus dedos o anel que havia tirado do gigante negro – Zaman era cão de Othman; mas o ouro berbere pode comprar uma espada sudanesa. – Erguendo sua cabeça, ele devolveu o olhar direto e desafiador de De Guzman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também tenho uma dívida com Zahir. – disse – Farei mais do que guardar seu segredo. Vou lhe ajudar na sua vingança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman se moveu para diante, e seus dedos de aço agarraram o ombro vestido em seda do turco, como um torno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você fala a verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que Alá me castigue se eu estiver mentindo! – jurou o turco – Ouça meu plano...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enquanto na loja oculta de Ahmed O Aleijado um turco e um espanhol curvavam juntos suas cabeças sobre um plano sombrio, dentro das muralhas maciças de El Kahira, um evento estupendo estava prestes a ocorrer. Sob as sombras dos muxarabis (*) se esgueirava uma figura velada e encapuzada. Pela primeira vez em sete anos, uma mulher andava pelas ruas do Cairo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebendo sua enormidade, ela tremia de um medo que não era de todo inspirado pelas sombras ocultas que poderiam esconder ladrões sorrateiros. As pedras lhe feriam os pés em seus esfarrapados chinelos de veludo; há sete anos, os sapateiros do Cairo haviam sido proibidos de fazerem calçados de rua para as mulheres. Al Hakim havia decretado que as mulheres do Egito fossem confinadas, não como jóias em caixas fortes, mas como répteis em jaulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora vestida em farrapos rejeitados, não era uma mulher comum que se esgueirava trêmula pela noite. No dia seguinte, a notícia correria, através de canais misteriosos de comunicação, harém em harém, e mulheres rancorosas, se refestelando em almofadas de cetim, ririam alegremente da vergonha de uma irmã invejada e odiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zaida, a ruiva veneziana, favorita de Zahir el Ghazi, havia tido mais poder que qualquer outra mulher no Egito. E agora, enquanto ela deslizava pela noite – uma proscrita –, o pensamento que lhe queimava como ferro em brasa era o de saber que ela havia ajudado seu infiel amante e senhor em sua subida até lugares elevados do mundo, somente para que outra mulher colhesse os frutos daquela labuta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zaida vinha de uma raça de mulheres acostumadas a desestabilizarem tronos com sua beleza e sagacidade. Ela mal se lembrava de Veneza, de onde havia sido raptada por piratas berberes. O corsário, que a havia pegado e criado para seu harém, havia caído em batalha contra os bizantinos e, como uma garota esguia de 14 anos, Zaida havia passado para as mãos de um príncipe de Creta – um jovem lânguido e afeminado, ao qual ela passou a manipular com os dedos róseos. Então, após alguns anos, chegara a incursão da frota egípcia nas ilhas dos gregos – pilhagem, matança, fogo, paredes despedaçadas, guinchos de morte e uma jovem ruiva gritando nos braços de ferro de um gigante berbere que gargalhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ela vinha de uma raça cujas mulheres governavam os homens, Zaida não pereceu nem se tornou um brinquedo que choramingava. Sua natureza era flexível, como uma árvore nova que se curva sem ser arrancada pela raiz. Em pouco tempo, apesar de nunca ter mandado em Zahir el Ghazi, ela pelo menos estava no mesmo patamar que ele, e por ser oriunda de uma raça de fazedoras de reis, ela começou a fazer de Zahir el Ghazi um rei. O homem tinha inteligência, super-vitalidade, e força física e mental; ele só precisava de um único estímulo para sua ambição. Zaida era esse estímulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora Zahir, considerando-se totalmente capaz de galgar sozinho o brilhante tapete vermelho da escada sem ela, havia colocado-a de lado. Porque Alá tinha dado a ele um desejo que mulher nenhuma, por mais desejável que fosse, conseguia satisfazer totalmente, e porque Zaida não suportaria uma rival – uma árabe flexível havia sorrido para o berbere, e o mundo da ruiva veneziana havia desmoronado. Zahir a havia despido e lançado na rua, como se fosse uma vagabunda comum – somente a compaixão de um escravo lhe cobrindo a nudez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Absorta em seus pensamentos que lhe queimavam, ela ergueu o olhar com um sobressalto, quando uma silhueta alta e encapuzada saiu de dentro das sombras de um balcão saliente e a encarou. Um largo manto o envolvia, e sua touca lhe escondia a parte inferior do rosto. Apenas seus olhos ardiam para ela, quase luminosos à luz das estrelas. Ela se encolheu para trás, com uma exclamação baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma mulher nas ruas de &lt;em&gt;al medina&lt;/em&gt;! – A voz era estranha e cavernosa, quase fantasmagórica – Isso não é uma desobediência às ordens do califa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não ando nas ruas por escolha, &lt;em&gt;ya khawand&lt;/em&gt;. – ela respondeu – Meu amo me expulsou de casa, e não tenho onde repousar minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estranho curvou sua cabeça encapuzada e ficou imóvel por algum tempo, como uma imagem meditativa de noite e silêncio. Zaida o observava nervosamente. Havia algo de sombrio e agourento nele; parecia menos um homem ponderando a história de uma jovem escrava encontrada por acaso, do que um profeta sombrio pesando o destino de um povo pecador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, ele ergueu a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha! – ele disse, numa voz mais de comando que de convite – Encontrarei um lugar para você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sem parar para ver se ela obedecia, ele caminhou altivamente na rua. Ela se apressou atrás dele, agarrando ao redor de si o robe que se arrastava pelo chão. Não poderia andar pelas ruas a noite toda; qualquer oficial do califa a decapitaria por violar o decreto de Al Hakim. Este estranho poderia estar levando-a para a escravidão, mas ela não tinha escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio de seu acompanhante a deixava nervosa. Várias vezes, ela tentou falar, mas sua sombria ausência de resposta a deixava calada, por sua vez. Sua curiosidade foi aguçada e sua vaidade tocada. Ela nunca antes havia falhado de forma tão marcante em interessar um homem. Ela sentiu vagamente algo imponderável e que não conseguia dominar: uma indiferença não-natural e assustadora, à qual não conseguia tocar. O medo começou a crescer nela, mas ela o seguiu porque não sabia mais o que fazer. Ele só falou uma vez, quando, olhando para trás, ela ficou sobressaltada ao ver várias formas furtivas e indistintas se esgueirando atrás deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há homens nos seguindo! – ela exclamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não ligue para eles. – ele respondeu, em sua voz estranha – São apenas servos de Alá, que O servem ao modo deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta resposta enigmática a deixou tremendo, e mais nada foi dito até alcançarem um pequeno portão arcado, num muro alto. Ali, o estranho parou e chamou em voz alta. Ele foi respondido do lado de dentro, e o portão se abriu, revelando um negro mudo que segurava uma tocha no alto. Sob sua luz sinistra, a altura do estranho de túnica ficava inumanamente exagerada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas este... este é o portão do Grande Palácio! – gaguejou Zaida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como resposta, o homem puxou o capuz para trás, revelando o longo oval pálido de um rosto, no qual ardiam aqueles olhos estranhos e luminosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zaida gritou e caiu de joelhos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Al Hakim&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, Al Hakim, ó infiel pecadora! – A voz cavernosa foi como o bater de um sino fúnebre. Sonora e inexorável como as trombetas de latão do juízo final, ela ressoava na noite – Ó, mulher vã e insensata, que ousa ignorar a ordem de Al Hakim, a qual é a palavra de Deus! Que anda pelas ruas em pecado, e põe de lado as ordens do Rei Beneficente! Não há majestade e não há poder, salvo em Alá, o glorioso, o poderoso! Oh, Senhor dos Três Mundos, por que reténs Teu fogo iluminador de queimá-la até transformá-la num tição torrado e enegrecido, para que todos os homens presenciem e estremeçam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, mudando subitamente seu tom, ele gritou de forma abrupta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peguem-na!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as sombras que os seguiam se aproximaram, revelando serem homens negros com as feições murchas de mudos. Quando seus dedos agarraram a carne dela, Zaida desmaiou pela primeira e última vez em sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não percebeu enquanto era erguida e carregada através do portão e de jardins, os quais ondulavam com flores e fediam a pimenta, e através de corredores enfileirados com colunas espiraladas de mármore e ouro, e para dentro de uma câmara sem janelas, cujas portas arcadas estavam trancadas com barras de ouro decoradas com ametistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi sobre o chão atapetado e alastrado por travesseiros desta câmara, que a veneziana recuperou a consciência. Ela olhou atordoada ao redor, e logo a lembrança de sua aventura retornou aceleradamente; e, com uma exclamação baixa, ela arregalou desvairadamente os olhos ao redor, em busca de seu captor. Ela se encolheu novamente para vê-lo de pé sobre ela, os braços cruzados e a cabeça sombriamente curvada, enquanto seus terríveis olhos lhe queimavam dentro da alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, Leão dos Fiéis! – ela arfou, se esforçando para ajoelhar-se – Piedade! Piedade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo enquanto falava, ela estava repugnantemente consciente da futilidade de implorar por piedade onde a piedade era desconhecida. Ela se curvava servilmente diante do monarca mais temido do mundo: o homem cujo nome era uma maldição nas bocas dos cristãos, judeus e muçulmanos ortodoxos; o homem que, alegando ser descendente de Ali, o sobrinho do Profeta, era a cabeça do mundo xiita, a encarnação da Razão Divina para todos os xiitas; o homem que ordenara que todos os cães fossem mortos, todas as vinhas destruídas, toda uva e mel jogados no Nilo; que havia banido todos os jogos de azar, confiscado as propriedades dos cristãos coptas e abandonado o próprio povo a torturas abomináveis; que acreditava que desobedecer algum de seus comandos, por mais insignificante que fosse, era o mais tenebroso pecado concebível. Ele percorria as ruas à noite, disfarçado, como Harun al-Rashid havia feito antes dele, e como Baibars fez depois dele, para ver se suas ordens eram obedecidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, Al Hakim a encarava com olhos arregalados e sem piscar, e Zaida sentia sua pele secar e se arrepiar de horror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Blasfemadora! – ele sussurrou – Instrumento de Shaitan&amp;shy;(**)! Filha de todo o mal! Ó, Alá! – ele gritou subitamente, lançando para o alto seus braços envoltos em mangas largas – Qual castigo deve ser inventado para este demônio? Qual agonia é suficientemente terrível, qual degradação é vil o bastante para fazer justiça? Alá me dê sabedoria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zaida se ergueu sobre os joelhos, arrancando o véu rasgado. Ela esticou o braço, apontando para o rosto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que chama Alá? – ela guinchou histericamente – Chamai Al Hakim! Você é Alá! Al Hakim é &lt;em&gt;Deus&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parou bruscamente diante do grito dela; cambaleou, agarrando a própria cabeça e gritando de forma incoerente. Logo, ele se endireitou e baixou, de forma deslumbrada, o olhar pra ela. O rosto dela estava branco como giz, os olhos grandes arregalados. À sua habilidade natural de dramatizar, foi adicionado o verdadeiro e desesperado horror de sua posição. Para Al Hakim, parecia que ela estava deslumbrada e maravilhada por uma visão de esplendor celestial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que vê, mulher? – ele arfou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alá se revelou para mim! – ela sussurrou – Em seu rosto, brilhante como o sol da manhã! Mais ainda, eu queimo, eu morro no fogo de tua glória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela afundou o rosto nas mãos e se agachou trêmula. Al Hakim passou uma mão trêmula sobre a testa e têmporas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deus! – ele sussurrou – Sim, eu sou Deus! Eu havia pensado nisso... eu havia sonhado com isso... eu, e apenas eu, possuo a sabedoria do Infinito. Agora, uma mortal viu isso, reconheceu o deus na forma de homem. Sim, é a verdade ensinada pelos mestres do Xiismo: a encarnação da Divindade. Vejo a Verdade por trás da verdade, finalmente. Não uma mera encarnação da divindade, mas a própria divindade! Alá! Al Hakim é Alá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curvando o olhar sobre a mulher aos seus pés, ele ordenou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levante-se, mulher, e olhe para teu deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Timidamente, ela o fez e ficou encolhida diante de seu olhar que não piscava. Zaida, a veneziana, não era extremamente bonita de acordo com certas normas arbitrárias, as quais exigem feições perfeitamente esculpidas e estrutura delicada – mas ela era agradável ao olhar. Tinha a constituição larga, com seios grandes e quadris largos, e ombros mais largos que a maioria. Seu rosto não era clássico como o dos gregos, e era levemente sardento. Mas havia nela uma vitalidade que transcendia a mera beleza superficial. Seus olhos castanhos lampejavam, refletindo uma inteligência aguda, e seus membros e quadris largos indicavam vigor físico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto olhava para ela, uma mudança nublou os olhos grandes de Al Hakim; ele parecia vê-la claramente pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Teu pecado está perdoado. – ele entoou – Tu foste a primeira a louvar teu Deus. De hoje em diante, tu me servirás em honra e esplendor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se prostrou, beijando o carpete diante dos pés dele, e ele bateu palmas. Um eunuco entrou, fazendo uma reverência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vá depressa à casa de Zahir el Ghazi. – disse Al Hakim, parecendo olhar por cima da cabeça de seu criado e não vê-lo – Diga a ele: “Esta é a palavra de Al Hakim, o qual é Deus, que amanhã de manhã será o início dos acontecimentos, da construção de navios e da condução dos exércitos, como tu desejaste, pois Deus é Deus, e os incrédulos por muito tempo blasfemaram contra Ele!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouvindo e obedecendo, mestre. – murmurou o eunuco, se curvando até o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu duvidava e temia. – disse Al Hakim, sonhador, olhando para longe e além dos confins da realidade, para algum reino distante ao qual só ele conseguia ver – Eu não sabia, como agora sei, que Zahir el Ghazi era a ferramenta do Destino. Quando ele me insistiu para conquistar o mundo, eu hesitei. Mas eu sou Deus; e, para os deuses, todas as coisas são possíveis; sim, todos os reinos e glória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma breve olhada no mundo naquela noite de presságios em 1021 d.C. Era uma noite numa era de mudanças; uma era em que se contorcia nas dores da labuta, na qual tudo o que levou à forma do mundo moderno estava se esforçando para nascer. Era um mundo escarlate e dilacerado, caótico e medonho, prenhe de poder imponderável, mas aparentemente afundando em estagnação e ruína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Egito, uma população sunita gemia sob o calcanhar de uma dinastia xiita – uma dinastia encolhida e murcha do império mundial, mas ainda poderosa, se estendendo do Eufrates ao Sudão. Entre as fronteiras do Egito e o mar ocidental, havia uma vasta extensão, habitada por tribos selvagens, nominalmente sob o cetro do califa; as mesmas tribos que outrora haviam esmagado o reino godo da Espanha, e que agora se agitavam incansáveis em suas montanhas, precisando apenas de um líder poderoso para guiá-los novamente numa onda esmagadora contra a Cristandade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Espanha, as divididas províncias mouras cediam terreno às hostes de Castela, Leon e Navarra. Mas estes reinos cristãos, apesar de forjados em sangue e ferro, não eram numericamente poderosos o suficiente para resistirem a um ataque unido do Islã. Eles formavam a fronteira oeste dos domínios cristãos, enquanto Bizâncio formava a fronteira leste, como nos dias de Omar e as Companhias conquistadoras, detendo as trompas da Lua Crescente, também enfrentadas na Europa central, para formar um círculo inexorável. E a Lua Crescente nunca estava morta; ela apenas dormia e, mesmo em seu sono, palpitavam os tambores do império.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Europa, sob o domínio do feudalismo, estava mais fraca internamente do que em suas fronteiras. As nações já estavam vagamente tomando forma, mas ainda não havia verdadeiro espírito nacional. Na França, não havia Carlos Magno nem Martel – apenas camponeses famintos e assolados pela praga, feudos em guerra e uma terra dividida pela luta entre a Dinastia Capetiana e o duque de Normandia, soberanos e vassalos rebeldes. E a França representava a Europa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia, é verdade, homens fortes no Oeste: Canuto O Dinamarquês, governando a Inglaterra saxã; Henry da Germânia, Imperador do sombrio Santo Império Romano. Mas Canuto era quase como o rei de outro mundo, em seu isolamento marinho; e o Imperador estava ocupado, tentando unir os reinos rivais da Germânia e Itália, e em expulsar os invasores eslavos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Bizâncio, o reinado glorioso de Basílio Bulgaróctone estava chegando ao fim. Longas sombras já estavam caindo desde o leste, através do Chifre de Ouro (***). Bizâncio ainda era o mais poderoso baluarte da Cristandade; mas, para oeste desde Bucara, avançavam os cavaleiros das estepes, rapidamente destinados a arrancarem do Império Oriental sua última possessão asiática. Os seljúcidas, bloqueados ao sul pelo cintilante império indo-iraniano de Mahmud de Ghazni, cavalgavam em direção ao sol poente, e não seriam detidos até que os cascos de seus cavalos batessem nas águas do Mediterrâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Bagdá, os persas lutavam nas ruas contra os mercenários turcos do fraco califa abássida. Mas o Islã não estava destruído – apenas quebrado em várias partes, como os pedaços de uma lâmina brilhante. Havia força ativa no Egito, em Ghazni e nos saqueadores seljúcidas. Força potencial estava adormecida na Síria, Iraque, Arábia e nas tribos inquietas do Atlas – força suficiente para destruir as barreiras ocidentais da Cristandade, se os vários elementos separados estivessem unidos por uma mão forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bizâncio ainda era inatacável; mas, se os reinos espanhóis caíssem diante de uma súbita investida vinda da África, as hordas jorrariam para dentro da Europa quase sem obstáculo. Era esse o retrato daquela época: tanto o Oeste quanto o Leste divididos e inertes; no Oeste, ainda não havia nascido aquele espírito flamejante que, 75 anos depois, trovejou para leste nas Cruzadas; no Leste, nenhum Saladin nem Gêngis Khan havia aparecido. Mas, se tal homem surgisse, as trompas da renovada Lua Crescente ainda poderiam completar o círculo, não na Europa Central, mas sobre as muralhas caídas de Constantinopla, atacada tanto pelo norte quanto pelo sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse era o panorama do mundo, naquela noite de ruína e augúrios, quando duas figuras encapuzadas pararam num grupo de palmeiras, entre as ruínas da Cairo noturna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante deles, estavam as águas de el Khalij, o canal, e além dele, se erguendo de sua própria margem, a própria muralha fortificada de tijolos secos que cercava El Kahira, separando o coração real de &lt;em&gt;al medina&lt;/em&gt; do resto da cidade. Construída pelos Fatímidas meio século antes, a cidade interna era na verdade uma gigantesca fortaleza, a qual abrigava os califas, seus criados e certas tropas de seus mercenários – proibida para homens comuns sem permissão especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Poderíamos escalar a parede. – murmurou de Guzman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E nem chegaríamos perto de nosso inimigo. – respondeu Al Afdhal, tateando nas sombras sob as árvores aglomeradas – Aqui está!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando sobre seu ombro, de Guzman viu o turco mexendo em algo que parecia ser um amontoado disforme de mármore. Esta localização em particular era totalmente ocupada por ruínas, e habitada apenas por morcegos e lagartos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um antigo santuário pagão. – disse Al Afdhal – Evitado por causa de superstições, e há muito tempo em ruínas... mas ele esconde mais do que um arvoredo de palmeiras mostra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ergueu e afastou uma larga laje, revelando degraus que guiavam para dentro de uma abertura negra; de Guzman franziu a testa, desconfiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esta – disse Al Afdhal, percebendo sua dúvida – é a entrada de um túnel que segue por debaixo da muralha e sobe para dentro da casa de Zahir el Ghazi, a qual fica logo após o muro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sob o canal? – indagou o espanhol incrédulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim; outrora a casa de el Ghazi era a casa de prazeres do Califa Khumaraweyh, o qual dormia num travesseiro de ar que flutuava numa piscina de mercúrio, guardada por leões... mas caiu sob a faca do vingador, apesar de tudo. Ele preparou saídas secretas de todos os seus palácios e casas de prazer. Antes que Zahir el Ghazi tomasse a casa dele, ela era ocupada por seu rival Es Salih Muhammad. O berbere nada sabe desta passagem secreta. Eu poderia tê-la usado antes, mas até esta noite, eu não tinha certeza de que desejava matá-lo. Venha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De espadas desembainhadas, eles desceram tateando por um lance de degraus de pedra e avançaram ao longo de um túnel plano em escuridão de breu. Os dedos tateantes de De Guzman diziam a ele que as paredes, chão e teto eram compostos por enormes blocos de pedra, provavelmente pilhados de edifícios construídos pelos faraós. Enquanto avançavam, as pedras ficavam escorregadias sob os pés, e o ar ficava úmido. Gotas de água caíam viscosamente no pescoço de De Guzman, e ele estremecia e praguejava. Estavam passando sob o canal. Pouco depois, esta umidade diminuiu e, logo em seguida, Al Afdhal sibilou um aviso, e eles começaram a subir outro lance de degraus de pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No topo, o turco parou e remexeu em alguma tranca ou ferrolho. Um painel deslizou para o lado, e uma luz suave fluiu para dentro, vinda de um corredor abobadado e atapetado. De Guzman percebeu que eles realmente passaram sob o canal e o grande muro, e que estavam nos limites proibidos de El Kahira, a misteriosa e fabulosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al Afdhal deslizou agilmente através da abertura, e logo de Guzman o havia seguido e fechado-a atrás deles. Tornou-se um dos painéis internos da parede, não ficando diferente dos outros painéis de sândalo. Então o turco andou rapidamente e sem hesitação pelo corredor, como um homem que conhece seu caminho. O espanhol seguiu, de sabre na mão, olhando incessantemente para a direita e esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravessaram uma cortina escura de veludo e se depararam com uma entrada arcada de ébano marchetado de ouro. Um negro musculoso, vestido apenas com volumosas calças de seda, o qual estivera cochilando sobre os próprios quadris, se ergueu sobressaltado, girando uma grande cimitarra. Mas ele não bradou – tinha o rosto bestial de um mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O estrondo do aço vai acordar as pessoas da casa. – Al Afdhal disse bruscamente, evitando o giro da espada do eunuco. Quando o negro se desequilibrou por conta de sua tentativa frustrada, de Guzman deu uma rasteira nele. Ele caiu estatelado, e o turco atravessou sua lâmina no corpo negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi rápido e silencioso o bastante! – Al Afdhal riu suavemente – Agora vamos à verdadeira presa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidadosamente, ele testou a porta, enquanto o espanhol se agachava, respirando entre dentes e seus olhos começando a arder como os de um gato caçando. A porta cedeu para dentro, e de Guzman ultrapassou o turco num salto para dentro da câmara. Al Afdhal seguiu e, fechando a porta, encostou se a ela, rindo do homem que havia se erguido subitamente de seu divã, com uma praga sobressaltada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Encontramos a caça no abrigo, irmão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não havia risada nos lábios de Diego de Guzman, quando ele se ergueu sobre o semi-levantado ocupante do quarto, e Al Afdhal viu o sabre erguido em sua mão musculosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zahir el Ghazi era um homem alto e forte, seu cabelo amarelo bem cortado e a curta barba clara cuidadosamente aparada. Embora fosse tarde da noite, ele estava totalmente vestido em calças de seda, e cinto e colete de veludo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não grite, cão. – o espanhol avisou – Minha espada está em seu pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou vendo. – respondeu Zahir el Ghazi imperturbavelmente. Seus olhos azuis vaguearam até o turco, e ele riu com zombaria áspera – Então, você evitou os derramadores de sangue? Pensei que estivesse morto a esta hora. Mas o resultado será o mesmo. Idiota! Você cortou sua própria garganta! Como chegou ao meu quarto, eu não sei; mas um só grito chamará meus escravos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Casas antigas têm segredos antigos. – riu o turco – Um deles você aprendeu: que as paredes deste quarto são feitas para abafar gritos. Outro você não sabe ainda: por que viemos aqui esta noite. – Ele se voltou para Diego de Guzman: – Bem, por que está hesitando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman recuou e abaixou o sabre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lá está sua espada. – ele disse ao berbere, enquanto Al Afdhal praguejava, meio enojado, meio entretido – Pegue-a. Se você for homem o bastante para me matar, seja. Mas acho que você nunca verá o sol nascer novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zahir o olhou atentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não é mouro. – disse o berbere – Nasci nos Montes Atlas, mas fui criado em Málaga. Você é um espanhol. Quem é você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diego puxou para um lado seu turbante esfarrapado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diego de Guzman. – disse Zahir calmamente – Eu devia ter imaginado. Bem, fidalgo, você percorreu um longo caminho até sua morte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele puxou a pesada cimitarra, e então hesitou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você usa armadura, enquanto eu só visto seda e veludo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diego chutou um elmo em sua direção – uma das várias peças de armadura largadas sem cuidado pelo quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vejo o brilho de malha sob sua roupa. – ele disse – Você sempre usou uma camisa de aço. Estamos em pé de igualdade. Levante-se, cão. Minha alma está sedenta por seu sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O berbere se curvou, pôs o elmo e saltou inesperadamente, esperando pegar seu antagonista com a guarda aberta. Mas o sabre mouro colidiu no ar contra a cimitarra berbere, e faíscas choveram quando as duas longas lâminas curvas giraram, lampejaram, levantaram e caíram, palpitando à luz do lampião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos atacaram, golpeando furiosamente, cada um preocupado demais em matar o outro para pensar muito em ostentar esgrima. Cada golpe era dado com força total e desejo assassino por trás dele. Tal duelo não continuaria por muito tempo; a desesperada indiferença do combate o levaria rapidamente a um desfecho sangrento, para um ou para outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman lutava em silêncio, mas Zahir el Ghazi ria e escarnecia de seu inimigo entre golpes relampejantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cão! – O manejo do braço do berbere não interferia no de sua língua – Matar você aqui me cansa. Você deveria viver para presenciar a destruição de seu povo maldito! Por que vim ao Egito? Meramente por refúgio? Há! Eu vim forjar uma espada para meus inimigos, tanto cristãos quanto muçulmanos! Insisti para que o califa construísse uma frota... para erguer os estandartes da guerra santa... para conquistar o califado de Córdoba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As tribos berberes estão preparadas para tal guerra. Rugiremos para oeste desde o Egito, como uma avalanche que ganha volume e velocidade à medida que avança. Com meio milhão de guerreiros, invadiremos a Espanha... transformaremos Córdoba em pó e incorporaremos seus guerreiros às nossas fileiras! Castela não pode conosco e, sobre os cadáveres dos cavaleiros espanhóis, invadiremos as planícies da Europa!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman cuspiu uma praga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Al Hakim havia hesitado. – riu Zahir, respirando calma e facilmente, enquanto aparava o sabre que zunia – Mas, esta noite, ele me mandou uma notícia... acabei de sair do palácio, onde ele me contou que será como desejei. Ele tem uma nova fantasia: acredita ser Deus! Não importa. A Espanha está condenada! Se eu sobreviver, serei o califa de lá um dia! E mesmo que você me mate, não pode deter Al Hakim agora. A guerra santa será iniciada. Os haréns do Islã serão preenchidos por garotas castelhanas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos lábios de De Guzman explodiu um grito áspero e selvagem, como se ele percebesse pela primeira vez que o berbere não estava simplesmente zombando dele com palavras sem importância, mas enunciando um verdadeiro plano de conquista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o rosto sombrio e os olhos ferozes, ele mergulhou com uma velocidade renovada que fez Al Afdhal arregalar os olhos. Os lábios barbados de Zahir já não pronunciavam mais escárnios. Toda a atenção do berbere estava dedicada a deter o sabre espanhol que lhe batia na lâmina como um martelo numa forja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estrondo do aço se ergueu até Al Afdhal morder o lábio em nervosismo, sabendo que qualquer eco daquele barulho iria certamente reverberar além das paredes abafadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pura força e fúria &lt;em&gt;berserk&lt;/em&gt; do espanhol estavam começando a surtir efeito. O berbere estava com a pele bronzeada pálida. Sua respiração foi ficando ofegante, e ele foi continuamente recuando. O sangue escorria de talhos nos braços, coxa e pescoço. De Guzman sangrava também, mas ele não afrouxava o furor impetuoso de seu ataque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zahir estava próximo da parede atapetada, quando subitamente saltou para um lado enquanto de Guzman investia. Desequilibrado por errar a estocada, o espanhol pulou para a frente e a ponta de seu sabre colidiu contra a pedra sob a tapeçaria. Ao mesmo tempo, Zahir dirigiu um talho à cabeça de seu inimigo, com toda a sua força minguante. Mas o sabre de aço de Toledo, ao invés de se quebrar como uma lâmina mais fraca, se dobrou e endireitou novamente. A cimitarra que descia cortou o elmo mouro e arranhou o couro cabeludo por baixo, mas antes que Zahir pudesse recuperar seu equilíbrio, o sabre de De Guzman golpeou para cima, atravessando elos de metal e o osso do quadril até lhe ralar a coluna vertebral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O berbere cambaleou e caiu com um grito abafado, suas entranhas se espalhando pelo chão. Seus dedos agarraram brevemente a felpa do grosso tapete, e logo ele ficou flácido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman, cego pelo sangue e suor, enfiava, em silencioso frenesi, várias vezes, sua espada na figura aos seus pés, embriagado demais de fúria para perceber que seu rival estava morto, até Al Afdhal, praguejando num quase horror, arrastá-lo dali. O espanhol, atordoado, limpou o sangue e suor dos olhos, e fitou groguemente seu adversário. Ainda estava aturdido pelo golpe que lhe havia rachado o elmo. Puxou o capacete partido e o lançou para um lado. Estava ensangüentado, e uma torrente escarlate lhe descia pelo rosto, cegando-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Praguejando ardentemente, ele começou a tatear por algo que o enxugasse, quando sentiu os dedos de Al Afdhal em ação. O turco rapidamente limpou o sangue do rosto do companheiro, e lhe enfaixou o ferimento com tiras arrancadas da própria roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, tirando do cinto algo que De Guzman reconheceu como o anel que Al Afdhal havia tirado do dedo do matador negro Zaman, o turco o deixou cair no pequeno tapete felpudo próximo ao corpo de Zahir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que fez isso? – indagou o espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para confundir os vingadores. Vamos embora logo, em nome de Alá. Os escravos do berbere devem estar todos surdos ou bêbados, para não terem acordado até agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saíram no corredor, onde o mudo morto fitava o teto pintado ao qual não mais enxergava, ouviram sons que indicavam gente acordando – um vago murmúrio de vozes, um som distante de passos. Apressando-se pelo vestíbulo até o painel secreto, eles entraram e tatearam na escuridão, até saírem mais uma vez no silencioso arvoredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As estrelas que empalideciam estavam refletidas nas águas escuras do canal, e a primeira sugestão de aurora se refletia nos minaretes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você conhece algum caminho para dentro do palácio do califa? – perguntou De Guzman. A bandagem em sua cabeça estava encharcada de sangue, e uma fina gota lhe escorria pescoço abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al Afdhal girou e eles se encararam, sob a sombra das árvores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu lhe ajudei a matar um inimigo em comum. – disse o turco – Não negociei para trair meu soberano para você! Al Hakim é louco, mas a hora dele ainda não chegou. Ajudei-lhe num assunto de vingança pessoal... não na guerra de nações. Contente-se com sua vingança, e lembre-se que voar muito alto é secar as asas ao sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman limpou o sangue e não respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você deve abandonar o Cairo o mais cedo possível. – disse Al Afdhal, observando-o estreitamente – Acho que seria mais seguro para todos os envolvidos. Mais cedo ou mais tarde, você será reconhecido como um franco por alguém que nada lhe deve. Vou lhe fornecer cavalos e muito dinheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho ambos. – grunhiu De Guzman, limpando o sangue do pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você partirá em paz? – indagou Al Afdhal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acaso tenho escolha? – respondeu o espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Jure. – insistiu o turco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Deus, você é insistente. – queixou-se De Guzman – Muito bem, eu juro por Santiago de Compostela que deixarei a cidade antes do meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ótimo! – o turco deu um suspiro de alívio – É para seu próprio bem, tanto quanto qualquer coisa que eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entendo suas motivações altruístas. – grunhiu De Guzman – Se havia alguma dívida entre nós, considere-a paga, e que cada homem aja de acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, girando, ele se afastou a passos largos, com o caminhar oscilante de um cavaleiro. Al Afdhal observava seus ombros largos recuarem através das árvores, com um ligeiro franzir de testa, dirigido para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das mesquitas e minaretes, saiu o sonoro &lt;em&gt;adan&lt;/em&gt;. Diante da Mesquita de Talai, do lado de fora de Bab Zweyla, encontrava-se Darazai, o mulá, e quando ele ergueu a voz, e quando ele anunciou vagarosamente através das tensas multidões, homens estremeceram e unhas se cravaram em palmas pardas de mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E através de seu divinamente apontado califa, Al Hakim, que é a semente de Ali, o qual tem o sangue do Profeta, que era Deus Encarnado, assim é Deus hoje entre vós! Sim, o Deus único anda entre vós em forma mortal! E agora ordeno a todos vocês, todos os Fiéis do Islã, que reconheçam, se curvem e adorem o único Deus verdadeiro, Senhor dos Três Mundos, o Criador do Universo, que ergueu o firmamento sem pilares em seu lugar, a Encarnação da Vontade Divina, que é Deus, que é Al Hakim, a semente de Ali!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grande estremecimento agitou a multidão; logo, um grito arrebatado quebrou a quietude ofegante. Uma figura de cabeleira selvagem correu para a frente, um árabe seminu. Com um guincho de “Blasfemador!”, ele pegou uma pedra e a arremessou. O projétil atingiu o mulá em cheio na boca, quebrando-lhe os dentes. Ele cambaleou, com o sangue lhe escorrendo pela barba. E, com um rugido aterrador, a multidão se ergueu, formou vagalhões e rolou para a frente. Impostos, fome, pilhagem e massacre... tudo isto os egípcios conseguiram suportar; mas este golpe nas raízes de sua religião foi a última gota. Mercadores calmos ficaram loucos; mendigos encolhidos se transformaram em demônios de olhos furiosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedras voavam como granizo, e o rugido ficava cada vez mais alto – o tumulto de feras selvagens ou de homens enlouquecidos. Mãos agarravam as roupas do espantado Darazai, quando homens da guarda turca em cota-de-malha e elmos espiralados fizeram a multidão recuar com suas cimitarras, e carregaram o aterrorizado mulá para dentro da mesquita, a qual eles entrincheiraram contra a multidão que avançava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um tinido de armas e um tilintar de freios, uma tropa de cavaleiros sudaneses, resplandecentes em corseletes folheados a ouro e calças de seda, saiu a golpes do portão Zuweyla. Os dentes brancos dos cavaleiros negros brilhavam em largos sorrisos de alegria; seus olhos reviravam, eles lambiam seus lábios grossos em expectativa. As pedras da multidão batiam inofensivas em suas couraças e em seus escudos de pele de hipopótamo. Eles apressavam seus cavalos contra a turba, talhando com suas lâminas curvas. Homens rolavam uivando sob os cascos esmagadores. Os amotinados recuaram, fugindo desvairadamente para dentro de lojas e pelas ruas, abandonando a praça alastrada de corpos que se contorciam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cavaleiros negros saltaram de suas selas e começaram a despedaçar portas de lojas e moradias, enchendo seus braços com pilhagem. Gritos de mulheres ressoavam de dentro das casas. Um guincho, um quebrar de vidro e treliça, e um corpo vestido de branco se espatifou na rua com um impacto de esmagar os ossos. Um rosto negro olhava para dentro do batente arruinado da janela, dividido numa gargalhada desocupada de sacudir a barriga. Um cavaleiro negro esporeou o cavalo para a frente, se inclinou de sua sela e enfiou sua lança na forma ainda trêmula de uma mulher sobre as pedras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gigante Othman, em seda flamejante e aço polido, cavalgava entre seus cães negros, chicoteando-os. Eles montaram e ficaram alinhados atrás dele. Num balouçante meio-galope, eles seguiram pelas ruas, com ensangüentadas cabeças humanas penduradas em suas lanças – uma lição para os enlouquecidos cairotas, que se agachavam em seus esconderijos, ofegando de ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resfolegante eunuco, que trazia notícias da revolta e sua repressão para Al Hakim, foi seguido rapidamente por outro, o qual se prostrou diante do califa e gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ó, Senhor dos Três Mundos, o emir Zahir el Ghazi está morto! Seus servos o encontraram assassinado em seu palácio, e ao lado dele, o anel de Zaman, o Espadachim Negro. Por este motivo, os berberes gritam que ele foi assassinado por ordem do emir Othman, procuram por Zaman em el Mansuriya e lutam contra os sudaneses!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zaida, escutando por trás de uma cortina, abafou um grito e agarrou o próprio peito numa dor breve e passageira. Mas o inescrutável olhar distante de Al Hakim não se alterou; ele estava envolto em indiferença, isolado na contemplação de mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que os mamelucos os apartem. – ele disse – Rixas particulares interferirão no destino de Deus? El Ghazi morreu, mas Alá está vivo. Outro homem será achado para liderar minhas tropas para dentro da Espanha. Enquanto isso, que comece a construção de navios. Que os sudaneses cuidem da ralé, até que ela perceba sua insensatez e o pecado de sua heresia. Já reconheci meu destino, que é o de me revelar ao mundo em sangue e fogo, até que todas as tribos da terra me conheçam e se curvem diante de mim. Têm minha permissão para ir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite caía numa cidade tensa, enquanto Diego de Guzman caminhava a passos largos pelas ruas de uma parte vizinha a el Mansuriya, no bairro dos sudaneses. Naquela seção, ocupada principalmente por soldados, luzes brilhavam e estábulos estavam abertos por um implícito acordo mudo. O dia inteiro, revoltas haviam retumbado pelos bairros; a população era como uma serpente de mil cabeças: esmagada num lugar, estourava novamente em outro, xingando, gritando e lançando pedras. Os cascos dos cavalos sudaneses haviam corrido de Zuweyla até a mesquita de ibn Tulun e de volta a Zuweyla, esguichando sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora somente homens armados atravessavam as ruas. Os grandes portões de madeira, com trancas de ferro, dos bairros, estavam fechados, como em épocas de guerra civil. Através do arco carrancudo do grande portão de Zuweyla, tropas de cavaleiros negros andavam a meio-galope, a luz das tochas tingindo de escarlate suas cimitarras desembainhadas. Seus mantos de seda esvoaçavam ao vento, e seus braços negros luziam como ébano polido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman não havia quebrado seu juramento a Al Afdhal. Certo de que o turco iria entregá-lo aos muçulmanos, caso ele não parecesse concordar com a exigência do outro, o espanhol havia cavalgado para fora da cidade e para dentro das colinas de Mukattan, antes do meio-dia. Mas ele não jurou que não retornaria. O pôr-do-sol o viu cavalgando para dentro dos subúrbios arruinados, onde ladrões e chacais se moviam furtivamente com passos silenciosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, ele andava a pé pelas ruas, entrando nas lojas – onde soldados cingidos se fartavam de melões, nozes e carne, e bebiam vinho secretamente –, e ouvia a conversa deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde estão os berberes? – indagou um turco de bigode, abarrotando a boca com um punhado de bolos de amêndoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estão emburrados no bairro deles. – respondeu outro – Eles juram que el Ghazi foi morto pelos sudaneses, e exibem o anel de Zaman como prova. Todos conhecem aquele anel. Mas Zaman desapareceu. O emir negro Othman jura não saber nada a respeito. Mas ele só pode negar a respeito do anel. Doze homens já foram mortos em brigas, quando o califa ordenou que nós, mamelucos, os apartássemos. Por Alá, este foi um dia daqueles!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A loucura de Al Hakim causou isso. – declarou outro, abaixando sua voz, e olhando rápida e cautelosamente ao redor – Até quando sofreremos sob o governo daquele cão xiita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado. – avisou seu companheiro – Ele é o califa, e nossas espadas estão a serviço dele, enquanto Es Salih Muhammad assim ordenar. Mas, se a revolta estourar novamente, é mais provável que os berberes lutem contra os sudaneses do que com eles. Dizem que Al Hakim tomou Zaida, concubina de el Ghazi, para seu harém, e isso enfurece mais ainda os berberes, fazendo-os suspeitarem que el Ghazi foi morto, se não por ordem de Al Hakim, pelo menos com o consentimento dele. Mas, &lt;em&gt;Wellah&lt;/em&gt;, a fúria deles não é nada, perto da de Zulaikha, a quem o califa deixou de lado! Dizem que a ira dela é como a de uma tempestade do deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman esperou para ouvir mais; mas, levantando-se, ele saiu rapidamente da loja de vinho. Se alguém conhecia os segredos do palácio real, esse alguém era Zulaikha. E uma amante descartada é uma arma perfeita para a vingança. A missão de De Guzman se tornou mais do que uma busca secreta pela vida de um inimigo pessoal. Agora mesmo, os rumores rastejavam para fora da misteriosa fortaleza do palácio do califa, e os homens já falavam, nos bazares, sobre uma invasão à Espanha. De Guzman sabia que a feroz habilidade de luta dos espanhóis não iria, no final, lhes servir contra uma força como a que Al Hakim poderia ser capaz de lançar contra eles. Talvez somente um louco pudesse acolher a idéia de um império mundial, mas um louco poderia cumpri-la; e, fosse qual fosse o destino final da Europa, a ruína de Castela estaria selada se as hordas africanas rolassem pelos desfiladeiros das montanhas. De Guzman pensava pouco na Europa; as terras além dos Pireneus lhe eram obscuras e sombrias, não muito mais reais que os impérios de Alexandre e dos Césares. Era em Castela que ele pensava, e no povo feroz e ardente das selvagens terras altas; nenhum outro pensamento lhe fazia o sangue latejar mais quente nas veias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contornando el Mansuriya, ele atravessou o canal e se dirigiu ao pequeno bosque de palmeiras próximo à margem. Tateando na escuridão entre as ruínas de mármore, ele encontrou e ergueu a laje. Mais uma vez, ele avançou através da escuridão total e água gotejante, tropeçou em outra escadaria e a subiu. Seus dedos encontraram e mexeram numa tranca de metal, e ele emergiu no corredor, agora sem iluminação. A casa estava em silêncio, mas o reflexo de luzes em todos os lugares indicava que ela ainda estava ocupada – sem dúvida pelos criados e mulheres do emir assassinado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem saber qual caminho levava para fora, ele andou ao acaso, atravessou uma arcada encortinada... e se deparou com meia-dúzia de escravos negros, que se ergueram de um pulo, olhando ferozmente e de espada na mão. Antes que pudesse recuar, ele ouviu um grito e um grande movimento de pés atrás de si. Amaldiçoando sua sorte, ele correu diretamente até os desnorteados negros. Um palpitante redemoinho de aço, e ele atravessava o caminho, deixando uma forma se contorcendo e sangrando atrás de si, e corria através de uma portada do outro lado da larga câmara. Espadas curvas gemiam às suas costas e, quando ele bateu a porta atrás de si, o aço vibrou no carvalho resistente e pontas brilhantes apareceram nas tiras de madeira da porta. Ele passou rapidamente a tramela e girou, olhando ferozmente ao redor, em busca de uma via de fuga. Seu olhar caiu numa janela próxima, com barras de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correndo impetuosamente e com um ofego de esforço, ele se lançou em cheio contra a janela. Com um despedaçar estilhaçante, as barras moles cederam e todo o batente foi destruído diante do impacto do seu corpo que se arremessava. Ele se lançou no vazio, no exato momento em que a porta era arrombada e um enxame de formas uivantes inundava a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Grande Palácio Leste, onde jovens escravas e eunucos deslizavam sobre furtivos pés descalços, nenhum eco repercutia daquele inferno que rugia do lado de fora das paredes. Numa câmara, cujo domo era de marfim com filigranas de ouro, Al Hakim, vestido numa túnica de seda branca que o fazia parecer ainda mais fantasmagórico e irreal, sentava-se de pernas cruzadas num leito enfeitado de jóias, e encarava, sem piscar, com seus olhos grandes, Zaida, a veneziana que se ajoelhava aos pés dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zaida não estava mais vestida com os farrapos de um escravo. Seu robe era feito com a seda escarlate de Mossul, com beiradas folheadas a ouro; seu cinto de cetim bordado com pérolas. O feitio das largas ceroulas dela era simples e diáfano, parecendo brilhar suavemente com a pele rosada à qual mal escondiam. Suas argolas eram incrustadas com grandes jóias em forma de pêra. Seus longos cílios estavam pintados por cosmético, e suas unhas com henna. Ela estava ajoelhada sobre uma almofada folheada a ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, no meio de todo este esplendor, o qual ofuscava qualquer coisa que até mesmo aquela princesa de brinquedo já conhecera, os olhos da veneziana estavam ensombrecidos. Pela primeira vez em sua vida, ela se sentia realmente um brinquedo. Ela havia inspirado a última loucura de Al Hakim, mas não o havia dominado. Uma noite, uma hora, ela havia tido expectativa de dobrá-lo às vontades dela. Agora ele parecia afastado dela, e havia uma expressão em seus frios olhos inumanos, à qual a fazia estremecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, ele falou, pesada e portentosamente, como um deus enunciando uma sentença:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é apropriado deuses se acasalarem com mortais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estremeceu, abriu a boca e logo teve medo de falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O amor é humano e é uma fraqueza. – ele continuou, pensativo – Vou afastá-lo de mim. Os deuses estão além do amor. A fraqueza me ataca quando me deito em seus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que quer dizer, meu senhor? – ela aventurou, temerosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Até os deuses devem se sacrificar – ele respondeu sombriamente – O amor de uma humana é uma blasfêmia à natureza divina. Renunciarei a você, antes que minha divindade enfraqueça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele bateu palmas calmamente, e um eunuco entrou de quatro – um novo costume criado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Traga o emir Othman. – ordenou Al Hakim, e o eunuco bateu violentamente a cabeça contra o chão, e recuou desajeitadamente da presença do califa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! – Zaida se ergueu de um pulo, desesperada – Oh, meu senhor, tenha piedade! Você não pode me entregar àquele animal negro! Você não pode...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava de joelhos, agarrando-lhe a túnica, à qual ele arrancou dos dedos dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mulher! – ele trovejou – Está louca? Quer trazer ruína para cima de você? Você atacaria a pessoa de Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Othman entrou hesitante, e em evidente apreensão – um guerreiro da bárbara Darfur, ele se erguera ao seu atual posto elevado, através de lutas selvagens e uma forma brutal de diplomacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al Hakim apontou para a mulher encolhida de medo aos seus pés, e falou brevemente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Leve-a!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sudanês nunca questionou as ordens de seu monarca. Um largo sorriso lhe dividiu o rosto de ébano e, curvando-se, ele ergueu Zaida, que se contorcia e gritava no aperto dele. Enquanto ele a carregava para fora da sala, ela contorcia os braços, estendendo suas mãos brancas e suplicando desesperadamente. Al Hakim não respondeu; ele entrelaçou as mãos, seu olhar desinteressado e impessoal como o de um viciado em haxixe. Se ouvia os gritos de sua ex-favorita, ele não dava sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas outra pessoa ouvia. Agachada numa alcova, uma esguia jovem de pele marrom observava o sorridente sudanês carregar pelo salão sua cativa contorcida. Mal ele desaparecera, ela correu em outra direção, as roupas balançando acima de suas cintilantes pernas marrons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Othman, o favorito do califa, era o único emir que morava no Grande Palácio, o qual era na verdade um conjunto de palácios unidos numa enorme estrutura, a qual abrigava 30 mil criados de Al Hakim. Ele morava numa ala que dava no bairro meridional de Beyn el Kasreyn. Para alcançá-la, ele não precisava sair do palácio. Seguindo corredores sinuosos, cruzando um ocasional pátio aberto pavimentado por mosaicos e limitado por arcos desgastados e sustentados por colunas de alabastro, ele chegou à sua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espadachins negros guardavam a porta de teca negra, enfaixada por cobre com arabescos, a qual separava seu quarto do resto do palácio. Mas, quando ele se aproximou daquela porta, uma forma flexível deslizou para fora de um largo corredor enfeitado por panos, e lhe barrou o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zulaikha! – O negro recuou em temor quase supersticioso; as esguias mãos brancas da mulher se fechavam a abriam num requinte de ira sutil e profunda demais para a compreensão grosseira dele; e, sobre o véu tênue, seus olhos ardiam como gemas do inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um servo me deu a notícia de que Al Hakim havia descartado a vadia ruiva. – disse a árabe – Portanto, venda-a para mim! Pois tenho uma dívida que quero pagar de bom grado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que eu deveria vendê-la? – discordou o sudanês, remexendo-se em impaciência animal – O califa a deu para mim. Afaste-se, mulher, antes que eu lhe cause algum dano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já ouviu o que os berberes gritam nas ruas? – ela perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estremeceu, empalidecendo levemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que isso tem a ver comigo? – ele esbravejou, mas sua voz não era firme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles uivam pela cabeça de Othman. – ela disse fria e venenosamente – Eles lhe chamam de o matador de Zahir el Ghazi. O que aconteceria se eu fosse até eles e dissesse que aquilo do que suspeitam é verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas não tenho nada a ver com isso! – ele exclamou ferozmente, como um homem pego numa rede invisível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso fazer homens jurarem que lhe viram ajudando Zaman a matá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou te matar! – ele sussurrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não ousaria, animal negro das savanas! Agora, você vai me vender esta rapariga ruiva, ou enfrentar os berberes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas mãos afrouxaram o aperto, deixando Zaida cair ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Leve-a e vá embora! – ele murmurou, com a pele negra empalidecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Primeiro leve seu pagamento! – ela replicou com malícia vingativa, e lançou um punhado de moedas em cheio no rosto dele. Ele recuou como um enorme macaco negro, seus olhos vermelhos, e suas mãos pardas abrindo e fechando numa vã sede de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorando-o, Zulaikha se curvou sobre Zaida, a qual se agachou, atordoada em nauseada impotência, esmagada pela percepção de sua incapacidade contra este novo conquistador, contra o qual, sendo alguém do mesmo sexo, toda a sedução e astúcia que ela havia usado nos homens eram inúteis. Zulaikha agarrou os cachos vermelhos da veneziana com os dedos e, forçando-lhe brutalmente a cabeça para trás, encarou fundo seus olhos com uma possessividade feroz e ansiosa, a qual fez Zaida congelar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A árabe bateu palmas, e quatro eunucos sírios entraram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levantem-na e levem até minha casa. – Zulaikha ordenou, e eles pegaram a encolhida veneziana e a carregaram dali. Zulaikha os seguiu, com as unhas rosas afundando nas palmas das mãos, enquanto inspirava suavemente entre os dentes cerrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Diego de Guzman mergulhou pela janela, ele não fazia idéia do que havia na escuridão sob ele. Não caiu muito, e se espatifou em arbustos que lhe amorteceram a queda. Erguendo-se de um pulo, ele viu seus perseguidores se amontoando através da janela à qual acabara de despedaçar, e estorvando uns aos outros por causa de seu grande número. Ele estava num jardim, um lugar grande e sombreado por flores fantasmagóricas e árvores. No momento seguinte, ele corria por entre as sombras, ziguezagueando entre a plantação de arbustos. Seus caçadores andavam às cegas por entre as árvores, correndo a esmo e embaraçados. Sem obstáculos, ele alcançou o muro, deu um pulo alto, agarrou o espigão com uma das mãos e transpôs a parede alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parou e procurou se orientar. Nunca havia estado antes nas ruas de El Kahira, mas havia escutado tão freqüentemente a descrição da cidade interna, que tinha um mapa dela em sua mente. Ele sabia que estava no Bairro dos Emires e, à sua frente, sobre os tetos planos, avultava uma grande estrutura, a qual só poderia ser o Palácio Menor do Oeste, uma gigantesca casa de prazer, a qual dava no bastante famoso Jardim de Kafur. Bastante seguro de onde andava, ele correu pela rua estreita na qual caíra, e logo saiu na larga passagem que atravessava El Kahira do Portão de Futuh, ao norte, ao Portão de Zuweyla, ao sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora já fosse tarde da noite, havia muita agitação pelas ruas. Mamelucos armados passavam por ele a cavalo; na larga Beyn el Kasreyn, a grande praça que ficava entre os palácios gêmeos, ele ouviu o retinir de rédeas em cavalos inquietos, e viu um esquadrão de cavaleiros sudaneses montados em seus corcéis sob a luz das tochas. Havia motivo para sua vigilância. À distância, ele ouvia tambores tocando de forma taciturna entre os quartéis. Em algum lugar além dos muros, uma luz tênue começou a brilhar contra as estrelas. O vento trouxe breves trechos de música selvagem e gritos distantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com sua bazófia de soldado e o cabo do sabre apontado proeminentemente para a frente, De Guzman passou despercebido entre as figuras de cota-de-malha e com armas à cintura, que espreitavam as ruas. Quando ele se aventurou a puxar a manga de um mameluco barbudo e perguntar o caminho para a casa de Zulaikha, o turco deu a informação prontamente e sem surpresa. De Guzman sabia – assim como todo o Cairo – que, embora a árabe considerasse Al Hakim sua propriedade especial, ela não se considerava de forma alguma posse exclusiva do califa. Havia capitães mercenários que eram tão familiarizados com os aposentos dela quanto Al Hakim o fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa de Zulaikha ficava imediatamente afastada da larga rua e construída como adjacência de uma corte do Palácio Leste, a cujos jardins era conectada, de modo que Zulaikha, nos seus dias de favorita, poderia passar entre sua casa e o palácio sem violar a ordem do califa sobre o isolamento de mulheres. Zulaikha não era uma criada; era a filha de um sheik livre e havia sido amante de Al Hakim, não sua escrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman não esperou qualquer grande dificuldade em entrar na casa dela; ela manipulava secretamente intrigas e políticas, e homens de todos os credos eram admitidos em sua câmara de audiência, onde jovens dançarinas e ópio ofereciam entretenimento. Naquela noite, não havia dançarinas nem convidados, mas um iemenita mal-encarado abriu, sem fazer perguntas, a porta arcada, acima da qual ardia uma lâmpada a óleo, e conduziu o falso mouro através de um pequeno pátio interno, subindo uma escadaria externa, ao longo de um corredor e para dentro de uma larga câmara, na qual se abriam vários arcos desgastados e enfeitados por tapeçarias de veludo escarlate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala estava vazia, sob o brilho suave dos lampiões de bronze, mas em algum lugar na casa, soava o grito agudo de uma mulher que sofria, acompanhado por opulenta risada musical, também em voz de mulher, e indescritivelmente vingativa e maligna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas De Guzman deu pouca atenção a isso, pois foi naquele momento que todo o inferno explodiu do lado de fora dos muros de El Kahira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um rugido abafado de incrível volume, como o bramido de uma torrente enclausurada finalmente explodindo sua represa; mas era o selvagem uivo bestial de muitos homens. O iemenita também ouviu, e sua pele escura empalideceu. Então, ele gritou e se precipitou para dentro do corredor, enquanto lá fora soava o barulho de pés e uma respiração ofegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa câmara vizinha, endireitando-se de um trabalho que achava indescritivelmente divertido, Zulaikha ouviu um grito abafado do lado de fora da porta, o zunir e cortar de um golpe selvagem e o baque de um corpo que caía. A porta foi subitamente aberta e Othman entrou – uma figura selvagem e aterrorizante, com os olhos revirados e os dentes à mostra brilhando à luz dos lampiões, o sangue pingando de sua larga cimitarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cão! – ela exclamou, erguendo-se abruptamente, como uma serpente que se desenrola – O que faz aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A mulher que você tomou de mim! – ele vociferou, simiesco em sua fúria – A ruiva! O inferno está solto no Cairo! Os bairros se revoltaram! As ruas irão boiar em sangue antes do amanhecer! Cavalgo para cortar os cães sunitas como talos de bambu. Uma matança a mais em toda esta chacina nada significa! Dê-me a mulher antes que eu lhe mate!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embriagado pela sede de sangue e pelo desejo frustrado, o enlouquecido negro havia esquecido seu medo de Zulaikha. A árabe deu uma rápida olhada na figura nua e trêmula que jazia estendida, de pés e mãos atadas, a um divã. Ela ainda não havia feito tudo o que queria com sua rival. Tudo o que ela havia feito fora apenas um divertido prelúdio de tortura, mutilação e morte – agonizante em sua humilhação. Todo o inferno não poderia tomar a vítima que lhe pertencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ali! Abdullah! Ahmed! – ela guinchou, puxando uma adaga cravejada de jóias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um bramido de touro, o enorme negro investiu. A árabe nunca havia lutado contra homens, e sua rapidez flexível, sem experiência nem conhecimento de combate, foi inútil. A lâmina larga afundou no corpo dela, a ponta se sobressaindo a trinta centímetros entre os ombros. Com um grito sufocado de agonia e terrível surpresa, ela desabou e o sudanês puxou brutalmente a cimitarra enquanto ela caía. Naquele instante, Diego de Guzman apareceu na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espanhol nada sabia das circunstâncias; ele apenas viu um enorme negro puxando sua espada do corpo de uma mulher branca, e agiu de acordo com seus instintos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Othman, girando como um grande gato, ergueu sua cimitarra gotejante, apenas para tê-la espantosamente batida em seu crânio lanoso sob o terrível golpe de De Guzman. Ele cambaleou e, no instante seguinte, o sabre, brandido com toda a força dos músculos enrijecidos do espanhol, decepou-lhe o braço esquerdo na altura do ombro, desceu cortando as costelas e se cravou profundamente no osso de sua bacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman, grunhindo e praguejando enquanto torcia sua lâmina para fora da carne e osso que a aprisionava, suando de medo de um ataque antes que pudesse soltar a lâmina, ouvia o trovejar crescente da multidão, e seu cabelo se arrepiava. Ele conhecia aquele rugido – o grito de caça de homens, o trovão que sacudia os tronos do mundo ao longo das eras. Ele ouvia o barulho de cascos nas ruas lá fora, e vozes ferozes gritando comandos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se voltava para o corredor externo, quando ouviu uma voz implorando por algo e, girando de volta à câmara, viu, pela primeira vez, a forma nua se contorcendo no divã. Seus membros e corpo não apresentavam cortes nem machucados, mas suas bochechas estavam molhadas de lágrimas; os cabelos vermelhos, que fluíam em selvagem abundância sobre seus ombros brancos, estavam molhados de suor, e sua carne tremia como se tivesse sido torturada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Solte-me! – ela suplicou – Zulaikha está morta... solte-me, em nome de Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sussurrando uma praga impaciente, ele lhe cortou as cordas e girou de novo, esquecendo-a quase instantaneamente. Ele não a viu se erguer e deslizar através de uma portada encortinada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, uma voz gritava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Othman! Em nome de Shaitan, onde está você? É hora de montar e cavalgar! Eu vi você correndo até aqui! O diabo te leve, seu cão negro; onde está você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma figura em malha e elmo entrou bruscamente na sala, e então parou de repente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê...? &lt;em&gt;Wellah&lt;/em&gt;! Você mentiu para mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não! – De Guzman respondeu alegremente – Deixei a cidade, como havia jurado fazer, mas voltei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde está Othman? – indagou Al Afdhal – Eu o segui até aqui... Alá! – Ele puxou selvagemente os bigodes – Por Deus, o Único Deus Verdadeiro! Oh, cáfaro maldito! Por que você tinha que matar Othman? Todas as cidades se revoltaram, e os berberes lutam contra os sudaneses, os quais já estavam ocupados. Cavalgo com meus homens para ajudar os sudaneses. Quanto a você... ainda lhe devo minha vida, mas há um limite para tudo! Em nome de Alá, vá embora e não me deixe mais vê-lo novamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Guzman sorriu como um lobo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não vai se livrar tão fácil de mim, desta vez, &lt;em&gt;Es Salih Muhammad&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turco se sobressaltou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pra que continuar esta farsa? – replicou De Guzman – Eu lhe conheci quando entramos na casa de Zahir el Ghazi, a qual outrora havia sido a casa de Es Salih Muhammad. Somente um dono da casa poderia ser tão familiarizado com os segredos dela. Você me ajudou a matar el Ghazi, porque o berbere havia pagado Zaman e os outros para lhe matarem. Muito bem. Mas isso não é tudo. Vim ao Egito para matar el Ghazi; está feito; mas agora Al Hakim planeja a ruína da Espanha. Ele deve morrer; e você deve me ajudar na derrota dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é tão louco quanto Al Hakim! – exclamou o turco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que aconteceria se eu fosse até os berberes e dissesse a eles que você me ajudou a matar o emir deles? – perguntou De Guzman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles lhe cortariam em pedaços!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, eles o fariam! Mas eles lhe cortariam igualmente em pedaços. E os sudaneses os ajudariam; eles também não amam os turcos. Berberes e negros juntos matarão cada turco no Cairo. Então, como fica sua ambição, se a sua cabeça é arrancada? Morrerá, é claro; mas, se eu colocar sudaneses, turcos e berberes para matarem uns aos outros, talvez a rebelião destrua a todos eles, e eu terei ganhado, na morte, o que não consegui em vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Es Salih Muhammad reconheceu a determinação sombria que havia por trás das palavras do castelhano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vejo que devo matá-lo, afinal! – ele sussurrou, puxando a cimitarra. No momento seguinte, o estrondo do aço ressoou na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao primeiro golpe, De Guzman percebeu que o turco era o melhor espadachim ao qual encontrara; ele era gelo onde o espanhol era fogo. À sua relutância de matar Es Salih, era adicionado o conhecimento de que era enfrentado por um espadachim melhor que ele próprio. E o pensamento o animava a uma fúria desesperada, de modo que a impetuosa indiferença que sempre fora sua fraqueza, tornou-se sua força. Sua vida não importava; mas, se ele caísse naquela câmara ensangüentada, Castela cairia com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado de fora dos muros de El Kahira, a plebe avançava e rapinava, tochas espirravam fagulhas, e o aço bebia e se avermelhava. Dentro da câmara da falecida Zulaikha, as lâminas curvas cantavam e assobiavam. Golpeie, Diego de Guzman! (elas cantam). A Espanha depende de seu braço. Golpeie pelas glórias do passado e pelos esplendores do futuro. Golpeie pelo trovejar de armas, pelo sussurrar das bandeiras nos ventos das montanhas, a agonia do esforço e o sangue do martírio; golpeie pelas lanças das terras altas, as mulheres de cabelos negros, fogos nos corações vermelhos, e as trombetas de impérios que ainda virão! Golpeie pelos reinos não-nascidos, a pompa da glória e os grandes galeões deslizando, através de um mar dourado, para um mundo não-sonhado! Golpeie pela maravilha que é a Espanha, antiga e sempre jovem, a fênix das nações, sempre se erguendo das cinzas de um passado morto para arder entre os estandartes do mundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através dos lábios entreabertos, sibilava a respiração de Es Salih Muhammad. Sob sua pele escura, crescia uma cor azul. Habilidade e astúcia não lhe serviam contra esta encarnação de olhos ardentes da fúria, a qual avançava sobre ele numa onda irresistível, batendo como um ferreiro numa forja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob a bandagem encrostada de marrom, o ferimento de De Guzman estava sangrando novamente, e o sangue lhe escorria pela têmpora, mas sua espada era como uma roda flamejante. O turco só conseguia aparar; ele não tinha oportunidade de revidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Es Salih Muhammad lutava por ambição pessoal; Diego de Guzman lutava pelo futuro de uma nação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um último ofego de intenso esforço muscular, uma explosão de força dinâmica e a cimitarra foi arrancada da mão do turco. Ele recuou cambaleando com um grito, não de dor nem medo, mas de desespero. De Guzman, seu peito largo arfando devido aos seus esforços, afastou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vou lhe matar pessoalmente. – ele disse – Nem vou lhe arrancar um juramento no fio da espada. Você não o manteria. Irei até os berberes e ao meu destino... e seu. Adeus. Eu teria feito de você vizir do Egito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espere! – ofegou Es Salih, agarrando uma cortina para se apoiar – Vamos raciocinar sobre este assunto! O que quer dizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que eu falei! – De Guzman deu as costas para a porta, eletrificado com uma sensação de que ele finalmente tinha um jogo desesperado na mão – Não percebe que, neste momento, você tem a balança do poder? Os sudaneses e berberes lutam uns contra os outros, e os cairotas lutam contra ambos! Nenhuma facção pode vencer sem a sua ajuda. O modo como você lançar seus mamelucos será o fator decisivo. Você planejava ajudar os sudaneses e esmagar tanto berberes quanto rebeldes. Mas suponha que você jogue sua sorte com os berberes. Suponha que você apareça como líder da revolta, o defensor do credo ortodoxo contra um blasfemador. El Ghazi está morto; Othman está morto; a plebe não tem líder. Você é o único homem forte no Cairo. Você busca honras sob Al Hakim; honras maiores você pode conseguir sozinho! Junte os berberes com seus turcos e elimine os sudaneses! O povo irá aclamá-lo como um libertador. Mate Al Hakim! Nomeie outro califa, com você mesmo como vizir e verdadeiro governante! Cavalgarei ao seu lado, e minha espada é sua!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Es Salih, que havia escutado como um homem num sonho, soltou uma súbita risada, como um bêbado. A percepção, de que De Guzman queria usá-lo como um peão para esmagar um rival da Espanha, foi afogada no vinho impetuoso da ambição pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Feito&lt;/em&gt;! – ele trombeteou – Para casa, irmão! Você me mostrou o caminho que procuro! Es Salih Muhammad ainda governará o Egito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na grande praça de el Mansuriya, as tochas arremessadas brilhavam sobre um turbilhão de figuras que se esforçavam e saltavam, cavalos que relinchavam e lâminas cortantes. Homens morenos, negros e brancos lutavam. Berberes, sudaneses e egípcios, ofegando, praguejando, matando e morrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante mil anos, o Egito havia dormido sob o calcanhar de senhores estrangeiros; agora ele acordava, e seu despertar era escarlate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como loucos sem cérebro, os cairotas agarravam os matadores negros, arrastando-os em massa de suas selas, cortando as barrigueiras dos cavalos enlouquecidos. Piques enferrujados retiniam contra lanças. O fogo surgia repentinamente em cem lugares, elevando-se aos céus até os pastores em Mukattan acordarem e ficarem boquiabertos de espanto. De todos os subúrbios saíam abundantemente figuras selvagens e desvairadas – uma torrente urrante de mil galhos, todos convergindo para a grande praça. Centenas de formas imóveis, em malhas ou em cáftans rasgados em tiras, jaziam sob os cascos e pés esmagadores; e, sobre eles, os vivos gritavam e cortavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A praça ficava no coração do bairro sudanês, no qual vinham rapinando os berberes loucos por sangue, enquanto a maioria dos negros havia enfrentado a plebe em outras partes da cidade. Agora, retirando-se às pressas para seu próprio bairro, os espadachins de ébano dominavam os berberes com pura superioridade numérica, enquanto a turba ameaçava engolir ambas as hordas. Os sudaneses, sob o comando de seu capitão Izz ed din, mantinham alguma aparência de ordem, o que dava a eles uma vantagem sobre os desorganizados berberes e a plebe sem líder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os enlouquecidos cairotas destruíam e pilhavam as casas dos negros, arrastando mulheres uivantes para fora; o brilho das construções em chamas fazia a praça nadar num oceano de fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algum lugar ali, começou o zunido de timbales tártaros, mais alto que o vibrar de muitos cascos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os turcos, finalmente! – ofegou Izz ed din – Eles demoraram muito! E onde, em nome de Alá, está Othman?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cavalo desvairado corria para dentro da praça, a espuma lhe esvoaçando das argolas das rédeas. O montador girou na sela, com as vestes coloridas esfarrapadas e a pele de ébano fustigada em escarlate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Izz ed din! – ele gritou, agarrando a crina esvoaçante com ambas as mãos – &lt;em&gt;Izz ed din&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui, idiota! – rugiu o sudanês, agarrando as rédeas do outro e fazendo o cavalo recuar e se sentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Othman está morto! – gritou o homem, acima do rugido das chamas e do crescente trovejar dos timbales que avançavam – Os turcos se voltaram contra nós! Eles estão matando nossos irmãos nos palácios! Sim! Estão chegando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um trovejar ensurdecedor de cascos e um rufar estremecedor de tambores, os esquadrões de lanceiros em cotas-de-malha invadiram a praça, dividindo as ondas de matança e atropelando tanto amigos quanto inimigos. Izz ed din viu o moreno rosto exultante de Es Salih Muhammad sob o arco brilhante de sua cimitarra e, com um rugido, cavalgou em direção a ele, seus esquadrões rodopiando atrás de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, com um estranho grito-de-guerra, um cavaleiro em vestimenta mourisca se ergueu nos estribos, golpeou e Izz ed din caiu; e, sobre os corpos talhados de seus capitães, trovejaram os cascos dos matadores – um rio moreno e urrante que trovejava dentro da noite partida pelas chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos contrafortes rochosos de Mukattam, os pastores assistiam e tremiam, vendo o brilho de fogo e matança desde o Portão de el Futuh até a mesquita de Ibn Tulun; e o clangor de espadas era ouvido ao sul, até El Fustat, onde nobres pálidos tremiam em seus palácios rodeados por jardins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como uma torrente escarlate, espumante e facetada de fogo, as marés de fúria inundavam os bairros e jorravam através do Portão de Zuweyla, manchando as ruas de El Kahira, a Vitoriosa. Na grande Beyn el Kasreyn, onde 10 mil homens poderiam desfilar, os sudaneses fizeram sua resistência final, e lá morreram, encurralados por turcos com elmos, berberes que guinchavam e cairotas furiosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a população quem primeiro voltou sua atenção para Al Hakim. Correndo através das portas de bronze com arabescos do Grande Palácio Leste, as hordas esfarrapadas fluíam uivando pelos corredores, através dos Portões Dourados, para dentro do grande Salão Dourado, arrancando a cortina de filigranas de ouro, para revelar um trono dourado vazio. Tapeçarias bordadas a seda foram arrancadas das paredes com frisos, por dedos sujos e ensangüentados; mesas de ônix foram derrubadas com um barulho de vasos esmaltados a ouro; eunucos em robes escarlates fugiram aos guinchos; jovens escravas gritavam nas mãos dos violadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Grande Salão Esmeralda, Al Hakim se erguia como uma estátua num estrado coberto de peles. Suas mãos brancas estavam contraídas e seus olhos, nublados; parecia um bêbado. Na entrada do salão, se aglomerava um punhado de servos fiéis, expulsando a multidão com espadas desembainhadas. Um bando de berberes abria caminho penosamente através da turba heterogênea e entrava no corpo-a-corpo com os escravos negros; e, naquela tempestade de golpes de espada, nenhum homem teve tempo de olhar para a alva forma rígida no estrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Al Hakim sentiu uma mão lhe puxando o cotovelo, e olhou para o rosto de Zaida, vendo-a como num sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venha, meu senhor! – ele insistia – Todo o Egito se revoltou contra você! Pense em sua própria vida! Siga-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele a permitiu guiá-lo. Movia-se como um homem em transe, murmurando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu sou Deus! Como pode um deus ser derrotado? Como pode um deus morrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxando para o lado uma tapeçaria, ela o guiou para dentro de uma alcova e através de um longo corredor estreito. Zaida aprendera bem os segredos do Grande Palácio, durante sua breve permanência lá. Através dos indistintos jardins com cheiro de pimenta, ela o guiou apressadamente, através de uma rua sinuosa entre casas de tetos planos. Ela havia lançado seu &lt;em&gt;khalat&lt;/em&gt; sobre ele. Nenhuma das poucas pessoas às quais encontraram deram atenção ao par que corria. Um pequeno portão, escondido atrás de um amontoado de palmeiras, os fez atravessar o muro. A norte e leste, El Kahira era cercada pelo deserto vazio. Eles haviam saído pelo lado leste. Atrás deles, e bem longe ao sul, se erguia o ruído das chamas e da matança; mas, ao redor deles, somente o deserto, silêncio e estrelas. Zaida parou, e seus olhos brilhavam à luz das estrelas, enquanto ela permanecia muda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou Deus. – murmurou Al Hakim atordoado – De repente, o mundo ficou em chamas. Mas eu sou Deus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele mal sentiu os braços fortes da veneziana ao redor dele, num último e terrível abraço. Ele mal ouviu o sussurro dela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você me entregou nas mãos de um animal negro! Graças a ele, caí nas garras de minha rival, a qual me deu tamanha vergonha com a qual os homens não sonham! Eu lhe ajudei a fugir, porque ninguém, exceto Zaida, lhe destruirá, Al Hakim, idiota que pensou ser um deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo quando sentiu a estocada mortal da adaga dela, ele gemeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu sou Deus... e os deuses não podem morrer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algum lugar, um chacal começou a ganir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta a El Kahira, no Grande Palácio Leste, cujos mosaicos estavam sujos de sangue, Diego de Guzman, uma figura ensangüentada, se voltou para Es Salih Muhammad, igualmente desalinhado e manchado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde está Al Hakim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que importa? – riu o turco – Ele caiu; somos senhores do Egito esta noite, você e eu! Amanhã, outro se sentará no trono do califa; uma marionete cujas cordas puxarei. Amanhã, serei vizir, e você... peça o que quiser! Mas esta noite, governamos em poder nu, pelo brilho de nossas espadas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eu gostaria de enfiar meu sabre em Al Hakim, como um clímax apropriado ao trabalho desta noite. – respondeu De Guzman.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era para ser assim, embora homens com adagas sedentas percorressem salões atapetados e câmaras abobadadas, até que ao ódio e fúria começassem a ser adicionados espanto e o temor supersticioso que cresce das lendas de desaparecimentos milagrosos, e através dos quais mistérios invocam o sobrenatural. O tempo transforma loucos em santos e místicos; nas distantes montanhas do Líbano, os drusos aguardam o retorno de Al Hakim, o Divino. Mas, embora aguardem até as trombetas serem sopradas pela passagem de 10 mil anos, eles nunca chegarão perto dos portais do Mistério. E somente os chacais que freqüentam as colinas de Mukattan, e os abutres que dobram suas asas sobre as torres de Bab el Vezir, poderiam contar o destino final do homem que queria ser Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;FIM&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;(*) – Muxarabi:&lt;/strong&gt; Espécie de janela treliçada, de origem muçulmana (Nota do Tradutor);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(**) – Shaitan:&lt;/strong&gt; Versão árabe do nome Satã (N. do T.);&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(***) – Chifre de Ouro:&lt;/strong&gt; Estuário que divide o lado europeu da atual cidade de Istambul (antiga Constantinopla). Era lá que o Império Bizantino tinha seu quartel-general naval (idem).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; The Lord of Samarcand.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Agradecimento especial:&lt;/strong&gt; Ao howardmaníaco e amigo Karoly Mazak, da Hungria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. Conan, o B?rbaro, e Era Hiboriana s?o marcas registradas da Conan Properties Inc. Este site é dedicado ao personagem e n?o possui fins comerciais, nem o objetivo de infringir as leis de direitos autorais.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26866016-8404753309670931114?l=cronicasdacimeria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/feeds/8404753309670931114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26866016&amp;postID=8404753309670931114&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/8404753309670931114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/8404753309670931114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/2011/05/falcoes-sobre-o-egito.html' title='Falcões Sobre o Egito'/><author><name>Neeser</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17947846921349013572</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016.post-2873064035096321197</id><published>2011-03-18T09:46:00.001-03:00</published><updated>2011-03-18T09:48:47.488-03:00</updated><title type='text'>Niflheim</title><content type='html'>(por Robert E. Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terra sombria de morte, quais visões monstruosas se ocultam&lt;br /&gt;Por entre as fortalezas glaciais de suas colinas?&lt;br /&gt;Seus penhascos são antigos e nunca se dissolvem;&lt;br /&gt;As lâminas de gelo estão no fundo do coração de Midgard (*).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles conhecem auroras sobrenaturais antes dessa época,&lt;br /&gt;Quando, no cinza de um vazio sem sol,&lt;br /&gt;Audhumla explodiu o gelo sombrio e viu&lt;br /&gt;Buri dos olhos estranhos avultando para a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, terra sombria que eu sei que tu és!&lt;br /&gt;O assento dos mistérios de Midgard é seu.&lt;br /&gt;Pois você é o coração frio e inumano de Ymir,&lt;br /&gt;O qual alimenta todos os oceanos com seu sangue inerte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu está cercado de gelo – o sol incrustado&lt;br /&gt;Faz o azul desabar, um escudo de chama congelada.&lt;br /&gt;Sombras gigantescas se erguem, avultam, ganham vida&lt;br /&gt;E quebram os elos que as acorrentam ao passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas rodopiam como gigantes acinzentados na noite.&lt;br /&gt;Elas espreitam por entre as estrelas frias e zombeteiras.&lt;br /&gt;Ho! Prole gigante das sombras! Encontre em mim&lt;br /&gt;Um irmão, um amo e um escravo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntos, explodiremos os cérebros dos homens&lt;br /&gt;Com a sabedoria das alturas insondáveis,&lt;br /&gt;Com conhecimento que a alma não consegue suportar.&lt;br /&gt;Sim, eu já lhe vi cambalear sobre o gelo.&lt;br /&gt;Quando monstros de bruma cinza rodopiavam ao longo do céu&lt;br /&gt;E, através da minha risada grulhante, apunhalavam a neve e chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soai a trompa de guerra do juízo final para Ragnarok!&lt;br /&gt;Que os destruidores do homem rujam desde Jotunnheimr&lt;br /&gt;Para rasgar o mundo e lançarem os oceanos para baixo,&lt;br /&gt;Até que, na elevada Asgard, os deuses adormecidos despertem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, no combate despedaçador desse dia,&lt;br /&gt;Que Midgard se erga e ruja, e Ymir acorde,&lt;br /&gt;Até que &lt;em&gt;icebergs&lt;/em&gt; desçam rugindo até Muspellheim&lt;br /&gt;E tudo se torne como tuas artes, Niflheim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(*) – &lt;strong&gt;Midgard:&lt;/strong&gt; Nome dado à Terra, na mitologia nórdica (Nota do Tradutor).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tradução:&lt;/strong&gt; Fernando Neeser de Aragão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fonte:&lt;/strong&gt; &lt;a href="http://www.conan.com/invboard/index.php?showtopic=4336&amp;amp;st=560"&gt;http://www.conan.com/invboard/index.php?showtopic=4336&amp;amp;st=560&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;Crônicas da Ciméria é um projeto de Alessandro do Valle Nunes e Osvaldo Magalh?es. Conan, o B?rbaro, e Era Hiboriana s?o marcas registradas da Conan Properties Inc. Este site é dedicado ao personagem e n?o possui fins comerciais, nem o objetivo de infringir as leis de direitos autorais.&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/26866016-2873064035096321197?l=cronicasdacimeria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/feeds/2873064035096321197/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=26866016&amp;postID=2873064035096321197&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/2873064035096321197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/26866016/posts/default/2873064035096321197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cronicasdacimeria.blogspot.com/2011/03/niflheim.html' title='Niflheim'/><author><name>Neeser</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17947846921349013572</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-26866016.post-5556578463328492150</id><published>2010-12-29T13:39:00.003-03:00</published><updated>2010-12-29T16:16:59.619-03:00</updated><title type='text'>Rosto de Caveira</title><content type='html'>(por Robert E. Howard)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Originalmente publicado em &lt;em&gt;Weird Tales&lt;/em&gt;, outubro a dezembro de 1929.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1) O Rosto na Névoa&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Não somos mais do que uma fila móvel&lt;br /&gt;De mágicas formas sombrias que vão e vêm&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Omar Kayyam)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O horror primeiramente tomou forma concreta no meio da mais inconcreta das coisas: um sonho confuso. Eu estava fora, numa viagem eterna e infinita através das terras estranhas que pertencem a este estado de existência, a mil milhas de distância da terra e de todas as coisas terrenas; mas eu fiquei consciente de que algo se estendia através dos vácuos sem nome – algo que talhava impiedosamente em direção às cortinas separadoras de minhas ilusões e se introduzia em minhas visões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não exatamente voltei à vida desperta comum, mas estava consciente de uma visão e reconhecimento, os quais eram desagradáveis, e pareciam fora dos domínios do sonho, do qual eu estava gostando naquele momento. Para alguém que nunca conheceu os prazeres do haxixe, minha explicação pode parecer caótica e impossível. Mesmo assim, eu estava ciente de um rasgar de névoas, e então o Rosto apareceu diante de meus olhos. Primeiro pensei que fosse meramente uma caveira; depois, eu vi que era horrendamente amarela, ao invés de branca, e estava dotada de uma forma horrenda de vida. Olhos brilhavam fracamente lá no fundo das órbitas e as mandíbulas se moviam como se falassem. O corpo, exceto pelos ombros magros e altos, era vago e indistinto; mas as mãos, que flutuavam nas brumas à frente e abaixo da caveira, eram horrivelmente vigorosas e me encheram de medo arrepiante. Eram como as mãos de uma múmia: longas, magras e amarelas, com articulações protuberantes e cruéis garras curvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, para completar o vago horror, que estava rapidamente tomando conta de mim, uma voz falou – imagine um homem, há tanto tempo morto, que seu órgão vocal ficara enferrujado e desacostumado à fala. Este foi o pensamento que me atingiu e fez minha pele se arrepiar, enquanto eu escutava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um bruto forte e um que poderia ser, de alguma forma, útil. Veja que ele é afeiçoado a todo o haxixe que pede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o rosto começou a retroceder, enquanto eu sentia que eu era o tema da conversa, e as névoas se encapelavam e começavam a se fecharem novamente. Mas, por um mero instante, uma cena se sobressaiu com claridade surpreendente. Eu ofeguei – ou tentei fazê-lo. Por cima do alto e estranho ombro da aparição, outro rosto apareceu claramente por um instante, como se o dono me olhasse atentamente. Lábios vermelhos, meio abertos, longos cílios escuros, ensombrecidos olhos intensos e uma nuvem tremeluzente de cabelo. Sobre o ombro do Horror, uma beleza de tirar o fôlego me olhou por um instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2) O Escravo do Haxixe&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Do centro da Terra, através do Sétimo Portão,&lt;br /&gt;Eu saí e me sentei no Trono de Saturno&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Omar Khayyam).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu sonho do rosto de caveira foi sustentado sobre aquela lacuna, normalmente intransponível, que fica entre o encantamento do haxixe e a monótona realidade. Sentei-me de pernas cruzadas sobre uma esteira, no Templo de Sonhos de Yun Shatu, e juntei as forças de meu cérebro arruinado, para a tarefa de lembrar eventos e fatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este último sonho foi tão completamente diferente de qualquer um que já tive antes, que meu fraco interesse foi instigado a ponto de eu me indagar sobre sua origem. Quando comecei a experimentar haxixe, eu procurava encontrar uma base física ou psicológica para os vôos selvagens de ilusão relativos a isso, mas depois eu me satisfazia em apreciar sem procurar causa e efeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde veio esta inexplicável sensação de familiaridade, no que diz respeito àquela visão? Pus minha cabeça palpitante entre as mãos e procurei laboriosamente por uma pista. Um homem morto-vivo e uma jovem de rara beleza, que havia olhado por cima do ombro dele. Então, eu me lembrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta à bruma dos dias e noites, a qual põe um véu numa memória viciada em haxixe, meu dinheiro havia acabado. Pareciam anos, ou possivelmente séculos, mas meu raciocínio inerte me dizia que haviam sido provavelmente poucos dias. Seja como for, eu havia me apresentado à sórdida espelunca de Yun Shatu, como sempre, e fora expulso pelo grande Negro Hassim quando se soube que eu não tinha mais dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com meu universo se quebrando em pedaços ao meu redor, e meus nervos zumbindo como cordas esticadas de piano, eu me agachei na sarjeta e tagarelei de forma bestial, até Hassim sair arrogantemente e silenciar meus gritos com um golpe que me derrubou, meio atordoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, enquanto eu me erguia, cambaleando e sem outro pensamento exceto o do rio que fluía com um murmúrio fresco tão perto de mim... quando me levantei, uma mão leve pousou como o toque de uma rosa em meu braço. Virei-me com um estremecimento assustado e fiquei fascinado diante da visão de beleza que encontrou meu olhar. Olhos escuros, límpidos de piedade, me examinavam e a pequena mão sobre minha manga rasgada me arrastou até a porta do Templo do Sonho. Recuei, mas uma voz baixa, suave e musical insistiu comigo e me preencheu com uma confiança que era estranha; cambaleei ao lado de minha bela guia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na porta, Hassim nos encontrou, as mãos cruéis erguidas e um franzir sinistro na testa simiesca, mas quando me encolhi ali, esperando um golpe, ele parou diante da mão erguida da jovem e de sua voz de comando, a qual havia assumido um tom imperioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entendi o que ela havia dito, mas vi vagamente, como numa bruma, que ela dera dinheiro ao negro e me levou a um leito, onde ela me deitou e arrumou as almofadas como se eu fosse rei do Egito, ao invés de um renegado esfarrapado e sujo, que só vivia para o haxixe. Sua mão esguia me refrescou a testa por um instante, e logo ela havia partido e Yussef Ali veio trazendo o material pelo qual minha própria alma guinchava... e logo, eu estava perambulando novamente por aquelas regiões estranhas e exóticas, às quais só um escravo de haxixe conhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, ao me sentar na esteira e ponderar sobre o sonho do rosto de caveira, eu me surpreendia mais ainda. Desde que a garota desconhecida havia me levado de volta à espelunca, eu havia ido e voltado, quando tinha muito dinheiro para pagar Yun Shatu. Alguém certamente o estava pagando para mim; e, embora meu subconsciente me houvesse dito que era a jovem, meu cérebro entorpecido havia falhado em compreender inteiramente o fato, ou se perguntar por quê. Para que se perguntar? Então, alguém pagava, e os sonhos de cores vívidas continuavam, o que me importava? Mas agora eu me perguntava. Pois a garota, que havia me protegido de Hassim e trazido haxixe para mim, era a mesma jovem que eu tinha visto no sonho do rosto de caveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através da apatia de minha degradação, a atração por ela me atingiu como uma faca perfurando meu coração, e estranhamente reviveu as lembranças dos dias em que eu era um homem como os outros – não um triste e amedrontado escravo dos sonhos ainda. Estavam distantes e indistintas, ilhas tremeluzentes na névoa dos anos – e que mar escuro havia até elas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para minha manga esfarrapada e para a suja mão em forma de garra que se sobressaía dela; olhei através da fumaça flutuante que velava a sala sórdida, para os beliches baixos ao longo da parede, nos quais se deitavam sonhadores que arregalavam os olhos para o vazio – escravos, como eu, do haxixe e do ópio. Olhei para os chineses calçados com chinelos, deslizando suavemente para lá e para cá, levando cachimbos ou bolas assadas de purgatório concentrado sobre pequenas fogueiras palpitantes. Olhei para Hassim, que se erguia de braços cruzados, ao lado da porta, como uma grande estátua de basalto negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estremeci e escondi meu rosto nas mãos, porque, com o fraco despontar da virilidade que retornava, eu sabia que este último e mais cruel sonho era fútil – eu havia cruzado um oceano sobre o qual eu nunca conseguiria voltar; havia arrancado a mim mesmo do mundo de homens e mulheres normais. Nada me restava agora, exceto afogar este sonho como eu havia afogado todos os outros que tive... rapidamente e com a esperança de que eu logo alcançaria o Oceano Definitivo, que jaz além de todos os sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim eram estes breves momentos de lucidez, de anseio, que rasgam os véus de todos os escravos de narcóticos: inexplicáveis, sem esperança de se obter algo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, voltei aos meus sonhos vazios, à minha fantasmagoria de ilusões; mas, às vezes, como uma espada partindo a bruma, através das terras altas e das terras baixas e mares de minha ilusão, pairava, como uma música semi-esquecida, o esplendor de olhos escuros e cabelos tremeluzentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você pergunta como eu, Stephen Costigan, americano e um homem com alguns talentos e cultura, veio parar num antro sujo da Limehouse de Londres? A resposta é simples: não sou nenhum depravado, procurando novas sensações nos mistérios do Oriente. Respondo: Argonne (1)! Céus, que profundezas e alturas de horror se escondem naquele mundo à parte! Trauma de guerra e bombardeio rasgando o corpo. Dias sem fim, noites sem fim e urrante inferno vermelho sobre uma Terra de Ninguém, onde eu jazia baleado e baionetado em tiras de carne ensangüentada. Meu corpo se recuperou – como, eu não sei –; minha mente, nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os fogos saltitantes e sombras que se deslocam em meu cérebro torturado me levavam cada vez mais para baixo, ao longo dos degraus da degradação, sem me importar, até que achei um final no Templo dos Sonhos de Yun Shatu, onde matei meus sonhos vermelhos em outros sonhos – os sonhos do haxixe, através dos quais um homem desce até os fossos mais baixos dos infernos mais vermelhos, ou voa alto para aquelas alturas inomináveis, onde as estrelas são pontos minúsculos de diamantes sob seus pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tive visões do beberrão nem do bruto. Alcancei o inalcançável, fiquei face a face com o desconhecido e, em tranqüilidade cósmica, conheci o inimaginável. E estava contente, de certa forma, até que a visão do cabelo lustroso e lábios escarlates varreu meu universo construído em sonhos, e me deixou tremendo entre as ruínas dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3) O Mestre do Destino&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;E Ele, que lhe lançou para dentro do Campo,&lt;br /&gt;Ele sabe sobre tudo... Ele sabe! Ele sabe&lt;/em&gt;!”&lt;br /&gt;(Omar Khayyam).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mão me sacudia rudemente, enquanto eu saía languidamente de minha última orgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Mestre lhe quer! Levante-se, suíno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era Hassim quem me sacudia e falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para o Inferno com o Mestre! – respondi, pois eu odiava Hassim... e o temia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levante-se, ou não terá mais haxixe. – foi a resposta brutal, e eu me ergui em pressa trêmula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segui o enorme negro, e ele me conduziu até os fundos da construção, andando por entre os sonhadores que se contorciam no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ponha todas as mãos no convés! – zumbia um marinheiro num beliche – Todas as mãos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim abriu a porta nos fundos e gesticulou para que eu entrasse. Eu nunca antes havia passado por aquela porta, e havia pensado que ela levava para os aposentos privados de Yun Shatu. Mas estava mobiliado apenas com uma cama pequena; alguma espécie de ídolo de bronze, diante do qual queimava incenso, e uma mesa compacta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim me deu uma olhada sinistra e agarrou a mesa, como que para girá-la. Ela rodou como se estivesse numa plataforma giratória, e uma parte do chão rodou com ela, revelando uma porta escondida no chão. Degraus guiavam para baixo, no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim acendeu uma vela e, com um gesto brusco, me convidou para descer. Eu o fiz, com a obediência indolente de um viciado em entorpecente, e ele seguiu, fechando a porta acima de nós com o uso de uma alavanca fixada ao lado inferior do chão. Na semi-escuridão, descemos os degraus frágeis – uns nove ou dez, eu diria – e então chegamos a um corredor estreito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, Hassim tomou novamente a liderança, segurando a vela no alto diante de si. Eu mal conseguia ver os lados desta passagem em forma de caverna, mas sabia que ela não era larga. A luz tremulante mostrava que ele era desprovido de qualquer tipo de mobília, exceto por algumas arcas estranhas que se alinhavam nas paredes – recipientes contendo ópio e outro entorpecente, eu pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma contínua disparada e o brilho ocasional de pequenos olhos vermelhos ocupavam as sombras, denunciando a presença de grandes quantidades dos enormes ratos que infestavam a margem do Tâmisa daquela seção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, mais degraus avultaram na escuridão à nossa frente, quando o corredor chegou a um fim abrupto. Hassim me conduziu para cima e, no alto, bateu quatro vezes contra o que parecia ser a parte inferior de um chão. Uma porta escondida se abriu, e uma inundação de luz suave e ilusória a atravessou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim me empurrou rudemente para cima, e me vi piscando num local como eu nunca tinha visto em meus vôos mais selvagens de visão. Eu estava numa selva de palmeiras, através da qual se retorcia um milhão de dragões de cores vívidas! Então, quando meus olhos se acostumaram à luz, vi que eu não havia sido subitamente transferido para outro planeta, como havia pensado inicialmente. As palmeiras estavam lá, assim como os dragões, mas as árvores eram artificiais e se erguiam em grandes vasos; e os dragões se contorciam através de pesadas tapeçarias, as quais escondiam as paredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A própria sala era uma coisa monstruosa – ela me parecia inumanamente grande. Uma fumaça espessa, amarelada e de sugestão tropical, parecia pairar sobre tudo, ocultando o teto e estorvando olhares para o alto. Esta fumaça, eu via, emanava de um altar em frente à parede à minha esquerda. Estremeci. Através da bruma amarela que se encapelava, dois olhos, horrendamente grandes e intensos, cintilavam para mim. Os contornos vagos de algum ídolo bestial tomavam forma indistinta. Lancei um olhar inquieto ao redor, observando os divãs e leitos orientais, e as mobílias bizarras, e então meus olhos pararam e descansaram num biombo envernizado bem à minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conseguia penetrá-lo com os olhos, e nenhum som saía de trás dele, mas eu sentia olhos secando dentro da minha consciência através dele; olhos que queimavam através de minha própria alma. Uma estranha aura de maldade fluía daquele estranho biombo, com seus entalhes bizarros e decorações profanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim fez uma profunda saudação muçulmana diante dele, e então, sem falar, caminhou para trás e cruzou os braços, imóvel como uma estátua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma voz quebrou subitamente o pesado e opressivo silêncio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você, que é um suíno, gostaria de ser um homem novamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estremeci. O tom era inumano e frio – mais do que isso, havia uma sugestão de longo desuso dos órgãos vocais: a voz que eu havia escutado em meu sonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. – respondi, como que em transe – Eu gostaria de ser um homem novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio se seguiu por um momento; então, a voz chegou novamente, com um sinistro tom sussurrante atrás de seu som, como morcegos voando através de uma caverna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Farei de você um homem novamente, porque sou um amigo de todos os homens alquebrados. Não o farei por um preço, nem por gratidão. E eu lhe dou um sinal para selar minha promessa e voto. Enfie sua mão no biombo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante destas palavras estranhas e quase ininteligíveis, fiquei perplexo, e então, quando a voz invisível repetiu a última ordem, caminhei para a frente e introduzi minha mão numa fenda, a qual se abriu silenciosamente no biombo. Senti meu pulso ser pego num aperto férreo, e algo sete vezes mais frio que gelo tocou o interior de minha mão. Logo, meu pulso foi solto e, puxando minha mão para fora, vi um estranho símbolo, traçado em azul, próximo à base de meu polegar – algo semelhante a um escorpião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz falou novamente, numa linguagem sibilante à qual eu não entendia, e Hassim caminhou de forma diferente para diante. Ele contornou o biombo, e então se voltou para mim, segurando um copo com um líquido cor de âmbar, o qual ele me ofereceu com uma reverência irônica. Eu o peguei, relutante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Beba e não tema. – disse a voz invisível – É apenas um vinho egípcio, com qualidades revitalizadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, erguei o copo e o esvaziei. O gosto não era ruim e, enquanto devolvia o grande copo para Hassim, eu parecia sentir vida e vigor novos correrem por minhas veias fatigadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Permaneça na casa de Yun Shatu. – disse a voz – Lhe serão dadas comida e cama, até que você fique forte o bastante para trabalhar sozinho. Você não usará haxixe, nem precisará. Vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atordoado, segui Hassim de volta, através da porta oculta, descendo os degraus, ao longo do corredor escuro e para cima através da outra porta, que nos deixou dentro do Templo dos Sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto caminhávamos, da sala dos fundos para dentro da sala principal dos sonhos, me voltei interrogativamente para o negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mestre? Mestre de quê? Da Vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim riu, feroz e sardonicamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mestre do Destino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4) A Aranha e a Mosca&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Era a Porta para a qual eu não encontrava Chave;&lt;br /&gt;Era o Véu através do qual eu não conseguia ver&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Omar Khayyam)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sentei nas almofadas de Yun Shatu, e ponderei com uma clareza mental que era nova e estranha para mim. Quanto a isso, todas as minhas sensações eram novas e estranhas. Eu me sentia como se tivesse acordado de um sonho monstruosamente longo; e, embora meus pensamentos estivessem lentos, eu me senti como se as teias de aranha, que os haviam perseguido por tanto tempo, houvessem sido parcialmente tiradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrastei minha mão pela testa, percebendo o quanto ela tremia. Eu estava fraco e trôpego, e sentia as agitações da fome – não por entorpecente, mas por comida. O que havia no gole que eu tomara naquela sala de mistério? E por que o “Mestre” havia me escolhido, dentre todos os outros infelizes de Yun Shatu, para a regeneração?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem era esse Mestre? De algum modo, a palavra me soou vagamente familiar – tentei trabalhosamente me lembrar. Sim... eu já a ouvira, deitado e meio acordado nos beliches ou no chão... sussurrada sibilantemente por Yun Shatu, ou por Hassim ou pelo mouro Yussef Ali; murmurada em suas conversas em voz baixa e sempre misturada com palavras que eu não conseguia entender. Não era Yun Shatu, então, mestre do Templo dos Sonhos? Eu havia pensado, e os outros viciados pensavam, que o chinês definhado tivesse indisputado domínio sobre este reino insípido, e que Hassim e Yussef Ali fossem seus servos. E que os quatro jovens chineses que queimavam ópio com Yun Shatu, o afegão Yar Khan, o haitiano Santiago e o renegado &lt;em&gt;sikh&lt;/em&gt; (2) Ganra Singh – todos pagos por Yun Shatu, nós supúnhamos – estivessem amarrados ao senhor do ópio por laços de ouro ou medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Yun Shatu era um poder na Chinatown de Londres, e eu havia escutado que seus tentáculos se estendiam pelos mares, até lugares eminentes de pinças poderosas e misteriosas. Estaria Yun Shatu atrás do biombo envernizado? Não; eu conhecia a voz do chinês, e além do mais, eu o tinha visto zaranzar em frente ao Templo, exatamente quando eu entrava pela porta negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro pensamento me ocorreu. Freqüentemente, deitado meio entorpecido, a altas horas da noite ou no primeiro cinza da aurora, eu vira homens e mulheres adentrarem furtivamente o Templo – pessoas cujas roupas e modos eram estranhamente fora de lugar e inadequados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens altos e eretos, freqüentemente usando trajes de noite, com seus chapéus puxados até as sobrancelhas, e lindas damas, veladas, usando sedas e peles. Nunca dois deles vieram juntos, mas sempre separados e, escondendo seus rostos, se apressavam até a porta dos fundos e depois saíam novamente – às vezes, horas mais tarde. Sabendo que a ânsia por narcóticos às vezes encontra abrigo em altas posições, eu nunca havia questionado demais, supondo que eles fossem homens e mulheres da sociedade, os quais haviam caído vítimas do vício, e que, em algum lugar nos fundos da construção, houvesse um aposento privado para isso. Mas agora eu me perguntava (às vezes, essas pessoas haviam permanecido por apenas poucos momentos): era pelo ópio que vinham, ou será que eles também atravessavam aquele estranho corredor e conversavam com Aquele atrás do biombo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mente se distraía com a idéia de um grande especialista, para o qual chegavam todas as classes de pessoas dispostas a porem um fim em seus vícios por entorpecentes. Mas era estranho que tal pessoa selecionasse um estabelecimento de drogados para fazer isso – também era estranho que o dono daquela casa aparentemente olhasse para ele com tanta reverência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei isso de lado, quando minha cabeça começou a doer com o desacostumado esforço de pensar, e gritei por comida. Yussef a trouxe para mim numa bandeja, com uma prontidão que me surpreendeu. E mais, ele me saudou enquanto se retirava, deixando-me a ruminar sobre minha estranha mudança de status no Templo dos Sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comi, perguntando-me o que Aquele no biombo queria comigo. Nem por um instante, eu supus que suas ações fossem induzidas pelas razões que ele aparentava; a vida do submundo havia me ensinado que nenhum dos seus habitantes era filantrópico. E a câmara misteriosa era do submundo, apesar de sua natureza elaborada e bizarra. E onde ela ficaria? Qual a distância que caminhei ao longo do corredor? Encolhi meus ombros, me perguntando se aquilo tudo não seria um sonho, induzido pelo haxixe; então, meu olho pousou sobre minha mão – e sobre o escorpião traçado ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ponha todas as mãos! – falava, em voz monótona, o marinheiro no beliche – Todas as mãos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contar detalhes sobre os poucos dias seguintes seria enfadonho para qualquer um que nunca experimentou a terrível escravidão do narcótico. Esperei que a ânsia me acometesse novamente – esperei com segura e sardônica falta de esperança. O dia todo, a noite toda... outro dia... e então, o milagre se impôs sobre meu cérebro duvidoso. Contrariando todas as teorias e supostos fatos da ciência e senso-comum, a ânsia havia me deixado tão súbita e completamente quanto um sonho ruim! Inicialmente, eu não conseguia crer em meus sentidos, mas eu mesmo acreditava que ainda estivesse nas garras de um pesadelo causado por drogas. No entanto, era verdade. Desde o momento em que bebi do copo na sala misteriosa, não senti o menor desejo pela substância que havia sido a própria vida para mim. Isto, eu sentia vagamente, era de alguma forma profano, e certamente oposto a todas as leis da natureza. Se o terrível ser atrás do biombo havia descoberto o segredo de como quebrar o terrível poder do haxixe, quais outros segredos monstruosos ele havia descoberto e quais os impensáveis domínios dele? A sugestão de maldade rastejou como uma serpente, através do meu pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permaneci na casa de Yun Shatu, me espreguiçando num beliche ou sobre almofadas espalhadas sobre o chão, comendo e bebendo, mas agora que eu estava voltando a ser um homem normal, a atmosfera se tornou mais revoltante para mim, e a visão dos infelizes, se contorcendo em seus sonhos, me lembrou desagradavelmente do que eu mesmo havia sido, e aquilo me causou repulsa e náuseas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, um dia, quando não havia ninguém me observando, eu me levantei, saí para a rua e caminhei ao longo da margem. O ar, embora carregado de fumaça e cheiros repugnantes, encheu meus pulmões com estranho frescor e despertou um novo vigor no que outrora havia sido uma estrutura física poderosa. Tomei novo interesse pelos sons dos homens vivendo e trabalhando, e a visão de um navio, sendo descarregado num dos desembarcadouros, me deixou realmente emocionado. A força dos estivadores era concentrada, e logo me vi levantando e carregando, e, embora o suor escorresse por minha testa e meus membros tremessem com o esforço, exultei com o pensamento de que eu, finalmente, era capaz de trabalhar sozinho novamente, não importando o quão baixo e desinteressante o trabalho pudesse ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando retornei à casa de Yun Shatu naquela noite – terrivelmente cansado, mas com a renovada sensação de virilidade, que vem do trabalho honesto – Hassim me encontrou na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde esteve? – ele exigiu asperamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estive trabalhando nas docas. – respondi laconicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não precisa trabalhar nas docas. – ele rosnou – O Mestre conseguiu trabalho para você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi à frente, e atravessei novamente os degraus escuros e o corredor sob a terra. Naquele momento, minhas faculdades estavam alerta, e percebi que a passagem não poderia ter mais do que uns nove a doze metros de comprimento. Mais uma vez, fiquei diante do biombo envernizado, e mais uma vez ouvi a voz inumana de morte viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso lhe dar um trabalho. – disse a voz – Quer trabalhar para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente assenti. Afinal, apesar do medo que a voz inspirava, eu estava profundamente em débito com o dono dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ótimo. Pegue isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei a andar em direção ao biombo envernizado, uma ordem brusca me parou, Hassim caminhou à frente e, estendendo o braço, pegou o que me foi oferecido. Era, aparentemente, um molho de papéis e gravuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estude isto – disse Aquele atrás do biombo –, e aprenda tudo que puder sobre o homem retratado aí. Yun Shatu lhe dará dinheiro; compre, para você, roupas como as que os marinheiros usam, e ocupe um lugar na frente do Templo. Ao fim de dois dias, Hassim lhe trará para mim novamente. Vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última impressão que tive, enquanto a porta secreta se fechava acima de mim, era de que os olhos do ídolo, os quais cintilavam através da fumaça perpétua, me olhavam malévola e zombeteiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frente do Tempo dos Sonhos consistia em quartos para alugar, disfarçando o verdadeiro propósito da construção sob a máscara de uma casa de hospedaria da margem. A polícia havia feito várias visitas a Yun Shatu, mas nunca conseguiu nenhuma evidência que o incriminasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, fiquei num desses quartos, e comecei meu trabalho, estudando o material dado a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As figuras era todas de um homem, um homem grande, não muito diferente de mim em constituição e nas linhas gerais do rosto, exceto pelo fato de que usava uma barba espessa e tendia a ser loiro onde eu era moreno. O nome, como escrito nos papéis que acompanhavam, era Major Fairlan Morley, comissário especial de Natal (3) e Transvaal. Este cargo e título me eram novos, e eu me perguntei sobre a conexão entre um comissário africano e uma casa de ópio às margens do Tâmisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os papéis consistiam em dados extensos, evidentemente copiados de fontes autênticas, e todos relacionados ao Major Morley; e vários documentos particulares, esclarecendo consideravelmente sobre a vida privada do major.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma descrição exaustiva foi dada sobre a aparência e hábitos pessoais do homem, alguns dos quais me parecem muito triviais. Eu me perguntava qual poderia ser o propósito, e como Aquele atrás do biombo havia adquirido papéis de tal natureza íntima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conseguia achar pista que respondesse esta questão, mas concentrei todas as minhas energias à tarefa que me fora dedicada. Eu tinha uma grande dívida de gratidão ao homem desconhecido que me requereu isto, e estava determinado a retribuí-lo com o melhor de minha habilidade. Nada, naquele momento, sugeria uma armadilha para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5) O Homem no Leito&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Que chuva de lanças te enviou&lt;br /&gt;para brincar ao amanhecer com a Morte?&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Kipling)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após os dois dias, Hassim me acenou quando eu me encontrava na casa do ópio. Avancei com um passo flexível e animado, seguro na confiança de que havia colhido tudo o que podia dos papéis de Morley. Eu era um novo homem; minha rapidez mental e prontidão física me surpreendiam – às vezes, pareciam não-naturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim me olhava através de pálpebras semicerradas, e gesticulou para que eu o seguisse, como sempre. Enquanto cruzávamos a sala, meu olhar caiu sobre um homem deitado num leito próximo à parede, fumando ópio. Não havia nada de suspeito em suas roupas esfarrapadas e desleixadas, seu rosto sujo e barbudo ou o olhar vazio, mas meus olhos, afiados até um ponto fora do comum, pareciam sentir certa incongruência nos membros bem-proporcionados, aos quais nem mesmo as roupas desleixadas conseguiam esconder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim falou impacientemente, e eu me virei. Entramos na sala dos fundos e, enquanto ele fechava a porta e se voltava para a mesa, ela se moveu sozinha e uma figura avultou na porta oculta. O sikh Garan Singh, um gigante magro de olhos sinistros, saiu e seguiu até a porta de entrada para a sala do ópio, onde ele parou até termos descido e fechado a porta secreta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez, eu me encontrava no meio da espessa fumaça amarela e ouvia a voz oculta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você acha que sabe o suficiente sobre o Major Morley para se passar facilmente por ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpreso, eu respondi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sem dúvida, eu poderia, a menos que eu encontrasse alguém íntimo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidarei disso. Siga-me de perto. Amanhã, você viaja no primeiro navio para Calais. Lá, você encontrará um agente meu, o qual irá se dirigir até você, no momento em que você colocar o pé no cais, e lhe dará outras instruções. Você navegará em segunda classe, e evitará qualquer conversa com estranhos ou com qualquer um. Leve os papéis com você. O agente lhe ajudará a se maquiar, e seu disfarce começará em Calais. Isso é tudo. Vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me retirei, e meus questionamentos aumentaram. Toda esta trapalhada evidentemente tinha um sentido, mas que eu não conseguia compreender. De volta à sala do ópio, Hassim me ordenou que sentasse numas almofadas e esperasse seu retorno. À minha pergunta, ele rosnou que estava saindo como lhe fora ordenado, para comprar uma passagem para mim no navio do Canal. Ele se retirou, e eu me sentei, apoiando minhas costas na parede. Enquanto eu ruminava, parecia subitamente que havia olhos fixos tão intensamente em mim, a ponto de perturbarem meu subconsciente. Olhei rapidamente para cima, mas ninguém parecia estar olhando para mim. A fumaça se espalhava pelo ar quente, como sempre; Yussef Ali e o chinês andavam para lá e para cá, se encarregando dos desejos dos que dormiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, a porta da sala dos fundos se abriu, e uma figura estranha e horrenda apareceu mancando. Nenhum dos que entravam na sala dos fundos de Yun Shatu eram aristocratas ou membros da sociedade. Este era uma das exceções, e um do qual eu me lembrava como tendo freqüentemente entrado e saído de lá. Uma figura alta e magra, com agasalhos disformes e esfarrapados, roupas indefiníveis e rosto totalmente oculto. Melhor que o rosto estivesse escondido, eu pensei, pois, sem dúvida, o agasalho ocultava uma visão medonha. O homem era um leproso, que havia, de alguma forma, conseguido escapar da atenção dos protetores públicos e que era visto ocasionalmente freqüentando as regiões mais baixas e misteriosas de East-End (4) – um mistério até mesmo para os habitantes mais baixos da Limehouse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, minha mente super-sensível percebeu uma rápida tensão no ar. O leproso mancou até a porta e a fechou atrás de si. Meus olhos procuraram instintivamente o leito, onde se deitava o homem que havia despertado minhas suspeitas, naquele dia mais cedo. Eu era capaz de jurar que frios olhos de aço miravam ameaçadoramente e se fechavam de forma abrupta. Dirigi-me até o leito numa única passada e me curvei sobre o homem prostrado. Algo em seu rosto parecia não-natural – uma cor bronzeada e saudável parecia existir sob a palidez de sua pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Yun Shatu! – gritei – Há um espião na casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, as coisas aconteceram com velocidade perturbadora. O homem no leito ergueu-se de um pulo com um movimento de tigre, e um revólver brilhou em sua mão. Um braço forte me lançou para um lado, enquanto eu tentava me engalfinhar com ele, e uma voz violenta e decidida soou acima da tagarelice que explodiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você aí! Pare! Pare!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pistola na mão do forasteiro estava apontada para o leproso, que estava alcançando a porta a passos largos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo ao redor era confusão; Yun Shatu guinchava de forma desconexa em Chinês, e os quatro jovens chineses e Yussef Ali entraram correndo por todos os lados, as facas lhes cintilando nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu via tudo isso com clareza não-natural, enquanto eu distinguia o rosto do forasteiro. Quando o leproso que fugia não deu evidência de parar, vi os olhos se endurecerem em pontos inflexíveis de determinação, mirando com o cano da pistola – as feições endurecidas com o propósito sombrio de matar. O leproso estava quase na parte externa da porta, mas a morte o atingiria antes que ele pudesse alcançá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, no exato momento em que o dedo do forasteiro apertava o gatilho, lancei-me para a frente e meu punho direito golpeou-lhe o queixo. Ele caiu, como se atingido por um martinete de báscula, o revólver disparando inofensivamente no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele instante, com o cegante clarão de luz que às vezes vem a mim, percebi que o leproso não era outro senão o Homem Atrás do Biombo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curvei-me sobre o homem caído, o qual, embora não totalmente inconsciente, havia ficado temporariamente indefeso por aquele tremendo golpe. Ele se esforçava, atordoado, para se levantar, mas eu o empurrei asperamente para baixo de novo e, agarrando a barba falsa que ele usava, eu a arranquei. Um magro rosto bronzeado foi revelado, um rosto cujas linhas fortes nem mesmo a sujeira artificial e maquiagem poderiam alterar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yussef Ali se curvava sobre ele agora, de adaga na mão e olhos semicerrados com intenção assassina. A forte mão marrom se ergueu... eu agarrei o pulso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tão rápido, seu demônio negro! O que vai fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este é John Gordon – ele sibilou –, o maior inimigo do Mestre! Ele deve morrer, seu maldito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;John Gordon! O nome era, de alguma forma, familiar, embora não me parecesse ter conexão com a polícia de Londres, nem explicasse a presença do homem na casa de entorpecentes de Yun Shatu. Entretanto, em um ponto, eu estava decidido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não o mate de jeito nenhum. Levante-se! – Esta última frase foi para Gordon, que, com minha ajuda, se ergueu cambaleando, ainda muito atordoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquele soco seria capaz de derrubar um touro. – eu disse, admirado – Eu não sabia que era capaz disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O falso leproso havia desaparecido. Yun Shatu ficou me encarando, tão imóvel quanto um ídolo, as mãos dentro de suas mangas largas; e Yussef Ali ficou atrás, resmungando de forma sanguinária e passando o polegar no fio de sua adaga, enquanto eu guiava Gordon para fora da sala do ópio e através do bar de aspecto inocente, que ficava entre aquela sala e a rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, eu disse a ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho idéia de quem você é, nem do que está fazendo aqui, mas você está vendo que esse é um lugar doentio. A partir de agora, siga meu conselho e fique longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua única resposta foi um olhar indagador, e então ele deu a volta e andou rápido, porém vacilante, rua afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6) A Moça do Sonho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Alcancei estas terras agora&lt;br /&gt;Desde uma remota e obscura Thule&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Poe)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do lado de fora de meu quarto, soou um leve som de passos. A maçaneta da porta girou cuidadosa e vagarosamente; a porta se abriu. Ergui-me de um pulo com uma arfada. Lábios vermelhos e entreabertos, olhos escuros como mares límpidos de maravilha, uma massa de cabelos tremeluzentes... destacada contra o insípido vão de minha porta, se encontrava a moça dos meus sonhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entrou e, dando meia-volta com um movimento sinuoso, fechou a porta. Dei um pulo para a frente, com minhas mãos estendidas, e logo parei quando ela pôs um dedo nos lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não deve falar alto. – ela quase sussurrou – Ele não disse que eu não poderia vir; mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua voz era suave e melodiosa, com apenas um pouco de sotaque estrangeiro, o qual achei encantador. Quanto à jovem propriamente dita, cada entonação, cada movimento, proclamava o Oriente. Ela era um sopro perfumado do Leste. Desde o cabelo, negro como a noite e arrumado bem acima de sua testa alva como alabastro, até seus pés pequenos, calçados em chinelos pontiagudos com salto alto, ela retratava o mais alto ideal de beleza asiática – um efeito que era mais aumentado do que diminuído pela blusa e saia inglesas, as quais ela vestia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é linda! – eu disse, deslumbrado – Quem é você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou Zuleika. – ela respondeu, com um sorriso tímido – Eu... eu estou feliz que você goste de mim. Estou feliz por você não ter mais sonhos de haxixe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranho que uma coisa tão pequena fizesse meu coração pular selvagemente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Devo tudo a você, Zuleika. – eu disse asperamente – Se eu não tivesse sonhado com você, desde a primeira vez em que você me tirou da sarjeta, eu não teria forças sequer para ter esperança de ser libertado da minha maldição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se enrubesceu lindamente e entrelaçou os dedos brancos, como que em nervosismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você deixará a Inglaterra amanhã? – ela disse subitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. Hassim não retornou com minha passagem... – hesitei subitamente, lembrando-me da ordem de silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, eu sei, eu sei! – ela sussurrou suavemente, seus olhos se arregalando – E John Gordon esteve aqui! Ele viu você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se aproximou de mim, com um movimento rápido e gracioso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se passar por outro homem! Escute: enquanto fizer isso, nunca deixe Gordon lhe ver! Ele lhe reconheceria, independente do seu disfarce! Ele é um homem terrível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estou entendendo. – eu disse, completamente perplexo – Como foi que o Mestre me libertou de meu vício por haxixe? Quem é este Gordon, e como ele chegou até aqui? Por que o Mestre anda disfarçado como um leproso... e quem é ele? E, acima de tudo, por que tenho que me disfarçar de um homem que eu nunca vi, e de quem nunca ouvi falar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso... não ouso lhe dizer! – ela sussurrou, o rosto empalidecendo – Eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em algum lugar da casa, soou fracamente um gongo chinês. A garota se sobressaltou como uma gazela assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho que ir! &lt;em&gt;Ele&lt;/em&gt; me chama!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela abriu a porta, atravessou-a rapidamente e parou por um momento para me eletrificar com sua exclamação ardente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, tenha cuidado; tenha muito cuidado, senhor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, ela foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7) O Homem da Caveira&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Qual o martelo? Qual a corrente?&lt;br /&gt;Em qual fornalha teu cérebro estava?&lt;br /&gt;Qual a forja? Qual aperto terrível&lt;br /&gt;Ousa prender seus terrores mortíferos?&lt;/em&gt;”&lt;br /&gt;(Blake)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois de minha bela e misteriosa visitante partir, me sentei meditabundo. Acreditei que eu finalmente havia me deparado com uma explicação de uma parte do enigma, de alguma forma. Esta era a conclusão à qual eu havia chegado: Yun Shatu, o senhor do ópio, era simplesmente o agente ou empregado de alguma organização, ou indivíduo, cujo trabalho era de uma escala bem maior do que simplesmente abastecer viciados em entorpecentes no Templo dos Sonhos. Este homem – ou estes homens – precisava de colaboradores em todas as classes de pessoas; em outras palavras: minha entrada havia sido permitida num grupo contrabandistas de ópio de uma escala gigantesca. Gordon, sem dúvida, havia investigado o caso, e sua presença, por si só, mostrava que não era um caso comum, pois eu sabia que ele ocupava uma alta posição no governo inglês, embora eu não soubesse exatamente qual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com ou sem ópio, eu resolvi cumprir minha obrigação com o Mestre. Meu senso de moral havia sido embotado pelos caminhos obscuros pelos quais eu havia viajado, e o pensamento de crime desprezível não me entrava na cabeça. Eu estava realmente endurecido. Mais: o mero débito de gratidão foi aumentado mil vezes pelo pensamento na garota. Se eu era capaz de me erguer e olhar nos olhos límpidos dela como um homem, eu devia isso ao Mestre. Assim, se ele desejava meus serviços como contrabandista de entorpecentes, ele os teria. Sem dúvida, eu teria de me fazer passar por um homem com tão alta estima para o governo, que as ações usuais dos oficiais da alfândega seriam consideradas desnecessárias, traria eu algum raro gerador de sonhos para dentro da Inglaterra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes pensamentos estavam em minha mente enquanto eu ia para o andar inferior, mas, por trás deles, sempre pairavam outras e mais atrativas suposições: qual o motivo para a jovem estar aqui, neste antro imundo – uma rosa numa pilha de lixo –, e quem era ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando adentrei o recinto externo, Hassim também entrou, sua testa fechada numa careta sombria de ira e, eu acreditei, medo. Ele trazia um jornal dobrado na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu disse para você esperar na sala do ópio. – ele rosnou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você saiu há tanto tempo, que subi até meu quarto. Está com a passagem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele simplesmente grunhiu e passou por mim, em direção à sala do ópio, e, na porta, eu o vi cruzar o chão e desaparecer dentro da sala dos fundos. Fiquei lá, minha perplexidade aumentando. Pois, enquanto Hassim passava por mim, eu havia notado uma pequena notícia na frente do papel, contra a qual seu polegar negro estava pressionando, como que para marcar aquela coluna especial de notícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, com a rapidez incomum de ação e julgamento, que pareciam ser minhas naqueles dias, eu havia lido naquele rápido instante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comissário Especial Africano Encontrado Assassinado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo do Major Fairlan Morley foi descoberto ontem, no porão apodrecido de um navio em Bordeaux...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vi mais dos detalhes, mas aquilo foi o bastante para me fazer pensar! O assunto parecia estar assumindo um aspecto medonho. Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia se passou. Diante de minhas perguntas, Hassim rosnou que os planos haviam mudado e que eu não iria para a França. Depois, tarde da noite, ele veio me chamar mais uma vez para a sala de mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei diante do biombo envernizado, a fumaça amarela pungente em minhas narinas, os dragões sinuosos se contorcendo ao longo das tapeçarias, as palmeiras se erguendo densas e opressivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Houve uma mudança em nossos planos. – disse a voz oculta – Você não navegará, como foi decidido antes. Mas tenho outro trabalho que você pode fazer. Talvez este seja mais adequado ao seu tipo de utilidade, pois admito que você me desapontou um pouco em termos de sutileza. Outro dia, você interferiu de tal modo, que, sem dúvida, me causará grande inconveniência no futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não disse nada, mas uma sensação de ressentimento começou a se agitar dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mesmo após a garantia de um de meus servos de maior confiança – a voz sem tom continuou, sem nenhum traço de emoção, exceto um som levemente ascendente –, você insistiu em libertar meu inimigo mais mortífero. Seja mais prudente no futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Salvei sua vida! – eu disse furiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E somente por esse motivo, eu perdôo seu erro... desta vez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fúria lenta subitamente se ergueu dentro de mim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desta vez! Tire o melhor partido disso desta vez, pois lhe asseguro que não haverá próxima vez. Tenho com você uma dívida maior do que eu posso um dia ter esperança de pagar, mas isso não faz de mim seu escravo. Salvei sua vida; o débito está quase tão pago quanto um homem pode pagar. Siga seu caminho, e eu seguirei o meu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma risada baixa e horrenda me respondeu, como o sibilar de um réptil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu tolo! Você me pagará labutando por toda a sua vida! Você disse que não é meu escravo. Eu digo que você é... exatamente como o negro Hassim, aí ao seu lado, é meu escravo... exatamente como Zuleika, que lhe enfeitiçou com a beleza dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas palavras mandaram uma onda de sangue até meu cérebro, e eu estava consciente de uma inundação de fúria que afundou completamente minha razão por um segundo. Exatamente como todos os meus humores e sentidos pareciam exagerados naqueles dias, esta explosão de fúria transcendia cada momento da raiva que eu houvesse tido antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Demônios do Inferno! – eu gritei em voz estridente – Seu diabo... quem é você, e qual o seu poder sobre mim? Vou lhe ver ou morrer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hassim saltou em minha direção, mas eu o lancei para trás e, com uma passada larga, alcancei o biombo e o lancei para o lado, com um incrível esforço. Então recuei, as mãos abertas e guinchando. Uma figura alta e magra se erguia diante de mim, uma figura vestida grotescamente numa toga com brocado de seda, a qual caiu ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das mangas desta toga, saíam mãos que me encheram de horror arrepiante... mãos longas e predatórias, com finos dedos ossudos e garras curvas... a pele definhada, semelhante a um pergaminho amarelo-pardo, como as mãos de um homem há muito tempo morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos... mas, oh Deus, o rosto! Um crânio no qual não parecia haver vestígios de carne, mas no qual pele esticada e amarelo-parda se grudava, destacando cada detalhe daquela terrível cabeça de morte. A testa era alta e, num aspecto, imponente; mas a cabeça era curiosamente estreita através das têmporas e, sob sobrancelhas em forma de marquise, olhos grandes reluziam como poços de fogo amarelo. O nariz tinha a ponte alta e era muito estreito; a boca era um mero talho sem cor entre lábios finos e cruéis. Um longo pescoço ossudo sustentava esta visão assustadora, e completava o efeito de um demônio reptiliano de algum inferno medieval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava face a face com o homem de rosto de caveira dos meus sonhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;8) Sabedoria Negra&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Através de uma ruína rastejante,&lt;br /&gt;Pela vida, um pântano saltitante.&lt;br /&gt;Por um coração partido no peito do mundo&lt;br /&gt;E o fim do desejo do mundo&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Chesterton)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terrível espetáculo afastou, por um instante, todo o pensamento de rebelião de minha mente. Meu próprio sangue congelou nas veias e fiquei paralisado. Ouvi Hassim rir sombriamente atrás de mim. Os olhos do rosto cadavérico ardiam diabolicamente para mim, e eu empalideci devido à concentrada fúria satânica neles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o horror riu de forma sibilante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Concedo-lhe uma honra, Sr. Costigan: dentre muito poucos, até mesmo de meus próprios servos, você pode dizer que viu meu rosto e viveu. Acho que você me será mais útil vivo do que morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava calado e completamente acovardado. Era difícil acreditar que este homem vivia, pois sua aparência certamente desmentia o pensamento. Ele parecia horrivelmente com uma múmia. Mas seus lábios se moviam quando ele falava, e seus olhos flamejavam com vida horrenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você fará o que eu disser. – ele falou abruptamente, e sua voz havia adquirido um tom de comando – Você, sem dúvida, conhece, ou já ouviu falar em Sir Haldred Frenton.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo homem culto, na Europa e América, estava familiarizado com os livros de viagem de Sir Haldred Frenton, escritor e soldado da fortuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você irá à casa de Sir Haldred esta noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;E o matará!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu literalmente oscilei. Esta ordem era inacreditável... indizível! Eu havia afundado muito; baixo o bastante para contrabandear ópio, mas assassinar deliberadamente um homem que nunca vi; um homem conhecido por suas ações bondosas! Isso era monstruoso demais, até mesmo para pretender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não recusa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tom era tão asqueroso e zombeteiro quanto o sibilar de uma serpente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Recusar? – gritei, finalmente encontrando minha voz – Recusar? Seu demônio encarnado! É claro que recuso! Seu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo na fria convicção de suas maneiras me fez parar... congelou-me em silêncio apreensivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu tolo! – ele disse calmamente – Quebrei os grilhões do haxixe... você sabe como? Daqui a quatro minutos, você saberá como, e amaldiçoará o dia em que nasceu! Você não achou estranha a rapidez do cérebro e a elasticidade do corpo... o cérebro que deveria estar enferrujado e lento; o corpo que deveria estar fraco e indolente por anos de abuso? Aquele golpe que derrubou John Gordon... você não se maravilhou com tal força? A facilidade como você gravou os registros do Major Morley... você não se maravilhou com isso? Seu idiota, você está amarrado a mim por correntes de aço, sangue e fogo! Eu lhe mantive vivo e mentalmente são... Somente eu. Todos os dias, e elixir salva-vida lhe era dado em seu vinho. Você não conseguiria viver e manter seu juízo sem ele. E somente eu conheço seu segredo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou de relance para um estranho relógio sobre uma mesa, próximo ao seu ombro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Neste momento, mandei Yun Shatu excluir o elixir... eu esperava uma rebelião. A hora está próxima... há, ela chegou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse algo mais, mas não ouvi. Não vi, nem senti, no significado humano da palavra. Eu me retorcia aos pés dele, gritando e tagarelando nas chamas de infernos com quais os homens nunca haviam sonhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu soube como! Ele simplesmente me dera um entorpecente bem mais forte, o qual havia afogado o haxixe. Minha habilidade não-natural era explicável agora – eu havia simplesmente agido sob o estímulo de algo que combinava todos os infernos em sua composição, e que estimulava – algo semelhante à heroína –, mas cujo efeito passava despercebido pela vítima. Eu não fazia idéia do que fosse, nem acreditava que alguém soubesse, exceto essa coisa infernal que me olhava com divertimento sombrio. Mas aquilo mantinha meu cérebro intacto, incutindo em meu organismo uma necessidade por essa droga, e agora minha ânsia assustadora rasgava minha alma em pedaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca, em meus piores momentos de neurose de guerra ou de ânsia por haxixe, eu havia experimentado algo como aquilo. Eu queimava com o calor de mil infernos e me congelava com uma gelidez mais fria que qualquer gelo, por mil vezes. Desci aos fossos mais profundos de tortura e subi aos penhascos mais altos de tormento – um milhão de demônios urrantes me encurralavam, guinchando e esfaqueando. Osso por osso, veia por veia, célula por célula, eu sentia meu corpo se desintegrar e voar em átomos sangrentos por todo o universo – e cada célula separada era um sistema inteiro de nervos palpitantes que gritavam. E elas se aglomeravam, desde vácuos distantes, e se reuniam com um tormento maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através das ardentes brumas vermelhas, ouvi minha própria voz gritar – um lamento monótono. Então, com os olhos distendidos, vi um copo para vinho, seguro por uma mão em forma de garra, flutuando para dentro da visão – um copo cheio de um líquido cor de âmbar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um guincho bestial, eu o agarrei com ambas as mãos, vagamente consciente de que o pé do corpo cedia sob meus dedos, e levei a beirada até meus lábios. Bebi com pressa frenética, o líquido escorrendo sobre meu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;9) Kathulos do Egito&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;A noite será três vezes noite sobre você,&lt;br /&gt;E o Paraíso será um copo de ferro&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Chesterton)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ser de Rosto de Caveira me olhava criticamente, enquanto eu me sentava ofegante num leito, completamente exaurido. Ele segurava o copo na mão e examinava o pé deste, o qual estava esmagado e deformado. Meus dedos delirantes haviam feito isto, no momento em que eu bebia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Força super-humana, mesmo para um homem na sua condição. – ele disse, com uma espécie de pedantismo rangente – Duvido que até mesmo Hassim pudesse fazer algo igual. Está pronto para as suas instruções agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assenti sem palavras. A força infernal do elixir já estava fluindo por minhas veias, renovando meu vigor apagado. Eu me perguntava por quanto tempo um homem poderia viver como eu vivia, sendo constantemente enfraquecido e artificialmente reconstruído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um disfarce lhe será dado, e você irá sozinho à propriedade de Frenton. Ninguém suspeita de qualquer plano contra Sir Haldred, e sua entrada na propriedade e na própria casa será algo relativamente fácil. Você não usará o disfarce... o qual será de natureza única... até estar pronto para adentrar a propriedade. Então, você prosseguirá até o quarto de Sir Haldred e o matará, quebrando-lhe o pescoço com as mãos nuas... isto é essencial...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz ficou monótona, dando-me ordens de uma maneira assustadoramente indiferente e trivial. O suor frio brotou em minha testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Depois, você deixará a propriedade, tendo o cuidado de deixar a marca de sua mão em algum lugar claramente visível; e o automóvel, que estará lhe esperando em algum lugar seguro por perto, lhe trará de volta para cá, você tendo primeiro removido o disfarce. Eu tenho, em caso de complicações, uma quantidade de homens, os quais jurarão que você passou a noite toda no Templo dos Sonhos, e nunca saiu dele. Mas aqui não pode haver descobertas! Vá cautelosamente e faça seu trabalho inabalavelmente, pois você conhece as opções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não retornei à casa do ópio, mas segui através de corredores sinuosos, enfeitados com pesadas tapeçarias penduradas, até um pequeno quarto, contendo apenas um leito oriental. Hassim me fez entender que eu deveria permanecer nele até depois do anoitecer, e então me deixou. A porta estava fechada, mas não me esforcei para descobrir se ela estava trancada. O Mestre de Rosto de Caveira me segurava com grilhões mais fortes do que fechaduras e ferrolhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado sobre o leito no assentamento bizarro de um aposento que deve ter sido uma sala numa zenana (5) indiana, confrontei os fatos e lutei minha batalha. Ainda havia em mim alguns traços de hombridade – mais do que aquele demônio havia pensado e, adicionado a isto, negro desespero. Escolhi e determinei meu próprio rumo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, a porta se abriu suavemente. Uma intuição me disse a quem esperar, e eu não me desapontei. Zuleika estava lá: uma visão gloriosa diante de mim – uma visão que zombava de mim, tornava meu desespero mais negro e, mesmo assim, me emocionava com anseio selvagem e alegria irracional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela trazia uma bandeja de comida, a qual colocou ao meu lado, e em seguida ela se sentou no leito, com seus olhos grandes fixos em meu rosto. Ela era uma flor num antro de serpentes, e sua beleza tomava conta de meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Steephen! – ela sussurrou, e eu me arrepiei quando ela falou meu nome pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos luminosos brilharam subitamente com lágrimas, e ela pôs sua pequena mão em meu braço. Eu a segurei com ambas as minhas mãos ásperas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles lhe encarregaram de um serviço que você teme e odeia! – ela balbuciou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim – eu quase ri –, mas ainda vou enganá-los! Diga-me, Zuleika... qual o significado de tudo isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou temerosa ao redor de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei nada... – ela hesitou – Sua situação é toda por minha culpa, mas eu... eu tinha esperança... Steephen, eu lhe observei durante meses, todas as vezes que você ia para Yun Shatu. Você não me via, mas eu lhe via; e eu via em você, não o beberrão alquebrado que seus farrapos proclamavam, mas uma alma ferida, uma alma terrivelmente machucada nas trincheiras da vida. E, de coração, eu tive dó de você. Então, quando Hassim abusou de você naquele dia... – lágrimas lhe brotaram novamente dos olhos – Não consegui suportar, e eu sabia que você sofria por desejo de haxixe. Assim, eu paguei Yun Shatu e, dirigindo-me ao Mestre, eu... eu... oh, você vai me odiar por isso! – ela soluçou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não... não... nunca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu disse a ele que você era um homem que poderia ser útil para ele, e implorei a ele para que Yun Shatu lhe fornecesse o que você precisava. Ele já havia lhe notado, pois o olho dele é o do escravizador, e o mundo todo é seu mercado de escravos! Assim, ele ordenou que Yun Shatu fizesse como pedi; e agora... seria melhor se você tivesse continuado como estava, meu amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! Não! – exclamei – Conheci alguns dias de regeneração, mesmo que tenham sido falsos! Estive diante de você, como um homem, e isso vale por todo o resto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo o que eu sentia por ela deve ter avultado em meus olhos, pois ela baixou os seus e ficou ruborizada. Não me pergunte como o amor chega até um homem; mas eu sabia que amava Zuleika... amava aquela misteriosa garota oriental, desde a primeira vez em que eu a vi... e, de alguma forma, eu sentia que ela, em certa medida, retribuía minha afeição. Esta percepção tornou ainda mais negra e árida a estrada que escolhi; mas – pois o puro amor sempre fortalece um homem – isto me encorajou para o que eu deveria fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika – eu disse, falando apressadamente –, o tempo voa, e há coisas que eu preciso saber; diga-me: quem é você, e por que fica neste covil do Hades?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou Zuleika... isso é tudo o que sei. Sou circassiana de sangue e berço; quando eu era muito pequena, fui capturada numa incursão turca e criada num harém de Istambul. Embora eu fosse jovem demais para me casar, meu dono me deu de presente a... a &lt;em&gt;Ele&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E quem é ele? Este homem de rosto de caveira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é Kathulos do Egito... isso é tudo o que sei. Meu mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um egípcio? Então, o que ele está fazendo em Londres? Por que todo este mistério?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entrelaçou nervosamente os dedos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Steephen, por favor, fale mais baixo; tem sempre alguém ouvindo em todos os lugares. Não sei quem é o Mestre, nem por que ele está aqui nem por que ele faz estas coisas. Juro por Alá! Se eu soubesse, eu lhe contaria. Às vezes, homens de aparência ilustre vêm aqui até a sala onde o mestre os recebe... não é a sala onde você o viu... e me faz dançar diante deles e, logo depois, flertar com eles um pouco. E eu sempre tenho que repetir exatamente o que dizem para mim. É o que devo fazer sempre... na Turquia, Berbéria, Egito, França e Inglaterra. O Mestre me ensinou Francês e Inglês, e ele próprio me educou de várias formas. Ele é o maior feiticeiro de todo o mundo, e conhece toda a magia antiga e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika – eu disse –, minha raça está desaparecendo rapidamente, mas deixe-me tirá-la disto... venha comigo, e eu juro que vou lhe colocar longe desse demônio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se estremeceu e escondeu o rosto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não; não posso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika – perguntei gentilmente –; qual o domínio que ele tem sobre você, menina? Entorpecente também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não! – ela choramingou – Eu não sei... não sei... mas não consigo... nunca consigo escapar dele!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me, frustrado por alguns momentos; depois, perguntei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika, onde estamos neste momento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esta construção é um armazém abandonado, nos fundos do Templo do Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Imaginei isso. O que há nas arcas do túnel?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ela subitamente começou a chorar de forma suave:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você também é um escravo, como eu... você, que é tão forte e bondoso... oh, Steephen, não consigo agüentar isso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chegue mais perto, Zuleika, e eu lhe contarei como vou enganar esse Kathulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou apreensiva para a porta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você deve falar baixo. Deitarei-me em seus braços e, enquanto você finge me acariciar, sussurre suas palavras para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela deslizou para dentro dos meus braços e lá, no leito com estampa de dragões naquela casa de horror, conheci pela primeira vez a glória da forma esguia de Zuleika se aconchegando em meus braços... do rosto macio de Zuleika pressionado em meu peito. A fragrância dela estava em minhas narinas, o cabelo dela em meus olhos, e meus sentidos vacilaram; então, com meus lábios ocultos por seu cabelo sedoso, sussurrei suavemente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Primeiro irei avisar Sir Haldred Frenton... depois, encontrar John Gordon e falar a ele sobre este covil. Você trará a polícia para cá, e deve observar de perto e ficar pronta para se esconder &lt;em&gt;Dele&lt;/em&gt;... até que possamos fugir e matá-lo, ou capturá-lo. Então, você estará livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas você! – ela ofegou, empalidecendo – Você precisa ter o elixir, e só ele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho um meio de sobrepujá-lo, menina. – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou lamentavelmente pálida, e sua intuição feminina estalou na conclusão certa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se matar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, embora me torturasse ver sua comoção, senti uma alegria dolorosa ao saber que era por minha causa. Seus braços se apertaram ao redor do meu pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, Steephen! – ela implorou – É melhor viver, até mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não; não a esse preço. É melhor uma morte limpa do que abandonar minha hombridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me encarou selvagemente por um instante; então, pressionando subitamente seus lábios vermelhos contra os meus, ela se ergueu de um pulo e desapareceu do quarto. Estranhos, os caminhos do amor são estranhos. Dois navios abandonados nas praias da vida, nos encontramos inevitavelmente e, embora nenhuma palavra de amor tenha passado entre nós, conhecíamos o coração um do outro – através de fuligem e farrapos, e através de vestuários de escravos, conhecemos o coração um do outro, e desde o início amamos tão natural e puramente quanto foi pretendido desde o começo do Tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O começo da vida agora, e o final para mim, pois, assim que eu completasse minha tarefa e antes que eu sentisse novamente os tormentos de minha maldição, o amor, a vida, a beleza e a tortura seriam apagados juntos no duro caráter terminante de uma bala de pistola, espalhando meus miolos decadentes. Melhor uma morte limpa do que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta se abriu de novo, e Yussef Ali entrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chegou a hora de sair. – ele disse brevemente – Levante-se e me siga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, é claro, não tinha idéia de que horas eram. Não havia janela aberta no quarto onde eu estava – eu não vira nenhuma janela externa. Os quartos eram iluminados por velas finas em turíbulos que balançavam desde o teto. Quando eu me levantei, o esguio mouro jovem me olhou atravessado e de forma sinistra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto fica entre eu e você. – ele disse, sibilando – Somos servos do mesmo Mestre... mas isto só interessa a nós. Fique longe de Zuleika... o Mestre a prometeu para mim nos dias do império.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus olhos se estreitaram até se tornarem fendas, enquanto eu olhava para o belo rosto franzido do oriental, e um ódio como eu raramente conhecia se ergueu dentro de mim como uma onda. Meus dedos se abriram e fecharam involuntariamente, e o mouro, percebendo a ação, deu um passo para trás, com a mão no cinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora não... há trabalho para nós... talvez mais tarde. – Então, numa súbita rajada fria de ódio: – Suíno! Homem-macaco! Quando o Mestre acabar com você, vou saciar a sede de minha adaga em seu coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri sombriamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faça isso logo, cobra do deserto, ou esmagarei sua espinha com minhas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;10) A Casa Escura&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Contra todos os grilhões feitos pelo homem, e um inferno feito pelo homem...&lt;br /&gt;Sozinho – finalmente – e sem ajuda... eu me rebelo!&lt;/em&gt;”&lt;br /&gt;(Mundy)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segui Yussef Ali ao longo dos corredores sinuosos, escadas abaixo – Kathulos não estava na sala do ídolo – e ao longo do túnel; depois, através das salas do Templo dos Sonhos, até a rua, onde as luzes da cidade brilhavam fraca e lugubremente, através das brumas e de um leve chuvisco. Do outro lado da rua, havia um automóvel, com as cortinas hermeticamente fechadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É seu. – disse Hassim, que havia se juntado a nós – Caminhe naturalmente até ele. Não aja de forma suspeita. O local pode estar sendo vigiado. O motorista sabe o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele e Yussef voltaram para o bar, e dei apenas um passo em direção ao meio-fio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Steephen!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma voz que fazia meu coração pular falou meu nome! Uma mão branca acenava das sombras de uma portada. Caminhei rapidamente para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Shhh!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela agarrou meu braço e colocou algo em minha mão; distingui vagamente um pequeno frasco de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esconda isto, rápido! – ela sussurrou com urgência – Não volte, mas vá embora e se esconda. Isto está cheio de elixir... tentarei lhe providenciar um pouco mais, antes que este acabe totalmente. Você deve encontrar um meio de se comunicar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, mas como você conseguiu isto? – eu perguntei, espantado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu roubei do Mestre! Agora, por favor, vá antes que ele sinta minha falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela saltou de volta à portada e desapareceu. Fiquei indeciso. Eu sabia que ela havia arriscado nada menos que sua vida ao fazer isto, e fui rasgado pelo medo do que Kathulos poderia fazer com ela, se o roubo fosse descoberto. Mas retornar à casa de mistério certamente atrairia suspeitas, e eu poderia executar meu plano e dar o troco, antes que o Ser de Rosto de Caveira soubesse da duplicidade de seu escravo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desse modo, atravessei a rua até o automóvel que me esperava. O motorista era um negro a quem eu nunca tinha visto antes; um homem magro, de estatura mediana. Olhei fixamente para ele, me indagando o que ele teria visto. Ele não deu evidência de ter visto nada, e concluí que, mesmo que ele tivesse percebido que eu recuara para dentro das sombras, ele não conseguiria ver o que aconteceu lá, nem seria capaz de reconhecer a garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele simplesmente acenou com a cabeça, quando fui para o banco de trás; e, no momento seguinte, corríamos para longe das ruas desertas e cheias de névoas. Havia um pacote ao meu lado, o qual concluí ser o disfarce mencionado pelo egípcio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recapturar as sensações que experimentei, enquanto passeava pela noite chuvosa e brumosa, seria impossível. Senti como se eu já estivesse morto, e as ruas vazias e sombrias ao meu redor fossem as estradas da morte, sobre as quais meu fantasma havia sido condenado a vagar para sempre. Havia uma alegria torturante em meu coração, e desespero negro – o desespero de um homem condenado. Não que a morte em si fosse tão repulsiva – uma vítima de narcótico morre vezes demais para recuar da última –, mas era duro ir embora logo quando o amor havia entrado na minha vida árida. E eu ainda era jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sorriso sarcástico cruzou meus lábios – eles também eram jovens, os homens que morreram naquela Terra de Ninguém. Arregacei minha manga e fechei os punhos, contraindo os músculos. Não havia excesso de peso em minha estrutura, e grande parte da carne firme havia definhado, mas os músculos do grande bíceps ainda se sobressaíam como nós de aço, parecendo indicar grande força. Mas eu sabia que minha força era falsa; que, na verdade, eu era um homem enorme e alquebrado, animado apenas pelo fogo artificial do elixir, sem o qual uma garota frágil seria capaz de me derrubar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O automóvel parou entre umas árvores. Estávamos nos arredores de um subúrbio aristocrático, e era mais de meia-noite. Através das árvores, vi uma casa grande avultar sombriamente contra as luzes distantes da Londres noturna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esperarei aqui. – disse o negro – Ninguém é capaz de ver o automóvel desde a casa, ou desde a estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segurando um palito de fósforo, para que sua luz não pudesse ser vista do lado de fora do carro, examinei o “disfarce”, e foi difícil conter uma gargalhada insana. O disfarce era a pele inteira de um gorila. Segurando o pacote sob meu braço, caminhei até o muro que cercava a propriedade de Frenton. Poucas passos depois, as árvores onde o negro escondeu o carro mergulharam numa massa escura. Eu não acreditava que ele pudesse me ver, mas, por segurança, eu me dirigi, não ao portão alto de ferro na frente, mas para o muro ao lado, onde não havia portão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se via nenhuma luz dentro da casa. Sir Haldred era um homem solteiro, e eu tinha certeza de que os empregados estavam todos na cama há muito tempo. Transpus o muro facilmente e andei furtivamente, através do gramado escuro, até uma porta lateral, ainda carregando o medonho “disfarce” sob meu braço. A porta estava trancada, como eu havia esperado, e eu não queria acordar ninguém até estar em segurança na casa, onde o som de vozes não chegaria a ninguém que pudesse me seguir. Agarrei a maçaneta com ambas as mãos e, empregando lentamente minha força inumana, comecei a torcer. A haste girou em minhas mãos, e a fechadura dentro dela se despedaçou subitamente, com um barulho que parecia o espatifar de um canhão no silêncio. Mais um instante, e eu estava dentro e fechava a porta atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei uma única passada no escuro, na direção onde eu acreditava que estivesse a escada, e logo parei quando um raio de luz brilhou em meu rosto. Ao lado daquele raio, vi o lampejo da boca de uma pistola. Atrás dele, pairava um rosto magro e sombreado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique onde está e mãos ao alto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei minhas mãos, deixando o pacote cair ao chão. Eu só ouvira aquela voz uma vez, mas eu a reconhecia – percebi instantaneamente que o homem que segurava aquela lanterna era John Gordon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quantos vieram com você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz dele era brutal e imponente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou só. – respondi – Leve-me para uma sala onde uma luz não possa ser vista lá fora, e lhe direi algumas coisas que você quer saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava quieto; então, mandando que eu pegasse o pacote ao qual deixara cair, ele deu um passo para um lado e gesticulou para que eu fosse à frente dele até o cômodo mais próximo. Lá, ele me guiou até uma escadaria e, no alto, abriu uma porta e acendeu as luzes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava numa sala, cujas cortinas estavam totalmente fechadas. Durante este percurso, a vigilância de Gordon não relaxara, e agora ele ainda me apontava seu revólver. Vestido em trajes convencionais, ele revelava ser um homem alto e magro, mas poderosamente constituído; mais alto que eu, mas não tão pesado – com olhos cinzentos como o aço, e feições bem proporcionadas. Algo naquele homem me chamou a atenção, enquanto eu percebia uma contusão em seu maxilar, onde meu punho havia batido em nosso último encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não consigo acreditar – ele disse vigorosamente – que esta aparente falta de sutileza e de astúcia seja verdadeira. Sem dúvida, você tem seus próprios motivos para me querer numa sala isolada agora, mas Sir Haldred está eficientemente protegido agora mesmo. Fique quieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o cano da arma pressionado contra meu peito, ele correu a mão sobre minhas vestimentas, em busca de armas escondidas, parecendo levemente surpreso quando não encontrou nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mesmo assim – ele murmurou, como que para si mesmo –, um homem que consegue arrombar uma tranca de ferro com as mãos nuas, tem pouca necessidade de armas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está perdendo um tempo valioso. – eu disse impacientemente – Fui mandado aqui esta noite, para matar Sir Haldred Frenton...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mandado por quem? – a pergunta foi disparada contra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pelo homem que, às vezes, se disfarça de leproso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele assentiu, com um brilho em seus olhos cintilantes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minhas suspeitas estavam corretas, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sem dúvida. Escute-me de perto: você deseja a morte ou a prisão daquele homem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon sorriu sombriamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para alguém que leva a marca do escorpião na mão, minha resposta seria supérflua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então siga minhas instruções, e seu desejo se realizará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos se estreitaram em suspeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então é esta a explicação para sua entrada aberta e não-resistência? – ele disse lentamente – Será que o entorpecente que lhe dilata os olhos também deforma seu pensamento, para você achar que me guiou até uma armadilha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pressionei minhas mãos contra as têmporas. O tempo corria, e cada momento era precioso... como convencer este homem da minha honestidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouça: meu nome é Stephen Costigan, da América. Eu era um freqüentador da espelunca de Yun Shatu, e um viciado em haxixe... como você havia pensado, mas somente agora um escravo de droga mais forte. Por causa desta escravidão, o homem a quem você conhece como um falso leproso, e a quem Yun Shatu e seus amigos chamam de “Mestre”, ganhou dominância sobre mim e me mandou aqui para matar Sir Haldred... por que, só Deus sabe. Mas ganhei um espaço de tempo ao cair na posse de parte de seu entorpecente, que eu devo ter para viver; e temo e odeio este Mestre. Ouça-me, e eu juro, por todas as coisas sagradas e profanas, que antes do sol se levantar, o falso leproso estará em seu poder!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu poderia dizer que Gordon estava impressionado, apesar de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fale depressa! – ele disse abruptamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda poderia sentir sua descrença, e uma onda de impotência caiu sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se não quiser agir comigo – eu disse –, deixe-me ir e, de alguma forma, encontrarei um meio de chegar até o Mestre e matá-lo. Meu tempo é curto... minhas horas estão cronometradas, e minha vingança ainda está para ser realizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixe-me ouvir seu plano, e fale depressa. – Gordon respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É bem simples. Retornarei ao covil do Mestre e direi a ele que realizei o que ele me mandou fazer. Você deve me seguir de perto, com seus homens e, enquanto ocupo o Mestre com conversam cerque a casa. Então, após o sinal, invada o local e o mate ou capture.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon franziu a sobrancelha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde é essa casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O armazém no fundo da casa foi transformado num verdadeiro palácio oriental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O armazém! – ele exclamou – Como pode ser? Eu havia pensado nisso antes, mas eu o examinei cuidadosamente pelo lado de fora. As janelas estão firmemente trancadas, e as aranhas já fizeram teias por elas. As portas estão pregadas no lado externo; e os lacres, que marcam o armazém como abandonado, nunca foram quebrados ou perturbados de forma alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eles se abrem em túneis de baixo para cima. – respondi – O Templo dos Sonhos está diretamente conectado com o armazém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já atravessei o beco entre as duas construções – disse Gordon –, e as portas do armazém que se abrem para o beco estão, como já disse, pregadas do lado de fora, exatamente como os donos as deixaram. Aparentemente, não há nenhum tipo de saída pelos fundos do Templo dos Sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um túnel conecta as construções, com uma porta na sala dos fundos de Yun Shatu, e a outra na sala do ídolo do armazém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já estive na sala dos fundos de Yun Shatu, e não encontrei tal porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A mesa fica sobre ela. Já notou a pesada mesa no centro da sala? Se você a girasse, a porta secreta se abriria no chão. Agora eis o meu plano: atravessarei o Templo dos Sonhos e encontrarei o Mestre na sala do ídolo. Você postará homens secretamente, em frente ao armazém, e outros na outra rua, em frente ao Templo dos Sonhos. A casa de Yun Shatu, como você sabe, fica em frente à margem do rio, enquanto o armazém, na direção oposta, fica em frente a uma rua estreita que corre paralela ao rio. Após o sinal, deixe os homens na rua arrombarem a frente do armazém e o invadirem, enquanto, simultaneamente, aqueles em frente à casa de Yun Shatu invadem o Templo dos Sonhos. Deixe-os alcançarem a sala dos fundos, baleando sem piedade a quem tentar impedi-los, e lá abrirem a porta secreta, como eu havia dito. Não havendo, até onde sei, outra saída do covil do Mestre, ele e seus criados irão forçosamente tentar escapar através do túnel. Desse modo, nós os teremos em ambos os lados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon refletia, enquanto eu examinava seu rosto com ávido interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto pode ser uma armadilha – ele murmurou –, ou uma tentativa de me afastar de Sir Haldred; mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prendi meu fôlego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou um apostador por natureza. – ele disse pausadamente – Vou seguir o que vocês, americanos, chamam de palpite... mas Deus lhe ajude, se você estiver mentindo para mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ereto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Graças a Deus! Agora, ajude-me com este traje, pois terei que estar usando-o, quando retornar ao automóvel que me aguarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos se estreitaram, enquanto eu desembrulhava o horrível disfarce e me preparava para vesti-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto mostra, como sempre, o toque da mão do mestre. Você foi, sem dúvida, instruído a deixar marcas de suas mãos, vestidas nessas luvas horrendas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, embora eu não tenha idéia do motivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que tenho... o Mestre é famoso por não deixar pistas verdadeiras para marcar seus crimes... um macaco grande escapou de um zoológico na vizinhança esta tarde, e isso parece óbvio demais para ser puro acaso, à luz deste disfarce. O macaco levaria a culpa pela morte de Sir Haldred.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O disfarce foi facilmente colocado, e a ilusão de realidade que ele criava era tão perfeita que me fez estremecer quando me vi num espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora são duas da manhã. – disse Gordon – Tendo em conta o tempo que levará para você voltar à Limehouse, e o tempo que levarei para deixar meus homens estacionados, prometo-lhe que, às 4:30, a casa estará bem cercada. Dê-me uma vantagem... espere aqui, até eu ter saído desta casa, para que eu possa chegar ao mesmo tempo em que você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ótimo! – eu impulsivamente lhe apertei a mão – Sem dúvida, haverá lá uma garota que não está, de modo algum, envolvida nas ações maléficas do Mestre; é apenas uma vítima das circunstâncias, como fui. Trate-a brandamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será feito. Qual o sinal que devo esperar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho meios de lhe sinalizar, e eu duvido que qualquer som dentro da casa possa ser ouvido na rua. Leve seus homens para atacarem de surpresa às cinco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me virei para partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um homem está lhe esperando num carro, eu presumo. Ele é capaz de suspeitar de algo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho um meio de verificar; e, se ele suspeitar – respondi sombriamente –, retornarei sozinho ao Templo dos Sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;11) Às Quatro e Trinta e Quatro&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Duvidando, tendo sonhos que nenhum mortal ousou sonhar antes&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Poe)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta se fechou suavemente atrás de mim, a grande casa escura avultando mais desolada que nunca. Andando com os ombros curvados, atravessei correndo o gramado molhado – uma figura grotesca e profana, eu não duvido, pois qualquer um que me olhasse rapidamente juraria que eu não era um homem, mas um macaco gigante. O Mestre havia planejado de forma bem astuta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escalei o muro, pousei no chão além dele e avancei, através da escuridão e chuvisco, até o grupo de árvores que escondiam o automóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista negro se inclinou no banco da frente. Eu respirava com dificuldade e procurava, de várias formas, simular a atitude de um homem que havia acabado de matar a sangue-frio, e que fugia do cenário do crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não ouviu nada? Nenhum som, nenhum grito? – sibilei, agarrando-lhe o braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nenhum som, exceto um leve espatifar, quando você começou a entrar. – ele respondeu – Você fez um bom trabalho... ninguém que passou pela estrada suspeitou de qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ficou no carro o tempo todo? – perguntei. E, quando ele me respondeu que sim, eu lhe agarrei o tornozelo e corri minha mão sobre a sola de seu sapato; estavam perfeitamente secos, assim como a bainha de sua calça. Satisfeito, fui para o banco de trás. Se ele tivesse dado um passo para fora, o sapato e a roupa teriam delatado sua umidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ordenei a ele que evitasse dar a partida no carro, até que eu tivesse tirado a pele de macaco, e logo corremos através da noite e eu me tornei vítima de dúvidas e incertezas. Por que Gordon daria qualquer confiança à palavra de um estranho, anteriormente aliado do Mestre? Ele rebaixaria minha história a delírios de um viciado enlouquecido por drogas, ou a uma mentira para emboscá-lo ou enganá-lo? Mesmo assim, se ele não acreditava em mim, por que me deixou partir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só poderia confiar. De qualquer modo, o que Gordon fizesse, ou deixasse de fazer, dificilmente afetaria meu destino final, embora Zuleika tivesse me fornecido algo que iria meramente aumentar a quantidade de meus dias. Meu pensamento se centralizou nela e, maior que minha esperança de me vingar de Kathulos, era a esperança de que Gordon pudesse ser capaz de salvá-la das garras daquele demônio. De qualquer forma, pensei sombriamente, se Gordon me falhasse, eu ainda tinha minhas mãos e, se eu pudesse colocá-las sobre a forma ossuda do Ser de Rosto de Caveira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, me peguei pensando em Yussef Ali e suas estranhas palavras, cuja importância acabara de me ocorrer: “&lt;em&gt;O Mestre a prometeu para mim nos dias do império&lt;/em&gt;!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias do império... o que isso poderia significar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O automóvel finalmente parou diante da construção que escondia o Templo do Silêncio – agora escuro e silencioso. O trajeto parecia ter sido interminável e, quando saí do carro, olhei para o relógio no pára-lama do mesmo. Meu coração pulou – eram 4:34 e, a menos que meus olhos estivessem me enganando, vi um movimento nas sombras através da rua, longe do brilho das luzes da mesma. Àquela hora da noite, só poderia significar uma das duas coisas: algum criado do Mestre aguardava pelo meu retorno, ou Gordon havia mantido sua palavra. O negro se afastou, dirigindo o carro, e eu abri a porta, cruzei o bar abandonado e adentrei a sala do ópio. Os beliches e o chão estavam alastrados por sonhadores, pois tais lugares nada sabem da luz do dia ou da noite como as pessoas normais, mas todos dormiam profundamente um sono embriagado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As lâmpadas bruxuleavam através da fumaça, e um silêncio pairava sobre tudo, como uma bruma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;12) O Bater das Cinco&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Ele viu pegadas gigantes de morte&lt;br /&gt;E muitos contornos de condenação&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Chesterton)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dos jovens chineses se agachavam entre os fogos fumarentos, encarando-me sem piscarem os olhos, enquanto eu abria meu caminho com dificuldade por entre os corpos deitados e seguia até a porta dos fundos. Pela primeira vez, atravessei sozinho o corredor e encontrei tempo para me perguntar novamente sobre o conteúdo dos estranhos baús que se alinhavam nas paredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro batidas no lado inferior do chão, e no momento seguinte, eu estava na sala do ídolo. Ofeguei de espanto: o fato de que, do outro lado da mesa, Kathulos se sentava, em todo o seu horror, não foi a causa de minha exclamação. Exceto pela mesa, a cadeira onde o Ser de Rosto de Caveira se sentava e o altar – agora sem incenso –, a sala estava perfeitamente vazia! Paredes pardacentas e feias do armazém abandonado encontraram meu olhar, ao invés das tapeçarias caras às quais eu me acostumara. As palmeiras, o ídolo, o biombo envernizado – tudo havia sumido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, Sr. Costigan, você sem dúvida está se perguntando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz morta do Mestre entrou em meus pensamentos. Seus olhos de serpente cintilavam funestamente. Os longos dedos amarelos se enroscavam sinuosamente sobre a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você sem dúvida achou que eu fosse um idiota confiante! – ele disse abruptamente – Pensou que eu não lhe seguiria? Seu idiota... Yussef Ali esteve em seus calcanhares em cada movimento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um instante, fiquei mudo, congelado pelo espatifar destas palavras contra meu cérebro; então, quando a importância delas esmoreceu, eu me lancei para a frente com um urro. No mesmo instante, antes que meus dedos curvados pudessem se fechar no horror zombeteiro do outro lado da mesa, homens vieram correndo de todos os lados. Eu rodopiei e, com a clareza do ódio, distingui, dentre o redemoinho de rostos ferozes, o de Yussef Ali, e acertei meu punho direito contra sua têmpora com toda a minha força. Enquanto ele caía, Hassim me derrubou de joelhos e um chinês arremessou uma rede sobre meus ombros. Ergui-me ereto, arrebentando as cordas resistentes como se fossem barbantes, e logo um cassetete nas mãos de Ganra Singh me lançou, atordoado e sangrando, sobre o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos magras e fortes me seguraram e amarraram com cordas, que me cortavam cruelmente a pele. Emergindo das névoas da semi-inconsciência, eu me vi deitado no altar, com o mascarado Kathulos se erguendo sobre mim como uma torre magra de marfim. Ao redor, num semi-círculo, estavam Ganra Singh, Yar Khan, Yun Shatu e muitos outros aos quais eu conhecia como freqüentadores do Templo dos Sonhos. Atrás deles – e a visão me cortou o coração –, eu vi Zuleika se agachando na soleira de uma porta, seu rosto pálido e suas mãos pressionadas contra as bochechas, numa atitude de abjeto terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não confiei totalmente em você – disse Kathulos, de forma sibilante –, e por isso mandei que Yussef Ali lhe seguisse. Ele alcançou o grupo de árvores antes de você e, seguindo-lhe propriedade adentro, ouviu sua bastante interessante conversa com John Gordon... pois ele escalou o muro como um gato e se agarrou à saliência da janela! Seu motorista demorou de propósito, para dar a Yussef Ali tempo suficiente para que voltasse... De qualquer modo, decidi mudar minha moradia. Minha mobília já está em seu caminho para outra casa, e assim que tivermos nos livrado do traidor... você!... partiremos também, deixando uma pequena surpresa para seu amigo Gordon, quando ele chegar às cinco e meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração deu um súbito pulo de esperança. Yussef Ali havia entendido mal, e Kathulos demorava aqui em falsa segurança, enquanto a força de detetives de Londres já havia cercado silenciosamente a casa. Sobre meu ombro, vi Zuleika desaparecer da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para Kathulos, absolutamente desatento do que ele estava dizendo. Não faltava muito para as cinco... se ele demorasse mais... Então, eu me congelei quando o egípcio deu uma ordem, e Li Kung, um chinês magro e cadavérico, saiu do silencioso semi-círculo e puxou de sua manga uma adaga longa e fina. Meus olhos procuravam o cronômetro que ainda descansava sobre a mesa, e meu coração esmoreceu. Ainda faltavam dez minutos para as cinco. Minha morte não importava muito, vez que ela simplesmente apressava o inevitável, mas, no olho de minha mente, eu poderia ver Kathulos e seus assassinos fugindo, enquanto a polícia aguardava o bater das cinco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rosto de Caveira parou seu discurso, e ficou numa atitude de escuta. Creio que sua intuição sobrenatural o alertava do perigo. Ele deu uma ordem rápida e curta para Li Kung, e o chinês avançou, com a adaga erguida sobre meu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ar foi repentinamente sobrecarregado com tensão dinâmica. A ponta afiada da adaga pairou acima de mim... o som estridente de um apito policial veio alto e claro, e logo atrás do som, veio um tremendo estardalhaço desde a frente do armazém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kathulos entrou em atividade desvairada. Sibilando ordens como um gato que bufava, ele pulou em direção à porta escondida, e os demais o seguiram. As coisas aconteceram com a velocidade de um pesadelo. Li Kung havia seguido os outros, mas Kathulos lançou um comando sobre seu ombro, e o chinês voltou e veio correndo em direção ao altar onde eu jazia, a adaga erguida e o desespero em seu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grito atravessou o clamor e, enquanto eu me retorcia desesperadamente para evitar a adaga que descia, tive um vislumbre de Kathulos arrastando Zuleika dali. Então, com uma torção desesperada, desabei do altar, no exato momento em que a adaga de Li Kung, roçando meu peito, afundou vários centímetros na superfície com manchas escuras e vibrou ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia caído do lado próximo à parede, e não pude ver o que estava acontecendo na sala; mas eu parecia ouvir, de longe, homens gritando fraca e horrendamente. Então, Li Kung soltou sua lâmina e pulou como um tigre ao redor da extremidade do altar. Simultaneamente, um revólver disparou da portada... o chinês girou, a adaga lhe voou da mão e ele despencou ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon veio correndo da porta onde, alguns momentos antes, Zuleika havia estado; sua pistola ainda lhe fumegava em sua mão. Atrás dele, havia três homens de membros longos e traços bem-proporcionados, usando roupas simples. Ele cortou minhas amarras e me puxou de pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rápido! Para onde foram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia ninguém vivo na sala, exceto eu mesmo, Gordon e seus homens, embora dois homens jazessem mortos no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei a porta secreta e, após alguns segundos de procura, achei a alavanca que a abria. Com os revólveres prontos, os homens se agruparam ao meu redor e olharam fixa e nervosamente para dentro da escada escura. Nenhum som saía da escuridão total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto é misterioso! – murmurou Gordon – Acho que o Mestre e seus criados seguiram este caminho, quando abandonaram a construção... assim como certamente não estão aqui agora!... e Leary e seus homens deveriam tê-los detido, ou no próprio túnel, ou na sala dos fundos de Yun Shatu. De qualquer forma, se eles o fizessem, deveriam ter se comunicado conosco a esta hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado, &lt;em&gt;sir&lt;/em&gt;! – um dos homens exclamou subitamente, e Gordon, com uma exclamação, bateu com o cano de sua pistola e esmagou a vida de uma enorme serpente, a qual havia rastejado silenciosamente pelos degraus desde a escuridão sob nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos averiguar este assunto. – ele disse, se endireitando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, antes que ele pudesse dar um passo sobre o primeiro degrau, eu o detive; pois, com a pele se arrepiando, comecei a entender vagamente algo do que havia acontecido... comecei a entender o silêncio no túnel, a ausência dos detetives, e os gritos que eu havia escutado alguns minutos antes, enquanto jazia no altar. Examinando a alavanca que abria a porta, achei uma alavanca menor... comecei a acreditar que eu sabia o que aqueles baús misteriosos continham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gordon – eu disse roucamente –; você tem uma lanterna?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos homens mostrou uma de tamanho grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dirija a luz para dentro do túnel; mas, por amor à sua vida, não coloque um pé sobre os degraus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O raio de luz atravessou as sombras, iluminando o túnel e emoldurando claramente uma cena que assombrará meu cérebro pelo resto de minha vida. No chão do túnel, entre os baús agora abertos, jaziam dois homens do melhor serviço secreto de Londres. Eles jaziam com os membros torcidos e os rostos horrivelmente desfigurados; e, acima e ao redor deles se retorciam, em longas escamas brilhantes, vários répteis horrendos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio bateu cinco horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;13) O Mendigo Cego que Andava a Carro&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Ele parecia um mendigo que caminha devagar,&lt;br /&gt;Procurando pedaços de pão e cerveja&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Chesterton)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fria aurora cinzenta se aproximava do rio, quando estávamos no bar abandonado do Templo dos Sonhos. Gordon estava interrogando os dois homens, que haviam ficado de guarda do lado de fora da construção, enquanto seus infelizes companheiros entraram para explorar o túnel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim que ouvimos o apito, &lt;em&gt;sir&lt;/em&gt;, Leary e Murken atravessaram correndo o bar e entraram na sala do ópio, enquanto esperávamos aqui, na porta do bar, de acordo com as ordens. Imediatamente, vários viciados esfarrapados vieram saindo aos tombos, e nós os pegamos. Mas ninguém mais saiu, e nada ouvimos de Leary e Murken; deste modo, apenas esperamos até você chegar, &lt;em&gt;sir&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não viu nenhum sinal de um gigante negro, ou do chinês Yun Shatu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, &lt;em&gt;sir&lt;/em&gt;. Após algum tempo, a guarda de patrulha chegou e lançamos um cordão de isolamento ao redor da casa, mas ninguém foi visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon encolheu os ombros; poucas e breves perguntas o haviam convencido de que os cativos eram viciados inofensivos, e ele os soltou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem certeza de que mais ninguém saiu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, senhor... não, espere um momento. Um infeliz e velho mendigo cego saiu, todo esfarrapado e sujo, com uma jovem esfarrapada guiando-o. Nós o paramos, mas não o prendemos... um infeliz como aquele jamais poderia ser nocivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não? – Gordon falou abruptamente – Para onde ele foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A garota o guiou rua abaixo, até o quarteirão seguinte, e logo um automóvel parou; eles o pegaram e saíram, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon o olhou ferozmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A estupidez dos detetives de Londres se tornou legitimamente uma piada internacional. – ele disse, de forma ácida – Sem dúvida, nunca lhe ocorreu ser estranho um mendigo da Limehouse sair andando por aí em seu próprio automóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, deixando impacientemente o homem de lado, embora este tentasse falar mais, ele se voltou para mim, e vi rugas de cansaço sob seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sr. Costigan, se você vier ao meu apartamento, poderemos ser capazes de esclarecer algumas coisas novas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;14) O Império Negro&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Oh, as novas lanças mergulhadas em sangue vital, enquanto as mulheres guincham em vão!&lt;br /&gt;Oh, os dias antes dos ingleses! Quando esses dias retornarão?&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Mundy)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon riscou um fósforo, e distraidamente o deixou palpitar e apagar em sua mão. Seu cigarro turco pendia, sem acender, entre seus dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esta é a conclusão mais lógica a ser tirada. – ele dizia – O elo fraco de nossa corrente foi a falta de homens. Mas, dane-se, ninguém pode organizar um exército às duas da manhã, mesmo com a ajuda da Scotland Yard. Prossegui até a Limehouse, deixando ordens para vários guardas de patrulha me seguirem o mais rápido possível, se reunirem e lançarem um cordão de isolamento ao redor da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chegaram tarde demais para impedir que os criados do Mestre escapulissem pelas portas laterais e janelas, não há dúvidas, o que conseguiram fazer com apenas Finnegan e Hansen de guarda em frente à casa. No entanto, chegaram a tempo de impedirem que o Mestre fugisse por aquele caminho... sem dúvida, ele demorou para poder colocar seu disfarce, e foi pego daquela maneira. Ele deve sua fuga à sua astucia e à falta de cuidados de Finnegan e Hansen. A garota que o acompanhava...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Era Zuleika, sem dúvida. – respondi apaticamente, perguntando-me novamente quais grilhões prendiam-na ao feiticeiro egípcio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você deve a ela sua vida. – Gordon disse abruptamente – Estávamos nas sombras em frente ao armazém, esperando a hora do ataque e, é claro, sem sabermos o que acontecia dentro da casa, quando uma jovem apareceu numa das janelas com barras de madeira e nos implorou, pelo amor de Deus, que fizéssemos alguma coisa, que um homem estava sendo assassinado. Então invadimos imediatamente. No entanto, ela não foi vista quando entramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela voltou para a sala, sem dúvida – murmurei –; e foi forçada a acompanhar o Mestre. Deus permita que ele nada saiba do truque dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Realmente não sei – disse Gordon, deixando pender o palito meio queimado de fósforo – se ela acertou sobre nossa verdadeira identidade, ou se ela simplesmente fez aquele apelo por desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Contudo, o ponto principal é este: evidências apontam para o fato de que, ao ouvirem o apito, Leary e Murken invadiram a casa de Yun Shatu pela frente, ao mesmo tempo em que meus três homens e eu fizemos nossa investida pela frente do armazém. Enquanto levamos alguns segundos para arrombar a porta, é lógico supor que eles encontraram a porta secreta e entraram no túnel antes que invadíssemos o armazém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Mestre, sabendo antecipadamente de nossos planos, estando consciente de que uma invasão seria feita através do túnel e tendo há muito se preparando para tal emergência...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um estremecimento involuntário me sacudiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- ... o Mestre usou a alavanca que abria o cofre... os gritos que você ouviu, quando estava deitado no altar, foram os guinchos de morte de Leary e Murken. Então, deixando o chinês para trás, para acabar com você, o Mestre e os restantes desceram túnel adentro... por incrível que pareça... e, trilhando ilesos o caminho deles por entre as serpentes, entraram na casa de Yun Shatu e escaparam de lá, como eu havia dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece impossível. Por que as serpentes não os atacariam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon finalmente acendeu seu cigarro, e deu umas baforadas, poucos segundos antes de responder:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os répteis talvez ainda estivessem dando sua total e horrenda atenção aos moribundos, ou mais: já fui, em ocasiões anteriores, confrontado com provas incontestáveis do domínio do Mestre sobre feras e répteis, até mesmo das ordens mais baixas e perigosas. Como ele e seus escravos passaram, sãos e salvos, por entre aqueles demônios escamosos, é, por enquanto, um dos muitos mistérios insolúveis relativos àquele homem estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agitei-me inquieto em minha cadeira. Isto trouxe à tona um ponto para o propósito de esclarecimento, pelo qual fui até os aposentos simples e elegantes, porém bizarros, de Gordon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ainda não me contou – eu disse abruptamente – quem é esse homem, e qual a missão dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sobre quem é ele, só sei dizer que é conhecido como você o chama: o Mestre. Eu nunca o vi sem máscara, nem sei seu verdadeiro nome nem sua nacionalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso lhe esclarecer isso um pouco. – interrompi – Já o vi sem máscara e ouvi o nome pelo qual os escravos o chamavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos de Gordon brilharam, e ele se curvou para frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu nome – continuei – é Kathulos, e ele diz ser um egípcio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Kathulos! – Gordon repetiu – Você diz que ele afirma ser um egípcio... você tem algum motivo para duvidar da reivindicação dele dessa nacionalidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele deve ser do Egito – respondi pausadamente –, mas ele é, de alguma forma, diferente de qualquer humano que já vi, ou esperava ver. A idade avançada pode explicar algumas das peculiaridades dele, mas há certas diferenças lineares, as quais meus estudos antropológicos dizem estarem presentes desde o nascimento... traços físicos que seriam anormais em qualquer outro homem, mas que são perfeitamente normais em Kathulos. Isso soa contraditório, eu admito, mas para compreender totalmente a horrenda inumanidade do homem, você teria que vê-lo pessoalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon prestou atenção, enquanto eu rascunhava rapidamente a aparência do egípcio da maneira como eu me lembrava dele – e aquela aparência estava inesquecivelmente gravada em meu cérebro para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando terminei, ele balançou a cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como já disse, nunca vi Kathulos, exceto quando disfarçado de mendigo, ou leproso ou algo do tipo... quando ele estava bastante enfaixado em farrapos. Mesmo assim, também fui impressionado por uma estranha diferença nele... algo que não está presente em outros homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon bateu de leve no joelho com os dedos – um hábito dele, quando profundamente absorvido por algum tipo de problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você me perguntou sobre a missão desse homem. – ele começou a falar, devagar – Vou lhe contar tudo que sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minha posição com o governo britânico é única e peculiar. Possuo o que poderia ser chamada de comissão de perambulação – um cargo criado unicamente com o propósito de satisfazer minhas necessidades especiais. Como oficial do serviço secreto durante a guerra, convenci as autoridades da necessidade de tal cargo, e de minha habilidade para preenchê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Algo em torno de 17 meses atrás, fui mandado para a África do Sul, a fim de investigar a agitação que estava crescendo entre os nativos do interior, desde a Guerra Mundial, e a qual havia depois assumido proporções alarmantes. Lá, eu comecei a seguir o rastro desse homem chamado Kathulos. Percebi, por vias indiretas, que a África era um caldeirão fervilhante de rebelião, do Marrocos até a Cidade do Cabo. Aquela velha, velha promessa havia sido feita novamente: os negros e muçulmanos, juntos, expulsariam os brancos para dentro do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Este pacto havia sido feito antes, mas sempre quebrado até o momento. Agora, contudo, senti um intelecto gigante e um gênio monstruoso por trás do véu; um gênio suficientemente poderoso para realizar esta união e mantê-la. Trabalhando completamente com insinuações e pistas vagamente sussurradas, segui a trilha através da África Central e dentro do Egito. Lá, eu finalmente encontrei evidências definitivas de que tal homem existia. Os sussurros insinuavam sobre um homem morto-vivo – um homem &lt;em&gt;com rosto de caveira&lt;/em&gt;. Soube que esse homem era o sumo-sacerdote da misteriosa sociedade do Escorpião, do norte da África. Ele era mencionado de vários modos, como Rosto de Caveira, o Mestre e o Escorpião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seguindo uma trilha de oficiais subornados e segredos surrupiados de estado, eu finalmente o rastreei até Alexandria, onde o avistei pela primeira vez, numa espelunca, no bairro dos nativos – disfarçado de leproso. Eu o ouvi sendo chamado de ‘Poderoso Escorpião’ pelos nativos, mas ele escapou de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Todas as pistas desapareceram então; a trilha sumiu totalmente, até que rumores de estranhos acontecimentos me alcançaram e eu retornei à Inglaterra, para investigar um aparente rombo no cargo da guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como eu havia pensado, o Escorpião me precedera. Esse homem, cuja educação e astúcia transcendiam qualquer coisa que eu já tivesse encontrado, é simplesmente o líder e instigador de um movimento mundial como o mundo nunca tinha visto antes. Ele planeja simplesmente a destruição das raças brancas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu propósito definitivo e supremo é um império negro, com ele próprio sendo imperador do mundo! E, com esta finalidade, ele juntou, numa conspiração monstruosa, os negros, marrons e amarelos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora entendo o que Yussef Ali quis dizer, quando ele falou “os dias do império”. – murmurei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Exato. – Gordon disse abruptamente, com agitação reprimida – O poder de Kathulos é ilimitado e incalculável. Como um polvo, seus tentáculos se estendem até os lugares mais elevados da civilização e os cantos mais distantes do mundo. E sua arma principal é: narcótico! Ele inundou a Europa e, não duvido, a América, com ópio e haxixe; e, apesar de todos os esforços, tem sido impossível descobrir a ruptura nas barreiras pelas quais aquele material infernal está chegando. Com isto, ele captura e escraviza homens e mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você me falou de homens e mulheres da aristocracia, os quais você viu chegando ao antro de Yun Shatu. Sem dúvida, eles eram viciados em drogas – pois, como eu disse, o hábito se esconde em lugares nobres: detentores de posições governamentais, sem dúvida, chegando em viagem atrás do material que solicitavam, e dando em troca segredos de estado, informações confidenciais e promessa de proteção para os crimes do Mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, ele não trabalha ao acaso! Antes mesmo que a maré negra invada, ele estará preparado; se ele conseguir o que quer, os governos das raças brancas serão minas de corrupção – os homens mais fortes das raças brancas estarão mortos. Os segredos de guerra dos homens serão deles. Quando isso acontecer, imagino uma rebelião simultânea contra a supremacia branca, vinda de todas as raças coloridas – raças que, na última guerra, aprenderam os modos de batalha dos brancos, e que, lideradas por um homem como Kathulos e usando as melhores armas dos brancos, serão quase invencíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Uma corrente regular de fuzis e munição adentrou a África Oriental, e só parou quando descobri a fonte dela. Descobri que uma sensata e confiável firma escocesa estava contrabandeando estas armas entre os nativos, e descobri mais: o diretor desta firma era um viciado em ópio. Foi o bastante. Vi a mão de Kathulos no assunto. O diretor foi preso e cometeu suicídio em sua cela – esta é apenas uma das muitas situações com as quais tenho de lidar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Novamente o caso do Major Fairlan Morley. Ele, assim como eu, possuía uma comissão bem flexível e havia sido mandado para Transval, a fim de trabalhar com o mesmo caso. Ele mandou, para Londres, vários papéis secretos para serem guardados. Eles chegaram algumas semanas atrás, e foram postos no caixa forte de um banco. A carta que os acompanhava dava instruções explícitas de que eles não deveriam ser entregues a ninguém, exceto o próprio major, quando este os pedisse pessoalmente, ou, no caso de sua morte, para mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assim que eu soube que ele navegou da África, enviei homens de confiança para Bordeaux, onde ele pretendia fazer seu primeiro desembarque na Europa. Não conseguiram salvar a vida do major, mas atestaram sua morte, pois encontraram o corpo dele num navio abandonado, cujo casco desmantelado estava encalhado na praia. Foram feitos esforços para manter o assunto em segredo, mas, de alguma forma, isso vazou para os papéis como conseqüência...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Comecei a entender por que eu deveria me fazer passar pelo infeliz major. – interrompi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Exatamente. Uma barba falsa lhe foi fornecida, e com seu cabelo negro pintado de loiro, você se apresentaria no banco, teria recebido os papéis do banqueiro, o qual conhecia o Major Morley só intimamente o bastante para ser enganado por sua aparência, e então os papéis cairiam nas mãos do Mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo o que posso fazer é imaginar sobre o conteúdo daqueles papéis, pois as coisas têm acontecido rápido demais para que eu os solicite e obtenha. Mas devem tratar de assuntos intimamente ligados às atividades de Kathulos. Como ele soube deles e das estipulações da carta que os acompanha, eu não tenho idéia, mas, como eu disse, Londres está coalhada pelos espiões dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Em minha busca por pistas, eu freqüentemente visitava a Limehouse, disfarçado como você primeiramente me viu. Eu ia com freqüência ao Templo dos Sonhos e, mais de uma vez, consegui entrar na sala dos fundos, pois eu suspeitava de algum tipo de encontro combinado nos fundos da construção. A ausência de qualquer porta me frustrava, e eu não tinha tempo para procurar portas secretas antes de ser expulso pelo gigante negro Hassim, o qual não suspeitava de minha verdadeira identidade. Eu percebi o quão freqüentemente o leproso entrava e saía da casa de Yun Shatu, e por fim me veio à mente que, passada uma sombra de dúvida, este suposto leproso era o próprio Escorpião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Naquela noite em que você me viu no leito na sala do ópio, eu tinha vindo para cá sem nenhum plano especial em mente. Ao ver Kathulos saindo, decidi me levantar e segui-lo, mas você estragou aquilo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele dedilhou o queixo e riu sombriamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu fui um campeão de boxe amador em Oxford – ele disse –, mas o próprio Tom Cribb não conseguiria resistir àquele golpe... ou desferi-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu me arrependi disso, assim como me arrependi de algumas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não precisa se desculpar. Você salvou minha vida logo depois... eu estava atordoado, mas não tanto para não perceber que aquele demônio marrom chamado Yussef Ali estava ansioso para arrancar meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como você chegou até a propriedade de Sir Haldred Frenton? E por que você não deu batida no antro de Yun Shatu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não dei batida naquele local porque eu sabia que, de alguma forma, Kathulos seria avisado, e nossos esforços se reduziriam a zero. Eu estava na propriedade de Sir Haldred naquela noite, porque eu havia tramado passar pelo menos parte de cada noite com ele, desde quando ele havia retornado do Congo. Previ um atentado contra a vida dele, quando soube, dos seus próprios lábios, que ele estava preparando, com base nos estudos que fizera naquela viagem, um tratado sobre as sociedades secretas nativas da África Ocidental. Ele insinuou que as revelações que pretendia fazer nesse ponto poderiam ser, no mínimo, sensacionais. Vez que é vantagem para Kathulos destruir tais homens capazes de despertar o mundo ocidental para seu perigo, eu sabia que Sir Haldred era um homem marcado. De fato, dois atentados diferentes foram feitos contra sua vida, em sua jornada para a costa, partindo do interior da África. Assim, pus dois homens de confiança de guarda, e eles estão em seus postos agora mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Perambulando ao redor da casa às escuras, ouvi o barulho de sua entrada e, avisando meus homens, desci furtivamente para lhe interceptar. Durante nossa conversa, Sir Haldred estava sentado em seu gabinete com as luzes apagadas, um homem da Scotland Yard com pistola pronta a cada lado dele. A vigilância deles sem dúvida explica a falha no atentado de Yussef Ali para aquilo para o qual você foi mandado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Algo em seus modos me convenceu, apesar de você”, ele meditou. “Admito que tive alguns maus momentos de dúvida, enquanto eu esperava na escuridão que precede a aurora, no lado de fora do armazém”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon se levantou subitamente e, dirigindo-se a um cofre num canto da sala, puxou dele um grosso envelope.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Embora Kathulos tenha me frustrado em quase todos os atos – ele disse –, não fui totalmente inútil. Notando os freqüentadores da casa de Yun Shatu, compilei uma lista parcial dos homens de confiança do egípcio e seus registros. O que você me contou me permitiu completar essa lista. Como sabemos, seus adeptos estão espalhados pelo mundo, e há possivelmente centenas deles aqui em Londres. No entanto, aqui está uma lista daqueles que creio pertencerem ao seu conselho mais próximo, e que agora estão com ele na Inglaterra. Ele mesmo lhe contou que poucos, mesmo entre seus próprios seguidores, já o viram sem máscara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós nos inclinamos sobre a lista, a qual continha os seguintes nomes: “Yun Shatu, chinês de Hong Kong, suspeito de contrabando de ópio, encarregado do Templo dos Sonhos e morador da Limehouse por sete anos. Hassim, ex-chefe senegalês, procurado no Congo Francês por assassinato. Santiago, negro; fugiu do Haiti sob suspeita de atrocidades em culto de vodu. Yar Khan, afridi (6), registro desconhecido. Yussef Ali, mouro, traficante de escravos, suspeito de ter sido um espião dos alemães na Guerra Mundial e um instigador da Rebelião Felá no alto Nilo. Ganra Singh, um sikh de Lahore, Índia, contrabandista de armas no Afeganistão; participou ativamente dos motins em Lahore e Déli, suspeito de assassinato em duas ocasiões – um homem perigoso. Stephen Costigan, americano; mora na Inglaterra desde a guerra; viciado em haxixe, e homem de força extraordinária. Li Kung, do norte da China, contrabandista de ópio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As linhas estavam desenhadas de forma significativa em três nomes: o meu, o de Li Kung e o de Yussef Ali. Não havia nada escrito próximo ao meu, mas, após o nome de Li Kung, estava brevemente rabiscado na caligrafia irregular de Gordon: “Baleado por John Gordon, durante o ataque-surpresa à casa de Yun Shatu”. E, seguindo o nome de Yussef Ali: “Morto por Stephen Costigan, durante o ataque a Yun Shatu”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri sem alegria. Com império negro ou não, Yussef Ali jamais teria Zuleika nos braços, pois ele nunca havia se erguido de onde eu o derrubei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não sei – disse sombriamente Gordon, enquanto dobrava a lista e a colocava de volta ao envelope – que poder Kathulos tem, para unir negros e amarelos a fim de servirem-no... para unir antigos inimigos. Hindus, muçulmanos e pagãos estão entre seus seguidores. E, lá nas névoas do Leste, onde forças misteriosas e gigantescas trabalham, esta união está culminando a uma escala monstruosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deu uma olhada no relógio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São quase dez. Sinta-se em casa aqui, enquanto eu visito a Scotland Yard e vejo se foi achada alguma pista sobre o novo endereço de Kathulos. Acredito que as redes estejam se fechando sobre ele e, com sua ajuda, prometo que localizaremos a quadrilha dentro de, no máximo, uma semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;15) A Marca do Tulwar&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;O lobo alimentado se enrosca pela sua companheira sonolenta&lt;br /&gt;Numa terra bem trabalhada; mas os lobos magros aguardam&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Mundy)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me só nos aposentos de John Gordon e ri sem alegria. Apesar do estímulo do elixir, a tensão da noite anterior, com sua falta de sono e suas ações aflitivas, estava surtindo efeito em mim. Minha mente era um redemoinho caótico, onde os rostos de Gordon, Kathulos e Zuleika mudavam de posição com rapidez entorpecente. Toda a quantidade de informações que Gordon havia me dado parecia confusa e incoerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através deste estado em que eu me encontrava, um fato se sobressaía vigorosamente. Eu devia achar o último esconderijo do egípcio e tirar Zuleika de suas mãos – se, de fato, ela ainda estivesse viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma semana, Gordon havia dito – eu ri novamente –; uma semana, e eu estaria incapaz de ajudar qualquer pessoa. Eu havia achado a quantidade apropriada de elixir para usar... eu sabia a quantidade mínima que meu organismo necessitava – e sabia que conseguiria fazer o frasco durar, no máximo, quatro dias. Quatro dias! Quatro dias para vasculhar os buracos de rato da Limehouse e de Chinatown – quatro dias para desentocar, em algum dos labirintos de East End, o covil de Kathulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ardia de impaciência para começar, mas a natureza se rebelou e, cambaleando até uma cama, caí sobre ela e adormeci instantaneamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, alguém me sacudia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acorde, Sr. Costigan!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me, piscando os olhos. Gordon se erguia próximo a mim, o rosto com expressão desvairada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há trabalho diabólico feito, Costigan! O Escorpião atacou novamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergui-me de um pulo, ainda meio sonolento e entendendo apenas em parte o que ele estava dizendo. Ele me ajudou a vestir o paletó, pôs meu chapéu em mim, e logo seu aperto forte em meu braço estava me levando para fora da porta e escadaria abaixo. As luzes da rua brilhavam; eu havia dormido durante um tempo incrivelmente longo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma vítima lógica! – percebi que meu camarada estava dizendo – Ele iria me notificar sobre o instante de sua chegada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estou entendendo... – comecei a falar atordoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos agora no meio-fio, e Gordon chamou um táxi, dando o endereço de um hotel pequeno e modesto, numa parte sossegada e afetada da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Barão Rokoff – ele disse abruptamente, enquanto avançávamos em velocidade temerária –, um colaborador russo, conectado com o ministério da guerra. Ele retornou da Mongólia ontem, e aparentemente se escondeu. Sem dúvida, ficou sabendo de algo importante sobre o lento despertar do Leste. Ele ainda não havia se comunicado conosco, e eu não sabia que ele estava na Inglaterra até agora há pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você soube...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O barão foi encontrado em seu quarto, seu cadáver mutilado de forma horrenda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O respeitável e formal hotel, o qual o barão condenado havia escolhido como esconderijo, se encontrava num estado de leve tumulto, dominado pela polícia. A gerência havia tentado manter o assunto em segredo, mas, de alguma forma, os convidados ficaram sabendo da atrocidade, e muitos saíam às pressas – ou prontos para saírem, enquanto a polícia os continha para investigar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto do barão, o qual ficava no último andar, estava num estado que desafiava descrições. Nem mesmo na Guerra Mundial eu tinha visto tal carnificina. Nada havia sido tocado; tudo continuava como a camareira havia achado meia hora depois. Mesas e cadeiras estavam espatifadas sobre o chão, e a mobília, chão e paredes estavam salpicados de sangue. O barão, um homem alto e musculoso em vida, jazia no meio do quarto, um espetáculo medonho. Seu crânio havia sido partido até as sobrancelhas; um corte profundo, sob sua axila esquerda, lhe havia atravessado as costelas, e seu braço esquerdo estava pendurado por uma tira de carne. O frio rosto barbado estava com uma aparência de horror indescritível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguma arma pesada e curva deve ter sido usada – disse Gordon –; algo semelhante a um sabre, manejado com força terrível. Veja que um golpe ao acaso afundou bastante no parapeito. Além disso, o encosto desta cadeira grossa foi partido como se fosse uma telha. Um sabre, com certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um &lt;em&gt;tulwar&lt;/em&gt;. – murmurei sombriamente – Você não reconhece o trabalho do carniceiro da Ásia Central? Yar Khan esteve aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O afegão! Ele veio pelo teto, é claro, e desceu até o parapeito da janela através de uma corda de nós, amarrada a alguma coisa na beirada do teto. Por volta de 01h30min, a camareira, passando pelo corredor, ouviu um terrível tumulto no quarto do barão: o esmagar de cadeiras, e um súbito guincho curto que morreu abruptamente num gorgolejo medonho e logo parou – até o som de golpe pesados, curiosamente abafados, como os de uma espada quando afunda em carne humana. Então, todos os barulhos pararam abruptamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela chamou o gerente, eles forçaram a porta e, encontrando-a trancada e não recebendo resposta aos seus gritos, abriram-na com a chave da escrivaninha. Somente o cadáver estava lá, mas a janela estava aberta. Isto é estranhamente diferente do procedimento usual de Kathulos. Falta sutileza. Suas vítimas freqüentemente pareciam ter morrido de causas naturais. Mal consigo entender”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vejo pouca diferença no resultado. – respondi – Não há nada que possa ser feito para capturar o assassino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Verdade. – Gordon franziu a testa – Nós sabemos quem fez isso, mas não há provas... nem mesmo uma impressão digital. Mesmo que soubéssemos onde o afegão está escondido e o prendêssemos, não conseguiríamos provar nada... haveria uns 20 homens para jurarem álibis para ele. O barão só retornou ontem. Kathulos provavelmente não sabia de sua chegada, até esta noite. Ele sabia que, no dia seguinte, Rokoff me informaria de sua presença e me comunicaria o que ele soube no norte da Ásia. O egípcio sabia que deveria atacar logo e, faltando tempo para preparar uma forma mais segura e bem-elaborada de assassinato, ele enviou o afridi com seu &lt;em&gt;tulwar&lt;/em&gt;. Não há nada que possamos fazer, pelo menos não até descobrirmos o esconderijo do Escorpião; o que o barão descobriu na Mongólia nós nunca saberemos, mas podemos estar certos de que tem a ver com os planos e aspirações de Kathulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descemos novamente as escadas e saímos à rua, acompanhados por Hansen, um dos homens da Scotland Yard. Gordon sugeriu que andássemos de volta ao seu apartamento, e eu acolhi a oportunidade, para deixar o ar frio da noite apagar algumas das teias de aranha de meu cérebro perplexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto caminhávamos ao longo das ruas abandonadas, Gordon subitamente praguejou de forma selvagem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um verdadeiro labirinto, este que estamos seguindo, e que não leva a lugar algum! Aqui, no próprio coração da metrópole da civilização, o inimigo direto dessa civilização comete crimes da mais abominável natureza e fica livre! Somos crianças, perambulando na noite, engalfinhando-nos com um demônio invisível... lidando com um demônio encarnado, de cuja verdadeira identidade nada sabemos e de cujas verdadeiras ambições só podemos supor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca conseguimos deter um dos adeptos mais próximos do egípcio, e suas poucas pessoas ingênuas e ferramentas que capturamos morreram misteriosamente, antes que pudessem nos contar qualquer coisa. Mais uma vez, eu repito: qual o estranho poder que Kathulos tem para dominar estes homens, de diferentes credos e raças? Os homens em Londres com eles são, é claro, a maioria renegados e escravos de drogas, mas seus tentáculos se estendem por todo o Leste. Algum domínio é dele: o poder que mandou o chinês Li Kung de volta para lhe matar, diante da morte certa; que mandou Yar Khan, o muçulmano, para cima dos telhados de Londres para assassinar; que mantém Zuleika, a circassiana, em laços invisíveis de escravidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro que sabemos”, ele continuou, após um silêncio meditativo, “que o Leste tem sociedades secretas, as quais estão além e acima de todas as considerações e credos. Há cultos na África e Oriente, cujas origens remontam a Ophir e à queda da Atlântida. Este homem deve ser um poder em algumas, ou possivelmente em todas as sociedades. Ora, além dos judeus, não conheço nenhuma outra raça oriental que seja tão sinceramente menosprezada pelas outras raças do Leste quanto os egípcios! Mas temos aqui um homem, um egípcio como ele mesmo diz, controlando as vidas e destinos de muçulmanos ortodoxos, hindus, xintoístas e adoradores do demônio. Não é natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você já ouviu falar”, ele se voltou abruptamente para mim, “sobre o oceano, mencionado em conexão com Kathulos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há uma superstição muito difundida no norte da África, baseada numa lenda muito antiga, de que o grande líder das raças coloridas sairia do mar! E uma vez, ouvi um berbere falar do Escorpião como “Filho do Oceano”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É uma expressão de respeito entre aquela tribo, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim; mesmo assim, eu às vezes tenho dúvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;16) A Múmia Que Ria&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Rindo como caveiras que jazem espalhadas,&lt;br /&gt;Após batalhas perdidas, viradas para o céu,&lt;br /&gt;Uma risada eterna&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Chesterton)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma loja aberta a esta hora tardia. – Gordon comentou subitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma neblina havia descido sobre Londres e, ao longo da rua silenciosa que atravessávamos, as luzes brilhavam com a característica bruma avermelhada de tais condições atmosféricas. Nossos passos ecoavam lugubremente. Mesmo no coração de uma grande cidade, sempre há locais que parecem despercebidos e esquecidos. Tal rua era assim. Não havia um policial sequer à vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A loja que havia atraído a atenção de Gordon estava bem à nossa frente, no mesmo lado da rua. Não havia anúncio sobre a porta – somente um tipo de emblema, semelhante a um dragão. A luz fluía da porta aberta e das pequenas janelas de exibição a cada lado. Como não era nenhum café-restaurante, nem entrada para um hotel, nos vimos especulando ociosamente sobre o motivo para estar aberta. Normalmente, eu suponho, nenhum de nós pensaria a esse respeito, mas estávamos tão enervados que nos vimos suspeitando instintivamente de qualquer coisa fora do comum. Então, aconteceu algo que era distintamente fora do comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem muito alto, muito magro e bastante curvado subitamente avultou para fora da neblina à nossa frente, e além da loja. Só o vi de relance – uma impressão de incrível magreza, de roupas gastas e franzidas, um chapéu alto de seda puxado para perto das sobrancelhas e um rosto totalmente oculto por uma manta; então, ele virou para o lado e adentrou a loja. Um vento frio sussurrava rua abaixo, transformando a névoa em pequenos fantasmas, mas o frio que veio sobre mim transcendia o do vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gordon! – exclamei numa voz feroz e baixa – Ou meus sentidos não são mais confiáveis, ou o próprio Kathulos acabou de entrar naquela casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos de Gordon arderam. Estávamos agora próximos à loja e, transformando suas passadas numa corrida, ele se lançou para dentro da porta, o detetive e eu bem próximos aos seus calcanhares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós nos deparamos com um estranho sortimento de mercadorias. Armas antigas cobriam as paredes, e o chão estava empilhado de objetos curiosos. Ídolos maoris se amontoavam ao lado de divindades chinesas, e trajes de armadura medieval avultavam obscuramente contra pilhas de raros e pequenos tapetes orientais, bem como xales de feitio latino. O lugar era uma loja de antiguidades. Não vimos sinal da figura que havia despertado nosso interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem idoso, bizarramente vestido em fez (7) vermelho, jaqueta tecida com desenhos em relevos e chinelos turcos, veio dos fundos da loja. Era algum tipo de levantino (8).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desejam alguma coisa, senhores?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqui fica aberto até bem tarde. – disse abruptamente Gordon, seus olhos percorrendo rapidamente a loja, em busca de algum esconderijo que pudesse ocultar o alvo de nossa busca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, senhor. Meus clientes incluem muitos professores e estudantes, que ficam em horários bastante irregulares. Freqüentemente, os botes da noite descarregam peças especiais para mim, e eu muito freqüentemente tenho fregueses mais tarde que agora. Fico aberto a noite inteira, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estamos apenas dando uma olhada. – Gordon respondeu e, virando-se à parte para Hansen: – Vá para os fundos e pare qualquer um que tente abandonar o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen assentiu e passeou casualmente para os fundos da loja. A porta dos fundos estava claramente visível para nós, embora houvesse uma fileira de mobília antiga e cortinas manchadas sendo exibida. Havíamos seguido o Escorpião – caso fosse ele – tão de perto, que eu não acreditava que ele teria tempo de atravessar toda a distância da loja, e sair sem que o víssemos na hora de entrarmos. Para nossos olhos, havia sido a porta dos fundos, desde que entramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon e eu perambulávamos casualmente por entre as raridades, manuseando e discutindo algumas delas, mas não tenho idéia de sua natureza. O levantino havia se sentado de pernas cruzadas numa esteira mourisca, próxima ao centro da loja, e aparentemente assumiu apenas um interesse polido em nossas explorações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após algum tempo, Gordon me sussurrou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é vantagem continuar com esta simulação. Já olhamos para todos os lugares onde o Escorpião possa estar habitualmente escondido. Vou revelar minha identidade e autoridade, e procuraremos abertamente por toda a construção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ele falava, um caminhão parou do lado de fora da porta, e dois negros robustos entraram. O levantino parecia estar esperando por eles, pois ele simplesmente fez um gesto para que se dirigissem aos fundos da loja, e eles responderam com um grunhido de entendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon e eu os observávamos de perto, enquanto se dirigiam a um grande caixão de múmia, o qual estava de pé contra a parede, pouco distante dos fundos. Eles o baixaram a uma posição horizontal, e então se dirigiram à porta, carregando-o cuidadosamente entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parem! – Gordon deu um passo para a frente, erguendo sua mão com autoridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Represento a Scotland Yard”, ele disse rapidamente “e tenho autorização para qualquer coisa que eu queira fazer. Abaixem essa múmia; nada sai desta loja, até termos investigado minuciosamente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os negros obedeceram sem dizer uma palavra, e meu amigo se voltou para o levantino, que, aparentemente imperturbado ou até mesmo desinteressado, se sentava, fumando num &lt;em&gt;bong&lt;/em&gt; turco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem era o homem alto, que entrou logo antes de nós, e para onde ele foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ninguém entrou antes de você, senhor. Ou, se alguém o fez, eu estava nos fundos da loja e não o vi. Vocês, sem dúvida, têm liberdade para vasculhar minha loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nós vasculhamos, com a astúcia combinada de um especialista de um serviço secreto e de um habitante do submundo... enquanto Hansen permanecia imperturbável em seu posto; os dois negros, que se erguiam sobre o entalhado caixão de múmia, nos olhavam impassivelmente, e o levantino se sentava como uma esfinge sobre sua esteira, soprando uma nuvem de fumaça no ar. Tudo tinha um efeito distinto de irrealidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, frustrados, retornamos ao caixão de múmia, o qual era certamente longo o bastante para esconder um homem do tamanho de Kathulos. Aquilo não parecia estar selado, como é o costume normal, e Gordon o abriu sem dificuldade. Uma figura sem forma, enfaixada em panos amassados, ficou à mostra. Gordon partiu um dos panos, e revelou uns 2 ou 3 centímetros de braço murcho, pardacento e coriáceo. Ele estremeceu involuntariamente ao tocá-lo, como um homem faria ao toque de um réptil ou de alguma coisa inumanamente fria. Pegando um pequeno ídolo de metal de uma estante próxima, ele bateu no braço e peito enrugados. Ambos soaram um baque sólido, como algum tipo de madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon encolheu os ombros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morto há dois mil anos, de qualquer forma, e não acho que eu me arriscaria a destruir uma múmia valiosa, só para provar que o que sabemos que é verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fechou a caixa novamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A múmia pode ter se deteriorado um pouco, mesmo com esta exposição tão leve, mas talvez não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta última sentença foi dirigida ao levantino, o qual respondeu com um mero e cortês gesticular de sua mão, e os negros mais uma vez ergueram o caixão e o carregaram até o caminhão, dentro do qual eles o colocaram e, no momento seguinte, múmia, caminhão e negros haviam desaparecido na névoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon ainda espionava pela loja, mas eu me erguia imóvel no centro do chão. Eu a atribuí ao meu cérebro caótico e dominado pela droga, mas tive a sensação de que, através dos panos no rosto da múmia, olhos grandes haviam brilhado para os meus; olhos semelhantes a poços de fogo amarelo, que me queimavam a alma e congelavam-me onde eu estava. E, quando o caixão estava sendo carregado através da porta, eu sabia que a coisa sem vida dentro dele, morta sabe Deus há quando séculos, estava rindo horrenda e silenciosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;17) O Homem Morto do Mar&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Os deuses cegos rugem, deliram e sonham&lt;br /&gt;Com todas as cidades sob o mar&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Chesterton)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon soltou uma baforada feroz de seu cigarro turco, encarando distraída e despercebidamente Hansen, que se sentava no lado oposto a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Suponho que devamos anotar outro fracasso contra nós mesmos. Aquele levantino, Kamonos, é evidentemente um instrumento do egípcio, e as paredes e pisos de sua loja estão provavelmente cheias de painéis e portas secretas, capazes de burlar um mágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen respondeu alguma coisa, mas não falei nada. Desde nosso retorno ao apartamento de Gordon, eu estava consciente de uma sensação de intensa languidez e indolência, à qual nem mesmo minha condição conseguiria explicar. Eu sabia que meu organismo estava cheio de elixir... mas minha mente parecia estranhamente lenta e com dificuldade de compreensão, em contraste direto com o estado normal de minha mentalidade quando estimulada pela droga infernal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta condição estava me abandonando lentamente, e eu me senti como se estivesse acordando gradualmente de um sono longo e artificialmente sadio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu daria muito para saber se Kamonos é realmente um dos escravos de Kathulos, ou se o Escorpião conseguiu escapar através de alguma saída natural quando entramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Kamonos é quase certamente servo dele. – eu me vi dizendo lentamente, como se procurando as palavras corretas – Quando saímos, vi o olhar dele brilhar sobre o escorpião que está desenhado em minha mão. Os olhos dele se estreitaram e, quando estávamos saindo, ele conseguiu encostar-se a mim... e sussurrar numa voz rápida e baixa: “Soho 48”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon ficou ereto como um arco de aço desprendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deveras! – ele disse bruscamente – Por que não me contou naquela hora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo me observou intensamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Percebi que você parecia um homem intoxicado durante todo o caminho desde a loja. – ele disse – Eu o atribuí a algum efeito colateral do haxixe. Mas não. Kathulos é, sem dúvida, um discípulo poderoso de Mesmer (9)... seu poder sobre répteis venenosos mostra isso, e estou começando a acreditar que essa seja a verdadeira fonte de seu poder sobre os humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“De alguma forma, o Mestre lhe pegou desprevenido naquela loja e manteve parcialmente o domínio dele sobre sua mente. De qual canto escondido ele enviou as ondas mentais dele para lhe despedaçar o cérebro, eu não sei, mas Kathulos estava em algum lugar daquela loja, eu tenho certeza”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele estava. Estava no caixão de múmia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O caixão de múmia! – Gordon exclamou, um tanto impaciente – Isso é impossível! A múmia o preenchia completamente, e nem sequer uma coisa tão magra quanto o Mestre conseguiria achar lugar ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encolhi meus ombros, incapaz de argumentar sobre esse detalhe, mas, de alguma forma, convicto da verdade de minha afirmação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Kamonos – Gordon prosseguiu – certamente não é um membro do círculo interno, e não sabe de sua mudança de lealdade. Ao ver a marca do escorpião, ele sem dúvida achou que você fosse um espião do Mestre. Tudo pode ser uma tramóia para nos pegarem, mas tenho a sensação de que o homem foi sincero... Soho 48 pode ser nada menos que o novo ponto de encontro do Escorpião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu também achei que Gordon estava certo, embora uma suspeita se escondesse em minha mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peguei os papéis do Major Morley ontem – ele continuou – e, enquanto você dormia, eu os reli. A maioria deles só fez confirmar o que eu já sabia... falou da inquietação dos nativos, e repetiu a teoria de que havia um enorme gênio por trás de tudo. Mas havia outro assunto que me interessou grandemente, e o qual eu acho que irá lhe interessar também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De seu cofre, ele tirou um manuscrito, escrito na caligrafia compacta e bem-feita do infeliz major, e, numa voz monótona, a qual delatava pouco de sua intensa agitação, ele leu a seguinte narrativa de pesadelo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este assunto eu considero digno de nota... se tiver algum sentido no caso à mão, novos acontecimentos irão mostrar. Em Alexandria, onde passei algumas semanas procurando outras pistas para a identidade do homem conhecido como o Escorpião, fiquei informado, através de meu amigo Ahmed Shah, sobre o notável professor de Egiptologia Ezra Shuyler, de Nova Iorque. Ele verificou a afirmação, feita por vários leigos, sobre a lenda do “homem-oceano”. Este mito, passado de geração a geração, remete às próprias brumas da antiguidade e é, em poucas palavras, a história de que, um dia, um homem virá do mar e liderará o povo do Egito para triunfar. Esta lenda se espalhou pelo continente, de modo que agora todas as raças negras acham que ela se aplica à chegada de um imperador universal. O professor Shuyler opinou que o mito estava, de alguma forma, conectado com a perdida Atlântida, a qual, ele sustenta, se localizava entre o continente africano e sul-americano, e para cujos habitantes os ancestrais dos egípcios eram tributários. Os motivos para sua conexão são muito prolixos e vagos para se anotar aqui, mas, seguindo a linha de sua teoria, ele me contou uma história estranha e fantástica. Disse que um amigo próximo dele, Von Lorfman da Alemanha, um tipo de cientista independente, agora falecido, estava navegando na costa do Senegal alguns anos atrás, com o objetivo de investigar e classificar as raras espécies de vida marinha encontradas lá. Estava usando, para seu propósito, um pequeno navio de viagem, equipado por uma tripulação de mouros, gregos e negros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A alguns dias de distância da terra, algo foi avistado boiando; e este objeto, fisgado e trazido à bordo, provou ser um caixão de múmia do tipo mais curioso. O professor Schuyler me explicou que o aspecto diferia do estilo egípcio comum, mas de seu relato técnico, eu simplesmente tive a impressão de que era uma forma estranhamente esculpida com caracteres que não eram cuneiformes nem hieroglíficos. A caixa estava bastante envernizada, impermeável e hermeticamente fechada, e Von Lorfmon teve dificuldade considerável em abri-la. Contudo, ele conseguiu fazê-lo sem danificar a caixa, e uma múmia bastante incomum foi revelada. Schuyler disse que nunca vira a múmia ou caixão, mas que, pelas descrições dadas a ele pelo comandante grego que estava presente durante a abertura do caixão, a múmia diferia tanto do homem comum quanto o caixão do tipo convencional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Exames provaram que o morto não foi submetido ao procedimento usual de mumificação. Todas as partes estavam intactas exatamente como em vida, mas a forma inteira estava encolhida e endurecida como se fosse de madeira. Os panos que enfaixavam a coisa viraram pó e se dissiparam no instante em que o ar caiu sobre ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Von Lorfmon ficou impressionado com o efeito sobre a tripulação. Os gregos não demonstraram interesse algum, além do que seria normalmente demonstrado por qualquer homem, mas os mouros, e mais ainda os negros, pareciam ter ficado súbita e temporariamente insanos! Enquanto a caixa era içada à bordo, todos eles caíram prostrados no convés e entoaram um tipo de canto de adoração, e foi necessário usar a força para tirá-los da cabine onde a múmia estava exposta. Várias brigas começaram entre eles e o elemento grego da tripulação, e o comandante e Von Lorfmon acharam melhor colocá-la, a toda pressa, no porto mais próximo. O comandante atribuiu isso à aversão natural de marinheiros com relação à presença de um cadáver a bordo, mas Von Lorfmon parecia perceber um significado mais profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ancoraram em Lagos e, naquela mesma noite, Von Lorfmon foi assassinado em sua cabine, e a múmia e seu caixão desapareceram. Todos os marinheiros mouros e negros abandonaram o navio na mesma noite. Schuyler disse – e aqui o assunto adquiriu um aspecto mais sinistro e misterioso – que, imediatamente após isto, a vasta agitação entre os nativos começou a arder e adquirir forma tangível; ele a conectou, de alguma forma, com a velha lenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Além disso, uma aura de mistério pairou sobre a morte de Von Lorfmon. Ele havia levado a múmia para a sua cabine e, prevendo um ataque da tripulação fanática, ele cuidadosamente gradeou e trancou a porta e vigias. O comandante, um homem confiável, jurou que era virtualmente impossível entrar lá. E os sinais apontaram para o fato de que as trancas foram manipuladas por dentro. O cientista foi morto por uma adaga que fazia parte de sua coleção, e que lhe foi enfiada no peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como eu já havia dito, imediatamente após, o caldeirão africano começou a ferver. Schuyler disse que, em sua opinião, os nativos consideraram a antiga profecia realizada. A múmia era o homem do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Schuyler opinou que a coisa era trabalho de atlantes, e que o homem no caixão de múmia era um nativo da perdida Atlântida. Como o caixão chegou a flutuar através das braças de água que cobrem a terra esquecida, ele não se aventura a propor uma teoria. Ele está certo de que, em algum lugar dos labirintos dominados por fantasmas das selvas africanas, a múmia havia sido entronizada como um deus e, inspirados pela coisa morta, os guerreiros negros estão se reunindo para um massacre indiscriminado. Ele também acredita que algum muçulmano astuto seja o poder direto que move a ameaça de rebelião”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon parou e olhou para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As múmias parecem compor uma dança bizarra através do desenrolar da história. – ele disse – O cientista alemão tirou várias fotos da múmia com sua câmera, e foi após vê-las... e elas muito estranhamente não foram roubadas junto com a coisa... que o Major Morley começou a se imaginar na beirada de alguma descoberta monstruosa. Seu diário reflete o estado de seu pensamento, e se torna incoerente... sua condição parece ter chegado às raias da loucura. O que ele soube para desequilibrá-lo assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essas fotos... – comecei a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Elas caíram nas mãos de Schuyler, e ele deu uma para Morley. Achei uma entre os manuscritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele a entregou para mim, observando-me atentamente. Olhei fixamente, e logo me ergui vacilante e servi a mim mesmo um copo de vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é um ídolo morto numa cabana vodu – eu disse debilmente –, mas um monstro animado por vida medonha, percorrendo o mundo em busca de vítimas. Morley viu o Mestre... é por isso que o cérebro dele se destruiu. Gordon, tão certo quanto eu espero viver novamente, &lt;em&gt;este rosto é o de Kathulos&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon me encarou sem palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A mão do Mestre, Gordon. – eu ri. Certo prazer sombrio penetrou as brumas de meu horror, ao ver o inglês de nervos de aço sem palavras, sem dúvida pela primeira vez em sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele umedeceu os lábios, e falou numa voz mal-reconhecível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, em nome de Deus, Costigan, nada é estável nem certo, e a humanidade vacila na beira de abismos incalculáveis de horror sem nome. Se aquele monstro morto, achado por Von Lorfmon, for de fato o Escorpião trazido à vida de alguma forma hedionda, o que o esforço dos mortais pode fazer contra ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A múmia, na loja de Kamonos... – comecei a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, o homem cuja carne, endurecida por mil anos de inexistência... deve ser o próprio Kathulos! Ele teve tempo de se despir, se envolver nos tecidos brancos e entrar no caixão, antes que chegássemos. Você se lembra que o caixão, encostado em pé contra a parede, estava parcialmente oculto por um grande ídolo birmanês, o qual cobriu nossa visão, e sem dúvida deu a ele tempo para realizar seu propósito. Meu Deus, Costigan, com qual horror do mundo pré-histórico estamos lidando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já ouvi falar em faquires hindus que conseguiam produzir uma sensação que quase lembrava a morte. – comecei – Não é possível que Kathulos, um oriental sagaz e astuto, pudesse se colocar neste estado, e seus seguidores tenham colocado o caixão no oceano onde era certo ser encontrado? E ele não poderia estar naquela forma esta noite, na loja de Kamonos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon sacudiu sua cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, eu já vi esses faquires. Nenhum deles jamais fingiu estar morto a ponto de ficar enrugado e duro... seco, numa só palavra. Morley, ao narrar em um outro local a descrição do caixão de múmia como anotada por Von Lorfmon e passada para Schuyler, menciona o fato de que grandes porções de algas marinhas se aderirem a ele... algas de um tipo encontrado apenas em grandes profundezas, no fundo do oceano. A madeira também era de um tipo o qual Von Lorfmon falhou em reconhecer ou classificar, apesar do fato de que ele era uma das maiores autoridades vivas em flora. E suas anotações enfatizam, repetidas vezes, a idade enorme da coisa. Ele admitiu que não havia meio de dizer qual a idade da múmia, mas suas insinuações sugeriam que ele acreditava que ela tivesse, não milhares de anos, mas milhões de anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Temos que encarar os fatos. Uma vez que você é categórico de que a foto da múmia é de Kathulos – e há pouco espaço para fraude –, uma das duas coisas é praticamente certa: o Escorpião nunca esteve morto, mas, eras atrás, ele foi colocado no caixão de múmia e teve sua vida preservada de alguma forma; ou então... ele estava morto e foi ressuscitado! Ambas as teorias, vistas à luz fria da razão, são absolutamente insustentáveis. Será que estamos todos loucos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se você tivesse andado na estrada para a terra do haxixe – eu disse sombriamente –, você conseguiria acreditar que qualquer coisa é verdade. Se você tivesse olhado fixamente dentro dos olhos do feiticeiro Kathulos, não duvidaria que ele estivesse ao mesmo tempo morto e vivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gordon olhou para fora da janela, seu delicado rosto desvairado à luz cinza, a qual começava a surgir furtivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De qualquer modo – ele disse –, há dois lugares que eu pretendo explorar minuciosamente, antes do sol se erguer outra vez: a loja de antiguidades de Kamonos e Soho 48.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;18) O Aperto do Escorpião&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Embora desde uma torre orgulhosa na cidade,&lt;br /&gt;A morte olhe gigantescamente para baixo&lt;/em&gt;”.&lt;br /&gt;(Poe)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen roncava na cama, enquanto eu andava pela sala. Mais um dia havia se passado em Londres, e novamente as lâmpadas da rua luziam através da bruma. Suas luzes me afetavam estranhamente. Pareciam bater ondas sólidas de energia contra meu cérebro. Elas torciam a névoa em estranhas formas sinistras. No palco que são as ruas de Londres, quantas cenas pavorosas elas haviam iluminado? Pressionei fortemente minhas mãos contra minhas têmporas latejantes, esforçando-me para trazer meus pensamentos de volta do labirinto caótico onde eles perambulavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não via Gordon desde o amanhecer. Seguindo a pista de “Soho 48”, ele havia partido para preparar um ataque-surpresa no local, e achou melhor que eu permanecesse abrigado. Ele receava um atentado contra minha vida, e novamente temia que, se eu saísse procurando por entre os antros que freqüentei anteriormente, isso despertasse suspeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen continuava roncando. Eu me sentei e comecei a examinar os sapatos turcos que calçavam meus pés. Zuleika usava chinelos turcos – como ela flutuava através de meus devaneios, dourando coisas insípidas com seu encanto! Seu rosto sorria para mim, desde a bruma; seus olhos brilhavam das lâmpadas tremulantes; seus passos ilusórios ressoavam pelas salas nebulosas de meu crânio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Batiam um rufar incessante, seduzindo e assombrando, até parecer que estes ecos encontravam ecos no saguão fora do quarto onde eu me encontrava, de forma suave e furtiva. Uma súbita batida na porta, e eu me sobressaltei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen continuava dormindo, quando atravessei a sala e abri rápida e bruscamente a porta. Um feixe rodopiante de névoa havia invadido o corredor, e através dele, como um véu de prata, eu a vi: Zuleika estava diante de mim, com seu cabelo reluzente, seus lábios vermelhos entreabertos e seus grandes olhos escuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei como um idiota sem fala, ela olhou rapidamente para o saguão, e então entrou e fechou a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gordon! – ela sussurrou numa meia-voz trêmula de emoção – Seu amigo! O Escorpião o capturou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen havia acordado e agora se sentava, estupidamente boquiaberto diante da estranha cena com a qual se deparava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zuleika não deu atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E... oh, Steephen! – ela exclamou, e lágrimas lhe brilharam nos olhos – Tentei tão duramente obter mais elixir, mas não consegui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso não tem importância. – finalmente encontrei minha fala – Conte-me sobre Gordon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele voltou sozinho à loja de Kamonos; Hassim e Ganra Singh o capturaram e levaram à casa do Mestre. Esta noite se reúne uma grande multidão do povo do Escorpião para o sacrifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sacrifício! – uma onda medonha de aversão desceu por minha espinha. Será que não havia limite para os horrores disto? – Rápido, Zuleika, onde fica esta casa do Mestre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Soho, 48. Você deve chamar a polícia e mandar vários homens para cercá-la, mas não deve ir só...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen se ergueu de um pulo, palpitando por ação, mas me dirigi a ele. Meu cérebro agora estava claro, ou parecia estar, e funcionando de forma rápida e não-natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espere! – dirigi-me novamente a Zuleika – Quando este sacrifício vai acontecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ao erguer da lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Apenas algumas horas antes da aurora. Tempo suficiente para salvá-lo, mas se atacarmos a casa, eles o matarão antes que possamos alcançá-los. E só Deus sabe quantas coisas diabólicas cada caminho de acesso guarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Realmente não sei. – Zuleika choramingou – Tenho que ir agora, senão o Mestre me mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma coisa cedeu em meu cérebro diante daquilo; algo como uma inundação de selvagem e terrível exultação caiu sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Mestre não matará ninguém! – gritei, lançando meus braços para o alto – Antes mesmo que o leste se avermelhe com a aurora, o Mestre morrerá! Por todas as coisas sagradas e profanas, eu juro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hansen me encarava desvairadamente, e Zuleika recuou quando me virei para ela. Ao meu cérebro inspirado pela droga, veio uma súbita explosão de luz, verdadeira e infalível. Eu sabia que Kathulos era um hipnotizador – portanto, ele conhecia totalmente o segredo de dominar a mente e alma do outro. E percebi que eu finalmente havia descoberto a razão de seu poder sobre a jovem. Mesmerismo! Assim como uma cobra fascina e atrai um pássaro até ela, assim o Mestre dominava Zuleika com grilhões invisíveis. Seu poder sobre ela era tão absoluto, que ele a dominava mesmo quando ela estava fora de sua visão, trabalhando a grandes distâncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só havia uma única coisa que poderia quebrar esse domínio: o poder magnético de alguma outra pessoa, cujo controle fosse mais forte nela que o de Kathulos. Coloquei minhas mãos sobre seus ombros esguios e pequenos, e fiz com que ela me encarasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika – eu disse, de forma imponente –, aqui você está segura; você não retornará para Kathulos. Não há necessidade disso. Agora você está livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas percebi que eu havia falhado, antes mesmo de começar. Seus olhos tinham uma expressão de medo pasmado e irracional, e ela se torcia timidamente em minhas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Steephen, por favor, deixe-me ir! – ela implorou – Eu preciso... eu devo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a puxei para perto da cama e pedi a Hansen por suas algemas. Ele as deu para mim, interrogativo, e prendi um elo à coluna da cama, e o outro ao pulso esguio dela. A garota choramingou, mas não ofereceu resistência, seus olhos límpidos procurando os meus em apelo mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partia meu coração impor minha vontade sobre ela desta forma aparentemente brutal, mas eu me endureci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Zuleika – eu disse com ternura –, você agora é minha prisioneira. O Escorpião não pode lhe condenar por não voltar para ele, quando você é incapaz de fazê-lo... e, antes do amanhecer, você estará completamente livre do domínio dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me voltei para Hansen, e falei num tom que não admitia contra-argumentação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique aqui, do lado de fora da porta, até eu retornar. Não permita a entrada de estranhos sob hipótese alguma... ou seja, a de qualquer um que você não conheça pessoalmente. E eu lhe encarrego, por sua honra de homem, a não libertar a garota, não importa o que ela diga. Se nem eu nem Gordon retornarmos amanhã às dez, leve-a para este endereço... essa família já foi amiga da minha, e cuidará de uma jovem sem lar. Estou indo para a Scotland Yard.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Steephen – Zuleika chorou –, você está indo para o covil do Mestre! Você será morto! Mande a polícia, não vá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me curvei, puxei-a para dentro de meus braços, senti seus lábios contra os meus, e então me afastei bruscamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A névoa me puxava com dedos fantasmagóricos, fria como as mãos de homens mortos, enquanto eu corria rua abaixo. Eu não tinha planos, mas um estava se formando em minha mente, começando a fervilhar no caldeirão estimulado que era meu cérebro. Parei ao ver um policial fazendo sua ronda e, acenando para ele, rabisquei um bilhete conciso, arrancado de um caderno de notas, e entreguei a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Leve isto para a Scotland Yard; é um assunto de vida ou morte, e tem a ver com os negócios de John Gordon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante daquele nome, uma mão enluvada se ergueu em consentimento, mas sua garantia de pressa desapareceu atrás de mim enquanto eu voltava à minha corrida. O bilhete relatava brevemente que Gordon era um prisioneiro em Soho 48, e recomendava uma imediata batida policial em grande número – recomendava, não; em nome de Gordon, ordenava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motivo para minhas ações era simples: eu sabia que o primeiro barulho da incursão selaria o destino de Gordon. De alguma forma, eu primeiramente devia alcançá-lo e o proteger ou libertar, antes que a polícia chegasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo parecia sem fim, mas finalmente os contornos sombrios da casa que era Soho 48 se ergueram diante de mim – um fantasma gigante na bruma. Era bastante tarde; poucas pessoas se aventuravam nas névoas e umidade, quando parei na rua, diante desta construção proibida. Nenhuma luz aparecia das janelas, tanto no andar de cima quanto no de baixo. Parecia abandonada. Mas o covil do escorpião freqüentemente parece abandonado, até a morte silenciosa atacar subitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei aqui, e um pensamento feroz me ocorreu. De uma forma ou de outra, o drama acabaria antes do amanhecer. Esta noite era o clímax de minha carreira, o topo supremo da vida. Esta noite, eu era o elo mais forte da estranha corrente de eventos
